Pentecostes – Ano B (24.maio.2015)
Domingo Litúrgico
Atos 2,1-21 – Vossos filhos e filhas profetizarão \ Salmo 104,24-34 e 35b – O Espírito transforma a  terra \ Romanos 8,22-27 – Temos as primícias do Espírito, mas gememos ainda…

espírito com jesus 1

Na mercantilização quase generalizada dos modos de vida, concretizando-se o liberalismo globalizado, especialmente nos seus efeitos sobre 7 bilhões de habitantes do planeta. Longe de decretar-se o fim das desigualdades, assiste-se à exploração da razão instrumental como finalidade última das sociedades modernas. Um desvio avassalador que nega a partilha, a solidariedade e a salvação, numa individualização galopante das riquezas disponíveis, enquanto se excluem 1/3 de homens, mulheres e crianças, dos povos da Terra.
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Acreditava-se que a Igreja conservaria forte ascendência sobre as consciências dos cristãos, até recentemente. O secularismo demonstrou o contrário, impôs-se à Igreja. Os fieis querem diversão e emoção. E alguma cura miraculosa para a incompletude permanente. Nesse setor, as pessoas desejam ser felizes não amanhã, mas hoje, agora, e talvez desde ontem. Para estas, algumas vezes, a saída da religião pela materialidade da vida exige-se, para satisfazê-las, uma religião e um “deus ex machina” disponíveis para atender seus desejos. A secularização obriga a manter-se um cardápio “a la carte” para tornar suportável a vida no mundo moderno e as opressões própriaS destes dias. Poucas atividades são tão transparentes nas injustiças e desigualdades, quanto ao escapismo secularista que toma igrejas e crentes.
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Imaginava-se que os partidos revolucionários, com ou sem democracia, prometiam outra sociedade, outro mundo liberto da ganância econômica e das lutas de classes. O ideal de nação política legitimava o sacrifício supremo dos homens e das mulheres empenhados na batalha ideológica para mudar o mundo. Tudo isso ruiu na casa do homem neste mundo. Cada domínio aponta profundas transformações. O que é o mundo socialista? Quem escapa do capitalismo globalizado?  A televisão e seus espetáculos encenam o absurdo de um mundo irreal. Sob a pretensão de duvidosa transparência total, o mundo tem seus espaços virtuais ocupados por milhões de sites, bilhões de textos irresponsáveis, trilhões de caracteres, que dobram sem cessar; o turismo, o futebol e os festivais musicais lotam arenas esportivas, enquanto multidões comportam-se como que em férias permanentes, fugindo das tarefas solidárias, acrescentam ao que acontece com todos nós.
 
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Aglomerações urbanas, nas megalópoles, explodem, enquanto superpovoadas, asfixiadas, lançando tentáculos no campo ao redor, acentuando as sempre presentes dificuldades com ruas e rodovias congestionadas (Gilles Lipovetsky). Não importa se estamos em Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou S.Paulo.  Lutando contra o terrorismo e a criminalidade organizada, instalam-se milhões de câmeras, meios eletrônicos de vigilância e identificação dos cidadãos, mas o que se vê é a polícia do Estado executando inocentes como símbolo de sua presença pretensamente eficiente. A escalada paroxística do luxo e do conforto pessoal como direito a uma cidadania seleta, ou diferenciada, “sempre exigindo mais privilégios”, se imiscui em todas as esferas do conjunto coletivo. Comportamentos inaceitáveis são também flagrados na busca de acesso social, na engrenagem do extremo.
 
