24o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”

eles não veem…

Marcos 8,27-38
Cada geração deu uma moldagem à religião, mas a estrutura de base permanece inalterada até os dias de hoje. Imaginamos que as dificuldades sejam muitas, para se entender o fenômeno duradouro, levando-se em conta o interesse religioso – especialmente o fundamentalista – pela política. Este ameaça afundar nas causas mais profundas da corrupção que domina a política e a vida, em nosso país, e não como exceção no restante do mundo, abaixo da superfície que mal se tocou nos últimos meses. O que não percebemos é que algum político trapaceiro, que promete resolver a questão, aproveitando o descontentamento popular, aponta como responsável alguma personalidade que deve pagar por todos, se ofereça como paladino da justiça. Enquanto isso, usa igrejas e remete para paraísos fiscais os dividendos do botim nacional.

“Há uma categoria de pessoas, que são ‘as pessoas felizes'”. No Brasil, essas pessoas acreditam profundamente que a corrupção está a cargo de apenas um partido. Elas acreditam que bastasse tirar a presidenta do poder, o reino da justiça e igualdade jurídica e política se instalassem no país. “Essas são pessoas muito felizes”, ironiza o professor Leandro Karnal. Esta categoria se enquadra no “culto da corrupção isolada”, ou corrupção dos outros. E explica que segundo a concepção hamletiana — Hamlet, de Shakespeare, aponta uma rede de intrigas dentro da própria família da personagem principal –, a começar pela microfísica do poder. Exemplos do cotidiano, bastante comuns para todos nós, poderiam ser suficientes para entendermos os mecanismos da inveja e da atribuição de erros e pecados nas personagens mais próximas, ou expostas diariamente na mídia.

No entanto, a sociedade religiosa, sob o pressuposto do gozo de direitos a uma cidadania privilegiada, diferenciada – ciosa na manutenção de seu suposto status social economicamente protegido de impostos, também abriga a corrupção com naturalidade, enquanto acusa de corrupção as outras instituições. Localiza o problema da violência e do crime organizado na periferia, em menores infratores, por exemplo, fazendo-se vista grossa aos capitães do crime, os quais ocupam condomínios de luxo nos endereços dos imóveis mais caros do país.

E, nesse momento, torna-se a religião uma mercadoria política para servir à sociedade autoritária. Mas, é nos endereços nobres, mansões e apartamentos de luxo, que os crimes mais importantes são engendrados, além das drogas consumidas a granel, além de outros atos ilícitos, na clandestinidade. Sem excluir frequentadores do camelódromo, ou da 25 de março. Por acaso, a polícia e a justiça que tratam da corrupção, não sabem disso?

O crime nos altos escalões, pinçado sob finalidade política, localizando somente adversários, isentando a oposição em operações espetaculares na mídia, é um dos mais graves problemas enfrentados pela coletividade nacional. Parece envolvido numa nuvem cinzenta, sob proteção jurídica. Diuturnamente a população testemunha, estarrecida, inúmeros escândalos envolvendo o alto empresariado, que transitam nas concorrências para obras públicas. Agentes públicos e políticos, empresariais, de diversos escalões se envolvem, agindo de forma a sequestrar recursos da nação.

Em pouco tempo, depois de simbolicamente punidos, líderes voltam com as mesmas ambições e se convertem em tiranos implacáveis da política e da economia. Os discursos conservadores, quase religiosos, prometem mudar. Mas o Brasil não muda. Porque o combate à corrupção é  eficiente, somente, na medida em que a carência e o desamparo são considerados como injustiças estruturais.  O que vemos não passa de um oceano de icebergs, dos quais vemos tão somente o cume da montanha gelada.

