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1Pd 2,9-10; Ap 5,9-10;20,6 –  Sacerdotes, ministros e ministras da Igreja / Romanos 3,9-18 –  Não há um justo, sequer um… / Salmo 31 –  Só tu me remiste, Deus da  verdade

lutero um

Cuidemos do princípio protestante, como lembrava Paul Tillich. Este imprime a intuição sobre a função histórica do protestantismo. Ele desmascara os ídolos religiosos, os santos e as imagens, como as máscaras da própria Bíblia. Desmascara os ídolos políticos, o papa, os pastores, e o próprio status quo das igrejas oficiais e influentes quanto ao exercício das leis que regem uma nação, e do moralismo das elites burguesas eclesiásticas ou pretensamente cristãs.

Sobre tais assuntos, regidos por três pontos: Sola Gratia, Sola Fide e Sola Scriptura (Só a Graça, Só a Fé e Só a Escritura — que não são exatamente as milhares de versões doutrinárias da Bíblia; é preciso lembrar, também, que os primeiros cristãos ainda não dispunham de uma “bíblia”, mas se reportavam à tradição escriturística preservada nas escolas rabínicas do seu tempo; “Só a Escritura” é um princípio que evoca o esforço de volta às fontes do Cristianismo).

Contrapõem-se à Reforma às ideias dominantes, que se manifestam em paráfrases negativas. Graça: só através da Igreja — a Reforma diz não; Salvação: somente pelas obras meritórias, a Reforma diz não; Ensinamentos, só através do magistério exercido pelo papa — ou quaisquer lideranças eclesiásticas supremas –, a Reforma diz não. Tudo isso, como afirmação ilegítima,  necessitava de reformulação, especialmente no referente às liberdades humanas e aos direitos dos mais fracos. Sob a teoria das duas espadas (Inocêncio III), a igreja estabelecia sua força mantendo o poder espiritual comandando e sustentando seu poder político sobre a “recente” Europa carolíngia.

A Reforma, no tabuleiro das políticas ocidentais, dá o cheque-mate ao mundo espiritual imperialista, autoritório, absoluto, que pretendia governar o mundo com vestes clericais e símbolos religiosos que impõem  poder aos tiranos, dão-lhes a força das armas e poder político absolutista, enquanto  enfraquece os suspiros dos oprimidos.  O poder político-religioso era questionado desde as fortalezas e portões de ferro que separavam pobres e fracos dos dominadores imperiais e poderosos.


Em questão as denúncias protestantes: “prerrogativas do estado religioso sobre o estado civil”; “prerrogativas de  instâncias religiosas oficiais sobre a interpretação das Escrituras”; “prerrogativas divinas para os mestres da igreja”; “prerrogativas para convocar a igreja aos concílios, para receberem suas orientações” (conformação tirânica aceita por consenso inautêntico). Representando a tirania eclesiástica, uma igreja na Alemanha mantinha 17.413 relíquias sagradas, para as quais se exigia veneração mediante pagamento de indulgência, comportando 128.000 anos de “direito à salvação do inferno, e lugar garantido no céu”.


A Reforma afirma que a Graça vem da iniciativa de Deus, e não pela oferta da salvação homologada pela Igreja; a Salvação é a fides concreta, fides incarnata, fé ativa nas obras que libertam. O Discipulado cristão, vem em primeiro lugar, pelo testemunho libertador das Escrituras (e aqui se introduziu um erro de origem: os reformadores se asseguraram, principalmente, da autoridade do Novo Testamento, em favor das liberdades humanas; não se faz o mesmo com o Antigo Testamento, notadamente no que se refere aos códigos que alicerçaram o autoritarismo fundamentalista do judaísmo formativo, também testemunhado no meio evangélico como se fora parte das leis “cristãs”).

Necessitamos do protestantismo bem identificado, porque nem todos evangélicos são “protestantes”, no rigor do termo, especialmente hoje, na oposição aberta que alguns evangélicos dedicam aos protestantes históricos, especialmente os que estão comprometidos com o Movimento Ecumênico, embora se dediquem, no meio evangélico, doses maiores de “ódio religioso” ao  catolicismo. Nada, no mundo eclesiástico, é mais representativo da Reforma que o movimento pela unidade dos cristãos, sob a orientação revolucionária, em torno de diaconias libertárias.

