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PREPARANDO PARA A EXISTÊNCIA PROFUNDA
Romanos 13,11-14 – A salvação está mais perto do que imaginamos | Mateus 24,37-44 – Fiquem atentos, preparem-se!

cordeiroevangelhoadvento

gravura – claudio pastro


Começamos o tempo do Advento, tempo de preparação para as celebrações natalinas do nascimento e manifestação de Jesus Cristo, e da encarnação do Logos, a Palavra de Deus. Não devemos nos esquecer que o logos corresponde a “davar”, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos: a teologia de João reflete o pensamento de um hebreu que pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica; ali, o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas, é davar, que significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua: davar é a Palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; davar é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que davar é a Palavra que torna perceptível a chegada do Reino de Deus. Davar  é o Evangelho do Cristo de Deus.

As advertências de Jesus põem uma nota de gravidade no tempo do Advento que hoje começamos a celebrar: não se trata somente dos enfeites natalinos dos quais já estão cheios os supermercados, as lojas, a mídia de marketing. Não se trata de uma falsa alegria, induzida artificialmente por musica melada importada do estrangeiro, na boca de musas neo-evangélicas sem garra profética, sem indignação. Nem da falsa aparência de bem-estar ao se esbanjar dinheiro em compras desnecessárias e injustificáveis. Que sinais de esperança e de desesperança a sociedade atual “realista”, “pragmática”, sem utopias, desencantada, desesperançada, anestesiada pela proclamação do “final da história”, apresenta sobre o final desses tempos? Que papel os cristãos teriam nesta hora de congelamento da esperança num país de tórrido clima tropical. 

Na profundidade do Advento do Senhor Jesus Cristo, uma rebelião também advirá inevitavelmente. Contra a superficialidade do mundo onde vivemos, onde certa conveniência satisfaz os poderes deste mundo, e nos fará mergulhar mais no campo profundo onde queremos encontrar a verdade das coisas. Vivemos o tempo do bem-estar individual, egoísta, narcisista, indiferente socialmente, estimulado através do consumismo irresponsável. 

Políticos oportunistas aproveitam-se de catástrofes e desastres ambientais para angariar recursos que os tornarão mais ricos. Vimos isso nas serras do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Recentemente. O desastre de Mariana MG, coincide com a preparação das próximas eleições municipais. Indiferentes ao projeto de Sebastião Salgado – Recuperação das Nascentes do Rio Doce –, enxergando os bilhões que serão movimentados, já se imaginam temas que serão aproveitados nas campanhas de 2016. O destacado fotógrafo e ambientalista declarou: O problema estaria na destinação dos recursos federais. Como impedir que o dinheiro vá parar no remoinho do sistema ético-político (duvidoso) que, como a lama, tudo digere e nada recicla (a não ser a corrupção costumeira)?

Outras pessoas, no cotidiano da ganância, se sentem poderosas e participantes da riqueza da sociedade porque têm emprego rendoso, carro do ano, apartamento em zonas urbanas valorizadas, TV FullHD, notebooks, iPod, celulares multifuncionais. Acreditam que já gozam do Éden capitalista, e que ingressaram na elite do consumo caro e sofisticado. Não sabem que mergulharam no buraco negro da inconsciência coletiva, e nem sabem mais sobre a solidariedade, a compaixão, a misericórdia e a ternura pelos desgraçados.

O Advento nos dirá sobre essa direção, nas palavras proféticas (Is 40,3): “Preparem o caminho do Senhor”. Os profetas bíblicos cuidavam desse assunto, diante do senso comum dos que afirmavam: o rei é bom, temos um bom governo; o rei é justo, mas só os bem-postos gozam plenamente de direitos sociais; faz isso para o bem de todos enquanto dá pão e diversão; o rei ignora a corrupção… Mas na profundidade das coisas o que existia mesmo era a miséria encoberta, a fome de muitos, a abastança de poucos, o desamparo do órfão e da viúva, o protecionismo e corporativismo destinados aos privilegiados das elites econômicas, e da corte monárquica. O que se escondia, abaixo da superfície era o falseamento público das estratégias econômicas, a falta de transparência na economia, nos negócios e na diplomacia internacional; era a negação dos direitos fundamentais das pessoas e do povo. E sonegação da dignidade.