Contudo, como parte do gosto popular, nutrindo imaginações perturbadas ou conspiratórias, que pouco distinguem desastres naturais, como terremotos, tsunamis, dos crimes que se cometem diariamente sob consentimento acomodatício, dados como naturais e imutáveis na natureza das relações humanas. O que é parte de uma inspiração filosófica sobre realidades que precisam mudar, do ponto de vista da ética fundamental, pode parecer uma catástrofe para as pessoas comuns, temerosas do que pode afetar suas vidas com prejuízos irreparáveis. Aqui, cultivam-se as exceções éticas: livramos a cara das pessoas e personagens próximas que estão no nosso círculo de relações ou interesses.

Faz-se com que a máquina financeira e econômica funcione a favor dos já privilegiados — que também pagam menos impostos –, aumentando ainda mais os abismos sociais, exterminando direitos essenciais da população, deixando o Brasil numa triste posição no cenário mundial. Somos um país cotado entre os que cultivam a corrupção, em todas as escalas sociais, ao mesmo tempo, com um dos mais altos índices de desigualdade social. Acrescente-se que a nação também é colocada entre aquelas com o menor índice de desenvolvimento humano do planeta.

Não é sem fundamento, também, a crítica que se faz da igreja e da religião sem justiça, que não toma conhecimento desses fatos, em evidência nos dias de hoje, comparando-se ao tempo dos escritos bíblicos. Ela é absurda, colonialista, contra a ciência, contra a liberdade, contra o progresso da humanidade, nos desdobramentos da ética dos direitos fundamentais, direitos humanos, cidadania, cuidado com a coletividade.

A religião é criminosa, porque entregou-se ao mercado, aos negócios ilegais e escusos, à sonegação fiscal, abrigando quadrilhas (cf. inúmeros processos contra lideranças evangélicas pentecostais – algumas em prisão domiciliar –, pelo ministério público, em todo o país). É dogmática, apologética, porque se impõe por princípios pétreos e inarredáveis, defendendo privilégios e exceções constitucionais; é contra a responsabilidade social, ao afastar-se da realidade, isentando-se das lutas travadas para humanizar a política e a economia, e a própria sociedade.

A mentira se instala, quando se simula o combate à corrupção, propondo consertar um erro que acompanha a nação há cinco séculos, reforçada nos esteios da casa- grande e da senzala, dos sobrados e dos mocambos – como diria Mino Carta –, emporcalhada pela impunidade histórica. Chegando lá, no poder, sentem o direito de loteá-la para si. O botim tem uma legião de participantes.

Mostram-se irados, agora, porque a pior das corrupções, a dos bons, passou a concorrer com ela. Corruptio optimi pessima est, diz o ditado. Ela existe, sim. Calvino falava da “depravação  total do homem”. Paulo já dissera, citando o AT: “Não há justo, sequer um…” (cf.Rm 3,9-10). No entanto, existem pessoas que sempre resistirão às tentações das benesses do poder, que não negociarão com as “más companhias”, que sempre alimentarão uma relação orgânica com a justiça e a transparência. Estes voltarão a governar. 

Carl Hart, professor associado de psicologia e psiquiatria da Universidade de Columbia, teria sido barrado pela segurança do hotel cinco estrelas Tivoli Mofarrej, que sediou o evento. A organização do instituto teria tido de se mobilizar para autorizar a sua entrada no hotel nesta sexta-feira (29/08). Carl Hart é negro e veio a São Paulo palestrar sobre a guerra às drogas — assunto envolvido em grande hipocrisia,  porque são os outros, os drogados, e não nós, que nos entupimos de drogas “lícitas” –, e como ela é usada para marginalizar e excluir parte da população.

Antes de se tornar um cientista respeitado, com três pós-doutorados, e um dos maiores nomes sobre o estudo de drogas, era usuário de crack. Ele decidiu tornar-se especialista nos efeitos do crack para entender como a droga tinha destruído sua comunidade. E virou um neurocientista, com seus dreads e os três dentes de ouro. Ao começar sua fala, provocou as mais de mil pessoas que estavam no auditório: “Olhem para o lado, vejam quantos negros estão aqui. Vocês deviam ter vergonha”. Não havia nenhum negro na plateia. Se indicasse também os que são usuários de algum tipo de droga, seria um pandemônio… A hipocrisia não é privilégio de ninguém.

