A REFORMA E OS PROTESTANTES QUE NÃO PROTESTAM

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1Pd 2,9-10; Ap 5,9-10;20,6 –  Sacerdotes, ministros e ministras da Igreja / Romanos 3,9-18 –  Não há um justo, sequer um… / Salmo 31 –  Só tu me remiste, Deus da  verdade

lutero um

Cuidemos do princípio protestante, como lembrava Paul Tillich. Este imprime a intuição sobre a função histórica do protestantismo. Ele desmascara os ídolos religiosos, os santos e as imagens, como as máscaras da própria Bíblia. Desmascara os ídolos políticos, o papa, os pastores, e o próprio status quo das igrejas oficiais e influentes quanto ao exercício das leis que regem uma nação, e do moralismo das elites burguesas eclesiásticas ou pretensamente cristãs.

Sobre tais assuntos, regidos por três pontos: Sola Gratia, Sola Fide e Sola Scriptura (Só a Graça, Só a Fé e Só a Escritura — que não são exatamente as milhares de versões doutrinárias da Bíblia; é preciso lembrar, também, que os primeiros cristãos ainda não dispunham de uma “bíblia”, mas se reportavam à tradição escriturística preservada nas escolas rabínicas do seu tempo; “Só a Escritura” é um princípio que evoca o esforço de volta às fontes do Cristianismo).

Contrapõem-se à Reforma às ideias dominantes, que se manifestam em paráfrases negativas. Graça: só através da Igreja — a Reforma diz não; Salvação: somente pelas obras meritórias, a Reforma diz não; Ensinamentos, só através do magistério exercido pelo papa — ou quaisquer lideranças eclesiásticas supremas –, a Reforma diz não. Tudo isso, como afirmação ilegítima,  necessitava de reformulação, especialmente no referente às liberdades humanas e aos direitos dos mais fracos. Sob a teoria das duas espadas (Inocêncio III), a igreja estabelecia sua força mantendo o poder espiritual comandando e sustentando seu poder político sobre a “recente” Europa carolíngia.

A Reforma, no tabuleiro das políticas ocidentais, dá o cheque-mate ao mundo espiritual imperialista, autoritório, absoluto, que pretendia governar o mundo com vestes clericais e símbolos religiosos que impõem  poder aos tiranos, dão-lhes a força das armas e poder político absolutista, enquanto  enfraquece os suspiros dos oprimidos.  O poder político-religioso era questionado desde as fortalezas e portões de ferro que separavam pobres e fracos dos dominadores imperiais e poderosos.


Em questão as denúncias protestantes: “prerrogativas do estado religioso sobre o estado civil”; “prerrogativas de  instâncias religiosas oficiais sobre a interpretação das Escrituras”; “prerrogativas divinas para os mestres da igreja”; “prerrogativas para convocar a igreja aos concílios, para receberem suas orientações” (conformação tirânica aceita por consenso inautêntico). Representando a tirania eclesiástica, uma igreja na Alemanha mantinha 17.413 relíquias sagradas, para as quais se exigia veneração mediante pagamento de indulgência, comportando 128.000 anos de “direito à salvação do inferno, e lugar garantido no céu”.


A Reforma afirma que a Graça vem da iniciativa de Deus, e não pela oferta da salvação homologada pela Igreja; a Salvação é a fides concreta, fides incarnata, fé ativa nas obras que libertam. O Discipulado cristão, vem em primeiro lugar, pelo testemunho libertador das Escrituras (e aqui se introduziu um erro de origem: os reformadores se asseguraram, principalmente, da autoridade do Novo Testamento, em favor das liberdades humanas; não se faz o mesmo com o Antigo Testamento, notadamente no que se refere aos códigos que alicerçaram o autoritarismo fundamentalista do judaísmo formativo, também testemunhado no meio evangélico como se fora parte das leis “cristãs”).

Necessitamos do protestantismo bem identificado, porque nem todos evangélicos são “protestantes”, no rigor do termo, especialmente hoje, na oposição aberta que alguns evangélicos dedicam aos protestantes históricos, especialmente os que estão comprometidos com o Movimento Ecumênico, embora se dediquem, no meio evangélico, doses maiores de “ódio religioso” ao  catolicismo. Nada, no mundo eclesiástico, é mais representativo da Reforma que o movimento pela unidade dos cristãos, sob a orientação revolucionária, em torno de diaconias libertárias.

O CMI e suas igrejas filiadas, representam um movimento de solidariedade aos oprimidos do mundo inteiro. Inclusive a Criação, o Planeta Terra, aviltados e espoliados; inclusive os desterrados e refugiados, banidos, excluídos, os pobres, os famintos, em todos os quadrantes do mundo habitado (oikumene). A oração ecumênica, pronunciada em todas as línguas e dialetos, em toda a parte, evoca a confiança que as Escrituras oferecem aos cristãos: “Na nova era, a comunidade mundial será redimida. Sob a égide de Deus, estabelece-se uma nova etapa na história do mundo. O relacionamento com Deus será tão íntimo que Deus se dispõe a responder aos oprimidos mesmo antes que estes o procurem. A oração ecumênica: Deus, em tua Graça, transforma o mundo, é também o clamor do cristianismo ecumênico”.

Nos opositores da Reforma se encontrará também uma espécie de ódio filial  aos “pais da igreja”, e à própria matriz comum da Igreja Apostólica total, geral, (ekklesia katholikos). No rigor histórico, até o cisma de 1054, a Igreja  Romana e a Bizantina (matriz da Igreja Ortodoxa) são uma só. Duas coisas, duas interpretações. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências religiosas bem variadas, no reconhecimento das origens da Igreja, calcados no fundamentalismo “anti-histórico” como absoluto, negando a catolicidade real ainda existente. Essas tendências vêm acompanhadas de doutrinas tão variadas quanto a forma de organizar uma denominação particular, como se fora ela a “autêntica”, a primeira igreja verdadeiramente cristã, na história do Cristianismo.

