DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”
1Samuel 3,1-10 (11-20) – Davi alimenta comandados no sábado
Salmo 139,1-6 (13-18) – Teus olhos me viram antes de tudo…
2Corintios 4,5-12 – Por que não pregamos a nós mesmos?
Marcos 2,23-28 – O sábado foi feito para servir, e não para “ser servido”

sábado

É sábado, a vida continua. Os que estão saciados não percebem, mas os que têm fome continuam famintos; os sem saúde, sem assistência; os sem moradia dormindo nas calçadas; os desempregados sem trabalho. O sábado era uma das observâncias mais importantes no tempo de Jesus, talvez, uma nitidez que se exigia para distinguir o judeu do pagão – alguma coisa impossível de avaliar-se hoje, quanto ao sábado ou o domingo cristão. A autenticidade aparente, sem dúvida, era mais exigida que a convicção religiosa interna. Aí, viver como o pagão significaria algo importante.

Por exemplo: o uso pagão da economia; as relações de trabalho explorando compatriotas; o oportunismo político dos dirigentes na política de influência; a crucificação de insurgentes ao regime imperial; na equidistância quanto aos compromissos e responsabilidades para com o povo oprimido, coletivamente, nas filas, nas vilas, favelas. “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas. Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas…” (Sampa: Caetano Veloso).

Há urgências, a sociedade não é receptiva, porém. Pessoas portadoras de deficiências, sem autonomia física ficam ainda mais fragilizadas. Quem cuidará delas? A Lei as condenaria ao conformismo, como resultado de pecados pessoais ou ancestrais, de acordo com o senso comum indicaria para a deficiência física, ou ou o que padece sob a fome. Jesus manda: “entra na roda, fique no meio”! E o esquadrão vigiava, perguntando: “será que ele ousará”? Na sinagoga, lugar da assembléia dos religiosos, o fato chama a atenção. E Jesus, entendendo o espírito coletivo repressivo, pergunta: “O que a Lei permite fazer no sábado: fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou dar-lhe fim”? Ira e tristeza são a resposta, a neutralidade diz tudo. Quem colhe espigas para fazer pão, no sábado, deve sujeitar-se à Lei, e passar fome. Jesus discorda…

Não há decisão, fica-se em cima do muro. A liberdade é um salto da morte para a vida. A neutralidade e a equidistância, porém, escondem o julgamento de morte. Jesus recorre às Escrituras, como sempre, e cita 1Sm 21,2-7: Se Davi e seus companheiros puderam comer os pães sagrados reservado aos sacerdotes, por estarem famintos, no sábado, assim também seus discípulos teriam o mesmo direito. O fato histórico é reacendido, porque a citação bíblica recorda a falência progressiva do sistema social vigente, politicamente comprometido com o estado romano, consumido pela religião formalista que oculta o compromisso social, ocultando as misérias do povo economicamente dominado e oprimido. Samuel é um dos inauguradores do profetismo político-social em torno de Yahweh, Deus de Israel no AT.

Ao contrário, a violação do “sabbah” era motivo até para a pena de morte (“Saíram pensando em matar Jesus…”, cf. Mc 3.6). Os regulamentos, cerca de 630, Lei defendida pelos escribas e fariseus, exigiam que certas atividades não poderiam ser exercidas durante o sábado. Mais exatamente: trinta e nove (39) artigos regiam “o que não deveria ser feito durante o sábado”, inclusive preparar alimentos para comer, no judaísmo contemporâneo do evangelista Marcos. Esfregar espigas para comer, mesmo que depois do “horário regulamentar”, era considerada uma infração. O sábado adquiriu seu real significado na época tardia, durante o helenismo (300 a.C.). No judaísmo pós-bíblico tornou-se preceito indispensável.

Há uma “lei” que está acima da Lei, justificando a desobediência civil. No segundo caso, Marcos aponta o esquadrão fariseu politicamente correto, incentivador dos esquadrões da morte e da tortura; de batalhões robocops contra educadores e professores em greve. Lá estão eles se colocando em ação contra a vida, ameaçando a Jesus, que defende o pobre e necessitado. O homem tolhido pela fome e pela doença necessita de alimento e cura. Precisa ser útil, trabalhar, produzir seu sustento e o dos possíveis dependentes. Especialmente do ponto de vista coletivo, alimentação e cura são transformações importantes para a manutenção da vida de todos. Luiz Gonzaga, Rei do Baião, grande intérprete da cultura popular brasileira, diria: “A esmola, quando não mata de vergonha, vicia o cidadão…”

A doença e a pobreza, sinais da vida miserável, são momentos ou situações  que talvez deixem mais clara a fragilidade humana. Além do risco de morte, surge uma pergunta inquietante: que valor tem o necessitado, agora que não está mais produzindo para a comunidade? A resposta cristã nos diz que mesmo a dor da carência extrema, e a própria morte na miséria, podem ser ocasião de solidariedade e autêntico amor. Isto é, podem nos tornar “mais cristãos”, na medida em que nos sintonizam com “as coisas que não passam”, e ameaçam existir para sempre, quando esquecidas as responsabilidades da sociedade inteira para com os mais frágeis.

Quando grande parte da sociedade seletiva, egoísta, autoritária, clama contra programas sociais, combate à fome e à miséria; quando se manifesta contra programas habitacionais populares;quando desdenha da bolsa-família, do SUS, da educação universitária para estudantes pobres; quando aprova a polícia truculenta que atira gás de pimenta e espanca professores grevistas; quando comemora o recesso econômico como sinal do “mal emprego” dos recursos públicos em programas sociais, entendemos a sociedade repressiva contemporânea de Jesus e seus discípulos. Poucas são as diferenças.

Finalmente, a experiência humana do amor e da solidariedade tem sua expressão em duas possibilidades de testemunho radical no mundo. Experiências que serviram de base para o cristianismo sinalizar o sonho do reinado de Deus para o ser humano: de um lado, a memória das ações libertadoras de Jesus (Mc 4,6-40); de outro, aquelas situações mais críticas pelas quais todos passamos, e que põem em jogo nossa felicidade (Afonso Soares). Num momento cercado de tanta apreensão, ataques à esperança, e fragilidade na sustentação da mesma, é muito bom sentir a acolhida amorosa, segura e feliz da comunidade dos que “sonham os mesmos sonhos de Jesus”: “O que a Lei permite fazer no sábado religioso: fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou dar-lhe fim”?

“O sábado foi feito para servir o homem; o homem não foi feito para servir o sábado”. Um precedente inquestionável, aparentemente. O arremate do Cristo de Deus, porém, é escandaloso aos formalistas: O sábado é a Lei dada aos homens para sinalizar obrigações mútuas. Eis a grande novidade. O fato seguinte exemplificará o conceito evangélico sobre a finalidade do “sabbah” no Reino de Deus: o sábado só faz sentido se for uma prescrição que sustenta a vida e protege os mais fracos. Jesus afirma que nada pode impedir que os “famintos” se alimentem, sejam quais forem os meios que se devam utilizar para tanto.

Derval Dasilio

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