Mas os profetas profissionais, a serviço dos governantes, diziam que havia paz, e que a sociedade encaminhava-se para melhores posições diante das potências do mundo desenvolvido. Os profetas verdadeiros, porém, em nome de Deus, diziam: não há paz. Falta tudo que diz respeito à paz (a palavra ‘shalom’ é abrangente, desde a dignidade humana em sociedade no gozo dos direitos fundamentais como na moderna Carta dos Direitos Humanos) – na interioridade e exterioridade existencial de cada um de nós – ou na falta de distribuição e participação equânime dos bens sociais que trazem a paz.

Os poetas também fazem isso quando expressam profundos sentimentos a respeito de catástrofes que irromperiam até a superfície da história da sociedade humana (Neruda, Thiago de Mello, i.e.). Quando a teologia do Advento mergulha em profundidade na história da miséria, das desigualdades, dos sofrimentos causados pela distribuição diferenciada das riquezas de uma sociedade, sempre favorecendo quem já é socialmente privilegiado. Quando a exclusão de desprotegidos e despoderados diminui ainda mais os pequenos.

Quando se faz arqueologia nos fossos profundos que separam as massas empobrecidas dos bem-postos, em termos comunitários e sociais, da sociedade, do mundo, temos a consciência de que esse conhecimento poderia fazer-nos entender também os ódios transportados através do tempo sem memória: intolerância sexual e racial; preconceitos de classe, raciais, sexistas, anti-ecumênicos.

O conformismo com as opressões, a entrega ao fatalismo e a aceitação dos determinismos sociais. Dizem: “bom mesmo é poder comprar, consumir, ter e acumular”, como nos ensinam as sociedades capitalistas. E constatamos um obstáculo à profundidade existencial na vida do cristão e da cristã desse tempo de insanidade. Prevalecem o homo-femina demens (homem e mulher insanos) contra o homo-femina sapiens (homem e mulheres conscientes).

Eles nos levam a buscar direitos a céus abstratos contidos em doutrinas salvacionistas ausentes da realidade humana, doutrinas que não explicitam a salvação de quê nem para quê, na existência e na vida concreta. Ideologias que impedem a indignação quanto às pressões da sociedade materialista e impiedosa de nossos dias.

Por outro lado, o Advento inspira a espiritualidade e vivência na vida de fé, que nos ajudam a reconhecer as lutas históricas pelas liberdades, na comunidade e na sociedade; pelo reconhecimento de direitos fundamentais, dignidade, “medindo” os resultados das lutas humanas. A esperança contida no Advento do Filho de Deus também nos ajuda a reconhecer a necessidade de transformações, radiografando e examinando endoscopicamente os esquemas das desigualdades e injustiças sociais, no mundo em que vivemos. Eis o Advento: o Senhor vem! Vem, Senhor, restaura a Criação.

Vemos no Avento, como observamos as estações que se sucedem, sob desígnio divino, as flores que nascem e morrem a semente que fica e recria; o nascer de cada dia com um sol diferente, uma luz que não se iguala à de ontem, depois de cada noite. Mesmo as noites mais escuras. Ouvimos canários da mesma espécie que cantam diferente um do outro, sem perder a beleza do canto mavioso da espécie. A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é Deus. Se alguém ainda pergunta sobre a existência profunda; sobre seu futuro e a salvação de sua própria vida, encontrará a resposta no Vento, o Espírito da verdade. Disse Jesus: eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por mim. Cada dia do ano litúrgico, que seguiremos com fidelidade, nos ensinará sobre o Caminho.

Derval Dasilio

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ADVENTO – ANO C

Nota

UM REI PARA O REINO DE DEUS

Trindade Solidária

Gravura de Cerezo Barredo

CRISTO, UM REI SOLIDÁRIO
(2Samuel 23,1-7) Daniel 7,13-14 – O Filho do Homem reina / Apocalipse 1,5-8 – Jesus reina acima de todos os reis / João 18, 33-37 – Disse Jesus: “Tu o dizes: eu sou Rei”

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Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
acreditam nas coisas lá do céu
Muita gente se arvora a ser deus
e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria,
e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem,
meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento,
cá na Terra isso tem que se acabar.
(Gilberto Gil)


“Na Bíblia, o povo eleito sempre está do lado dos reinos deste mundo”, disse Rubem Alves. Não é difícil ler isso: o povo bíblico sempre se encontra às voltas com bezerros de ouro, ídolos de pés-de-barro, divindades surdas, cegas e mudas. São ídolos que não trazem salvação e bem-estar senão para si mesmos — os construtores de imagens paliativas, como placebos espirituais –, diante dos quais inclinam-se povos e raças. Jesus Cristo está sendo julgado pelos poderes deste mundo. O evangelho, nesse momento, proclama: “o Reino de Jesus não é deste mundo”. Não há, neste mundo, reinos que busquem em primeiro lugar a justiça, a misericórdia, a compaixão e a solidariedade. Que, juntas, constituem a Paz.

