DOMINGO LITÚRGICO – TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

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eucaristia (10)

HÁ FOME DE UNIDADE NA IGREJA DE JESUS CRISTO
18o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” – 2006
João 6,35;41-51 – “Quem me come terá mais fome”!
2Samuel 18,5-9,15,31-33 – Sem um nome para perpetuar…
Salmo 130 – Das profundezas clamo: ouve a minha voz, suplico.
Efésios 4,1-16 – Cristo nos amou e se entregou, oferenda de agradável odor.

PAN DE LA EUCARISTÍA / Pão da Eucaristia
Luís de León
¿Cómo dura, sin que, comiendo dél, se nos acabe?/Como dura sem que, dele se comendo, nunca acabe? Si Dios, ¿cómo en el gusto a pan nos sabe? Se Deus, como é sentir seu gosto? ¿Cómo de sólo pan tiene figura?/ Tem somente a figura de pão? /Si pan, ¿cómo le adora la criatura?/ Se é pão, como pode a criatura o adorar? /Si Dios, ¿cómo en tan chico espacio cabe? / Se é Deus, como cabe num espaço tão exíguo. /Si pan, ¿cómo por ciencia no se sabe? / Se é pão, como não somos conscientes disso?/ Si Dios, ¿cómo le come su hechura? / Se é Deus, como pode ser comido em seu feitio? /Si pan, ¿cómo nos harta siendo poco? / Se é pão, como pode nos fartar sendo tão pouco? /Si Dios, ¿cómo puede ser partido?/ Se é Deus, como pode ser partido?

Com este poema – ouso traduzir do meu jeito, sem roubar do leitor o gosto de seu próprio entendimento – introduzo meu livro inédito “Reflexões sobre o Partir do Pão e a Eucaristia”. Assim, sob a influência da beleza, que é atributo de Deus, e evoca seguramente a sua glória participada com o humano, introduzimos os textos coletados aqui e ali, sempre prontos aos acréscimos, aos sentidos novos na releitura que se abre ao transcendente. O mistério da Santa Ceia é da alçada do mistério sagrado e não da filosofia. Na poética das utopias sonhadas, recorreria a Gaston Bachelard, parodiando-o: “ousai dizer o que chamais de eucaristia, doce como um fruto que primeiramente se condensa, /para chegar à claridade, ao despertar, à verdade transparente,/ tornando-se uma coisa aqui da que significa o sol e a própria terra”. Pretender aproximar-nos dessa significação por meio de considerações ontológicas, relativizá-la na origem das coisas, conduz a um impasse.

   São condenadas ao fracasso as especulações que pretendem compreender pela razão e pela inteligência aquilo que pertence à ordem da fé, por submeter a exame de labora­tório algo que se furta a toda objeção ou intervenção humana (J.-Ph. Ramseyer). Assim, o mesmo ocorrerá com as gaiolas doutrinárias que prendem os mistérios de Deus, enquanto excluem os demais irmãos em Cristo na comunhão particular. Enquanto não recebermos todos os irmãos na mesa da comunhão, em hospitalidade eucarística, sinalizaremos o pecado que não nos habilita à eucaristia plena; pecado que nos separa (diábolos), enquanto retardamos a hospitalidade do Cristo que orou por nós: “Pai, que sejam um, como Eu e Tu somos um!”

Compreende-se, pois, que Jesus não tenha usado imagens celestes para anunciar as coisas transcendentais do Reino de Deus, mas tenha buscado a concretude terrestre do pão e do vinho, oferendas da mesa da comunhão. Um banquete é uma boa imagem para representar a promessa do Reino celebrado por seus súditos, de todas as procedências, uma verdadeira comemoração pelo cumprimento das promessas divinas, e se tenha então apelado às figuras das dádivas e das oferendas da mesa eucarística. Na repetição de uma simbologia de costumes e significações históricas a ceia pascal pretende dar a imagem antecipada da realidade escatológica que é o banquete messiânico, sem exclusões. Ondas nervosas correm nas linhas e nas imagens do texto joanino.

A raiz do homem, suas profundezas imemoriais, a alma, o ser inteiro (nephesh) tem fome e sede de vida (hayyîn é vida; no momento da criação do ser-homem Yahweh soprou nas narinas do homem “um fôlego de vida”; adam, coletivo de humanidade, começa a viver com o “alento” do Criador). Comer e beber são necessidades vitais. Uma vida feliz sem fim, plena de bem-estar social e político, eterna, emerge de utopias mais remotas, mesmo quando aparentemente esquecidas nos abismos a existência humana. O equilíbrio virá no anúncio consequente do shalom, a paz que excede a todo entendimento, onde todas as formas de bem-estar, concretas, terrenas, celestiais, são alcançadas.

Trata-se de um pensar que opera no mais escondido lugar onde se quer sepultar, sem esperança de ressurreição, reafirmado nas promessas do Deus da Bíblia. Os cumprimentos finais encontram aqui uma antecipação histórica, uma atualidade, que é presença e promessa do Rei­no de Paz e Justiça. Reconhecer e compreender ­agora as significações das coisas últimas em suas manifestações mais sensíveis, agora; alimentar a esperança a partir da encarnação concreta nos problemas e nas necessidades humanas, na celebração da Ceia do Senhor, mais que nunca, é admitir que é o Pão da Vida que se oferece como alimento e libertação dos homens e das mulheres no tempo de salvação. Reconciliação é uma palavra mágica, “…para que o mundo creia”: o mundo só crerá no Salvador e na salvação se os cristãos se apresentarem como reconciliados e unidos.

