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25o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B”

imagem da confusão

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Ester 7,1-10; 9,20-22–43: Fomos vendidos e escravizados, eu e o meu povo | Salmo 124 – Nosso socorro vem em nome do Senhor| Tiago 5,13-20 –  Confessai-vos uns aos outros e sereis curados | Marcos 9,38-50 – É por nós quem não é contra nós

Jesus não está falando de religião e doutrina, e sim das dificuldades do caminho e da chegada e entrada no reino, aqui e agora: “Estreita é a porta e apertado o caminho que conduz para a vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt,7-14; cf. G.Kümmel, Síntese Teológica do NT, Paulus/Teológica, p.56), quando aborda a questão: O Senhorio de Deus sobre o mundo). Surge, então, uma aguda pergunta: a proclamação de Jesus da proximidade do Reino de Deus é pregação de salvação? 

Devemos responder com um “sim”, o todo contaminado pelos pecados estruturais não difere do ser total “pecador”, de cada homem e de cada mulher, ou da particularidade do ser necessitado de salvação. Todos somos responsáveis pela sociedade, observando as contradições e contrastes no lugar onde estamos. Minuto a minuto podemos observar o que temos em comum com favorecidos e desfavorecidos pelo stablishment, e como a manipulação das massas e das sociedades se dá, enganando a opinião pública. O mundo tecnológico, abarrotado de celulares, internet, redes sociais, permite-nos ver e observar a narrativa da injustiça mascarada no espaço virtual.

A localização do mal, seja ela qual for, numa sociedade ou numa nação, é um fenômeno extremamente complexo, mas não podemos viver sob estereótipos e suposições. O mundo concreto, observado por olhos críticos e indignados, mostra-nos como se filtram a realidade das desigualdades e injustiças. A sociedade em que vivemos é habitada por monstros e demônios da qual emanam perigos, enquanto constituída de aparências. A pessoa normal, bondosa, bom pai de família, bom vizinho, recusa-se a conceder às outras o mistério da salvação, nem indaga sobre solidariedade, misericórdia e compaixão, dignidade, em uma linguagem sensível, diria Leônidas Donskis.  

A questão ontológica é inseparável, na salvação do “ser social”, inclusive, como João Dias de Araújo escreve no hino: “não só a alma do mal salvar, / também o corpo ressuscitar”. A questão é seguramente pedagógica, também. O entorno e cenário são a mesma casa em Cafarnaum, onde Jesus ensina e prepara seus discípulos para a missão de Deus. O conjunto social comparável mostraria a existência de condições horríveis, quando o ambiente comum não permite interpretar a realidade camuflada. Enquanto não se permite interpretar os sofrimentos e os fatos que levam à própria opressão.

A fuga dos dilemas humanos reais aprofundam a necessidade de salvação, lembraria o evangelho. Se alguém não tem coragem de olhar nos olhos de uma criança inocente que passa fome; se não consegue ver que condições extremas de insalubridade comunitária; se não consegue entender que as decisões sobre distribuição de bens sociais, escola, saúde, habitação, trabalho e riquezas dependem de quem governa; se desvia o olhar da miséria a que se submetem milhões de seres humanos, não pode compreender a linguagem da salvação. Não lhe é dado entender a linguagem capaz de alterar os rumos do mundo impiedoso, sem misericórdia ou solidariedade.

O formato invisível daquilo que destrói a vida de uma sociedade inteira, lado a lado com um Estado insensível, o qual se presta a atender aos já privilegiados pela economia de concentração individual de riquezas, rendido totalmente a interesses do grupo que, sozinho, detém a maior parte das riquezas existentes. Assim, as estatísticas passam a ser mais importantes que a vida humana, programas sociais, a distribuição igualitária de  bens, como educação, saúde, habitação e ocupação laboral. O desempenho da economia é mais importante que o valor dos indivíduos, das sociedades oprimidas pelo sofrimento cotidiano.

A irreversibilidade do mal, vista por olhos fatalistas ou conformados com a injustiça, é muito mais do que se pensa. Nada é mais perigoso para a sobrevivência humana que entregar-se a uma concepção abstrata sobre demônios e espíritos malignos, que conhecemos através da literatura e obras dos antigos filósofos da Grécia antiga. O mal latente assume a máscara do conformismo enquanto esconde sua fraqueza para o confronto com a salvação que nega sua irreversibilidade. 

Os apóstolos proíbem utilizar o nome de Jesus e curar alguém que “não é dos nossos” (Marcos 9,38-50), num primeiro momento. Mas Jesus, com uma visão ecumênica ultra aguçada, impede que se proíba de fazer o bem a quem e por quem não seja do próprio grupo religioso, porque “quem não está contra nós está a nosso favor”. 

Quem está a favor de Jesus (9,38-41)? Julgar que Deus só age dentro de uma instituição ou grupo é equívoco ou não? O que acontece fora da circunscrição denominacional é olhado com desconfiança por nós? Achamo-nos “exclusivos”? O coletivo e a solidariedade, valorizar as ações em favor dos despoderados, sem direitos e cidadania; a exclusão dos bens sociais igualitários; a correção de injustiças sociais, em favor da inclusão e da dignidade, fora do círculo restrito das comunidades do movimento de Jesus, é uma exigência no discipulado da fé? Perguntamos sobre as ações dos demais?

Marcos demonstra que os discípulos pensavam assim: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lhe proibimos, porque ele não nos segue” (9,88). Jesus corrige a mesquinhez antiecumênica mostrando que a ação de Deus está na produção de meios para a sustentação da vida e da justiça: “Não lhe proíbam, pois ninguém faz um milagre em meu nome e depois pode falar mal de mim. Quem não está contra nós, está a nosso favor” (9,39-40).

A ação salvadora, libertadora, contra o mal, a fome, a injustiça, a miséria – prerrogativas do discipulado no movimento de Jesus – é bem-vinda, sempre, venha de onde vier. Também essas, se estiverem alimentando a esperança e a vida, receberão a recompensa de Deus (9,41). Cabe-nos compreender a essência do discipulado de Jesus, identificando o cenário onde a causa de Deus se apresenta no drama das misérias humanas, retratos da injustiça social e das desigualdades existentes:  

“Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? Ou com sede, e te demos de beber? Quando te vimos exilado, forasteiro, e te acolhemos? Ou nu, e te vestimos? Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te?” (Mt 25,31-45)./

Derval Dasilio |||||||||||||||||||||||||||||||||||

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