A misericórdia de Deus se apresenta aos homens e mulheres pecadores presos aos sistemas de pensar do passado autoritário; sua compaixão pelos pecadores presos à sua religião e doutrinas, como a do particularismo denominacional, ou religioso, se manifesta. Porque os homens e as mulheres, além de não encontrarem salvação em suas obras, não se salvam nem de si mesmos e nem da corrupção ou depravação que os acompanham (João Calvino).  Comentando o Catecismo de Calvino, Karl Barth diz mais: “É Deus quem toma a iniciativa de salvação; é Deus que vem ao encontro do homem para salvá-lo”.

A Salvação é por Graça, ato espontâneo e divino do Pai que ama os filhos que fogem e se afastam do roteiro oferecido inicialmente para o caminhar na fé. A Salvação nunca ocorrerá por qualquer manifestação ou procura de santidade superficial de nossa parte — “vida consagrada como caminho para a salvação” –, em penitência, em esforço espiritual para o pagamento das nossas dívidas.

Nada levará à salvação, libertação material ou espiritual; nada se assemelha à gratuidade divina. Lutero diria mais, escrevendo a Melanchton angustiado por sentir que não podia livrar-se por si mesmo do pecado: Esto peccator et pecca fortiteter, sed fortius fide (“seja um pecador, e peca fortemente, mas creia ainda mais firmemente”; esteja confiante na graça da salvação).

Por tantas divergências e tendências, algumas das doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se fragmentaram irreparavelmente. Tal como um vaso de porcelana de alto valor, quebrado em mil cacos, divergências superficiais tornaram-se profundas, na luta pela supremacia eclesiástica ou doutrinal do evangelicalismo.

Teses da Reforma não passam de “lembranças nebulosas”, hoje, em várias situações. Protestantes “não protestam mais”, ao que parece. Nem mesmo heresias revividas e requentadas mais recentemente dentro do pentecostalismo moderno (montanismo, arianismo, docetismo, pelagianismo, etc.), trazidas desde a Igreja Antiga (primeiros séculos do Cristianismo), têm merecido o devido protesto. O corporativismo evangélico funciona como uma mordaça, não lembra a unidade na Reforma, nem de longe. Mas, “se todo mundo é evangélico, ninguém é evangélico” (cf.Luiz Longuini Neto).

Resta dizer que a oikumene compreendia a  Igreja católica, originalmente universal, abrangente, total (katholikos), no Protestantismo emergente.  A democracia do laós (povo) de Deus, nunca existiu, ao que parece, porque ainda está por vir. Ou, se existe em muitas comunidades reformadas, está por restringir-se, ou em retrocesso, onde foi alcançada, creio. Quando o Segundo Testamento (1Pd 2,9-10; Ap 5,9-10;20,6) refere-se à substituição da elite  sacerdotal israelita, ministros ordenados para o culto, o serviço, o sacrifício penitencial, a intercessão, pelo povo da fé, um por um, autoriza-se a todo cristão e toda cristã a colocarem-se, por vocação original e verdadeira, como sacerdotes e sacerdotisas do Reino de Deus. A igreja não alcança sozinha todas   as prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade do governo de Deus na terra.

Homens e mulheres, nos ministérios da Igreja, ordenados ou comuns, são o laós  sacerdotal do reinado de Deus. Algo que será interpretado teologicamente na carta aos Efésios (4,9-16): Lutero diria que todo o povo da Igreja é sacerdotal.  Calvino dirá mais: toda a Igreja é ministerial (cf. também Karl Barth). Como ficamos?

Eram unânimes: a “oikumene” cristã é reconhecida (a palavra grega oikumene refere-se a estar debaixo do teto universal, a casa do homem; os homens e mulheres, cristãos ou não, moram numa mesma casa, debaixo da mesma cobertura cósmica). Nenhum reformador fundou sua denominação protestante. O período é de Confessionalismo, durante o século dezesseis, grupos confessionais se acreditavam dentro da mesma Igreja, jamais separados.

Essa era a Igreja que restara do cisma de 1054, no Ocidente. O princípio “Igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos, segundo a patrística cristã. Reformava-se a Igreja dentro da Igreja.  Nenhum reformador falou da criação de outras igrejas. Menos de dois séculos depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo individualista e posteriormente pelo evangelicalismo exclusivista. Protestantes são apontados como crentes que não protestam mais…

Derval Dasilio

NOTAS
Algumas das idéias da Reforma que não são observadas — talvez, nunca foram observadas –, em vários casos: “sacerdócio real de todos os crentes”. Negado como tal, apresenta a rejeição da unidade reclamada por Jesus na oração sacerdotal (Jo.17): “Pai, oro para que sejam um, assim como Eu e Tu somos Um”. A distorção desse pedido do Senhor da Igreja, na defesa do particularismo de denominações e de pessoas, bem demonstra que os reformadores foram esquecidos em seus acordos doutrinais. Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John Knox, Bullinger, Ecolampádio, e tantos outros — eram muitos –, dirigiam a Reforma na Europa Continental e nas Ilhas Britânicas no sentido de uma popularização da fé original da Igreja. Impossível esquecer Kranmer, o reformador mártir da Igreja Anglicana.

Pascal, um século depois dos reformadores, diria: “O homem é só um caniço açoitado pelo vento. Não é preciso o universo inteiro armar-se para esmagá-lo: um jato, um vapor, uma gota d´água, podem matá-lo”. Ainda Pascal: “A grandeza do homem é saber-se miserável. Sobre a presunção da salvação pelo conhecimento, ou pela razão, diria mais: “Humilhai-vos, razão impotente; calai-vos, natureza imbecil (que se justifica a si mesma). Sabei que o homem se supera infinitamente (reconhecendo sua miséria). Escutai Deus” (cit.:Robert Feullet, A História da Salvação da Humanidade).