Ainda presos aos padrões dominantes, imaginamos um rei sobre a economia mundial; um governante ao estilo de Barak Obama, comandando um império mundial de interesses que vão da indústria de armamentos à garantia de acesso aos mananciais petrolíferos do Golfo Pérsico ao Mar Negro, berço das mais importantes civilizações do mundo antigo, manipulando e influenciando impositivamente políticas de nações islâmicas como o Irã, Iraque e Síria, neste momento.

Esse povo, bíblico, subserviente às potestades deste mundo, também é chamado de “prostituta”. Diz a Bíblia: como Deus, o profeta Oséias amava uma prostituta. Esta, por sua vez, amava a prostituição. Parábola da perversão popular, aplica-se também aos falsos profetas, bajuladores do rei. Diziam mentiras doces: há paz, comida, habitação, trabalho… Os profetas verdadeiros, porém, contavam verdades amargas, falando dos frutos azedos da miséria e das opressões reinantes, enquanto “reina o rei”. Festa para o falso, morte ao verdadeiro. E o povo?

O povo é uma prostituta de barranco, como se diz no Nordeste, oferecendo-se a preço baixo, “quarqué dois real”. É bíblico, esse povo? Sim. Porém, é uma gente prostituída. Pronta, inclusive, a dizer, conforme a oportunidade: “Crucifica, crucifica! César é o nosso rei”. Os romanos também sabiam disso: o que o povo gosta é de panis et circences, pão e circo. Outras vezes, o povo aprecia os entretenimentos perversos, diversão, gladiadores e leões ferozes nas arenas, sangue derramado em profusão, mártires destroçados porque não abjuram a fé… É muito divertido para o povo, o banimento dos mártires, enquanto aprova a tortura, a humilhação ou o “desaparecimento” dos mesmos. Pois, é só ler a Bíblia… não custa muito. Só a teologia ingênua idealiza o comportamento popular que não existe.

João 18, 33-37 – Categoricamente, o povo que sobrou do antigo e infiel, Israel, em plebiscito público declara: “César é o nosso rei”. Hoje, que posição tomamos? Ao lado de César, Pilatos, Caifás (poder político, judiciário, religioso) e do Templo (= religião)? Tratamos de consciências vendidas aos poderes dominantes? Utilizamos os avanços tecnológicos como desculpa de atualização necessária aos nossos fins? Queremos participar do “espírito” imediatista e consumista do mundo globalizado e dele tirar tudo “que temos direito de consumir, culturalmente”, inclusive no ambiente eclesiástico ou religioso?

Absorvemos sem questionar a ética e a “espiritualidade” do mercado global, pós-industrial? Submetemo-nos sem resistência ao poder e valores da cultura global; ao modo de pensar do mercado? Nossas igrejas vão se tornar simulacros do reality show e de toda a obscenidade e imitação cultural que se propaga como uma praga litúrgica no meio da Igreja Evangélica? Dobramos nossos joelhos aos reis deste mundo (mercado, economia, política), enquanto simulamos dobrá-los a Cristo, na liturgia corrompida que tomou o pseudo culto dos nossos dias?

No relato da Paixão, no quarto evangelho, não temos dúvidas: afirma-se que Jesus é o “rei dos judeus”. Por 6 vezes esta expressão aparece, e a palavra “rei” (basileus) é encontrada por 12 vezes. O contexto é o “julgamento de Pilatos”, o representante político de César na Palestina. O julgamento é político, sem dúvida. Claramente, Jesus define a sua realeza. No entanto, uma negativa se evidencia: “meu Reino não é deste mundo”. Se fosse um reino comum, para os judeus, ele não seria combatido ou preso por sua própria gente. A realeza de Jesus não está em função do reconhecimento público da sua gente (que, como hoje, prefere declarar outros como seus reis: “…César é o nosso rei, crucifica-o!”), menos ainda do poder reinante. A realeza de Jesus é de outra ordem, não acompanha a violência do poder político, não se submete ao mesmo.