O CMI e suas igrejas filiadas, representam um movimento de solidariedade aos oprimidos do mundo inteiro. Inclusive a Criação, o Planeta Terra, aviltados e espoliados; inclusive os desterrados e refugiados, banidos, excluídos, os pobres, os famintos, em todos os quadrantes do mundo habitado (oikumene). A oração ecumênica, pronunciada em todas as línguas e dialetos, em toda a parte, evoca a confiança que as Escrituras oferecem aos cristãos: “Na nova era, a comunidade mundial será redimida. Sob a égide de Deus, estabelece-se uma nova etapa na história do mundo. O relacionamento com Deus será tão íntimo que Deus se dispõe a responder aos oprimidos mesmo antes que estes o procurem. A oração ecumênica: Deus, em tua Graça, transforma o mundo, é também o clamor do cristianismo ecumênico”.

Nos opositores da Reforma se encontrará também uma espécie de ódio filial  aos “pais da igreja”, e à própria matriz comum da Igreja Apostólica total, geral, (ekklesia katholikos). No rigor histórico, até o cisma de 1054, a Igreja  Romana e a Bizantina (matriz da Igreja Ortodoxa) são uma só. Duas coisas, duas interpretações. Evangélicos, em muitos casos, abrigam tendências religiosas bem variadas, no reconhecimento das origens da Igreja, calcados no fundamentalismo “anti-histórico” como absoluto, negando a catolicidade real ainda existente. Essas tendências vêm acompanhadas de doutrinas tão variadas quanto a forma de organizar uma denominação particular, como se fora ela a “autêntica”, a primeira igreja verdadeiramente cristã, na história do Cristianismo.

A misericórdia de Deus se apresenta aos homens e mulheres pecadores presos aos sistemas de pensar do passado autoritário; sua compaixão pelos pecadores presos à sua religião e doutrinas, como a do particularismo denominacional, ou religioso, se manifesta. Porque os homens e as mulheres, além de não encontrarem salvação em suas obras, não se salvam nem de si mesmos e nem da corrupção ou depravação que os acompanham (João Calvino).  Comentando o Catecismo de Calvino, Karl Barth diz mais: “É Deus quem toma a iniciativa de salvação; é Deus que vem ao encontro do homem para salvá-lo”.

A Salvação é por Graça, ato espontâneo e divino do Pai que ama os filhos que fogem e se afastam do roteiro oferecido inicialmente para o caminhar na fé. A Salvação nunca ocorrerá por qualquer manifestação ou procura de santidade superficial de nossa parte — “vida consagrada como caminho para a salvação” –, em penitência, em esforço espiritual para o pagamento das nossas dívidas.

Nada levará à salvação, libertação material ou espiritual; nada se assemelha à gratuidade divina. Lutero diria mais, escrevendo a Melanchton angustiado por sentir que não podia livrar-se por si mesmo do pecado: Esto peccator et pecca fortiteter, sed fortius fide (“seja um pecador, e peca fortemente, mas creia ainda mais firmemente”; esteja confiante na graça da salvação).

Por tantas divergências e tendências, algumas das doutrinas básicas da Reforma Protestante se diluíram, quando não se fragmentaram irreparavelmente. Tal como um vaso de porcelana de alto valor, quebrado em mil cacos, divergências superficiais tornaram-se profundas, na luta pela supremacia eclesiástica ou doutrinal do evangelicalismo.

Teses da Reforma não passam de “lembranças nebulosas”, hoje, em várias situações. Protestantes “não protestam mais”, ao que parece. Nem mesmo heresias revividas e requentadas mais recentemente dentro do pentecostalismo moderno (montanismo, arianismo, docetismo, pelagianismo, etc.), trazidas desde a Igreja Antiga (primeiros séculos do Cristianismo), têm merecido o devido protesto. O corporativismo evangélico funciona como uma mordaça, não lembra a unidade na Reforma, nem de longe. Mas, “se todo mundo é evangélico, ninguém é evangélico” (cf.Luiz Longuini Neto).

