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22o.DOMINGO DO TEMPO COMUM   [06.09.2015]       

DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”

multidão pentecostal 2

Cânticos dos Cânticos 2,8-13 – O amor tem seus próprios caminhos | Salmo 45,1-9 – O Senhor ama a justiça e odeia a iniquidade | Tiago 1,13-27 – Cada um é tentado pela própria ganância | Marcos 7,1-8 – Discípulos de Jesus não seguem uma religião de preceitos |

Temos aqui uma questão de suma importância: como definir a verdadeira religião. A correlação com a Carta de Tiago é evidente. Há uma questão sobre remanescentes estatutários persistentes. Uma valorização da religiosidade expressa em costumes herdados do judaísmo. Fariseus são legalistas e obedientes às tradições sanitárias, porém, convertidas agora em preceitos religiosos. A lembrança do rigorismo chega a ser alarmante. O essencial perde o lugar para o que não é importante, na prática religiosa. A vontade dos homens se sobrepõe à vontade de Deus. Assim, o que é da religião é mais importante que as questões de fé. Os objetos sagrados vêm em primeiro lugar, como o culto e a liturgia pomposa, tornando-se intocáveis e irremovíveis, sobrepondo-se à vida de fé.

[Marcos 7,1-8] — Aqui, as necessidades humanas tomam outra feição, a partir da prática das relações religiosas. Vejamos: uma promessa feita a Deus terá validade somente sob a tradição do Qorban. Uma tradição que não pertence à fé cristã. Uma contradição, talvez para responder a uma certa rebeldia existente no meio rabínico, que discutia esta questão a fundo. Talvez a mesma não fosse tão agressivamente religiosa, mas referente às tradições. Exigem uma resposta, e Jesus não se furta de responder, cita textos como está em Ex 20,12; 21,17; Dt 15,16; Lv 20,9. Jesus responde que seu Deus não é desumano a ponto de querer para si algo que é necessário para os homens. Deus não necessita de nada que se refira ao normativo religioso tradicional, acima da ética fundamental. Porque a religião, assim, sufoca, e pode se tornar uma indústria de desumanidade, de exclusão, de negação ou omissão da misericórdia, valor mais alto nas relações humanas, segundo as Escrituras (“misericórdia quero, e não holocaustos”).

Há uma gravidade considerável, sobre o assunto religião. Quando os mandamentos de Deus são evocados para justificar tradições e teologias apologéticas. Dando-se a eles autoridade humana, praticamente não se evitará uma espécie de “procuração” dos céus, que ninguém tem, legitimamente. Lutero combatia a autoridade mater et magistra arrogada pela representante do cristianismo oficial no Ocidente, exatamente nesse ponto. Destaca-se em De Libertatis, que Richard Shaull delineou com maestria, no estudo onde afirma que Lutero foi o primeiro reformador a anunciar uma teologia de libertação. Especialmente nas questões que se referem às consciências oprimidas pela religião impositiva, doutrinaria e politicamente totalitária, no século 16.

O barateamento da Graça, ou sua desvalorização; a inconsequência que afirma a inexistência de um chamado ao serviço, e ao testemunho para a fé, não encontra eco em seus escritos. Tiago está voltado exclusivamente para a ética. Não cuida de soteriologias, ou de estímulos a uma prática religiosa sem que os compromissos da fé sejam lembrados. E de forma aguda e radical: “crês em Deus?, não gozas de superioridade nem mesmo diante dos demônios; eles também crêem. E tremem diante da justiça de Deus”, poderia ter dito. Se não disse, Tiago deixou claro as responsabilidades de quem diz ter fé.

Mesmo as religiões que estão em pé de guerra contra o mundo, ou combatendo conquistas modernas que impedem linchamentos ideológicos — como o “habeas corpus”, a legislação que protege mulheres, crianças adolescentes, a liberdade de expressão, o governo democrático, a partilha igualitária dos bens sociais, enquanto ridicularizam as liberdades individuais e tolerância à alteridade como sintomas de ateísmo e degeneração –, não abrem mão de direitos religiosos como privilégios  fazendários, não tributação de impostos à religião, e cidadania privilegiada. Como exemplo, o presidente da Câmara Federal, religioso neoevangélico, é apontado pela Procuradoria Geral da República, neste momento, como utilizador da denominação pentecostal mais populosa do país (10,3 milhões de fiéis segundo o IBGE), para lavar mais de 140 milhões de reais recebidos em propina e corrupção relacionada à operação Lava-Jato.

