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21o DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”

Josué 24, 1-2a. 15-17.18b. Efesios 5,21-32. | Evangelho de João 6,61-70: “Tu tens as palavras de vida eterna” |

Temos uma oportunidade única diante destes textos de advertência. Das reflexões sobre o Pão da Vida passamos à ética dos evangelhos bíblicos. Há um imperativo apontado publicamente, sobre intenções pessoais, orientações às famílias da fé, e apontamentos a respeito da sociedade onde nos formamos, situamos e agimos. As palavras de Jesus não se dirigem às multidões de manifestantes, convocando-as para se insurgirem contra determinado governo, que ameaça retirar privilégios dos melhor servidos e abastados.

“Vocês devem escolher: sigam-me ou se ajustem e se adaptem aos opressores; aceitando-os, vocês me rechaçam. Vocês querem aderir a eles, ou querem ouvir e praticar o que ensino sobre as escravidões e opressões?”.  E a resposta vem da boca de Pedro: “A quem vamos recorrer?”, recordando a Aliança, o Pacto lavrado com o povo de Deus: “Eu serei o teu Deus, e serás o meu povo”. E a seguir, “diante de ti eu coloco dois caminhos”; “vês aqui, hoje te tenho proposto a vida e o bem, e a morte e o mal”. 

“Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir. Porém se o teu coração se desviar, e não quiseres dar ouvidos, e fores seduzido para te inclinares a outros deuses, e os servires, então eu declaro hoje que, certamente, perecerás; não prolongarás os dias na terra a que vais, passando o Jordão, para que, entrando nela, a possuas (Deuteronômio 30:16-18).

O medo do desconhecido, o futuro incerto, a impermanência, as responsabilidades da liberdade conquistada desde a servidão, concorrem para a crise do momento. O paralelo entre o anúncio profético e o manifesto de Jesus fica estabelecido. Aceitando o modo de falar do Cristo de Deus, Pedro exclama: “Somente tu tens as palavras de vida eterna”.  Melhor, “só tu negas e combates as imposições da morte”.  Em conclusão, o evangelho aponta para a coerência dos que têm fé, é preciso, portanto, tomar uma decisão diante do Reino de Deus e do reino da mentira, da opressão, da desumanização da vida criada.

O livro de Josué reflete um acontecimento histórico de importante grandeza, na história do povo de Deus. A conquista demorada, lenta, palmo a palmo, metro a metro, quilômetro por quilômetro, apresenta lições sobre a gravidade da vida de fé. Comunidades, grupos, pessoas, encontram alento nos escritos bíblicos, enquanto atravessam crises que ameaçam a estabilidade sempre pretendida. É preciso distinguir as tradições de uma comunidade orgânica —  como é a comunidade da Aliança –, das demais ao redor. Os habitantes da região a ser conquistada têm seus próprios deuses, seus próprios cultos, suas próprias vocações de submissão às escravidões e opressões. São variados os deuses que cultuam e divindades às quais servem.

O Deus de Israel aponta outro caminho, outro rumo, outra ética na vida comunitária em sociedade. A peregrinação no deserto ensinara sobre a necessidade de observar os contextos, bem como a exigência de renovar a Aliança e descobrir suas riquezas. Crises ensinam mais que a estabilidade. Não é a história que ilumina a cultura, mas a cultura que ilumina a história. A cultura da fé não tem causas, porém, expande-se como uma flor de extrema beleza, disse alguém. Decerto, um imperativo de alta grandeza sustenta a fé, porquanto dá sentido à sua própria existência.

Evangelho de João 6,61-70 

O ponto destacado é o resultado final das palavras de Jesus, ao final do discurso  sobre o Pão da Vida, é tão somente este, dirigido a quem quer ser seu discípulo: quem segue Jesus deve fazer uma decisão radical, segundo as alternativas oferecidas aos que eram chamados “os do caminho”. Ou seguem Jesus, tomando uma decisão livremente, ou continuam seu rumo na direção da morte eterna.


Assim exercitamos uma resposta à salvação gratuita da parte de Deus. A graça de Deus não necessita de retribuição, também não se vende no mercado religioso, ou no altar. Porém, a graça exige uma resposta ao “sim” de Deus para socorrer-nos, em sua infinita misericórdia. Graça e fé, se completam. Fé, nas Escrituras, é sempre “fidelidade”, “emunah”, (na concepção bíblica “ter fé” é o mesmo que “ser fiel”; “o justo viverá por sua fidelidade” (Habacuc 2,4; Romanos 1,17; Gálatas 3,11). 

Quando Josué propõe aos hebreus, no contexto dos quarenta anos no deserto (Quaresma), temos o grande dilema: servir a Deus é ser fiel a Yahweh ou aos ídolos da cultura religiosa cananita. É imperativo decidir-se pelo Deus da Vida. Depois do discurso sobre o pão, João informa que Jesus arrisca-se em ser rejeitado pelos discípulos inclinados à fé comum, crença reformista, chamando-os à fé/fidelidade: “sigam-me ou afastem-se de mim” (Jo 6,61-70). “Eu hein!, duras palavras…”, e muitos racharam fora (Jo 6,66).

