A Fonte da Vida1

Marcos 4,35-41 – Muitos se enganam quando insistem que as comunidades nascentes no período neotestamentário viveram sem conflitos semelhantes, com identidades únicas definidas com rigor doutrinal, do ponto de vista da eclesiologia que organiza os ministérios, a missão e os sacramentos da igreja. Idealização absurda. Os conflitos vão crescendo, as dificuldades se impõem. Atos dos Apóstolos, mesmo minimizando-os, mantém seu objetivo conciliatório. Uma visão sociológica ajudaria a por algumas questões no lugar. Por exemplo: a situação de judeus ou não-judeus, que conservariam uma tradição que remonta à Torah, também habituada ao Thalmud e ao Mishnah; a posição dos prosélitos, conhecedores do Deus de Israel mas gentílicos, na questão da ceia eucarística. Comer na mesma “mesa”, comunhão de judeus e gentílicos nos alimentos da “ceia do Senhor”, hospitalidade eucarística sem restrições, era um grande problema. Contradições quanto aos costumes e tradições tornam esse problema bastante relevante.

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Outro problema era o desafio representado pelos judeus rejeitados, considerando-se o grande número de comunidades que se reuniam nas sinagogas espalhadas no mundo mediterrânico, desde a África, passando pelo Oriente Médio, Ásia Menor, Europa Oriental e Ocidental. Conflitos culturais estavam em toda parte: era possível continuar sendo “judeu” e cristão ao mesmo tempo, se o povo gentílico assumia a condição de membresia maior no todo da igreja? O terceiro problema compreendia a situação específica de gregos e romanos pertencentes às elites da sociedade imperial. Bem-postos politicamente, exercendo funções no controle da economia e da política imperial, experimentariam o dilema da fidelidade: é possível ser fiel ao imperador e ser ao mesmo tempo fiel a Jesus Cristo? Decifra-me ou devoro-te, diria a esfinge…

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A questão dos pobres, da justiça, das desigualdades na igreja, estava em relevo, e no século seguinte passaria para o segundo plano, para ser “amortecida” por quase vinte séculos. Com raras exceções, como enfatizava Francisco de Assis (séc.13), e bem mais tarde John Wesley (séc.18), essa questão desinteressava a comunidade cristã, enquanto tomavam forma movimentos de espiritualização e ascetismo, de iconoclastia e “purificação” de símbolos eclesiásticos, entre outros. Não se passa incólume sobre esta questão, pois os pobres e oprimidos, como tais, são tema permanente do “Reino de Deus e sua justiça”, re-inaugurado profeticamente por Jesus Cristo, pregando numa sinagoga da Galiléia (Lc 4,16ss), alcançando ao mesmo tempo os temas do Jubileu Bíblico desde o movimento profético dentro da religião de Israel (cf. J.Comblin, Atos dos Apóstolos, V.I, Vozes/Sinodal).

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No entanto, o texto de Marcos vai lembrando as dificuldades do evangelho do Reino de Deus ainda nos tempos apostólicos. Elas fazem parte do devir da história, as comunidades enfrentam perigos e muitas ameaças internas e externas. São como um barco pequeno e frágil navegando em águas turbulentas, sempre pressionadas por sentimentos de desespero e desencanto. Nesse momento Jesus questiona a falta de fé dos discípulos, enquanto reclama a falta de coragem que invade o grupo. É isso que nos chama a atenção na liturgia deste domingo. O relato da “tempestade acalmada” é instigante. Fala com exatidão dos problemas da Igreja Primitiva, ou do movimento de Jesus, com as situações conflituosas, culturais, nas comunidades que se desenvolviam no ambiente mediterrânico, sob o poder político imperial romano.

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Serve-nos, hoje, nas situações que enfrentam os movimentos ecumênicos transculturais, vencendo a duras penas individualismos e exclusivismos, no mundo globalizado. Não são poucas as igrejas nacionais e denominacionais, no mundo inteiro, envolvidas com o ecumenismo da Igreja de Cristo. Sua mensagem também está no símbolo que ecumenismo institucional adotou, um frágil barco à deriva num mar perigoso, enfrentando as hostilidades naturais à sua pregação: o Reino de Deus não se confunde com igreja alguma; a justiça do Reino não equivale ao legalismo religioso, biblicista, à “justiça” eclesiástica, e muito menos à justiça dos homens; o Jubileu profético denuncia as situações de opressão que experimentam os homens e as mulheres debaixo dos poderes deste mundo; a fé na unidade é uma exigência que convoca as comunidades de fé e os indivíduos para serem um em Cristo, nas próprias palavras do Senhor da Igreja, dirigindo-se ao Pai: “que sejam um, como eu e tu somos um”.

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Os perseguidores estão também no meio da comunidade de fé. Apontam o fracasso, aguçam o desespero dos fracos, instilam a covardia e o temor ao naufrágio, analisam o futuro de modo pessimista. Usam até a agressão nos questionamentos sobre missão e prioridades estabelecidas, o evangelismo metodológico acima da evangelização como anúncio da notícia nova da chegada do Reino de Deus. É verdade que muitos naufragam, ou escolhem outra rota. Preferem outro destino, salvacionista, avivalista, propositista, mercantilista. Eclesiologias fundamentalistas importadas, novas expressões pentecostalistas. O imediatismo seduz e as facilidades do dólar e da mídia ajudam. Mas aos de lá, até contrabandeadas dentro de “bíblias” insuspeitas.