Resta dizer que a oikumene compreendia a  Igreja católica, originalmente universal, abrangente, total (katholikos), no Protestantismo emergente.  A democracia do laós (povo) de Deus, nunca existiu, ao que parece, porque ainda está por vir. Ou, se existe em muitas comunidades reformadas, está por restringir-se, ou em retrocesso, onde foi alcançada, creio. Quando o Segundo Testamento (1Pd 2,9-10; Ap 5,9-10;20,6) refere-se à substituição da elite  sacerdotal israelita, ministros ordenados para o culto, o serviço, o sacrifício penitencial, a intercessão, pelo povo da fé, um por um, autoriza-se a todo cristão e toda cristã a colocarem-se, por vocação original e verdadeira, como sacerdotes e sacerdotisas do Reino de Deus. A igreja não alcança sozinha todas   as prerrogativas daqueles que representam ministerialmente a vontade do governo de Deus na terra.

Homens e mulheres, nos ministérios da Igreja, ordenados ou comuns, são o laós  sacerdotal do reinado de Deus. Algo que será interpretado teologicamente na carta aos Efésios (4,9-16): Lutero diria que todo o povo da Igreja é sacerdotal.  Calvino dirá mais: toda a Igreja é ministerial (cf. também Karl Barth). Como ficamos?

Eram unânimes: a “oikumene” cristã é reconhecida (a palavra grega oikumene refere-se a estar debaixo do teto universal, a casa do homem; os homens e mulheres, cristãos ou não, moram numa mesma casa, debaixo da mesma cobertura cósmica). Nenhum reformador fundou sua denominação protestante. O período é de Confessionalismo, durante o século dezesseis, grupos confessionais se acreditavam dentro da mesma Igreja, jamais separados.

Essa era a Igreja que restara do cisma de 1054, no Ocidente. O princípio “Igreja reformada sempre se reformando” vigia desde séculos, segundo a patrística cristã. Reformava-se a Igreja dentro da Igreja.  Nenhum reformador falou da criação de outras igrejas. Menos de dois séculos depois, a Reforma era traída pelo denominacionalismo individualista e posteriormente pelo evangelicalismo exclusivista. Protestantes são apontados como crentes que não protestam mais…

Derval Dasilio

NOTAS
Algumas das idéias da Reforma que não são observadas — talvez, nunca foram observadas –, em vários casos: “sacerdócio real de todos os crentes”. Negado como tal, apresenta a rejeição da unidade reclamada por Jesus na oração sacerdotal (Jo.17): “Pai, oro para que sejam um, assim como Eu e Tu somos Um”. A distorção desse pedido do Senhor da Igreja, na defesa do particularismo de denominações e de pessoas, bem demonstra que os reformadores foram esquecidos em seus acordos doutrinais. Lutero, Melanchton, Zwinglio, Calvino, Bucer, John Knox, Bullinger, Ecolampádio, e tantos outros — eram muitos –, dirigiam a Reforma na Europa Continental e nas Ilhas Britânicas no sentido de uma popularização da fé original da Igreja. Impossível esquecer Kranmer, o reformador mártir da Igreja Anglicana.

Pascal, um século depois dos reformadores, diria: “O homem é só um caniço açoitado pelo vento. Não é preciso o universo inteiro armar-se para esmagá-lo: um jato, um vapor, uma gota d´água, podem matá-lo”. Ainda Pascal: “A grandeza do homem é saber-se miserável. Sobre a presunção da salvação pelo conhecimento, ou pela razão, diria mais: “Humilhai-vos, razão impotente; calai-vos, natureza imbecil (que se justifica a si mesma). Sabei que o homem se supera infinitamente (reconhecendo sua miséria). Escutai Deus” (cit.:Robert Feullet, A História da Salvação da Humanidade).

É preciso crer que a justificação só é alcançada pela fé na gratuidade divina, graça incondicional… Mas quem não conhece a pregação que desmente e desqualifica a doutrina da Salvação defendida pelos reformadores do século XVI, quando se nega até mesmo a unidade da Igreja de Cristo na diversidade? Cabe-nos, apenas, reconhecer que a Graça de Deus é destinada a todos, homens e mulheres, e todos necessitamos dela.  A Igreja, por ser pecadora, também depende da misericórdia de Deus (Áureo Bispo). Há pecado maior que negar a comunhão da mesma fé aos irmãos de outras tradições?

Derval Dasilio

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