Tempo Comum depois de Pentecostes
13º. Domingo – Ano “B” ||| 2Samuel 1,17-27 –  Não se separaram, na vida e na morte ||| Salmo 130 – Anseio pela Palavra que salva… ||| 2Coríntios 6,1-13 –  Não recebam a Graça em vão! |||  Marcos 5,21-43 –  “Não tenha medo, a tua fé é bastante…\\\JE
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Cópia de mulher chorando - picasso
O trabalho da teologia profética reage à tendência legalista devolvendo à fé bíblica a discussão dos grandes temas referentes à justiça de Deus; dos temas, ênfase do êxodo (saída da escravidão econômico-social, cultural, imposta pela política dos poderosos da terra), escritos proféticos que abordam o Jubileu e a libertação das opressões políticas; o shalom que se traduz em bem-estar social, político e econômico, segundo as propostas do Deus de Israel para o seu povo.
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Os evangelhos, no Segundo Testamento, virão a enfatizar o reinado de Deus que recusa e contraria a concepção religiosa que o projeto humano quer construir: uma religião cujo esplendor se refletiria no culto e adoração abstratos, e não no cuidado com os oprimidos e abandonados na sociedade de referência. Jesus dirá: “Eu sou a ressurreição e a vida”.
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Não seria mero acaso que a saúde tenha alguma relação com o evangelho bíblico, independentemente do conteúdo intelectual desta, em praticamente todas as culturas. O escândalo da doença gera o requerimento de uma teologia  libertadora, dando-se ênfase à responsabilidade moral do ser humano. No campo dos conceitos quanto à saúde, igrejas cristãs ocupam lugar de dependência, quando desprezam o sofrimento da pessoa doente. Obras oportunas para a saúde se diluem nas obrigações comunitárias, começando pela falta de atenção à pessoa deficiente ou ao idoso, por exemplo.
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Mencionamos a devida vacinação, combatendo endemias como a dengue, a conveniente alimentação, a higiene de vida e habitação, o check-up cardiológico, o combate ao câncer, a abstenção do fumo, das drogas ilícitas, do excesso alcoólico ou de açúcar, o cuidado com esquizofrênicos e bipolares, o incentivo à prática de esporte, marcha e corrida leve, pertencem somente às recomendações da saúde pública. A saúde supõe, portanto, um comportamento que aponta a indignação cidadã se não são observados direitos fundamentais da população. Igrejas poderiam ser locais de denúncia, de reclamações para com o poder público, além de oferecerem seus espaços insurgentes para pressionar a atuação de outros que atuam diretamente em planejamento social e políticas públicas. A salvação, portanto, é parte das reivindicações proféticas do evangelho.
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Jairo vem da sinagoga, é chefe de uma assembléia, ou “ekklesia”, ou “synagogue”, palestiniana, em Cafarnaum (Marcos 5,21-43). Esta instituição é a mais importante, depois do Templo, no judaísmo. Jairo não encontrou a salvação nela. A instituição não conduz à vida, nem oferece um caminho existencial de libertação, está imbicada para a morte irremediável na religião propositista de resultados mercadológicos. Ou estatísticos. A perícope anterior já cuidara de outro personagem simbólico da alienação religiosa:  “o homem que habitava no meio dos túmulos, e ninguém podia controlá-lo” (Mc 5,3-4), cujo nome era Legião, um homem tomado por poderes de demônios mais que escravizadores. Legião carrega em seu corpo as reivindicações pertinentes à saúde e à doença. Além das políticas públicas para alimentação e cuidados gerais para economia  de transferência de renda para os pobres.