O Reino do qual é Rei está sobre todos os reis deste mundo, inclusive o César. Pilatos representa César, o rei de todos os reis deste mundo. A inscrição sobre a cruz é irrefutável: “Rei dos Judeus”. Não havia engano possível: César não admitia e mandava crucificar aquele que se apresentava com “poder” concorrente com o dele. Pilatos, preposto, é advertido: “Se o soltas, não representas a César, ele enfrenta o imperador. Nosso rei é César, e ninguém mais” (Jo19,12e15). As opções por César, de um lado, e a opção por Jesus, por outro, são incompatíveis. Há conflito, de finalidade e de reconhecimento relativo à autoridade de cada um. Um reino “deste mundo” representa a dominação, massacre cultural, morte de tradições e princípios da fé genuína. O Reino de Jesus representa a Verdade e a Vida, Salvação e Libertação, a solidariedade com os pobres e miseráveis; com os oprimidos, pelas dominações e realezas que governam o mundo. Jesus representa a libertação das cadeias culturais impostas.

Apocalipse 1,5-8 – O Evangelho de João apresenta Pilatos como a besta romana; Jesus, o Filho do Homem, é representante daqueles que não adoram a besta, todos os santos. João coloca na boca de Pilatos as palavras: “Eis aqui o Homem”. É o Filho do Homem que reina, porém sua coroa é de espinhos, colocada em sua cabeça pelos soldados da besta. Todos os povos e nações adoram o Filho do Homem revelado. Seu império é eterno e seu reino jamais terminará. Esta figura, chamada Filho do Homem, está em oposição aos 4 impérios que têm oprimido o povo de Deus (1-8) (cf. Daniel 7,13-14). Assírios, babilônios, persas e helenos, seqüencialmente. Se as bestas representam a opressão do povo santo do Altíssimo, o Filho do Homem é a figura coletiva do povo eleito. As bestas são destruídas e o Filho do Homem recebe todo o poder, bem como o império. Podemos atualizar, em cânon aberto, hoje, uma “quinta besta” em oposição do Filho do Homem aos impérios do nosso tempo? Certamente não. Haja espaço e teologia simbólica para as dominações (bestas) que sucederam a César. Não há museu histórico capaz de comportar tantos poderes bestiais na história do Ocidente cristão.

No Apocalipse de João, Jesus saúda a comunidade, porque o Messias é fiel “testemunha” (martyria); é o “primeiro” nascido dentre os mortos, o Príncipe dos reis da terra. Para uma comunidade perseguida o importante é confessar Jesus como o Messias; como o Mártir, testemunha do Reino de Deus; como o primeiro ressuscitado (aquele que anuncia que todos ressuscitarão) e como aquele que tem poder sobre todos os reis da terra. A comunidade responde a partir de sua própria experiência, reconhecendo-se como constituída de sacerdotes do Reino de Deus. Todo o povo participa da realeza de Jesus é um povo sacerdotal. Não preenchendo o papel testemunhal de intercessores e interventores para a reconciliação com o projeto do Reino de Deus, que povo sacerdotal é esse, que não se reconhece na resistência aos poderes e potestades, enquanto se ajoelha diante dos deuses deste mundo; e protesta falsamente sua fidelidade ao Rei do Universo?

Derval Dasilio

Padrão
Trindade Solidária

Gravura de Cerezo Barredo

CRISTO, UM REI SOLIDÁRIO
(2Samuel 23,1-7) Daniel 7,13-14 – O Filho do Homem reina / Apocalipse 1,5-8 – Jesus reina acima de  todos os reis / João 18, 33-37 – Disse Jesus: “Tu o dizes: eu sou Rei”

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Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
acreditam nas coisas lá do céu
Muita gente se arvora a ser deus
e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria,
e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem,
meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento,
cá na Terra isso tem que se acabar.
(Gilberto Gil)


“Na Bíblia, o povo eleito sempre está do lado dos reinos deste mundo”, disse Rubem Alves. Não é difícil ler isso: o povo bíblico sempre se encontra às voltas com bezerros de ouro, ídolos de pés-de-barro, divindades surdas, cegas e mudas. São ídolos que não trazem salvação e bem-estar senão para si mesmos — os construtores de imagens paliativas, como placebos espirituais  –, diante dos quais inclinam-se povos e raças. Jesus Cristo está sendo julgado pelos poderes deste mundo. O evangelho, nesse momento, proclama: “o Reino de Jesus não é deste mundo”. Não há, neste mundo, reinos que busquem em primeiro lugar a justiça, a misericórdia, a compaixão e a solidariedade. Que, juntas, constituem a Paz.