Não obstante toda nossa sabedoria retrospectiva pós-moderna a respeito das questões religiosas, vivemos num mundo essencialmente moderno e modernizador, cujas qualidades impressionantes, e por vezes sinistras, talvez tenham se tornado mais visíveis e melhor compreendidas, se colocamos os “pingos nos is”. As religiões fazem parte desse mundo moderno como uma força inesperada -– depois que Bonhoeffer e depois Harvey Cox apontaram a secularização, quando a máxima etsi deus non daretur (viver como se Deus não existisse) era considerada -–, enquanto se seculariza (viver em conformidade com as culturas do mundo).

Igrejas, dirigentes e pastores, encontram-se fechados para a vida moderna, cegos, surdos e mudos aos sinais dos tempos, e às próprias interpelações do Evangelho, no mais das vezes. A sociedade humana reclama salvação, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob permanente risco de morte; risco da desproteção política, violação de direitos humanos. Salvação que rejeite a cidadania seletiva ou privilegiada, em favor da insurgência; que afirme a importância social do trabalho, da saúde, da escola e da previdência, repartição negada a muitos – possivelmente 2/5 do planeta; que combata a violência contra a mulher, a criança e o idoso; que contemple marginalizados, refugiados, despatriados, do mundo inteiro.

A libertação vai além, denuncia as estruturas, as sociedades impiedosas e autoritárias, na política, na economia, na religião. Indigna-se e aponta as desigualdades. É essa tendência teológica da religião que amplia a consciência do Homem, do Mundo e de Deus, sob busca permanente da libertação humanizada. O que vale, de fato, na Escritura Sagrada, é o gemido dos oprimidos, dos pobres, dos pacíficos, mas resistentes. Importante mesmo é libertar o corpo oprimido, com ajuda da justiça de Deus.

O desejo do religioso tradicional é falar a verdade sobre o sagrado. Descrever o absoluto. Batizar a sua fala sem ética fundamental como teologia. Conhecimento do divino. E nós dizemos que a teologia e a religião é conversa sobre o corpo (Rubem Alves). Podemos falar, dançar, como quisermos, desde que a fala seja o poema do corpo. Nunca a ciência do divino. Nós sabemos nada sobre Deus (cf. Tiago 2,14-19). Por isso, é preciso exercitar a paciência, jamais apressar conclusões.

De qualquer modo, Rubem Alves nos ensinou a não estacionou em quaisquer dessas tendências. Preferiu a poesia para falar de Deus. Alguém que se afoga em dúvidas só pensa no ar. Deus só é sufocante, para quem duvida. “Deus é como o vento”. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem nem para onde vai. 

Derval Dasilio
 

DIGRESSÃO – TIAGO FALA DA GRAÇA BARATÍSSIMA  

Tiago 1,13-27 – Deus não pode ser obscurecido por questões regulamentais religiosas. A preocupação de Tiago com a questão religiosa é evidente. Uma manifestação rigorosa contra a licença de uma ideia da gratuidade originária de Deus contra a concepção humana da “graça” barata (Bonhoeffer), leva-o a um rigor que até espantou Lutero. Chamou-a de “epístola de palha”. Mas Lutero contrapunha a fé à “salvação pelas obras”. Tiago, noutro ângulo, dirá: “a fé sem obras é morta”. A questão é ética, e não doutrinal, em Tiago. A severidade de suas palavras se dirige às desigualdades sociais na comunidade cristã, o contexto é o mau testemunho dos cristãos, explicada possivelmente por ataques de Tiago aos religiosos notáveis, ricos, bem postos e pretendentes a tanto, insensíveis ao clamor da miséria reinante.   

A fala de Tiago é exigente de partilha e solidariedade. Todos proclamam ter fé, no entanto Tiago afunda a lâmina na alma religiosa do bem-posto, rico, que acentua as diferenças sociais — que alguns pretendem superar imitando ou aprovando os ricos –, e também do pobre conformado com a injustiça. Aos ricos: “Vós privastes o pobre de sua dignidade”. Aos pobres: “Não são os ricos que vos oprimem? Eles que também vos arrastam diante dos tribunais? Não são eles que difamam o bom nome (de cristãos) que recebestes?” Sem justificar o judaísmo, firmado em preceitos religiosos — incluindo dízimos e sacrifícios no altar –,  ligados também ao sentido de “fé religiosa”, o combate prossegue no campo da “fé”: “Crês em Deus? Ótimo, está certo. Os demônios também creem e tremem nas bases” (cf.2,14-19).

