17o DOMINGO LITÚRGICO DO TEMPO COMUM
DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”
João 6,1-21 – Disse Jesus: – “Eu sou o Pão da Vida”!|||  2Samuel 11,1-15 – O povo chora em altos brados |||Salmo 14 – O Senhor restaurará a sorte do seu povo|||Efésios 3,14-21 — O amor de Cristo excede a todo entendimento||| 

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Caros pastores,
Acabamos de conferir os resultados. Os senhores foram reeleitos para o Congresso Nacional representando o expressivo “voto evangélico”. Seus eleitores ignoram que certas candidaturas “evangélicas” estiveram envolvidas com a corrupção. Se os demais, figurões da política nacional, magistrados, os acompanham, não interessa. Eles não são pastores ordenados para cuidarem do rebanho de Deus. O déficit político nacional já é muito grande. Não esperamos dos senhores que aprofundem o rombo. Já vimos pastor congressista pego com a boca na botija recebendo cheques vultuosos do crime organizado para ajudá-lo na campanha. Vimos o envolvimento comprovado de dezenas de pastores nas fraudes do sistema de saúde, por exemplo na famosa Operação Sanguessuga. Não foram punidos” (Derval Dasilio, Ultimato Online, janeiro – 2007).

“O Brasil descobriu que tem lobos vestidos de pastores; uma corja imunda. São os políticos evangélicos que gatunaram o Ministério da Saúde; testas-de-ferro de igrejas, apóstolos e bispos mentirosos que afirmavam haver necessidade de eleger crentes para o Congresso Nacional com um discurso de que almejavam os interesses do Reino de Deus (Ricardo Gondin, ALC Notícias – 24.jul.2006). Na Idade Média, entre os monges “terapeutas”, Evrágio evocava os sete pecados capitais: Gula, Ganância, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça, Soberba, atribuindo a cada um o “demônio” que lhe cabe. Não se lembraram do “demônio” da “fome“. A fome seria antônimo de todos os pecados?

Hoje, “ninguém chora, poucos protestam em favor de governos e governantes que arriscam suas posições políticas em programas que envolvem a grande crise mundial da saúde e da fome, não se fazem gestos simbólicos de indignação”, disse alguém. Ao contrário, multidões fazem demonstrações nas ruas sobre suas preferências por mais privilégios às classes abastadas. Boa parte delas pedindo a volta da ditadura, evocando os porões onde se acumulam o lixo e os fatos mais degradantes do fascismo, como exibição de grupos e de classes sociais nos degraus elevados, demonstrando abertamente inclinações sobre o que há de pior na sociedade, através de manifestações espetaculares de bem-postos socialmente.

Quem disse, ou viu e relatou a frase de pára-choque de caminhão, “o brasileiro só é solidário no câncer” (Nelson Rodrigues) queria nos passar uma informação cultural importante? Roberto DaMatta sugere que a relação entre o capitalismo e excesso da gula nos ricos: “…quero sair das explicações ingênuas para mostrar os elos profundos do sistema de símbolos e imagens engendrados pelo capitalismo”, prossegue carregando a pena para demonstrar  a perversidade das sociedades opulentas, essas que jogam comida no lixo enquanto ignoram ou negam a fome e miséria de milhões. 

Na idolatria do dinheiro e dos valores móveis; no sistema de troca sem nenhuma forma solidária ou altruísta, não temos como fugir da realidade alimentada com as gorduras extras do consumismo estimulado. Fomos tomados por uma legião de demônios que se incorporam nos homens e nas mulheres desse tempo — como identificava Evrágio na Idade Média –, poderes que instilam constantemente a ganância, o egoísmo social, enquanto negam solidariedade aos famintos e prisioneiros da miséria histórica dos povos africanos, asiáticos e latino-americanos.

Enquanto permanece a escassez de alimentos e de recursos para debelar a fome de milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza, sejamos mais claros. Um quarto da população brasileira vive na miséria! No mundo existem 4 bilhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, 1,5 bilhões vivem abaixo da linha da miséria. Uma observação perversa, de uma assessora do governo, quinze anos atrás, identificava a crueldade dessa linha demoníaca da fome endêmica: “invariável como um eletrocardiograma de cadáver”. Naquele período, todos os dias 100 mil pessoas morriam por causa da fome, no Brasil.

