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pão- eucaristia EXATO
18o DOMINGO DO TEMPO COMUM                              DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”
João 6,24-35 – “O Pão de Deus dá vida ao mundo”!
2Samuel 11,26 a 12,1-13a; O rico toma do pobre
Salmo 51,112 – Enraíza em mim um espírito novo
Efésios 4,1-16 – Todo o Corpo de Cristo é ministerial

Jesus é o Pão da Vida, lembrança da Eucaristia que deveríamos celebrar em todos os cultos dominicais, dizia Karl Barth, enquanto nos exortava sobre a ausência da Eucaristia. A Igreja apropriou-se indevidamente da Eucaristia, tornou-a sacramento (mysterion), enquanto proclama que a Santa Ceia é sua… e não é! A ceia é do Senhor.O Culto Cristão dominical, no Dia do Senhor (kuriaquê ’emera), na igreja iniciante, incluía a Eucaristia dominical, eucaristein (Moltmann, von Allmen, J.-Ph. Ramseyer, Vocabulário Bíblico, ASTE, 2002). Além de tudo, não somos generosos no partir do pão, nem somos hospitaleiros na comunhão da mesa, onde se depositam as oferendas para a Ação de Graças. Excluímos até os nossos irmãos. Nossa infidelidade às fontes, do mesmo modo, está à prova. Aponta nossas divisões, enquanto também aprofundamos e acentuamos a desobediência à comunhão e à unidade solicitada na oração do Senhor: “Pai, que eles sejam um, como eu e tu somos um… a fim de que sejam aperfeiçoados na unidade” (cf.João 17,22-23).

Reforçando parte dessa memória, do pão da terra e do pão do céu, queremos também relacionar o vinho, que é também da terra, nos significados e na celebração de Ação de Graças pela vida. Com o vinho celebra-se a salvação; o vinho também é fruto da terra (“…Eu sou a videira – plantada no chão dos homens  – vós sois os ramos!… se alguém não permanecer em mim, perde-se” [Jo 14,5-6]). Devemos, nessa perspectiva, também relacionar a Eucaristia com a vida dos trabalhadores que produzem o pão – trabalho agrícola ou industrial –, e que, por causa do sistema injusto, das diferenças profundas em nossa sociedade, acabam, muitas vezes, privados do alimento necessário para se manter a vida. Oportunidades de trabalho e produção de bens essenciais são exortações cabíveis às celebrações pela vida. 

Pão verdadeiro, pão real: corpo de Cristo, “carne” e sustento da vida, presença real do Salvador, (diria Calvino, que acentuava a presença real do Senhor no partir do pão, e na refeição eucarística: “é o Espírito Santo que garante essa presença”, diremos mais, os comungantes “…reconheceram o Senhor no partir do pão” [Lc 24,35]). Jesus também afirma: “se não comes da minha carne, não tens parte com a minha vida…” (Jo 6,56). Como se deveria dizer, também, na grande oração de Ação de Graças para as oferendas na mesa da comunhão: o pão e o vinho são fruto da terra e do trabalho do homem e da mulher.

Tudo isso significa que neles há trabalho incorporado, todo o tempo, do preparo da terra ao preparo do pão. Há muita vida, “carne humana”, e muito suor nesse caminho! A ideia de Jesus é genial: reunir homens e mulheres na unidade, partindo não das ideias, ou do “espírito”, mas da dialética que se completa na prática. Na materialidade e na concretude da vida. A carne e o pão (sarkês, carne=vida corporal; ’artrós, pão=alimento para o corpo) são parte das necessidades na caminhada pela missão de Deus para a libertação dos homens e das mulheres desta terra! 

Cristo quer que esta energia seja colhida e reconhecida no “pão” e no “vinho”. Porque o pão e o vinho nos reconciliam e nos unem na mesa da comunhão.  Apesar de todas as nossas diferenças, malgrado a pluralidade que confunde o sentido da unidade, nada pode impedir a unidade do Corpo de Cristo, partido em favor de todos: “Este é o meu corpo, partido em favor de vocês”… símbolo da união e desta aflição e sentimento doloroso do corpo multipartido, nossas contradições, embora a carne de Jesus Cristo seja ferida pelas divisões eclesiásticas. E o pão e o vinho significam que podemos realizar a união  (symbolo = aquilo que une). O Pão vem da terra, Jesus Cristo nasce na terra. Em Nazaré, nasce a semente do Espírito Santo, e deve passar pela mediação do homem e da mulher que tornam o Cristo de Deus alimento, na terra. Por isso oramos: “O Pão nosso de cada dia nos dá, hoje…” Hoje, aqui e agora.