É preciso crer que a justificação só é alcançada pela fé na gratuidade divina, graça incondicional… Mas quem não conhece a pregação que desmente e desqualifica a doutrina da Salvação defendida pelos reformadores do século XVI, quando se nega até mesmo a unidade da Igreja de Cristo na diversidade? Cabe-nos, apenas, reconhecer que a Graça de Deus é destinada a todos, homens e mulheres, e todos necessitamos dela.  A Igreja, por ser pecadora, também depende da misericórdia de Deus (Áureo Bispo). Há pecado maior que negar a comunhão da mesma fé aos irmãos de outras tradições?

Derval Dasilio

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A PROPAGANDA, O PODER E A CORRUPÇÃO

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poderVamos contar fábulas, ou parábolas, como Jesus gostava de fazer, e dessas que o Millor Fernandes (re)escrevia com tanta habilidade? Na capa de seu livro “100 Fábulas Fabulosas”, obra de fino humor e grande inteligência, se lê esta frase: “Muito tempo antes do homem se organizar em Estados (homo politicus), já existiam lobos ferozes proibindo carneiros de beber sua água. O homem não tinha pensado em construir cidades, quando raposas finórias e sem escrúpulo arrancavam queijos do bico de corvos ingênuos. E quando o último homem apertar o botão (no apocalipse nuclear), haverá sapos coaxando nos pântanos cantando a glória e a sedução do lodo pantanoso”.


A corrupção está na religião, na economia de mercado, no judiciário, nas câmaras legislativas, no Congresso Nacional, nos sindicatos e nos partidos políticos, sem dúvida. Há quem não hesite em usar meios escusos, mesmo quando se trata de dividir comunidades tradicionais, alcançando milhões de membros. O nome “cristão”, “evangélico”, já não é garantia de invulnerabilidade ética. Que são os que estarão dispostos a aprender com as crises das instituições e qualquer forma de poder para um certo e “necessário” controle de fatos políticos, inclusive em situações eclesiásticas?


De um modo inaceitável, cultivando-se exceções éticas em todas as situações, as pessoas tornam-se comercializáveis do mesmo modo que partidos políticos admitem, nos cargos públicos, fraudes em concorrências comuns, e enriquecimento ilícito. Um paradoxo decisivo sobre as decisões que devemos tomar, no cotidiano das compras e negócios. A própria descartabilidade de princípios fundamentais, a magia da corrupção reciclada desde os tempos da casa-grande e senzala, lembrando Gilberto Freire, quando ministros do judiciário, notoriamente  envolvidos com atos ilícitos, julgam adversários políticos com aprovação pública irresponsável, impedindo observar-se a doença terminal sem terapia, nos primeiros socorros para os males imediatos, que são os comportamentos inaceitáveis por uma ética verdadeira.


Confortados por nosso conhecimento, sentamo-nos diante da Tv para assistir – absortos, encantados, enfeitiçados e arrebatados – à próxima temporada do reality show da hipocrisia. No julgamento da corrupção dos outros, quando se isentam os amigos e correligionários. Tudo conta a mesma história. A não ser uns poucos solitários, contra a correnteza, entre os que não mais se ajustam ou não desejam ser explorados dessa maneira, sabedores de que sobrevivência é o nome do jogo da convivência humana, e que o derradeiro fim é sobreviver aos outros que já se entregaram. Quem viu Sonhos, de Kurosawa, na parábola dos alpinistas perdidos numa tempestade de neve, que se entregam e morrem, sem ver que já estavam a salvo dentro do acampamento?


Ficamos fascinados com o que vemos – tal como Salvador Dalí ou Tarsila do Amaral desejavam que ficássemos, diante de suas telas, ao se esforçarem por exibir os conteúdos profundos e ocultos de nossos medos e fantasias subconscientes. Os mesmos que Sigmund Freud descreveria, afundando no vasto depósito de assombrosa criatividade inconsciente, nas representações do mal oculto nas rachaduras da alma do ser humano, empenhado em esconder as verdades e os princípios mais caros da ética fundamental.


Nem George Orwell imaginou tal mundo de acolhimento aparente, de aproximação para a transformação para os padrões que professam novos padrões na sociedade pós-industrial. As grandes questões passam ao largo. Como a discriminação racial, a fome, as desigualdades, a má distribuição dos bens sociais, a miséria, os hospitais que funcionam como açougues, as escolas caindo aos pedaços – quando não levadas na primeira enchente.


Mas riqueza não é dinheiro, é a produção de coisas que podem ser compradas com dinheiro: alimento, educação, saúde, longevidade (que é o que você leva quando compra um antibiótico da nem sempre escrupulosa indústria farmacêutica), disse Alexandre Versignassi [SuperInteressante – out./2015]. Entre as intenções egoístas de concentração e acumulação, que resultam em riqueza que não paga impostos justos, algumas são mais egoístas, e só produzem aberrações. O Brasil exorbita nos juros de 400% ao ano que se pagam no cartão de crédito – contra meros 40% no Peru, 24% no México ou 20% nos EUA. São desvarios do sistema financeiro, juros ocultos que escorcham o consumidor. Além da malandragem oficial do Estado, para arrancar cada vez mais impostos, concorrendo com tais práticas.


Jovens são mantidos em excitação permanente. O consumo de aparatos que levam usuários às nuvens são sinalizações orientadoras. Redes sociais na internet são semelhantes a imensas jaulas, onde se prende e se alimenta a fé na ganância. Templos gigantescos também propõem as possibilidades de um grande mercado. Como resultado, uma grande produção de fieis à mercê de personalidades midiáticas, também disponíveis no melhor lugar das salas evangélicas e católicas, abraça a negação da solidariedade.


Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância do mesmo. Um fantasma assombra quem vive na cidade calcada na confiança em políticos inescrupulosos e tecnologias que o “salvarão”. Repercussões do racionalismo instrumental na simulação do julgamento da corrupção por meses a fio. Não há futuro desse juízo, todos sabemos da recorrência que não afeta a memória de ninguém.

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29o DOMINGO DO TEMPO COMUM
DEPOIS  DE PENTECOSTES – ANO “B”
Jó 38,1-7 (34-41) – Quem é este que obscurece os meus desígnio. / Salmo 104,1-9 (24 e 35c) – Um divisor de águas à nossa frente. / Hebreus 5,1-10 – O Sumo Sacerdote é rodeado de homens fracos. /Marcos 10,35-45 – Jesus: “Poder…vocês sabem o que estão pedindo?”.

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Marcos 10,35-45 – Hoje, o evangelho de Marcos apresenta um detalhe que se encaixa à realidade do ensinamento de Jesus sobre a vida pública, no ministério para o qual foi enviado, que é reconhecido por nós como revelação do projeto de Deus. Muitas reações vão aparecendo, entre os discípulos, seus ouvintes preferenciais. Marcos tem uma intenção transparente: é preciso tomar decisões; há um caminho a ser trilhado para se chegar ao Reino, roteiro para o qual também não há atalhos; é preciso conversão, metanoia (mudança nos rumos tradicionais da moralidade, da religião e da política); é necessário adotar um espírito novo, crítico das realidades no entorno, no quotidiano, na vida política e “cidadã”; é preciso tornar-se puro como a criança, descontaminada e ainda não contagiada pela inclinação  à corrupção; distantes de  homens e mulheres maduros corruptores ou corrompidos, para “entrar” no Reino de Deus e participar de seu reinado; a missão integral de Deus, que alcança o ser, as instituições humanas, as ideologias, não se confunde com a sede de poder ou com propostas políticas de dominação.


O projeto de Jesus, no seguimento da missão de Deus, não está sujeito às inclinações e ideologias do momento.  A reação de Pedro, que precisa ser entendido como porta-voz do grupo todo de discípulos, diante do anúncio da Paixão (Mc,8,31-33), que resultaria na entrega total do homem Jesus  à causa; que o levaria ao despojamento total de atributos e capacidades divinais – as quais lhe garantiriam “poder” sobre seus perseguidores e algozes (cf. Fl 2,5-8; kenosis, esvaziamento em favor da solidariedade humana); que poderiam livrá-lo de todo e qualquer sofrimento e angústia; que impediria o derramamento de sangue, evitando-se o martírio em favor da “grande causa” ensinada desde os Céus, demonstra muito bem o pensamento dos discípulos.


A incapacidade dos discípulos de entenderem que a exorcização de demônios, espíritos imundos contidos nos sistemas de pensar, é também uma missão compartilhada na pluralidade cultural e religiosa dos que fazem o bem sem serem do grupo oficial de seguidores do Cristo (Mc 9,38-50) – quando os apóstolos proíbem utilizar o nome de Jesus e curar, alguém que “não é dos nossos”, num primeiro momento, Jesus, com a visão ecumênica ultra aguçada, impede que se proíba de fazer o bem a quem e por quem não seja do próprio grupo religioso, porque “quem não está contra nós está a nosso favor”).


Tudo isso é parte das dificuldades no seguimento do Evangelho de Deus. E o pior acontece quando a perplexidade toma o pensar discipular favorável à disputa de posições de mando, reivindicando “poder” sobre outros (Mc 10,37). Têm que ouvir: “Vocês sabem o que estão pedindo? Estarão vocês também dispostos a beber o cálice que eu vou beber?” Refere-se Jesus ao martírio testemunhal inevitável em andamento, como consequência da fidelidade radical ao evangelho.


Há bastantes evidências, neste texto, que Jesus preparava seus discípulos para os sofrimentos da Causa. Apesar das tradições mais sutis se esforçarem por interpretarem-no como “sofrimento espiritual”, simbólico, o que os discípulos ouvem refere-se a realidades concretas, inevitáveis (martureo: testemunhar, é o verbo adequado aqui) para quem se disponha a seguir as orientações de Jesus (cf. Joaquim Jeremias, Teologia do Novo Testamento). Que ensinamentos são estes? Desaprender o que se lhes ensinavam sobre o mal irreversível, governos políticos autoritários, especialmente quando esse ensino exclui de sua esfera o mal da religião de regulamentos e leis que sustentam a injustiça; esvaziar a consciência do fatalismo e dos determinismos históricos, os  quais negam a liberdade da fé nas transformações e esperanças de um mundo novo possível; mudar o rumo, converter-se à Causa do Reino,  para cumprir, como Jesus, a missão salvadora e libertadora de Deus, sob o sofrimento da incompreensão, da condenação e da cruz.


Pensar em vantagens, benesses, partilhar do poder, são incongruências  no seguimento de Jesus. Renunciar ao “poder”, negando o fortalecimento ou a legitimidade de estruturas e instâncias de poder e domínio iníquo, autoritário, injusto, absolutista, é a primeira exigência do discipulado do Cristo de Deus. Mas não nos confundamos com o paradoxo: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, as palavras de Jesus, biblicamente, permite-nos exercer nossa cidadania com segurança. Para manter-se o Estado de direito, a exigência para que afirmemos nossos posicionamentos face aos processos democráticos, notadamente quanto à escolha daqueles que deverão dirigir a nação, torna-se numa oportunidade de obediência evangélica.


