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jesus e desprotegidos [II]

Gravura: Cerezo Barredo*

23o DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B” – 2006
Provérbios 22,1-3; 8-9; 22-23 – “O que semeia injustiça colherá males”. | Salmo 125 – ” O Senhor faz o bem aos retos de coração”. | Tiago 2,1-17 – “Não tenhais a fé em acepção de outros”. | Marcos 7,24-37 – “Ele fez os surdos ouvirem, e fez os mudos falarem”.   

Os cristãos palestinenses experimentavam a dignidade extraordinária da pregação sobre a missão de Deus nos atos e curas praticados por Jesus, trazendo dignidade no caminhar pedregoso e espinhoso do cotidiano marcado por desigualdades e desassistência à saúde e bem-estar social. Chamavam Jesus de Senhor, reconheciam o senhorio de algo que se tornava real na vida dos seguidores, em termos de uma salvação escatológica já em realização, embora a irrupção plena ainda estivesse por manifestar-se no futuro (W.G.Kümmel).


Portanto, uma salvação para o “final dos tempos” não se sustenta teologicamente, nos evangelhos. A fidedignidade em relação às palavras de Jesus referentes ao presente é bem mais fácil de constatar-se que a discussão do possível futuro ainda por realizar-se. Os sinais da Graça são visíveis, é a primeira reivindicação de Jesus, em relação à sua atividade milagrosa.  Jesus caracteriza suas curas como sinais do tempo da Graça (kayrós), e sua atividade se torna visível: “Se, porém, eu expulso os demônios pelo dedo de Deus (cf. Mateus 12,28, que diz: pelo Espírito expulso…), o Reino de Deus já chegou entre vós” (Lc 11,20). L.Goppelt aponta mais: quando João Batista manda seus discípulos perguntarem sobre isso, Jesus lhe manda a resposta: “Relatai a João o que ouvis e vedes: cegos veem, coxos andam, surdos ouvem, leprosos são purificados, mortos são ressuscitados…” (Lc 7, 22; cf. Mt 11,4).


Mas não podemos dizer que Jesus tenha passado pelo território pagão, estrangeiro, com indiferença, ou com os olhos fechados, como se lá não tivesse nada para fazer, fora do judaísmo, tão familiar em sua pregação. Há na questão o pluralismo religioso, sim. Melhor diríamos que o que se considera é não ter muito a dizer sobre tantas diferenças. Não o vemos discursando, nem oferecendo seu “serviço da palavra”, mas cuidando das pessoas e curando-as. Não fala diretamente do Reino (sua “obsessão” dentro dos limites de Israel – agora província da Judéia –, sob a ênfase da justiça e das virtudes de Deus); fora de seu território religioso “cala” sobre o Reino, mas “faz” o Reino acontecer. Ou, como diz o povo, ao vê-lo: “faz o bem”, não fala sobre o bem que faz, sua ação é concreta. Não se justifica por alguma doutrina. O cuidado do Pai é visível nos atos de cura de Jesus.


Uma profusão de perguntas aparece nessa forma de evangelização de uma sociedade sem seletividade no que deve consumir, muito além da religião de negócios, favores, bajulação no louvor interesseiro. Não é possível que aceitemos a religião como igualada a um iPhone tão espetacular e maravilhoso que pareça um shipp implantado no corpo, possibilitando consultas imediatas ao Google ou à Wikipedia – com respostas que rolam 24 horas por dia, 7 dias por semana, 30 dias por mês –, disponíveis para quem considera o mundo pronto e acabado, segundo os acessos virtuais e a concepção moderna da informação.


As pessoas desta geração, inconscientes de que são manipuladas pela religião dominante, seriam atormentadas por perguntas referentes ao abandono, à omissão, o desprezo pelo próximo em situação de risco permanente (cf. Lucas 10,29)? Morrer de fome, desnutrição, dengue, hepatite, endemias; morrer pela ausência de água potável e saneamento urbano, por esgotos sanitários inexistentes (Dt 12,10)? Por faltar moradia digna, ambiente urbano saudável?  Por causa da violência incontrolável ou do transporte e vias urbanas perigosos (Rs 5,10;Is 38,1)? Morrer por falta de saúde e direito à cidadania igualitária no uso dos hospitais onde estão disponíveis tecnologias e medicamentos de ponta (Zac 13,2s; Tg 2,1s; )? Morrer por negação de qualidade de vida aos mais pobres e desprotegidos no cotidiano das cidades, estaria ao alcance ou no âmbito da espiritualidade religiosa do momento (Gn 38,26; Jó 2,3; Ez 18 – cap.; At 19,1ss)?


As doenças do exclusivismo e privilégios tomam o cristianismo moderno. A religião pretende autonomia, e faz propaganda de si mesma ao modo das indústrias e da comercialização de seus produtos. O acirrado mercado religioso, sustentado através de blefes repetidos infinitamente, numa guerra publicitária mantida no espaço midiático a preço elevado, quando cada uma  das representações desafia o blefe da outra denominação, aponta os vícios desse mercado especial. Receitas são prescritas sem ética fundamental para a sustentação da vida, ignorando os direitos comuns dos seres vivos; escapando dos núcleos dos melhores sentimentos, como a vergonha de estar-se omitindo ou se orientando erradamente, enquanto se ignoram a misericórdia e compaixão pelos destruídos, desprotegidos, considerados descartáveis e inúteis no mundo moderno.


