OBSERVAÇÃO: Se agradar ao leitor, pode caber uma aplicação dos textos bíblicos 1Reis 2,10-12; 3,3-14 – Eles fizeram Israel pecar… / Salmo 111 – As obras do Senhor são de verdadeira justiça.  O autor se inspira nos textos gerais do 19o. Domingo Litúrgico do Tempo Comum depois de Pentecostes – [Ano B].

a palavra


Efésios 5,15-20 – O autor de Efésios se dirige à comunidade de cristãos e cristãs, e não aos de fora. Uma segunda exortação é direta: “não vos embriagueis…”,  uma passagem que reflete os perigos da embriaguez comum no meio e no culto pagão (e por que não uma paráfrase ou metáfora da embriaguez do poder e do triunfalismo?). Os cultos pagãos estão presentes no cristianismo prático, cultural, remontando ao culto paralelo a Dionísio: o vinho era um dos meios cultuais para o êxtase religioso, visava unir o crente à divindade. Hoje, os estimulantes são outros, auditivos, ritmicos, ruidosos, altos decibéis, amplificadores potentes. Mas, o resultado se assemelha.

O jeito evangélico pentecostal-gospel-carismático ajuda a entender tudo isso. Por último, vem a exortação à temperança que indicará ao crente que deve dirigir-se sempre a Deus Pai com sobriedade, não sob êxtase, em nome do Filho, sob a inspiração do Espírito Santo, com sentimentos de gratidão pela sabedoria alcançada na transcendência. A sobriedade e a sabedoria modelam a mente, não as drogas, metafóricas ou químicas, que levam ao êxtase (cf.Aldous Huxley). Vale para os nossos dias, enquanto adeptos da sociedade consumista  do “evangelho” predominante?

Muitos seriam infiéis à revelação recebida. Gerando confusão, rebelião, fermentação, e até mesmo desespero, pregando um antievangelho sem sal e sem fermento, mas coberto de ouro e prata, ou embriagado por ênfases pseudocarismáticas, bordões repetidos sem cessar (cf. 1Cor 12,28-31: os melhores dons, carísmata ta “mêizona”, estão muito acima da exuberâncias do paroxismo carismático, ruidoso, exibicionista, narcisista, tão apreciados, ensinados no capítulo 13, integralmente, lembram que, sem a força transformadora de Deus (“dynamis tou Theou”), “agape”, os carismas são apenas ensurdecedores, vazios de sentido, sem proveito (1Cor 13,1-3).

Seriam apóstatas do evangelho de Deus, enquanto religiosamente declaram-se crentes? Enquanto afirmam-se portadores verdadeiros de uma “certa” revelação particular que estimula a religião com propósito, o sucesso, o sacrifício exigente de retribuição, há “uma mão invisível” a comandar o mundo religioso que não mais precisa de Deus; a mão que rege o mundo cultural que elegeu Adam Smith como seu profeta e reformador  (Teoria dos Sentimentos Morais no Capitalismo: uma teoria de espiritualização do lucro, da propriedade privada e da livre iniciativa…) e abandonou o pensamento dos reformadores originais, luteranos e calvinistas?

João 6,51-58 – O texto nos faz reavivar Provérbios, livro da literatura sapiencial da Bíblia Hebraica (Pr 9,1-6), um convite à Sabedoria da revelação encarnada. Há um banquete preparado para os discípulos de Jesus, mesclado com vinho. Está posta a mesa eucarística, e os evangelizadores, testemunhas da Revelação, são despachados a todos os lugares para convidar as gentes à Eucaristia. Que venham a “comer do pão da vida”. Mateus  reproduz a mesma ideia do chamado à comunhão: “venham, meu banquete está preparado” (22,4). Não há restrições, é o Senhor que convida a todos, sábios e ignorantes, prudentes e imprudentes, pobres e bem-postos.

Bernardo (séc.12) avisa sobre a prudência: “Se és prudente, acerca-te da Fonte de toda Sabedoria, ela te dirá de qual sabedoria necessitas”. Essa advertência está bem delineada em Efésios (5,15-20). O que deve ocupar as testemunhas de Cristo é, em realidade, “saber” em cada momento, no meio da ausência de solidariedade e compaixão dominantes, enquanto impera a maldade, o que Deus quer realmente dos crentes.

Por fim, João aborda o termo “incompreensão” (pisteúonousin = “sem capacidade de crer”), tão obstruídos e formatados doutrinariamente estavam os ouvintes que contestavam Jesus. A eucaristia plena, hospitalidade do Reino, admitindo à comunhão todos os desgraçados (destituídos de xáris), abandonados pela religião dominante, levantava suspeitas razoavelmente justificáveis. Descartes e Comte tomam conta da mente religiosa, ainda hoje. O pensamento racionalista e positivista dirá que não há inteligência capaz de aceitar tal afirmação: “Eu sou o pão da vida… aquele que não come da minha carne não faz parte de mim” (cf. João 6,53-56). Jesus se apresenta como o pão vivo que mata todas as nossas fomes, pão que veio de Deus; pão que alimenta a uma multidão esperançosa de Paz e Plenitude (Claude E.Labrunie): ausência de fome, enfermidades controladas, partilha nos bens sociais, igualdade social e racial, justiça nos direitos fundamentais, por exemplo. 

Para fundamentalistas israelitas ou cristãos a equivalência existe: a verdade reside na abstração, ou na lógica doutrinária e ideológica, pragmática, que não alcança os sonhos, as utopias de libertação e salvação, onde o Deus da Vida habita e chama os homens e as mulheres. Para nós, cristãos escatológicos que sonham o Reino, é um convite para a comunhão e hospitalidade eucarísticas. Mergulhados na comunhão, podemos experimentar a proposta libertadora de Jesus.

Ela não passa pela religião propositista dos meios, da concepção sacrificial – obras humanas – para a (ou uma) salvação. Está distante da aceitação hegemônica do evangelicalismo, através de seus integrismos fundamentalistas. Também não combina com as desigualdades, o caos das violências reagentes/conseqüentes que impedem a unidade harmônica da cultura da fé compartilhada para que o Reino de Deus se estabeleça. A comunhão dos fiéis continuará seu protesto contra o pensamento dominante: só Jesus é o Pão da Vida. Pão escatológico que alimenta homens e mulheres… até que o Senhor venha!

Derval Dasilio

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