Jesus disse também: “meu reino não é deste mundo”, isso implica em que “o reino de César é deste mundo”. Mas Deus ama o mundo humano (Jo 3,16), e entregou o Filho para assumir essa humanidade às últimas consequências. E João (3,19-21) não ignora a krisys permanente do mundo, em seu verdadeiro sentido: julgamento, condenação, separação… “o mundo está sob julgamento…”  “Deus separou luz e trevas…”  “Deus amou o mundo…” são parte da teologia evangélica sobre a polaridade entre a luz e as trevas, que também afirma: “eles amaram as trevas…”  “o perverso busca as trevas para agir impunemente…” “ não  peço que os tireis do mundo, mas livrai-os do mal…”  


O serviço ao mundo amado por Deus é diaconia voltada para as desigualdades sociais e políticas, para as transformações que contemplarão os famintos, em todos os sentidos, excluídos, marginalizados, despoderados, sem cidadania e sem dignidade, dominados pelos falsos determinismos da miséria e da fome,  todas!, apontam à obediência a Jesus: “Íde, fazei discípulos em todas as nações…”(Mt 28,18-20).

Derval Dasilio
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poderVamos contar fábulas, ou parábolas, como Jesus gostava de fazer, e dessas que o Millor Fernandes (re)escrevia com tanta habilidade? Na capa de seu livro “100 Fábulas Fabulosas”, obra de fino humor e grande inteligência, se lê esta frase: “Muito tempo antes do homem se organizar em Estados (homo politicus), já existiam lobos ferozes proibindo carneiros de beber sua água. O homem não tinha pensado em construir cidades, quando raposas finórias e sem escrúpulo arrancavam queijos do bico de corvos ingênuos. E quando o último homem apertar o botão (no apocalipse nuclear), haverá sapos coaxando nos pântanos cantando a glória e a sedução do lodo pantanoso”.


A corrupção está na religião, na economia de mercado, no judiciário, nas câmaras legislativas, no Congresso Nacional, nos sindicatos e nos partidos políticos, sem dúvida. Há quem não hesite em usar meios escusos, mesmo quando se trata de dividir comunidades tradicionais, alcançando milhões de membros. O nome “cristão”, “evangélico”, já não é garantia de invulnerabilidade ética. Que são os que estarão dispostos a aprender com as crises das instituições e qualquer forma de poder para um certo e “necessário” controle de fatos políticos, inclusive em situações eclesiásticas?


De um modo inaceitável, cultivando-se exceções éticas em todas as situações, as pessoas tornam-se comercializáveis do mesmo modo que partidos políticos admitem, nos cargos públicos, fraudes em concorrências comuns, e enriquecimento ilícito. Um paradoxo decisivo sobre as decisões que devemos tomar, no cotidiano das compras e negócios. A própria descartabilidade de princípios fundamentais, a magia da corrupção reciclada desde os tempos da casa-grande e senzala, lembrando Gilberto Freire, quando ministros do judiciário, notórios em envolvimento com atos ilícitos, julgam adversários políticos com aprovação pública irresponsável, impedindo observar-se a doença terminal sem terapia, nos primeiros socorros para os males imediatos, que são os comportamentos inaceitáveis por uma ética verdadeira.


Confortados por nosso conhecimento, sentamo-nos diante da Tv para assistir – absortos, encantados, enfeitiçados e arrebatados – à próxima temporada do reality show da hipocrisia. No julgamento da corrupção dos outros, quando se isentam os amigos e correligionários. Tudo conta a mesma história. A não ser uns poucos solitários, contra a correnteza, entre os que não mais se ajustam ou não desejam ser explorados dessa maneira, sabedores de que sobrevivência é o nome do jogo da convivência humana, e que o derradeiro fim é sobreviver aos outros que já se entregaram. Quem viu Sonhos, de Kurosawa, na parábola dos alpinistas perdidos numa tempestade de neve, que se entregam e morrem, sem ver que já estavam a salvo dentro do acampamento?


Ficamos fascinados com o que vemos – tal como Salvador Dalí ou Tarsila do Amaral desejavam que ficássemos, diante de suas telas, ao se esforçarem por exibir os conteúdos profundos e ocultos de nossos medos e fantasias subconscientes. Os mesmos que Sigmund Freud descreveria, afundando no vasto depósito de assombrosa criatividade inconsciente, nas representações do mal oculto nas rachaduras da alma do ser humano, empenhado em esconder as verdades e os princípios mais caros da ética fundamental.


Nem George Orwell imaginou tal mundo de acolhimento aparente, de aproximação para a transformação para os padrões que professam novos padrões na sociedade pós-industrial. As grandes questões passam ao largo. Como a discriminação racial, a fome, as desigualdades, a má distribuição dos bens sociais, a miséria, os hospitais que funcionam como açougues, as escolas caindo aos pedaços – quando não levadas na primeira enchente.


Mas riqueza não é dinheiro, é a produção de coisas que podem ser compradas com dinheiro: alimento, educação, saúde, longevidade (que é o que você leva quando compra um antibiótico da nem sempre escrupulosa indústria farmacêutica), disse Alexandre Versignassi [SuperInteressante – out./2015]. Entre as intenções egoístas de concentração e acumulação, que resultam em riqueza que não paga impostos justos, algumas são mais egoístas, e só produzem aberrações. O Brasil exorbita nos juros de 400% ao ano que se pagam no cartão de crédito – contra meros 40% no Peru, 24% no México ou 20% nos EUA. São desvarios do sistema financeiro, juros ocultos que escorcham o consumidor. Além da malandragem oficial do Estado, para arrancar cada vez mais impostos, concorrendo com tais práticas.


