[13o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO B]

espírito com jesus 1

Vivemos num mundo de injustiça institucionalizada, afirma René Padilha. Em quase todos os países, o poder sócio-econômico e político está nas mãos de uma elite autoritária economicamente exclusivista, totalmente indiferente às necessidades das grandes maiorias. “Duzentas mil pessoas, 1/35.000 da população total do mundo, são os donos atualmente […] de quase metade do PIB mundial. Em contrapartida, 50% da população mundial (3,5 bilhões de pessoas) têm apenas 1% do PIB. Esses 50% ganham menos de dois dólares por dia. Estão abaixo da linha da pobreza” (Bernardo Persbergite).

Há uma crise, sem dúvida. E bem maior que a da seleção brasileira, com seus jogadores milionários, nervosos com as ameaças da polícia, dirigentes corruptos que comandam o futebol mundial. A triste constatação de que nós, na verdade, não temos os melhores jogadores do mundo, que a CBF é tão corrupta quanto outras tantas do futebol mundial, nos devolve à realidade: também não temos bons políticos, nem estrategistas competentes para o desenvolvimento do país; a exposição constante da corrupção nos legislativos e executivos parece comprovar tal afirmação. Isso vai além da torre no meio das duas bacias do Congresso Nacional: uma simbolicamente aberta, convexa, para “receber”; outra côncava, para “esconder”? Niemayer e Lúcio Costa teriam pensado nesses simbolismos, quando as projetaram?

Alguém colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande jornal, mas era evidentemente apócrifa, como identificou um colega, observador atento que me escreveu:

“Já olhou o tamanho das favelas do Rio? Já andou de helicóptero  por cima da periferia de São Paulo? Solução, como? Só viria com muitos bilhões  de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma  imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral”.

Nossos principais adversários, afinal, são políticos governantes que não cuidam da pobreza extrema, da fome persistente; da falta de mais oportunidades para os jovens, especialmente no desenvolvimento na produção de bens; da saúde pública mal assistida, do mal uso dos recursos ambientais, da tensão com a necessidade de preservação da natureza, da indefinição quanto à participação do desenvolvimento internacional.

Hoje, temos uma “crise” de autoridade da qual devemos tratar em três partes, até chegar ao clímax, denunciada no evangelho de Marcos. Cada uma delas refere-se a Jesus e aos discípulos, os conflitos vão aparecendo, até chegar à crise mais aguda da crucificação. A primeira (Mc 3,6): “…os adversários de sua pregação confabulavam para matá-lo”; a segunda (Mc 3,20-21 e 6,4), que apresenta o conflito “com seus seguidores” (igrejas?),  “com sua família” e, depois, “com sua casa” (nação?). São o discipulado resistente a reformas sociais e reacionário, encastelado nas comunidades, o corporativismo doméstico e a disputa pelo poder das oligarquias carcomidas da religião, pela ordem. A terceira nos apresentará Jesus preparando seus ouvintes para a sua morte, pregando sobre a sua causa: o Reino de Deus: “Jesus percorria os povoados ao derredor, ensinando à sua gente” sobre justiça igualitária e os porquês da causa que representava (Mc 6,2).

Além de ser um judeu comum, Jesus é reconhecido como pessoa do povo.  Isso não funciona bem para os ouvintes do povo.  Ele tem uma procedência que não abona seu esforço de fazer-se ouvir com “autoridade”. Um carpinteiro de Nazaré, trabalhador manual; alguém que não passou pelas escolas rabínicas tradicionais, supostamente sem conhecimento teológico sobre a Torah, supostamente mal orientado, sem habilitação para ser reconhecido nos grupos hassídicos dos intérpretes da Lei e dos Profetas, não poderia “ensinar com sabedoria” sobre as intenções de Deus. Ao contrário, sua pregação era motivo de escândalo.

E a descrição nos Evangelhos de como levou a cabo o seu ministério mostra claramente que a sua compaixão estava orientada principalmente aos pobres, aos famintos, aos enfermos, às prostitutas, aos cegos, aos mancos, aos coxos, aos servidores da economia dominante, implacáveis, enquanto concomitantemente se corrompiam… Em síntese, estava orientada às “não-pessoas” da sua sociedade, lembra René Padilha: “A compaixão não é uma simples pena pelos que sofrem”. Poderíamos falar de um amor profundo, ternura; falar de uma identificação que move à ação, insurgência em busca de solução para os seus problemas. Como tal, exige contato direto com o fraco, pobre, necessitado, abandonado pelos poderes públicos. Era esse tipo de contato que Jesus tinha com multidões que o ouviam, e fazia com que ao vê-las tivesse compaixão por elas, “porque andavam cansadas e desgarradas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9.36). Em outras palavras, careciam de quem se ocupasse delas e lhes provessem um senso de direção com vistas a transformar a sua situação, num mundo de corrupção e sem misericórdia.

Os habitantes de Nazaré – sua família comunitária – não querem ouvi-lo, o que Jesus fala é óbvio. As realidades, no entanto, para eles, são imutáveis. Jesus não podia fazer o “milagre” da conscientização sobre novas realidades. Tais e quais membros um povo eclesiástico que bem conhecemos. Hoje, podemos perguntar-nos: como se constrói uma identidade nacional; como  a massa tão interessada em espetáculos de CPI’s hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria num povo que ouve e vê além das encenações que encobrem a realidade? Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso para os latino-americanos? Quando se falará da pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-exploração consumista?