Muitos têm dificuldade, enquanto fazem sérias reparações sobre o compromisso da fé, quanto aos que buscam um discernimento mais profundo e insistente do que significa seguir a Jesus. Ao lado dos mitos, o povo guarda a sua antiga sabedoria prática, adquirida pela experiência imemorial de incontáveis gerações e que se compõe de conhecimentos e conselhos profissionais, e de normas morais, concentradas em fórmulas breves, de modo a permitir conservá-los na memória. Porém, ao perguntar, uma forma se apresenta ao ler um argumento maior: a derrocada das polaridades entre a seriedade e a sobriedade dos discursos autoritários da religião, das igrejas e dos partidos políticos.

Iguais ao entretenimento massificado das “marchas-disso-e-daquilo”, ou “marchas-com-(suposto)jesus”, por causa de nada e de ninguém, chamam “para a rua” com logística excessiva nos pretendidos  espetáculos das ruas (propaganda paga na tv e em jornais tendenciosos). Mas não há em suas manifestações grupos oprimidos requerendo direitos fundamentais, indígenas, negros e habitantes das periferias, reivindicando medidas contra tratamentos desiguais na distribuição dos bens sociais. Se estivessem nas ruas, se insurgiriam, provavelmente, contra outras demandas, diferentes daquelas das classes ricas e candidatos a tanto. A cidadania insurgente brota do oprimido, e não do privilegiado.

As tramas da história dos relegados e oprimidos exigem uma sensibilidade quase acima da memória. Líamos, em passado recente, “1984” de George Orwell, “A 25ª. Hora”, de G. Georgiou, e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, retratando um mundo sem memória, privado de arquivos públicos, de história e de humanidades em geral. A memória, então, torna-se uma ferramenta dos pequenos ou fracos – biblicamente:  [greg.] “ptochos” e [hebr.] “anawin” –, enquanto o esquecimento serve aos interesses dos grandes e poderosos.

A memória dos poderosos nada mais é que uma celebração da prática bem-sucedida, sob o conceito de “verità effetuale”, ou “o fim justifica os meios”, de Maquiavel. A brutalidade do poder desempenhado pelos poderosos que controlam a nação, é notória. Corrompem a verdade, enquanto corrompem-se a si mesmos. Seres humanos são entregues à fome, às doenças, ao abandono social, sem moradia e sem assistência escolar, médica, econômica. Porque a memória subverte e remete à insurgência. O que é seguir a Cristo num mundo sem compaixão pelo fraco e marginalizado?

O modo de falar do Cristo de Deus é inaceitável, para muitos. Não há concessões, é oito ou oitenta, sem meio termo. Para a fé cristã, a morte  não tem a última palavra, é preciso viver em plenitude (plerós) a dádiva da vida, concedida por graça (xáris) e misericórdia (hesed) de Deus. O Deus gracioso deve ser lembrado, tal como no Primeiro Testamento: “rab hesed” (rico em misericórdia); “rab rahum” (rico em amor); “rab ranum” (rico em favor); “rab tub” (rico em bondade). Em torno da gratuidade podemos formar uma unidade na solidariedade para a aproximação da justiça e da paz, buscando sempre a reconciliação, a cidadania ética responsável, sem licenças ocasionais, eixos comuns na família e na comunidade.

Contudo, os perigos sobrevêm à fé, quando a riqueza e os bens a serem conquistados incluem a materialidade, valores da sociedade dominante em torno da ganância, nas formas de comportamento encilhadas e freadas em função de uma prosperidade sem justiça social. Esse clima religioso e espiritual exige uma leitura mais atenta à palavras de Josué (cap. 24, 1-2a. 15-17.18b; 25-28), quando exige do povo eleito que adote uma decisão firme. A igreja cristã – se considera os imperativos do Reino –, também necessita de uma revisão permanente de modo a fazer jus ao evangelho da fé apostólica. Diante do vácuo moral, é obrigatório denunciar e demonstrar a indignação como consciência social, mesmo que sejam poucos os que percebem que o Mal pode enfraquecer, e exaurir, até à impotência para cobrir os rastros da corrupção no caminho.

O desafio da sensibilidade profética, novas formas de agir diante dos poderes  que controlam o mundo a seu favor – portanto, contra tudo que favoreça desprotegidos econômica e socialmente — passa a ser dever de qualquer cristão.  Compreender e combater o Mal nos redutos onde se organizam os sistemas políticos, sócio-culturais, onde se manifestam as sociedades autoritárias e fascistas, torna-se imperativo. Penetrar nas mentalidades, culturas, espíritos nacionais, padrões de pensamentos e tendências de consciência nacional (Leonidas Donskis), torna-se urgente. A resposta de Pedro, respondendo a si mesmo (Jo 6,68), deve corresponder ao que mais precisam os cristãos dos nossos dias: “Para onde iremos? Só tu tens as palavras de vida eterna”, sob a justiça de Deus.

mais dd pensando.6

Derval Dasilio

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