Jovens são mantidos em excitação permanente. O consumo de aparatos que levam usuários às nuvens são sinalizações orientadoras. Redes sociais na internet são semelhantes a imensas jaulas, onde se prende e se alimenta a fé na ganância. Templos gigantescos também propõem as possibilidades de um grande mercado. Como resultado, uma grande produção de fieis à mercê de personalidades midiáticas, também disponíveis no melhor lugar das salas evangélicas e católicas, abraça a negação da solidariedade.


Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância do mesmo. Um fantasma assombra quem vive na cidade calcada na confiança em políticos inescrupulosos e tecnologias que o “salvarão”. Repercussões do racionalismo instrumental na simulação do julgamento da corrupção por meses a fio. Não há futuro desse juízo, todos sabemos da recorrência que não afeta a memória de ninguém.

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29o DOMINGO DO TEMPO COMUM
DEPOIS  DE PENTECOSTES – ANO “B”
Jó 38,1-7 (34-41) – Quem é este que obscurece os meus desígnio. / Salmo 104,1-9 (24 e 35c) – Um divisor de águas à nossa frente. / Hebreus 5,1-10 – O Sumo Sacerdote é rodeado de homens fracos. /Marcos 10,35-45 – Jesus: “Poder…vocês sabem o que estão pedindo?”.

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Marcos 10,35-45 – Hoje, o evangelho de Marcos apresenta um detalhe que se encaixa à realidade do ensinamento de Jesus sobre a vida pública, no ministério para o qual foi enviado, que é reconhecido por nós como revelação do projeto de Deus. Muitas reações vão aparecendo, entre os discípulos, seus ouvintes preferenciais. Marcos tem uma intenção transparente: é preciso tomar decisões; há um caminho a ser trilhado para se chegar ao Reino, roteiro para o qual também não há atalhos; é preciso conversão, metanoia (mudança nos rumos tradicionais da moralidade, da religião e da política); é necessário adotar um espírito novo, crítico das realidades no entorno, no quotidiano, na vida política e “cidadã”; é preciso tornar-se puro como a criança, descontaminada e ainda não contagiada pela inclinação  à corrupção, homens e mulheres maduros corruptores ou corrompidos, para “entrar” no Reino de Deus e participar de seu reinado; a missão integral de Deus, que alcança o ser, as instituições humanas, as ideologias, não se confunde com a sede de poder ou com propostas políticas de dominação.


O projeto de Jesus, no seguimento da missão de Deus, não está sujeito às inclinações e ideologias do momento.  A reação de Pedro, que precisa ser entendido como porta-voz do grupo todo de discípulos, diante do anúncio da Paixão (Mc,8,31-33), que resultaria na entrega total do homem Jesus  à causa; que o levaria ao despojamento total de atributos e capacidades divinais – as quais lhe garantiriam “poder” sobre seus perseguidores e algozes (cf. Fl 2,5-8; kenosis, esvaziamento em favor da solidariedade humana); que poderiam livrá-lo de todo e qualquer sofrimento e angústia; que impediria o derramamento de sangue, evitando-se o martírio em favor da “grande causa” ensinada desde os Céus, demonstra muito bem o pensamento dos discípulos.


A incapacidade dos discípulos de entenderem que a exorcização de demônios, espíritos imundos contidos nos sistemas de pensar, é também uma missão compartilhada na pluralidade cultural e religiosa dos que fazem o bem sem serem do grupo oficial de seguidores do Cristo (Mc 9,38-50) – quando os apóstolos proíbem utilizar o nome de Jesus e curar, alguém que “não é dos nossos”, num primeiro momento, Jesus, com a visão ecumênica ultra aguçada, impede que se proíba de fazer o bem a quem e por quem não seja do próprio grupo religioso, porque “quem não está contra nós está a nosso favor”).


Tudo isso é parte das dificuldades no seguimento do Evangelho de Deus. E o pior acontece quando a perplexidade toma o pensar discipular favorável à disputa de posições de mando, reivindicando “poder” sobre outros (Mc 10,37). Têm que ouvir: “Vocês sabem o que estão pedindo? Estarão vocês também dispostos a beber o cálice que eu vou beber?” Refere-se Jesus ao martírio testemunhal inevitável em andamento, como consequência da fidelidade radical ao evangelho.


Há bastantes evidências, neste texto, que Jesus preparava seus discípulos para os sofrimentos da Causa. Apesar das tradições mais sutis se esforçarem por interpretarem-no como “sofrimento espiritual”, simbólico, o que os discípulos ouvem refere-se a realidades concretas, inevitáveis (martureo, testemunhar, é o verbo adequado aqui) para quem se disponha a seguir as orientações de Jesus (cf. Joaquim Jeremias, Teologia do Novo Testamento). Que ensinamentos são estes? Desaprender o que se lhes ensinavam sobre o mal irreversível nos governos políticos, especialmente quando esse ensino exclui de sua esfera o mal da religião de regulamentos e leis auto-sustentáveis; esvaziar a consciência do fatalismo e dos determinismos históricos, os  quais negam a liberdade da fé nas transformações e esperanças de um mundo novo possível; mudar o rumo, converter-se à Causa do Reino,  para cumprir, como Jesus, a missão salvadora e libertadora de Deus.


Pensar em vantagens, benesses, partilhar do poder, são incongruências  no seguimento de Jesus. Renunciar ao “poder”, negando o fortalecimento ou a legitimidade de estruturas e instâncias de poder e domínio iníquo, injusto, absolutista, é a primeira exigência do discipulado do Cristo de Deus. Mas não nos confundamos com o paradoxo: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, as palavras de Jesus, biblicamente, permite-nos exercer nossa cidadania com segurança. Para manter-se o Estado de direito, a exigência para que afirmemos nossos posicionamentos face aos processos democráticos, notadamente quanto à escolha daqueles que deverão dirigir a nação, torna-se numa oportunidade de obediência evangélica.