   Para o evangelista João o mistério da Eucaristia se inscreve numa situação cuja peculiaridade é que, sendo terrestre, ela se esclarece no céu, donde, aliás, recebe sua significação. As realidades presentes são promessas de um destino sobrenatural, ao passo que as realidades futuras já tomam forma nas figuras temporais. A memória reavivada na Eucaristia alcança um surrealismo impressionante, como significações que evocam flores e perfumes, belezas do mundo real, gostosas de serem sonhadas, e saborosas ao mesmo tempo, no dizer da instrução para a comunhão da mesa. Só a voz do poeta, sem surpresa na linguagem de João, permite penetrar no âmago da instrução eucarística do evangelista.

   A comunidade de fé, ciente das próprias forças e tarefas, supera a divisão entre a hierarquia e o laicato, entre teólogos e não-teólogos. Porém, principalmente, está acima das divisões históricas que clamam por reconciliação. Crê que a Ceia é do Senhor, e não da Igreja. Ou melhor: de nenhuma igreja denominacional. Vence, assim, na própria área de ação, a alienação produzida pela divisão de tarefas, na Missio Dei (Missão de Deus). Numa sociedade que estabelece privilégios e fronteiras de classes mantidos através da crescente divisão do trabalho e da especialização, a Igreja na unidade pode demonstrar a esperança por um futuro mais humano por meio do que estamos chamando de “comunidade ministerial” evocada em Efésios 4: “toda a Igreja é ministerial”. Todos os batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, são chamados por Jesus Cristo para realizar a Missão de Deus.

Por quê? Porque no ato do Batismo há a impetração da bênção. A imposição de mãos no batismo significa a inclusão do batizado nos ministérios da Igreja, nas palavras sábias do colega Anacleto Rodrigues da Silva. Está em companhia de Comblin, que também pensa assim. Concordamos, aplica-se também aos que “podem”, ou que são “habilitados” a participar da Ceia do Senhor. Que mais clareza se exigirá da Escritura? Negaremos, também, o batismo dos outros irmãos, para excluí-los da comunhão com Cristo?

Derval Dasilio

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APOIO EXEGÉTICO

João 6,51-58 – O texto nos faz reavivar Provérbios, livro da literatura sapiencial da Bíblia Hebraica (Pr9,1-6), um convite à Sabedoria da revelação encarnada. Há um banquete preparado para os discípulos de Jesus, mesclado com vinho. Está posta a mesa eucarística, e os evangelizadores, testemunhas da Revelação, são despachados a todos os lugares para convidar as gentes à Eucaristia. Que venham a “comer do pão da vida”… Mateus reproduz a mesma ideia do chamado à comunhão: “venham, meu banquete está preparado” (22,4).

Não há restrições, é o Senhor que convida a todos, sábios e ignorantes, prudentes e imprudentes, pobres e bem-postos. Bernardo (Séc. 12) avisa sobre a prudência: “Se és prudente, acerca-te da Fonte de toda Sabedoria, ela te dirá de qual sabedoria necessitas”. Essa advertência está bem delineada em Efésios (5,15-20). O que deve ocupar as testemunhas de Cristo é, em realidade, “saber” em cada momento, no meio da ausência de solidariedade e compaixão dominantes, enquanto impera a maldade, o que Deus quer realmente dos crentes.

Por fim, João aborda o termo “incompreensão” (pisteúonousin = “sem capacidade de crer”), tão obstruídos e formatados doutrinariamente estavam os ouvintes que contestavam Jesus. A eucaristia plena, hospitalidade do Reino, admitindo à comunhão a todos os desgraçados socialmente (destituídos de  – charis), abandonados pela religião e pela sociedade dominante, levantava suspeitas razoavelmente justificáveis.

Descartes e Comte tomam conta da mente religiosa, ainda hoje. O pensamento racionalista e positivista dirá que não há inteligência capaz de aceitar tal afirmação: “Eu sou o pão da vida… aquele que não come da minha carne não faz parte de mim” (cf. João 6,53-56).

Jesus se apresenta como o pão vivo que mata todas as nossas fomes, pão que veio de Deus; pão que alimenta a uma multidão esperançosa de Paz e Plenitude (Claude E.Labrunie). Para fundamentalistas israelitas ou cristãos a equivalência existe: a verdade reside na abstração, ou na lógica doutrinária e ideológica, pragmática, que não alcança os sonhos, as utopias de libertação e salvação, onde o Deus da Vida habita e chama os homens e as mulheres. Para nós, cristãos escatológicos que sonhamos com o Reino, é um convite para a comunhão e hospitalidade eucarísticas.

Mergulhados na comunhão, podemos experimentar a proposta libertadora de Jesus. Ela não passa pela religião gananciosa, propositista dos meios, da concepção sacrificial – obras humanas – para a (ou uma) salvação. Está distante da aceitação hegemônica do evangelicalismo corrompido, através de seus integrismos fundamentalistas. Também não combina com as desigualdades, o caos das violências reagentes|consequentes que impedem a unidade harmônica da cultura da fé compartilhada para que o Reino de Deus se estabeleça. A comunhão dos fiéis continuará seu protesto contra o pensamento dominante: só Jesus é o Pão da Vida. Pão escatológico que alimenta homens e mulheres… até que o Senhor venha!

Derval Dasilio

 

 

 

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