Ainda presos aos padrões dominantes, imaginamos um rei sobre a economia mundial; um governante ao estilo de Barak Obama, comandando um império mundial de interesses que vão da indústria de armamentos à garantia de acesso aos mananciais petrolíferos do Golfo Pérsico ao Mar Negro, berço das mais importantes civilizações do mundo antigo, manipulando e influenciando impositivamente políticas de nações islâmicas como o Irã, Iraque e Síria, neste momento.

Esse povo, bíblico, subserviente às potestades deste mundo, também é chamado de “prostituta”. Diz a Bíblia: como Deus, o profeta Oséias amava uma prostituta. Esta, por sua vez, amava a prostituição. Parábola da perversão popular, aplica-se também aos falsos profetas, bajuladores do rei. Diziam mentiras doces: há paz, comida, habitação, trabalho… Os profetas verdadeiros, porém, contavam verdades amargas, falando dos frutos azedos da miséria e das opressões reinantes, enquanto “reina o rei”. Festa para o falso, morte ao verdadeiro. E o povo?

O povo é uma prostituta de barranco, como se diz no Nordeste, oferecendo-se a preço baixo, “quarqué dois real”. É bíblico, esse povo? Sim. Porém, é uma gente prostituída. Pronta, inclusive, a dizer, conforme a oportunidade: “Crucifica, crucifica! César é o nosso rei”. Os romanos também sabiam disso: o que o povo gosta é de panis et circences, pão e circo. Outras vezes, o povo aprecia os entretenimentos perversos, diversão, gladiadores e leões ferozes nas arenas, sangue derramado em profusão, mártires destroçados porque não abjuram a fé… É muito divertido para o povo, o banimento dos mártires, enquanto aprova a tortura, a humilhação ou o “desaparecimento” dos mesmos. Pois, é só ler a Bíblia… não custa muito. Só a teologia ingênua idealiza o comportamento popular que não existe.

João 18, 33-37 – Categoricamente, o povo que sobrou do antigo e infiel, Israel, em plebiscito público declara: “César é o nosso rei”. Hoje, que posição tomamos? Ao lado de César, Pilatos, Caifás (poder político, judiciário, religioso) e do Templo (= religião)? Tratamos de consciências vendidas aos poderes dominantes? Utilizamos os avanços tecnológicos como desculpa de atualização necessária aos nossos fins? Queremos participar do “espírito” imediatista e consumista do mundo globalizado e dele tirar tudo “que temos direito de consumir, culturalmente”, inclusive no ambiente eclesiástico ou religioso?

Absorvemos sem questionar a ética e a “espiritualidade” do mercado global, pós-industrial? Submetemo-nos sem resistência ao poder e valores da cultura global; ao modo de pensar do mercado? Nossas igrejas vão se tornar simulacros do reality show e de toda a obscenidade e imitação cultural que se propaga como uma praga litúrgica no meio da Igreja Evangélica? Dobramos nossos joelhos aos reis deste mundo (mercado, economia, política), enquanto simulamos dobrá-los a Cristo, na liturgia corrompida que tomou o pseudo culto dos nossos dias?

No relato da Paixão, no quarto evangelho, não temos dúvidas: afirma-se que Jesus é o “rei dos judeus”. Por 6 vezes esta expressão aparece, e a palavra “rei” (basileus) é encontrada por 12 vezes. O contexto é o “julgamento de Pilatos”, o representante político de César na Palestina. O julgamento é político, sem dúvida. Claramente, Jesus define a sua realeza. No entanto, uma negativa se evidencia: “meu Reino não é deste mundo”. Se fosse um reino comum, para os judeus, ele não seria combatido ou preso por sua própria gente. A realeza de Jesus não está em função do reconhecimento público da sua gente (que, como hoje, prefere declarar outros como seus reis: “…César é o nosso rei, crucifica-o!”), menos ainda do poder reinante. A realeza de Jesus é de outra ordem, não acompanha a violência do poder político, não se submete ao mesmo. 