O pecado da negligência moral nem mesmo é colocado sob julgamento, na religião dominante, sujeitando-o ao arrependimento e absolvição. A autorreferência não se ocupa dos verdadeiros motivos que envolvem as tentações egoístas da ganância transformada em virtude religiosa. Enquanto isso propõem-se redenção moral através de orações anestésicas e tranquilizantes, para amenizar consciências raramente doloridas no confronto com a mensagem do evangelho do Reino de Deus. Igrejas transformam-se em drogarias, aviando receitas psicoterapêuticas para espíritos adoecidos e confusos.


As pessoas são instadas a livrarem-se da realidade, como se fosse ela um lastro indesejável atirado fora para permitir sua sobrevivência num mundo que despreza o direito do outro, negando-lhe o básico em educação, saúde, habitação, alimentação, ocupação laboral. Enquanto apoiam e se manifestam contra quem se apresenta em luta insurgente, exatamente sobre tais causas.


Estaríamos lançando um olhar para Jesus e tomando nota de sua peculiar conduta missionária. Hoje, é possível que necessitemos, como Jesus exemplificou, “calar mais e agir ainda mais”. Ou seja, dialogar interreligiosamente, dentro do ambiente evangélico ou fora dele, e do ambiente mais amplo, começando com um “diálogo de vida”. Um debate sobre direitos fundamentais será útil. Juntar-nos uns com os “outros”, conjugar esforços na construção da Vida, pode ser a mais concreta experiência de Deus que possamos observar, no sentido da evangelização necessária. O cântico nos ensina: “Juntos, somos mais”.


“Ele fez bem, todas as coisas”. “Ele fez os surdos ouvirem”; “Ele fez os mudos falarem”, pode ser até uma tradução pouco fiel ao original (v.37), ou uma derivação da exclamação que, mais provavelmente, brotou nos observadores da conduta de Jesus: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem; não somente  fez todo o bem, até fez ouvir os surdos e falar os mudos”.  Ou seja, Jesus terá pregado aos gentios, aos estranhos, com eficácia, mas com “a linguagem dos fatos”, e não impondo uma conversão para sua religião pessoal ou para uma conversão particular. Uma nova vida, sim; decisão pela verdade e justiça, sim; respostas concretas, sim; testemunhos da fé na justiça de Deus, sim (cf. Servicios Koinonia).

Cabe-nos orar, no entanto:
“Pai, converte o nosso coração para acolhermos todos e todas com amor fraterno, de maneira especial as pessoas enfermas, ou as portadoras de deficiências; as pessoas travadas e impedidas de caminhar em direção à vida plena que nos ensinastes a conquistar em luta contra as potestades da exclusão que obstaculizam a presença do Reino neste mundo. Amém”.

*Devo a Cerezo Barredo esta ilustração, como agradeço também as ilustrações nos livros que tenho publicado: Jaime Wright – O Pastor dos Torturados e Pedadgogia da Ganância.


NOTA EXEGÉTICA:
O texto diz que os “pagãos” também foram destinatários do anúncio do Reino de Deus por parte de Jesus. Que saindo Jesus de novo da região de Tiro, dirigiu-se por Sidônia ao mar da Galiléia, nos limites da Decápole, tudo isso em território “estrangeiro”. Portanto, além dos limites controlados pela religião oficial. E lhe trouxeram um surdo-mudo e lhe pediram que impusesse as mãos sobre ele. Com efeito, vemos em primeiro lugar que Jesus não fica entre os gentios, ou pagãos, com uma atitude “apostólica”. Não o vemos preocupado em catequizá-los. Tampouco parece preocupado em fazer entre eles proselitismo religioso pró-judaísmo: não tenta converter ninguém para sua religião, para a fé israelita no Deus de Abraão. E tampouco vemos Jesus aproveitar sua viagem para “difundir uma doutrina”, “ensinar e divulgar as santas máximas, a sabedoria de sua religião matricial”. Mais ainda: observemos que nem sequer prega, não faz discursos religiosos. Simplesmente “cura”. Quer dizer, nada de teoria, mas sim a prática em sua essencialidade. Fatos, não palavras (cf. com. Servicios Koinonia).   


Excelente lição para nossos tempos de pluralismo religioso dentro do próprio cristianismo, e de diálogo inter-religioso. Serve, inclusive, para o diálogo intercristão ou evangelical. Talvez nosso zelo histórico pela “conversão”, pela “chamada dos não-evangélicos à conversão”, pela “cristianização dos não-evangélicos”; ou pela expansão da igreja evangélica; ou pela implantação da fé evangélica em outras áreas geográficas do mundo, em concorrência denominacional sob colapso evidente — quem sabe em cheque – porque o cristianismo encontra as reservas e características culturais próprias, enquanto o ocidentalismo é confundido com a colonização inaceitável nos dias de hoje. Radicalmente, à imitação de Cristo, talvez nos coubesse evangelizar-nos no nosso próprio “cristianismo”, antes de tudo.

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