Jesus disse também: “meu reino não é deste mundo”, isso implica em que “o reino de César é deste mundo”. Mas Deus ama o mundo humano (Jo 3,16), e entregou o Filho para assumir essa humanidade às últimas conseqüências. E João (3,19-21) não ignora a krisys permanente do mundo, em seu verdadeiro sentido: julgamento, condenação, separação… “o mundo está sob julgamento…”  “Deus separou luz e trevas…”  “Deus amou o mundo…” são parte da teologia evangélica sobre a polaridade entre a luz e as trevas, que também afirma: “eles amaram as trevas…”  “o perverso busca as trevas para agir impunemente…” “ não  peço que os tireis do mundo, mas livra-os do mal…”  


O serviço ao mundo amado por Deus é diaconia voltada para as desigualdades sociais e políticas, para as transformações que contemplarão os famintos, em todos os sentidos, excluídos, marginalizados, despoderados, sem cidadania e sem dignidade, dominados pelos falsos determinismos da miséria e da fome,  todas!, apontam à obediência a Jesus: “Íde, fazei discípulos em todas as nações…”(Mt 28,18-20).

Derval Dasilio
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A PROPAGANDA, O PODER E A CORRUPÇÃO

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DEJETOS NOS PORTÕES DAS MANSÕES

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28o. DOMINGO DO TEMPO COMUM

DEPOIS DE PENTECOSTES  – ANO “B”
Jó 23,1-9;16-17 –  Quem me livrará do meu Juiz? | Salmo 22,1-5 – Nossos pais confiaram e nós também confiamos no Senhor | Hebreus 4,12-16 – A palavra de Deus corta como uma espada de dois gumes | Marcos 10,17-30 –  A riqueza é iníqua, quando não serve a todos   

dinheiro ganância

O que é “possível” para Deus: salvar o rico apesar do acúmulo de riquezas, ou “tocá-lo” para que se abra à nova justiça, renuncie à ganância, tudo, e, depois, siga Jesus? “A riqueza que não é posta a serviço da sociedade é ‘dinheiro iníquo’ e, por isso, não é sinal de justiça, mas de pecado” (R.Pesch, cit./José Bortolini). Trata-se do pecado das estruturas, especialmente. O imperativo não é “vender e jogar fora o resultado da venda”. O “tesouro no céu” da economia pode ser associado à distributividade da riqueza, bens sociais, mas na aplicação sustentável que resulta em produção e trabalho para o desenvolvimento, que o evangelho jamais nega. Faz o mesmo com a palavra dinheiro. Howard Dayton (“Seu Dinheiro”, Bless Editora) informa que há 2.350 citações na Bíblia, sobre a posse do dinheiro (gr. argúpia; heb. miqnê; lat. pecúnia, confira…).


A experiência das comunidades cristãs iniciais revela que a busca do poder e da riqueza, não produz segurança e não realiza o cristão e a cristã, enquanto seres humanos. Ao contrário, gera dependência cada vez maior no consumismo socialmente irresponsável, enquanto estimula a ganância, que se confunde com a pedagogia do sucesso e da prosperidade a qualquer custo. Comparadas com a sabedoria sálmica e a espiritualidade da Bíblia Hebraica, sem descartar a Septuaginta, essas falsas seguranças não têm valor, são como punhado de areia, como a lama, e iluminam tanto quanto luzes negras na escuridão. Isso porque geram dependência e brutalizam as pessoas, tornando-as egoístas e gananciosas.


A ganância é a irmã siamesa da opressão. O céu dos ricos é como a Avenida Paulista, centro bancário e comercial, lugar de grandes negociações para bilionários e trilhardários,  entre os mais importantes do País. Quando valorizam falsas seguranças, os seres humanos não só acabam tornando-se “insensatos”, “brutais”, “desumanos” e “tiranos”, informam as Escrituras. Os livros bíblicos sapienciais pretendem ser uma síntese das experiências que realizam as pessoas. Reforçam as relações de gratuidade (hesed = graça espontânea), de cuidado, compaixão e misericórdia pelo outro e pela outra (rahamin = solidariedade que vem das entranhas). O povo bíblico passou por momentos de grave opressão econômica, submetido a dominações poderosas, ao largo de sua história. Ele que fora chamado a ser um povo livre, interpreta os fatos passados que construíram a liberdade e a vida do povo firmada na solidariedade em comunhão.


No Segundo Testamento, o ambiente humano inicial é rememorado nas liturgias dominicais aguçando a dignidade de cada homem e de cada mulher, estimulando o debate contínuo sobre a humanização pela responsabilidade que nos envolve, nas escolhas que se devem fazer. A família, o lar, o direito aos bens sociais e econômicos, confundem-se com o cuidado para com a coletividade e todos que se encontrarão nesse círculo indestrutível. Quando a comunhão de interesses cristaliza-se na oferta socializada de emprego, habitação, ambiente urbanizado, transporte, atenção com a saúde mental e deficiências físicas; previdência e salários justos, repouso e lazer, uma constelação infindável que lembra o que é viver em dignidade sob os “céus” do Altíssimo, como Mateus gosta de afirmar em seu evangelho.


Marcos 10,17-30 – A resposta do homem rico, perguntado sobre a obediência aos mandamentos, é surpreendente: “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (v. 20). O interlocutor de Jesus é o que se poderia chamar de “justo” na vivência da Lei e da religião. Tem consciência de não haver cometido injustiças ao acumular riquezas. Sua fortuna e boa posição social é vista como bênção de Deus, pois se julga justo, e crê não ser necessário fazer mais nada para ser discípulo de Jesus. E, então, possuir a herança do Reino. Jesus lhe mostra que não basta “não ter feito nada de mal, não ter prejudicado pessoa alguma”. É preciso ir além, porque a riqueza não é bênção, e sim falsa segurança diante dos graves problemas na vida humana vulnerável e ameaçada, sob riscos incalculáveis que envolvem a pobreza e a miséria. Falta misericórdia e compaixão pelos esmagados socialmente. Aos ricos, Jesus está falando, através do jovem poderoso: “Só uma coisa lhe falta: vá, venda tudo o que tem e dê aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha e siga-me!” (v. 21).