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É quando se torna necessário recordar Jesus. Não o que exigiria arroubos emocionais sobre sua pessoa, carne tremida, lágrimas nos olhos, comoção sobre a cruz ou sobre a salvação espiritual, sem libertação do corpo e do ser inteiro. Cristo não é um produto de mercado, e não é um nome que possa ser utilizado impunemente na venda de amuletos, produtos simbólicos, religiosos, “curativos”, com fins salvacionistas. Jesus, nos Evangelhos, não abandona o barco, dá a certeza de sua presença como timoneiro da fé. Jesus é capaz de vencer a tempestade, enquanto fortalece as certezas quanto à sua permanência junto aos discípulos e seguidores, diz-nos o evangelista Marcos, transmissor da fé apostólica no Cristo de Deus.

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Oração: “Deus, em tua graça transforma o mundo. Damos graças por Tuas bênçãos e sinais de esperança que já estão presentes no mundo, entre pessoas de todas as idades e nas que antes de nós andaram na fé; nos movimentos de superação da violência em todas as suas formas, não apenas por uma década, mas para sempre; nos diálogos profundos e abertos que começaram tanto em nossas próprias igrejas e com gente de outra fé, na busca por compreensão e respeito mútuos: em todas as pessoas que trabalham juntas por justiça e paz – tanto em circunstâncias excepcionais quanto no dia a dia. Agradecemos-Te pela Boa Nova de Jesus Cristo e pela certeza da ressurreição. Amém” (Assembléia do CMI, em Porto Alegre-RG).

11o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B” 1Samuel 17,32-49 – Quanto maior, maior a queda… Salmo 133 – Quão agradável é a unidade dos irmãos 2Coríntios 6,1-13 – Rogo-vos, valorizem a graça de Deus Marcos 4,35-41 – As comunidades enfrentam perigos…

SERVIÇO BÍBLICO LATINO-AMERICANO

Jó 38,1.8-11: Aqui se romperá a arrogância de tuas ondas
Salmo 106: Dai graças ao Senhor, porque eterna é a sua misericórdia
2Coríntios 5,14-17: O que é velho passou, o novo chegou

Marcos 4,35-40: Quem é este a quem até os ventos e as águas obedecem.

 
35 À tarde daquele dia, disse-lhes: Passemos para o outro lado. 36 Deixando o povo, levaram-no consigo na barca, assim como ele estava. Outras embarcações o escoltavam. 37 Nisto surgiu uma grande tormenta e lançava as ondas dentro da barca, de modo que ela já se enchia de água. 38 Jesus achava-se na popa, dormindo sobre um travesseiro. Eles acordaram-no e disseram-lhe: Mestre, não te importa que pereçamos? 39 E ele, despertando, repreendeu o vento e disse ao mar: Silêncio! Cala-te! E cessou o vento e seguiu-se grande bonança. 40 Ele disse-lhes: Como sois medrosos! Ainda não tendes fé?
 
COMENTÁRIO
 
Na primeira leitura vemos como o Senhor responde a Jo a partir de um torvelinho, uma forma muito comum no Antigo Testamento para as aparições de Deus. Mostra o que o Senhor é capaz de fazer pelo ser humano, até frear o mar para que não irrompa contra ele. As comunidades cristãs crescem em meio às dificuldades e conflitos. Sentem o assédio de muitas ameaças internas e externas. São como uma pequena embarcação navegando em alto mar, em águas turbulentas. Aparece o desespero e o desalento. Jó é o símbolo da paciência e da resistência. Sente-se assediado por todas as partes. Deus o interpela fazendo-o cair na conta de que ele é o Senhor da história. As dificuldades da vida não poderão derrotar a quem coloca toda sua confiança em Deus.
Na carta aos Coríntios vemos a nova humanidade que, através da morte de Cristo, recobra a vida plena. Cristo morreu por todos para que todos tenhamos vida por meio dele. O amor de Cristo foi tão grande que nos resgatou da morte e da escravidão do pecado, e nos fez partícipes da vida nova. O antigo foi superado pela morte e ressurreição do Senhor.
No evangelho, o chamado relato da tempestade apresenta as dificuldades pelas quais atravessava a Igreja primitiva no contexto do império romano. O mar é símbolo do perigo, é uma ameaça para os que vivem próximo dele, porque sabem que por aí vem os perseguidores. A comunidade é essa pequena embarcação que navega à deriva. A fé de muitos naufraga ante as ameaças e as pressões do medo. Jesus navega com os discípulos. É capaz de derrotar a tempestade.
A certeza da presença de Jesus fortalece a frágil fé da comunidade e temos a firme esperança de participar em sua ressurreição. Somente a certeza de que Jesus caminha conosco pode nos ajudar a vencer os medos e as incertezas e a “remar mar adentro” para águas mais profundas.
Temas clássicos relacionados com este tipo de milagres de Jesus, centrados na ação sobre a natureza, que talvez já tenham perdido seu poder de atração, são os da possibilidade mesma de milagre, as relações entre Deus e a natureza e o tema da oração de intercessão, quando o pedido se centra em uma ação sobre a natureza.
Oração: Deus, nosso Pai, que em Jesus de Nazaré, nosso irmão, fizeste renascer nossa esperança de um novo céu e uma nova terra: nós te pedimos que nos tornes apaixonados seguidores de sua causa, de modo que saibamos transmitir a nossos irmãos, com a palavra e com ações, as razões da esperança que nos sustenta. Por Jesus Cristo nosso Senhor.
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