Sob categorias agora separadas, mas sempre recusada para a outra. É verdade que elas já ganharam nomes diferentes: um tipo de coerção é chamado “aplicação da lei e da ordem”, enquanto a palavra “violência” foi reservada apenas para o outro. Até lá, viveremos a cultura da violência social ou institucional paralela à do crime organizado, enquanto aprovamos leis que praticamente estabelecem a “escolaridade do crime” aos adolescentes, imposta nas prisões. Ajudados pela tecnologia, satélites, celulares, chips e megabytes em toda parte, nos assemelhamos aos que se recusavam a ouvir Jesus e a necessidade de entendermos as intenções do Deus Salvador e Libertador.  São terríveis revelações sobre as visões que temos de nós mesmos.

Mas a distinção verbal esconde que a condenada “violência” consiste também em certa ordem a ser implementada e em certas leis autoritárias  desumanas a serem aplicadas. Como disse Zigmunt Bauman, somos tentados a tomar emprestada a metáfora de Yuri Lotman de que, “por um lado, um rio poderoso varre ou devora tudo que obstruí seu fluxo, mas sua direção é estritamente determinada pelo leito”. Rio onde navega a intolerância e a negação do direito dos fracos. Portanto, conhecida com antecedência, como as sementes e raízes dos ódios que nos acompanham desde a colônia e o escravagismo legalizado. Por outro lado, na atualidade, vivemos num campo minado, explosões localmente condensadas sem dúvida ocorrerão, mas ninguém sabe quando e onde. A sociedade autoritária, intolerante, renasce no lixo dos democracia.

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NOTA DO AUTOR

Vida é “sangue”… o sangue é a alma do corpo, como o Deuteronômio dirá (12,23). A vida se confunde também com o “fôlego”: no momento da criação o ser-homem Yahweh soprou-lhe nas narinas “um fôlego de vida”, nephesh. Adão (adam, coletivo de humanidade), começa a viver com o “alento”, ou a ‘alma’ originada no Criador. A intensidade da vida é variável, de um momento para o outro é diminuída ou intensificada.  Um enfermo ou um morto, são vidas debilitadas, prejudicadas, porque incompletas, privadas de todas as suas possibilidades (2Rs 8,8; 10; 14,20 e 1-7; Gn 25,30 e 32; Is 5,27). Despertar, curar, ressuscitar, significa recuperar faculdades, dispor novamente de toda capacidade na ‘vida’ oferecida com a ‘alma’ proveniente de Deus, (hayyîn e nephesh, cf.Gn 2,7). Isso aparece e brilha nos olhos do israelita: a vida é a mais preciosa das bênçãos, nada é superior a poder-se viver com toda dignidade (Pv 3,16). João, no Segundo Testamento, cita o pronunciamento de Jesus: “Vim para que tenham vida, e vida em abundância ” (Jo 10,10b).

Muitas vezes temos confundido “sinais” com  “milagres”, em má hermenêutica. A realidade da teologia de Marcos nos remeteria, sem dúvida alguma a uma expressão mais correta: “representações e expressões de poder sobre a vida”.  A missão recebida de Deus, por Jesus, a pregação sobre o sentido do Reino, necessitam de um apoio didático na realidade(didaskein), enquanto ensinava. As parábolas refletem isso. Marcos não hesita em atribuir a Jesus a autoridade (exousia) para fazer o que faz, ensinando aos Doze, enquanto aguça a inteligência dos discípulos para compreenderem a hipocrisia legalista dos fariseus. Apegados à “religião do livro”, confirmando-se o conceito religioso do que o legalismo é para os tais:  a Lei é uma afirmação da morte contra a vida. Mas não em sua consciência farisaica. No entanto, a vida para Jesus é hayyîn, segundo suas raízes, algo definido no plural intenso da experiência humana em sociedade. Viver é mais do que “ser”, nenhuma abstração cabe aqui, nem quaisquer racionalismos.

Porém, o ensinamento de Jesus não só revela o profundo conhecimento sobre a tradição profética. Seus sinais estão em sintonia com os atos dos profetas de Israel.  Não se refere à tradição do Thalmud,  iniciada no Judaísmo Formativo (400 anos antes). Evoca, com muito rigor, as palavras contidas nas tradições sobre o êxodo libertador, o jubileu que anula contratos escravagistas sobre o trabalho, a propriedade, os direitos fundamentais; sobre a dignidade dos órfãos e das viúvas, da sociedade israelita. Jesus prega sobre um Deus que decidiu  “reinar”, que quer explicitar suas intenções salvadoras e libertadoras. Comunica-se falando a respeito de um Deus que se revela como Abba, ‘paínho’, ao jeito nordestino, baiano, cheio de cuidado, misericórdia e compaixão, indicando também um Deus aberto à reconciliação.  Deus  que solicita fé em sua graça (hesed), que vem aos homens e mulheres e se revela em seu carinho paternal e maternal, ao mesmo tempo, para sua salvação e libertação.

Derval Dasilio

2Samuel 5,1-10 – Até os coxos e cegos te repelirão…
Salmo 48 – Ventos procelosos fazem presentes a Palavra
2Coríntios 12,2-10– Prazer nas perseguições, por amor de Cristo
Marcos 6,1-13 – Quando os “ouvintes não ouvem” e querem ensinar a salvação

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