Aí está a novidade na mensagem de Jesus, que é a mesma novidade do ser cristão. Para o rico, não basta não ter prejudicado as pessoas ao acumular riquezas; não basta ter devolvido o que pudesse ter roubado: será necessário “vender tudo”, renunciar à acumulação pessoal e repartir com os pobres, a maioria, numa partilha total. A advertência é profética: “não haverá pobres – “anawin” – no meio de vós”; “não deixarás desamparados os órfãos e as viúvas…” Alcança-se aqui o novo conceito de justiça, expressa na Bíblia: ela não nasce do cálculo legal, mas do exercício da misericórdia em relação aos pobres e desprotegidos (José Bortolini).


A rigor, só depois disso é que se poderá seguir a Jesus: “Em seguida, vem e siga-me!” Nem os próprios discípulos entendem esta colocação; eles estão esperando, de alguma forma, alguma palavra, alguma retribuição, alguma recompensa ao esforço da pregação. Mas ao ouvi-lo falar como falou se surpreendem, e por isso perguntam: será que o rico se salva?


O evangelho é direto e irrefutável. Indica que aceitemos a ortodoxia ética, bíblica, sempre, quando está baseada e fundamentada na “ortopráxis” de Jesus. Isto é, na prática da justiça (“dikaiosune”). Anunciar a “reta doutrina da tradição” é fácil, sugere o evangelho. A questão é praticá-la. O difícil é fazer o que a Lei — Código da Aliança ou Código Deuteronômico — manda. Leiamos o Deuteronômio, revisão da lei mosaica. “O Senhor disse a Moisés. Desce depressa, porque o teu povo já se corrompeu, entregue os meus mandamentos: – não haverá pobres e oprimidos na nação de Deus, Israel; não te esqueças que o Senhor te tirou da casa das escravidões (Ex 20,2); – olhei em volta e vi que vocês fundiram um bezerro de ouro (culto da riqueza) para adorar, destruam-no; – lembra-te que o Senhor faz justiça aos desvalidos, órfãos e viúvas”. Por isso, para nós, urge revisar a prática catequética que os sistemas doutrinais impuseram à hermenêutica cristã.


Como “consolar” os órfãos da utopia do Cristo de Deus — quando a Igreja se apresenta como quem tomou posse da Lei e do Espírito –, senão com a garantia da solidariedade de Deus? Como garantir um final feliz no drama da salvação, sob ideais transformadores, revolucionários; sob a justiça de Deus, vida eterna e abundante, com dignidade, sem fim, na morada com Deus — aqui e agora ? Como admitir que a pátria celestial, cidadania dos céus, no sentido bíblico se refere ao mundo em que Deus vive conosco? Como alimentar os que padecem das fomes deste mundo? Como aplacar a sede que temos nos caminhos desérticos onde secaram as fontes da vida?


A resposta está no que disse Jesus: “Pedirei ao Pai que vos envie ‘outro parakletos’, companheiro e ajudador, a fim de que esteja ‘sempre’ convosco”; “o Ajudador, o Espírito Santo, (…) esse vos ensinará todas as coisas e ‘vos fará lembrar’ de tudo que eu vos tenho dito” (cf.: Jo 14,16 – No grego, o termo “parakletos” oferece extensas possibilidade para o tradutor: defensor, advogado, companheiro, protetor e ajudador; Jesus chama-o também de Espírito da Verdade, referindo-se à divina revelação do Espírito de Deus. É indispensável o complemento (14,18-19): “não vos deixo órfãos” [“orfanus”: des-validos, des-protegidos, des-amparados]).


O fundamental de todo ensinamento cristão, contido no evangelho, é a prática da justiça de Deus, retidão ética segundo a Escritura! No serviço expresso através da exigência irrevogável por direitos fundamentais. Justiça para todos (como expressa a Carta dos Direitos do Homem, da ONU). Preferencialmente o pobre (“anawin”), o “órfão e a viúva”, os socialmente deserdados, lembrando Milton Schwantes. A comunidade cristã existe para anunciar as boas noticias do reinado de Deus à vida concreta. Converte-se ela mesma em boa notícia quando transforma as realidades da morte, das injustiças contra o fraco, em caminhos para a vida em abundância e não quando se anuncia a si mesma. Disse Jesus.


Derval Dasilio

Derval Dasilio * "Eu e a Política"

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A. Derval. black withe(0)
A riqueza é iníqua, quando não serve a todos (Evangelho de S. Marcos 10,17-30)


Renuncie à ganância e siga-me, disse Jesus. Será que o rico se salva? Sobre o “significado” das riquezas na perspectiva do evangelho, o texto generaliza: não só o que tem muitas propriedades, mas todos os que possuem fortunas, bens abundantes, correm sério perigo de não se salvar. Que é ser afortunado? Ser bem-posto, bem remunerado, proprietário de bens essenciais sem nada lhe faltar, não é ser rico?

Estar longe do desemprego, da fome, da miséria, da falta de previdência social, do atendimento à saúde, da educação de qualidade, não é ser bem-posto socialmente, portanto, rico? José Bortolini nos lembra que a afirmação de Jesus: “como é difícil entrarem os ricos no Reino de Deus!”, assusta os discípulos em escala crescente até ao “espanto” (Mc 10,24-26). O abismo entre pobres e ricos, no tempo…

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