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Verdadeiras cidades para o consumo do luxo, shopping centers oferecem uma pletora de produtos, marcas e griffes sob marketing milionário, numa vertente de excrescências. Parte do mundo religioso imagina que igrejas comunitárias os imitem, como balcão de mercadorias e negócios. Outra parte entrega-se à imobilidade, esperando o “impeachment de deus”, para que impere o mercado,  enquanto propõe panelaços para depor chefes de Estado que consideram culpados, quando representam o desespero da perda de privilégios de classe diferenciada. Os referenciais sobre a morte da partilha e solidariedade se dissolvem. Porém, já faz tempo que a sociedade moderna, da qual a igreja faz parte, exibe o excesso, a profusão de “mercadorias” disponíveis a grupos seletos, sob discriminação inegável das massas empobrecidas. Estas convivem com a fome, com a falta de moradia, de escolas e de hospitais.
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Bulimias e anorexias de celebridades influenciando anônimos e obscuros, obesidade e desperdício de alimentos (uselo y tirelo, dizia o já saudoso Eduardo Galeano), compulsões e vícios, comparecem aos consultórios médicos com frequência jamais vista, apresentando patologias individuais expressas no consumo obrigatório ou compulsivo. A anarquia comportamental, como resultado da escalada da vida sem sentido solidário, é exposta em avenidas transformadas em palco das classes abastadas. Enquanto o corpo é mostrado até nas manifestações políticas, no hiper-realismo estético, banalizado no culto da materialidade, consagrando a razão instrumental que causaria horror a Kant, autor do conceito.
 
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Na Festa de Pentecostes descrita no segundo capítulo de Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo transformou um grupo nada homogêneo de pessoas – muitas delas provenientes de terras distantes (At 2,5-11) –, escreviam os presidentes do CMI, anos atrás. Ao tomar consciência da necessidade de melhorar a qualidade de nossas relações, todo um conjunto de contrapesos, contramodelos e contravalores, conspira na degradação da comunhão humana, visando a partilha dos bens mais importantes da igreja (comunhão, eucaristia, diaconia social, cuidado com o próximo) e das sociedade modernas. Bens que se refletem na produção de alimentos, na moradia digna, na escola de qualidade, na saúde assistida, para melhores níveis. Dois terços da população terrestre experimentam os efeitos desse conjunto desprezado, onde estão os oprimidos do Planeta.
 
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A experiência dos primeiros cristãos se manifestou em um entusiasmo compartilhado e no sentimento de nova identidade e de pertencerem–se uns aos outros e a Cristo no poder do Espírito. E expressaram isto de diversas maneiras, de acordo com suas próprias culturas e contextos. Foi também no cenário dessa experiência do Pentecostes que a palavra “koinonia” (que quer dizer comunhão, participação em comum, “solidariedade”), aparece no livro de Atos dos Apóstolos (2,42). Lemos também: “E perseveraram na doutrina dos apóstolos, em comunhão – ” koinonia”, e também na “eucaristia”, lembrando José Comblin – uns com os outros, no partir do pão e nas orações solidárias”. Assim, os primeiros cristãos compartilharam uma comunhão em fé e vida.
 
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No Pentecostes, esta é a nova vida de comunhão que também chega a nós com um vento transformador, mudando nossa linguagem, a forma de nos comunicarmos e relacionarmos  entre nós e com o mundo. A promessa e o desafio de Atos 1,8 permanecem vigentes para nós: “Recebereis uma força (dynamis), a força do Espírito Santo que virá sobre vós; e sereis testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia, em Samaria e até as extremidades da terra” (cf.TEB).
 
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Pentecostes sugere um quadro das forças propulsoras do movimento cristão  pela justiça e solidariedade, como pretende ser o movimento ecumênico: o Espírito e a Palavra. Este poder chega aos crentes como um presente do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Atos 2,33). A vinda do Espírito Santo cria a comunidade dos fiéis, e ao mesmo tempo os capacita para comunicar a mensagem solidária de salvação. A sociedade e a Igreja modernas necessitam do Pentecostes. A chegada do Espírito Santo sinaliza com clareza o caráter inclusivo da Graça de Deus. O Espírito Santo, que falara pelos Profetas, já havia anunciado previamente: “Seus filhos e filhas profetizarão; seus anciãos sonharão sonhos” (Joel 2,28; 3,1/ cf. BJ). Regozijemo-nos, porque a presença do Espírito Santo é uma dádiva para toda a Igreja em Pentecostes, e respondamos juntos para juntos sermos testemunhas de Cristo até os últimos rincões da terra, concluiriam os pastores do CMI.
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Derval Dasilio
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