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Jairo é um chefe na sinagoga de Cafarnaum, sua ekklesia era dirigida por ele, encarregado da manutenção da casa religiosa; que seria, também, responsável pelo culto e a liturgia; pela distribuição de funções, e provavelmente era também vinculado aos fariseus e doutores da Lei ou da Torah. Aqueles que planejam a morte de Jesus, o “desobediente”; o “politicamente incorreto”, o “reivindicador de direitos humanos” (“bem-aventurados os que são perseguidos por causa da busca da justiça”…), quanto às leis e preceitos da religião dominante. Jesus tinha seus dias contados…
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Não há salvação no culto, na obediência irrestrita da Lei sob qualquer de suas dispensações (ou como o fundamentalismo religioso exige). Temeroso por vários motivos, inclusive pela perda de privilégios que o importante cargo de chefe religioso lhe conferia, quando se aproxima de Jesus, um suposto herege ou apóstata, cai a seus pés para pedir-lhe: “Minha filha está morrendo. Vem, põe a mão sobre ela, para que sare e viva”. E obtém a resposta: “Não temas, a tua fé te basta” (Mc 5 – v.36), diz-lhe Jesus. Marcos, o evangelista, acrescenta uma pitada de zombaria dos incrédulos circunstantes, da mesma comunidade religiosa, que se dirigiram a Jairo: “Sua filha morreu, pare de incomodar…”
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Jesus não perde a oportunidade de restituir a saúde, a dignidade, a vida, quando o julgamento fatalista de sociedade não quer mudanças nem atenção para com os pobre e oprimidos, enquanto cultiva a hipocrisia de uma auto santificação improdutiva. Os que preferem a letra morta da Lei, os preceitos e os regulamentos mortificadores que impedem as transformações necessárias, a morte à vida, prosseguem no seu caminho, entregues à fatalidade. Não lhes importa a salvação. 
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No total, lembramos que os cidadãos afortunados, bem-postos, dispõem geralmente de maior longevidade e vitalidade que os trabalhadores braçais ou os desempregados, porque podem cuidar de sua saúde despendendo recursos financeiros mais elevados na medicina privada e hospitais particulares, além dos caros planos de saúde. No entanto, cada categoria enfrenta perigos específicos para sua saúde (Hubert Lepargneur). A sociedade é, portanto, condicionada não apenas pela herança e detenção das riquezas, mas também pelos meios e condições de sustento, distantes das causas da fome endêmica.  Há particularidades, portanto, tanto para os cidadãos de grandes metrópoles que habitam nos metros quadrados mais caros, quanto para os camponeses e moradores da periferia afastados de instituições sanitárias.
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Voltadas para as necessidades que precisam ser atendidas, de alimentos, habitação, urbanização humanizada, medicina de ponta socializada para os mais baixos níveis de consumidores, não há o desvio de finalidade, ao prover-se os mais abastados da medicina qualificada e hospitais que utilizam medicina de ponta? E quando o atendimento à saúde só se justifica por oferecer lucro e capital, e privilégios para poucos, usuários da caríssima saúde privada? O assunto é vasto, uma vez que o mundo não pode retroceder à era pré-tecnológica, como já nos lembrava Jacques Ellul (A Técnica e o Desafio do Século). Sem dúvida estamos diante da necessidade de novos modelos de desenvolvimento na saúde, e de novos sistemas econômicos sob o protagonismo da saúde, enquanto se buscam sustentabilidade e estabilidade social, face à extrema rapidez dos insumos tecnológicos.
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O texto de Marcos nos traz a necessidade de atenção para com as pessoas deficientes, debilitadas, doentes, enquanto nos chama à responsabilidade para indignar-nos ou denunciarmos os poderes responsáveis pelas transformações e não o fazem. É um alerta para uma palavra profética onde a pessoa não tem respeitada a sua dignidade humana. Preconceitos religiosos ou sociais se equivalem, dessa maneira, sobretudo no ambiente cultural que se inclina a marginalizar, ou a não dar importância maior às questões essenciais: vida contra a morte.
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Numa sociedade competitiva, consumista, como a nossa, onde até a saúde é comprada a peso de ouro, não há justiça, quando quem não pode pagar é excluído dos benefícios aplicados à saúde. Isso é o que o evangelista parece propor no texto de hoje: indignação contra desigualdades, ou contra quem pode mas não promove a justiça de Deus. Especialmente quanto aos debilitados pelas doenças, os deficientes e os vulneráveis em quadros sociais onde a saúde pública é relegada ao plano secundário, dentro das prioridades de uma sociedade impiedosa e exclusivista.
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Derval Dasilio |||
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