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26o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B” ||||||||||||||||||||||||

A. mulher.homem.silhuetas_n
Jó 1,1; 2,1-10 – Ainda conservas tua integridade | Salmo 26 – Faze-me justiça, Senhor, pois busco minha integridade | Hebreus1,1-4;2;5-12 –  O homem e a mulher, igualmente, estão sujeitos a Deus |   Marcos 10, 2-12 – Aqueles a quem Deus deu unidade, o homem não separe!


Lucio Alves, meu cantor preferido na juventude, iniciava uma antologia musical com nomes de mulheres, Maria, Ana Luiza, Lígia, Januária e outras, com os versos: “Não sei que intensa magia /seu corpo irradia /e  me deixa louco, assim, /mulher… /Não sei, teus olhos castanhos,/ profundos, estranhos, /que mistério ocultarão, mulher”. Porém, estamos longe do paraíso idílico inicial, onde animais e vegetais tinham a finalidade de representar a harmonia. Homem e mulher sob os raios quentes de sol, vivendo férias permanentes numa praia magnífica. Durante o dia, o calor. Ao entardecer, a suavidade noturna sob a lua e as estrelas, o firmamento escondendo a lonjura dos astros e caminhos leitosos das galáxias, não conferem com a harmonia nos direitos fundamentais entre o homem e a mulher.  


Para a sociedade do tempo de Jesus, a mulher era somente um objeto que unicamente se usava para a necessária ação da procriação e o cuidado das crianças e do lar. Negavam-lhe igualdade em direitos fundamentais. Jesus uma vez mais denuncia este desequilíbrio, quando toma partido em favor das mulheres (Marcos 10,2-12). Rompe-se o equilíbrio relacional, e dá-se rédea solta à tendência humana de dominar, de cobiçar o bem do outro. Transforma a opressão em “norma social”.


Qualquer rabino, qualquer mestre da época, podia ter pontos de vista diferentes, mas todos estavam decididamente de acordo com a lei atribuída a Moisés.  A Lei não é absoluta como todos pensavam. Só a dureza de coração, expressa na conduta religiosa, a justifica assim. Jesus ultrapassa o próprio Moisés e apela para o desígnio divino original: homem e mulher possuem igual dignidade (dignitatis = direito próprio de alguém). Diante de Deus, homem e mulher têm direitos e deveres iguais, informa Jesus, no debate.


Na realidade, Jesus continua sustentando a igualdade da mulher, uma vez que o costume reivindicava dignidade somente para o varão. Os discípulos, androcêntricos por formação cultural, atônitos, perplexos, sorvem a lição evangélica para a vida do homem e da mulher no Reino de Deus. A mulher, a duras penas, vai-se libertando numa luta específica de anos e  séculos para superar a herança infernal de humilhação e desvalorização à qual foi submetida.


A triste herança da nossa cultura, influenciada pela moral judaico-cristã-muçulmana, é um fardo que vai exigir séculos para ser superada. Mas, não é só nossa herança que determinou a atual situação. O que era na Grécia antiga, confinada ao gineceu — cuidado maternal, no espaço educativo e no projeto da democracia ateniense –, não difere muito do que aconteceria no cristianismo. O que significava a mulher para a tal democracia greco-romana? Elas votavam, discutiam, influenciavam alguma coisa? Não.


No Brasil, realidades diferentes envolvem a mulher. Nesse campo, o da democracia com o exercício dos direitos humanos, tão recente, pode estar a chave do igualitarismo pregado por Jesus. A sociedade contemporânea, apesar de ser sensível à igualdade de direitos da mulher, não consegue superar completamente atitudes tão antigas como a própria humanidade. No trabalho temos um dos exemplos. Mulheres têm remuneração inferior à do homem.


É preciso perguntar sobre a convivência feminina em igualdade além da convivência religiosa, do Carnaval, das escolas de samba, do catolicismo e do pentecostalismo populares, onde mulheres aparecem como protagonistas inevitáveis. A presença esmagadora da mulher confere-lhe uma importância artificial, com massivo destaque na mídia televisiva. Poucas mulheres aparecem nas consultas sobre economia humanizada, questões étnicas, redução da pobreza e igualdade sócio-econômica.

Na política – onde a inserção é mínima como é mínimo o comparecimento feminino nos diálogos da cidadania reivindicatória –, nas lutas por igualdade em direitos fundamentais, direitos sociais; na luta contra a fome e a pobreza, a presença feminina é exígua. As últimas manifestações  equivocadas para o impeachment da presidenta mostraram o quão ridícula, também, é a mulher sob exposição pública, inconsequente, em momentos tão graves como é a atual crise política que o país atravessa.


Às vezes, tem-se a impressão de que as relações de propriedade privada, base fundamental do capitalismo, chegou também à relação da mulher com a política. A sociedade civil já a consagrou assim, esperamos que não em definitivo. Apesar de serem maioria – 51,95 % da população nacional –, menos de 10 % das mulheres brasileiras atuam em cargos públicos eletivos, no País. E, destas, o percentual que se compromete nas lutas por direitos fundamentais. Ali, mulheres apoiam a violência contra a população jovem mais vulnerável, embora sob contornos de uma esquisita invisibilidade, visto como “inexistente”.  


As referências que povoavam o subconsciente humano, especialmente o dos que vivem no Ocidente, falam de uma experiência de Deus; expressam uma proximidade com transcendências na moral, na ética, nos valores que negam a desorganização dos sexos; nas personagens de Sodoma e Gomorra, depois passando pela capital celeste, Jerusalém, “que mata os profetas…”, chegando finalmente à Babilônia, “a grande prostituta”.


A mulher leva a pior, sempre, nas memórias da Escritura. Porém, é a própria Escritura que corrige injustiças históricas: “Não haverá pobres e oprimidos no meio de vós”; “não desampararás o órfão e a viúva”. As imagens marcantes da fé cristã, associadas à vida social sob discriminação e preconceitos religiosos, lembram a dignidade da mulher como ventre onde a vida, semente, se desenvolve irrevogavelmente. Nas questões onde se apontam a liberdade e igualdade para a mulher, há uma longa jornada pela frente…


Temas como educação, direitos da mulher, escolha livre, combate ao autoritarismo, liberdade e democracia; combate à discriminação feminina, libertação quanto aos dogmas das confrarias masculinas, sem sofismas e muletas sentimentais, comparecem. Livre de prejuízos na vida social e nas políticas governamentais, a luta da mulher continua. Sem dúvida, como parte integrante do combate compartilhado igualmente por homens e mulheres comprometidos na luta pela eliminação de toda exploração, injustiça e preconceito com quais e quaisquer que sejam as vítimas. Assim, a mulher é abraçada pelo evangelho do Reino de Deus. Isso Jesus ensinou, desafiando os costumes de seu tempo.

Derval Dasilio |||||||||||||||||||||||||||||||||||

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