Ao suposto contraditor faz uma intimação: prove a sua fé religiosa com obras de justiça. As Escrituras apontam: “misericórdia quero, e não holocaustos” (Os 6,6), e não demonstrações arrogantes de alguma “fé” que justifica a ganância religiosa, sem prova alguma, sem frutos, como Paulo já sugerira (cf.Rm 2,1-6;5-16): “…és indesculpável, pois praticas as coisas que condenas”(vs.2,1a e 1c), apesar da verbalização da fé sem profundidade; “tribulação e angústia virão sobre qualquer um que fizer o mal (v.9a)” .

Tudo isso compõe os mandamentos de Deus em torno do eixo da religião verdadeira e suas obras testemunhais (em primeiro lugar o pobre, o órfão e a viúva). A constante busca do apoio de uma lei divina para as leis humanas ferem a concepção da religião original do povo bíblico: “Os meus mandamentos, juízos, sairão como a luz. Pois lealdade quero, e não sacrifícios cultuais; conhecimento de Deus (e sua justiça), e não holocaustos” (Os 6,6). [Outras formas introduzem hesed=xáris=gratuidade, na tradução; porém, o texto hebraico está reclamando ajuste à “religião profética” revelada].

Esta afirmação é claramente protestante, no entanto. Aponta o perigo de afirmar-se uma religião, como se fora ela “imagem de Deus”. Daí os interesses humanos, guetos de autoritarismo, suplantando a fé em nome da religião, os quais se interessam por suprimir o que há de mais belo na religião. A dimensão da felicidade, da misericórdia, da compaixão, do equilíbrio ético, da comunhão. Um sentido de inconformidade existe também, em relação aos sistemas que engaiolam o bem supremo da justiça social, enquanto o coração perverso, o sentimento egoísta, ganancioso e totalitário, prevalece.

Mateus (9,13) passa a ser determinantemente e incisivo, no Segundo Testamento: “…ide avaliar o que significa ‘misericórdia quero’, e não holocaustos, sacrifícios”. A palavra “holocausto” é drástica. Sempre está associada a “extermínio”. Aqui, poderia significar a anulação da consciência, impedimento para a liberdade de pensar e avaliar o sentido da justiça. O termo tem sua origem na palavra greco-latina holocaustum. Significa “totalmente queimado” ou “vítima de um incêndio”; mas até hoje é utilizado o termo hebraico Shoah, na Bíblia Hebraica. Este significa “catástrofe”… Não sei se podemos  referir-nos a um “desastre na moral religiosa”.

Certamente conhecemos a doutrina de Paulo sobre a fé e as obras. Mas Paulo também reconhece o uso abusivo e as consequências da “fé-da-boca-pra-fora”, na religiosidade superficial e sem compromisso. Tiago, aqui, refere-se às obras que um cristão realiza já no contexto da fé. A chave hermenêutica é a distinção que se deve fazer. Atenção!, as obras da lei religiosa, como meios de assegurar egoisticamente sua justificação perante Deus, não funciona, para os dois casos. Diz Tiago. São desejáveis as obras dos que alcançaram a liberdade como consequência da fé? Sim. Paulo diz: “somos salvos pela fé”, no entanto, a fé em Cristo.

Não se pode ter uma palavra final sobre as afirmações de Tiago, mas não poderemos nunca acusá-lo de ambiguidade. Serve ao crente o exame das muitas formas e sentidos da palavra fé. Fé supersticiosa em símbolos, em prosperidade através do dízimo ou ofertas, amuletos, relíquias; fé em orações de “cura” ou de “libertação”; como a fé religiosa substituindo a gratuidade divina, por exemplo, por graça comprada no mercado religioso. A fé bíblica, de fato, como lembrada em Hebreus (cap.11), compreende-se como fé na intervenção de Deus na História. É a história da salvação. Não é discutida aqui. Também a fé na justificação dos pecados, e na consequente ressurreição para uma nova vida, não está aqui. Mas, não há dúvida alguma de que a fé, como observância ética da justiça de Deus, é a grande afirmação epistolar de Tiago.

Derval Dasilio

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