Vamos ao Evangelho deste domingo. Trata-se de uma obra magistral da teologia e da catequese de João, discípulo de Jesus Cristo. Não vamos cuidar de milagres, mas de sinais, de realidades mutáveis com a força da solidariedade.  Apesar das semelhanças com Marcos [6,30-44;8,1-10], alguns detalhes devem ressaltados, na teologia joanina. Ainda no século 1 da Era Cristã, estamos próximos da grande festa religiosa do judaísmo, a Páscoa. Os elementos mais evidentes que estes momentos evocam a dura vida do povo: penúria, fome, miséria, de milhões, sob o império romano, enquanto Moisés é lembrado como intermediário do “pão dos céus”, o maná.

O “milagre” de Jesus consistirá precisamente no que fazer com o pão, que será compartilhado enquanto é também multiplicado. André assinala com inocência: “como é possível fazer isso”?  Não há dinheiro que dê para saciar a fome da multidão. Por quê? Por um simples raciocínio: não é uma questão de dinheiro, saciar as muitas fomes dos homens e das mulheres. Há pontos a considerar, como os que causam a fome; os que impedem uma justa distribuição do pão. A teologia de João centraliza a importância do Pão da Vida (Disse Jesus: Eu sou o pão da vida).

Jesus disse, também: “Nem só de pão viverá o homem”. É preciso penetrar nas mentalidades, culturas, espíritos nacionais, padrões de pensamentos e tendências de consciência nacional (Leonidas Donskis). Isto é, diante do vácuo moral, torna-se obrigatório denunciar e demonstrar indignação como consciência social, mesmo que sejam poucos os que percebem que o Mal pode enfraquecer, e exaurir, até à impotência para encobrir os rastros da impiedade e ausência de solidariedade para com os que sofrem. O desafio da sensibilidade profética, novas formas de agir diante dos poderosos que controlam a política a seu favor – portanto, contra políticas públicas que favoreçam desprotegidos econômica e socialmente. O desafio de qualquer cristão é compreender e combater o Mal nos redutos onde se organizam os sistemas políticos, econômicos e sócio-culturais; compreender onde e porque se manifesta a sociedade autoritária e fascista.

É assim que os cristãos, a comunidade de fé e de salvação, a Igreja, no mundo inteiro, “reproduzem o milagre dos pães e dos peixes”?  Nada mais próprio do que falarmos aqui de uma pedagogia do oprimido. Quando Paulo Freire dizia que era preciso perceber a linguagem da vida, a fala do povo, o movimento dos corpos, o discurso popular a respeito das necessidades vitais a serem atendidas, também instava seus ouvintes a compreenderem o mundo ao redor, rejeitando a pregação conformista de situações que aparentemente “não podem ser mudadas”. Segundo a ótica diabólica do poder econômico e das culturas reinantes — religião e política, por exemplo.

As graves feridas da sociedade, como o problema da fome e da miséria, geram sentimentos e reações carregadas de emotividade e de desejos de vingança da sociedade privilegiada, autoritária, fascista – que não aceita repartir os bens sociais com os despoderados –, antes que soluções solidárias para com as vítimas da miséria e da fome. A perversão do sistema econômico, apoiada pelas vozes que comandam o poder da economia pós-industrial, escamoteando a verdade sobre as sociedades opulentas, as que negam a partilha com os grupos empobrecidos.

O evangelho nos lembrará sobre as nossas responsabilidades, também, quanto à violência reinante, direta e indiretamente, uma vez que esta se origina no seio das profundas desigualdades alimentadas em nossa sociedade. A corrupção política também bebe o sangue das massas. Disse Jesus: “Não será assim entre vós” — lembrando o Código da Aliança,instilado em Moisés –, enquanto pregava a justiça do Reino de Deus, que será estendida a todo homem e toda mulher, até os confins da terra.

A fome não é combatida com simples esmolas e paliativos temporários, nem com dinheiro, nem com “milagres políticos”, através de mudanças eleitoreiras, quem sabe…  Programas de saneamento básico, atendimento da saúde pública; acesso a recursos médicos e hospitalares, habitação salubre, digna, humanizada; água limpa, escolarização orientada para a saúde e produtividade laboral, qualificação para o trabalho, contribuem para que organismos internacionais aplaudam e apoiem políticas públicas nesse sentido – a ONU e a FAO, por exemplo.

Este é o discurso extraordinário: Jesus é o Pão da Vida, Pão que desceu do céu.  Não se trata de remediar a fome do mundo, mas de saciá-la com sobra, em todas as manifestações possíveis onde há escassez, penúria, miséria. O Pão da Vida se impondo à morte. O Deus da Vida alimenta as multidões, enquanto os discípulos de Jesus são instados à solidariedade, à distribuição dos recursos disponíveis para que as intenções de Deus se consolidem.

Derval Dasilio

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