Somos nós os responsáveis pela distribuição do alimento para a comunhão com o Ressuscitado; o pão que comemos; o corpo do Senhor; o vinho que bebemos – é o sangue do Cristo sacrificado pelos pecados do mundo. Que pecados? Pecados estruturais – porque compomos as sociedades sem piedade para com os fracos, as economias perversas que concentram riquezas sem repartir o mínimo para fins sociais. Religiões alienadas e insensíveis, empenhadas em apologéticas doutrinais; secularismo que propõe conforto ao invés da indignação –, feridas abertas, da sociedade humana.

Não há pão para todos. A perversão do lucro desenfreado, sem dúvida, faz sufocar a palavras dos famintos. Em Venda Nova, dos mais ricos municípios do ES, há alguns meses, agricultores jogavam fora toneladas de tomates, por causa do excesso da produção e dos baixos preços. Pouco depois, o produto quadruplicava de preço no mercado nacional. Os alimentos indispensáveis para a vida que o mundo deve conhecer, por nosso intermédio, devem ser lembrados como dádivas para a vida plena. São ofertas do Crucificado.

Seria longo lembrar todas as mediações possíveis. Meditemos, porém, sobre  quantos estão envolvidos no preparo da terra, no plantar, no colher, no transformar do grão, no transporte do trigo beneficiado, no fabrico da enxada. Os que usam o arado e o trator, nas mãos que colhem muitas vezes em circunstâncias perigosas ou adversas. A agricultura informal ou familiar, distante das poderosas empresas do agro-negócio, coloca nas feiras e mercados 70% da produção nacional, embora ignorada. Nesse momento se inicia a comunhão e a partilha, enquanto acolhemos  a simbologia e as significações da Ceia do Senhor.

O pão simboliza o produto indispensável da salvação. Ele, o Senhor, está presente no pão, verdadeiramente, e na comunhão solidária. O Espírito é quem nos garante: o pão é também produto indispensável da vida de todo homem e de toda mulher. Como precisa de mediação, o produto da terra no plantio, na colheita, na debulha, no moer, no feitio, na partilha, é já a “eucaristia” (eukaristein) que nos lembra o empenho da comunhão entre nós, em ação de graças solidária para haja trabalho para todos. Eucaristia concreta.

Lembremos ainda, sem metáforas, o trabalho anterior dos que se encontram  afundados nas minas, extraíram, e fundiram o minério, para  fazer enxadas, máquinas agrícolas; das matrizes que permitiram a fabricação do arado; das linhas de montagem que produziram o trator que participará da produção do pão; do labor dos operários envolvidos no fabrico dos instrumentos para o trabalho no campo. Lembremos o trabalho posterior dos caminhoneiros que transportam os produtos dos moinhos pelas estradas esburacadas e barrentas do País, às vezes debaixo de chuvas implacáveis, atravessando enchentes; outras vezes sob o sol inclemente, na seca, na crise da água que castiga a lavoura neste momento.

Lembremos dos padeiros que transformam o trigo moído em pão cheiroso, gostoso, que deve estar na mesa de todos.  E das cidades que padecem com a crise da água, especialmente pela negligência dos governantes. Um dos mais cruéis capítulos da crise, no perverso uso político da água. A produção e distribuição de água na região onde vivem 20 milhões de pessoas (a metrópole de São Paulo) privilegia-se um grupo de 537 grandes consumidores: bancos, hotéis, shopping centers, entre outros (cf. informe do Greenpeace). O governo também garante que estas corporações desfrutem do benefício de, quanto mais água consumir, menos pagar por ela. Tal benefício não chega às populações pobres, obrigada a racionalizar água compulsoriamente, para que não falte água às elites da economia. Mas, sem água não tem pão.

Cada um é responsável pela produção de oportunidades de trabalho, e ao mesmo tempo, todos somos dependentes uns dos outros. Não podemos esquecer dos que trabalharam nos campos plantando e colhendo o fruto da terra; os que estão nas estradas transportando o trigo e tantos outros alimentos; dos que trabalham nos parques industriais e nas fábricas, transformando o grão em alimento, e levando-o para a distribuição. Todo esse trabalho é realizado para que o pão esteja nas mesas em que se alimentam os homens e as mulheres. Todos devem ter pão em sua mesa. Disse Jesus: “Eu sou o pão da vida… Pão que dá vida ao mundo”.

Derval Dasilio
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