25o. DOMINGO DO TEMPO COMUM                                DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B” |||||||||||||||||||||quando te vimos...


Ester 7,1-10; 9,20-22–43: Fomos vendidos e escravizados, eu e o meu povo | Salmo 124 – Nosso socorro vem em nome do Senhor | Tiago 5,13-20 –  Confessai-vos uns aos outros e sereis curados | Marcos 9,38-50 – É por nós quem não é contra nós.


Jesus não está falando de religião e doutrina, e sim das dificuldades do caminho e da chegada e entrada no Reino, aqui e agora: “Estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (cf. G.Kümmel), quando aborda a questão: O Senhorio de Deus sobre o mundo e a salvação. Surge, então, uma aguda pergunta: a proclamação de Jesus da proximidade do Reino de Deus é pregação crítica ou salvação?


Marcos demonstra que os discípulos pensavam assim: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue” (9,88). Jesus corrige a mesquinhez antiecumênica mostrando que a ação de Deus está na produção de meios para a sustentação da vida e da justiça: “Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor” (39-40).


Devemos responder com um “sim” ao evangelho e a Deus, o todo contaminado pelos pecados estruturais não difere do ser, que é totalmente “pecador”. A sociedade, cada homem e cada mulher, necessita de salvação. Em primeiro lugar, precisamos salvar-nos de nós mesmos (Claude Labrunie). Todos, somos responsáveis pela sociedade, observando as contradições e contrastes no lugar onde estamos. Minuto a minuto podemos observar o que temos em comum com opressores e oprimidos, favorecidos e desfavorecidos pelo stablishment, enquanto a manipulação das massas e das sociedades se dá, enganando a opinião pública, e sufocando consciências. Até mesmo o mundo tecnológico, abarrotado de celulares, internet, redes sociais, permite-nos ver e observar a narrativa da injustiça mascarada no espaço virtual.


Os apóstolos proíbem utilizar o nome de Jesus e curar alguém que “não é dos nossos” (Marcos 9,38-50), num primeiro momento. Mas Jesus, com uma visão ecumênica ultra aguçada, impede o julgamento de quem quer fazer o bem, não sendo do próprio grupo religioso dos discípulos, porque “quem não está contra nós está a nosso favor”.  A localização geográfica do mal, seja ela qual for, numa sociedade ou numa nação, é um fenômeno extremamente complexo, mas não podemos viver sob estereótipos e suposições.


O mundo concreto, observado pelos olhos críticos da indignação, mostra-nos como se filtra a realidade das desigualdades e injustiças. A sociedade em que vivemos é habitada por monstros e demônios da qual emanam perigos como um gás sem cheiro que asfixia e mata, enquanto constituída de aparências de normalidade e naturalidade. Por que a pessoa normal, bondosa, pai ou mãe de família exemplar, bom vizinho, recusa-se a conceder às outras o mistério da salvação, sem indagar sobre a solidariedade, a misericórdia, a compaixão e dignidade, em uma linguagem sensível, como diria Leônidas Donskis? 


A questão ontológica é inseparável, na salvação do “ser social”, inclusive, como João Dias de Araújo escreveu: “não só a alma do mal salvar,/ também o corpo ressuscitar”. A questão é seguramente pedagógica, também. O entorno e cenário são a mesma casa em Cafarnaum, onde Jesus ensina e prepara seus discípulos para a missão de Deus. O conjunto social comparável mostraria a existência de condições horríveis ao redor, quando o ambiente comum não permite interpretar a realidade camuflada. Enquanto não se permite interpretar os sofrimentos e os fatos próprios do sofrimento, e que a própria opressão seja visualizada.


A fuga dos dilemas humanos reais aprofundam a necessidade de salvação, lembraria o evangelho. Se alguém não tem coragem de olhar nos olhos de uma criança inocente que passa fome; se não consegue ver condições extremas de insalubridade comunitária; se não consegue entender que as decisões sobre distribuição de bens sociais, escola, saúde, habitação, trabalho e riquezas dependem de quem governa; se desvia o olhar da miséria à qual se impõem milhões de seres humanos, não pode compreender a linguagem da salvação. Não lhe é dado entender a linguagem capaz de alterar os rumos do mundo impiedoso, sem misericórdia e sem solidariedade com o fraco.


O formato invisível daquilo que destrói a vida de uma sociedade inteira, caminha lado a lado com um Estado insensível, o qual se presta a atender aos já privilegiados pela economia de concentração individual de riquezas – e não há respostas satisfatórias à suposta geração questionadora que comparece na Wikipedia, no Facebook ou no Twitter; e não adianta ter um chip de iPhone implantado no cérebro oco que procura respostas no espaço virtual, rendido  totalmente a interesses do grupo que, sozinho, detém a maior parte das riquezas existentes.


A polarização dos ricos se evidencia na concentração da riqueza mundial nas mãos de apenas 358 multimilionários, que detém sozinhos 85% da riqueza mundial. No outro extremo, 2,3 bilhões de habitantes da terra constituem sem-terra, sem-habitação, sem-saúde, sem-escola, sem tudo para o mínimo de dignidade. Um abismo profundo separa ricos, bem-postos e pobres, no planeta. Assim, as estatísticas econômicas, o rebaixamento do grau de investimento na classificação de crédito da Standard and Poor’s (S&P) passam a ser mais importantes que a distribuição igualitária de bens, como educação, saúde, habitação e ocupação laboral. O desempenho da economia é mais importante que o valor dos indivíduos, nas sociedades opressoras que impõem o sofrimento cotidiano da pobreza.


Marcos, no evangelho, demonstra que os discípulos pensavam assim: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue” (9,88). Jesus corrige a mesquinhez antiecumênica mostrando que a ação de Deus está na produção de meios para a sustentação da vida e da justiça: “Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor” (9,39-40).


A irreversibilidade do mal, vista por olhos fatalistas ou conformados com a injustiça, é muito mais do que se pensa. Nada é mais perigoso para a sobrevivência humana que entregar-se a uma concepção abstrata sobre demônios e espíritos malignos, que conhecemos através da literatura e obras dos antigos filósofos da Grécia antiga. O mal latente assume a máscara do conformismo enquanto esconde sua fraqueza no confronto com a salvação, enquanto esta nega tal irreversibilidade.  


A ação salvadora, libertadora, contra o mal, a fome, a injustiça, a miséria – prerrogativas do discipulado no movimento de Jesus –, é bem-vinda, sempre, venha de onde vier. Também essas, se estiverem alimentando a esperança e a vida, receberão a recompensa de Deus (9,41). Cabe-nos compreender a essência do discipulado de Jesus, identificando o cenário onde a causa de Deus se apresenta no drama das misérias humanas, nos retratos da injustiça social e das desigualdades existentes:


Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos exilado, forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou na prisão e fomos visitar-te?” (Mt 25,31-45).

Derval Dasilio

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