A religião secularista supervaloriza o homem abstrato, supostamente espiritual, por um lado é, também, paradoxalmente pragmática, em seus negócios. É patológica, pois influencia doenças do comportamento, em todo lugar, desde as profundezas da alma gananciosa, fanática ou obsessiva na obtenção de bens ou de resultados numéricos. A mesma coisa, no canto popular de nossa juventude: “A mesma praça, o mesmo banco, o mesmo jardim./Tudo é igual, tudo é tão triste…” Quem se lembra de Ronnie Von e suas canções? Eu me lembro…

Um episódio importante é o centro desta perícope (Marcos 8,27-38). Trata-se da ruptura de Jesus com seus surpresos seguidores. Para eles, em desacordo com seu líder, embora o Mestre estivesse cumprindo a vontade do Pai: “não vale a pena contestar a injustiça, ninguém pode mudar essa realidade; não convém abordar as desigualdades; é perigoso mexer com as velhas heranças dominantes na religião”. No meio dessa crise do grupo de discípulos, Jesus decide continuar o caminho e tratar de redirecionar a mentalidade de seus discípulos, torcida pelas ideologias sectárias, acomodatícias, abusivas, dos sacerdotes, e dos contemporâneos judeus.

Enfim, todo o grupo que controlava os israelitas, desde a religião ao governo, no tempo de Jesus e dos apóstolos. Quando os discípulos entenderam a mensagem de Jesus, pelo julgamento da causa do Reino que nela estava implícita: “buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça”, e pela crucificação do Cordeiro de Deus, decidiram pela transformação do mundo desumano e violento imposto pelo poder político-ideológico do império romano, mancomunado com a geração que deu moldura, de bom grado.

O ideário e sua estrutura de base permaneceram inalterados. Não começavam seu trabalho apelando somente para o atendimento de necessidades superficiais, ou abstratas, nem para seu desejo de “acabar com os opressores romanos”. Conheciam um evangelho firmado na palavra effatah (Mc 7,32-35), um surdo-mudo impedido de ouvir e de falar ouve essa palavra – que não é uma palavra mágica, secreta, proferida por um  curandeiro. Esta palavra significa que há um poder divino originado do Cristo de Deus que pode curar da surdez e do impedimento de saber e falar. Inclusive, refere-se à consciência. Jesus profere: effatah, que ouçam os surdos e falem os mudos, enquanto está libertando consciências. Eis a questão colocada nesta passagem bíblica.

Completa-se a profecia de Isaías, no poema (35,5-6): “O coxo saltará como o cervo, a língua do mudo cantará, porque brotou água no deserto (da inconsciência)”. Dez alegrias, sinônimos para as libertações das consciências, com temas que evocam o êxodo, livramento das servidões humanas, atingindo deficiências de corpos mutilados, e fraquezas na natureza desertificada, improdutiva, seca, são corrigidas para que as vítimas sejam vivificadas com a alegria da glória do Senhor. “O deserto e o ermo se regozijarão, a estepe se florescerá de alegria;como a flor do narciso florescerá, transbordante de júbilo e alegria ”(1-2).

Derval Dasilio

Leituras do Domingo Litúrgico: Provérbios 1,20-33; Salmo 19; Tiago 3,1-12; Marcos 8,27-38

NOTAS

Uma classe política controla o País há séculos, formou-se com este tipo de salteadores. Cultiva-se a obscuridade, também mergulhados na parvoíce, explorando a credulidade de ingênuos apoiadores de golpes supostamente salvadores, mas acentuando a despolitização. Quando não insufla o ódio pelos desprotegidos, ameaçam constantemente retomar o poder, desqualificando a nova ordem, socializante. Hoje, consideram a república como propriedade privada, sua. Ao mesmo tempo em fingem prestar contas aos privilegiados no topo da pirâmide social, que ainda se acreditam que suas vivendas são comparáveis à casa grande, tendo as favelas no fundo do cenário dos apartamentos de luxo.

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