O Reino do qual é Rei está sobre todos os reis deste mundo, inclusive o César. Pilatos representa César, o rei de todos os reis deste mundo. A inscrição sobre a cruz é irrefutável: “Rei dos Judeus”. Não havia engano possível: César não admitia e mandava crucificar aquele que se apresentava com “poder” concorrente com o dele. Pilatos, preposto, é advertido: “Se o soltas, não representas a César, ele enfrenta o imperador. Nosso rei é César, e ninguém mais” (Jo19,12e15). As opções por César, de um lado, e a opção por Jesus, por outro, são incompatíveis. Há conflito, de finalidade e de reconhecimento relativo à autoridade de cada um. Um reino “deste mundo” representa a dominação, massacre cultural, morte de tradições e princípios da fé genuína. O Reino de Jesus representa a Verdade e a Vida, Salvação e Libertação, a solidariedade com os pobres e miseráveis; com os oprimidos, pelas dominações e realezas que governam o mundo. Jesus representa a libertação das cadeias culturais impostas.

Apocalipse 1,5-8 – O Evangelho de João apresenta Pilatos como a besta romana; Jesus, o Filho do Homem, é representante daqueles que não adoram a besta, todos os santos. João coloca na boca de Pilatos as palavras: “Eis aqui o Homem”.  É o Filho do Homem que reina, porém sua coroa é de espinhos, colocada em sua cabeça pelos soldados da besta. Todos os povos e nações  adoram o Filho do Homem revelado. Seu império é eterno e seu reino jamais terminará. Esta figura, chamada Filho do Homem, está em oposição aos 4 impérios que têm oprimido o povo de Deus (1-8) (cf. Daniel 7,13-14). Assírios, babilônios, persas e helenos, seqüencialmente. Se as bestas representam a opressão do povo santo do Altíssimo, o Filho do Homem é a figura coletiva do povo eleito. As bestas são destruídas e o Filho do Homem recebe todo o poder, bem como o império. Podemos atualizar, em cânon aberto, hoje, uma “quinta besta” em oposição do Filho do Homem aos impérios do nosso tempo? Certamente não. Haja espaço e teologia simbólica para as dominações (bestas) que sucederam a César. Não há museu histórico capaz de comportar tantos poderes bestiais na história do Ocidente cristão.

No Apocalipse de João, Jesus saúda a comunidade, porque o Messias é fiel “testemunha” (martyria); é o “primeiro” nascido dentre os mortos, o Príncipe dos reis da terra. Para uma comunidade perseguida o importante é confessar Jesus como o Messias; como o Mártir, testemunha do Reino de Deus; como o primeiro ressuscitado (aquele que anuncia que todos ressuscitarão) e como aquele que tem poder sobre todos os reis da terra. A comunidade responde a partir de sua própria experiência, reconhecendo-se como constituída de sacerdotes do Reino de Deus. Todo o povo participa da realeza de Jesus é um povo sacerdotal. Não preenchendo o papel testemunhal de intercessores e interventores para a reconciliação com o projeto do Reino de Deus, que povo sacerdotal é esse, que não se reconhece na resistência aos poderes e potestades, enquanto se ajoelha diante dos deuses deste mundo; e protesta falsamente sua fidelidade ao Rei do Universo?

Derval Dasilio

 

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*[COMENTÁRIO] A IGREJA CONTRA A IDOLATRIA FINANCEIRA

32° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
Rute 3,1-5; 4,13-17 – Orientação para a solidariedade
Salmo 127 – …é inútil o esforço pela prosperidade
Hebreus 9,24-28 – Cristo ofertou-se, para sempre
Marcos 12,38-44 – Jesus denuncia a ganância

*

Já estamos nos acostumando com carros-fortes e seguranças armados estacionados nas frentes dos mega-templos evangélicos. Campanhas empresariais de grande monta estão na mídia. Com tantos problemas, quem não gostaria que isso acontecesse com suas igrejas, adequando-nos à religiosidade sacrificial da prosperidade? Poucos. Causam inveja, os aparatos.

Sinais dos tempos. O dinheiro passa a ser uma mercadoria de muita procura, nada de extraordinário nisso. Extraordinário é querer alcançá-lo como sinal de prosperidade através da “obrigação da oferta no altar”. Ouve-se “antes eu era assim… Hoje, depois que passei a ser contribuinte, tenho tantos apartamentos, casas, carros do ano e muito dinheiro aplicado no banco…” Um parlamentar evangélico do momento, pentecostal, movimenta contas milionárias na Suíça… E há vozes para defendê-lo: Não toquem no ungido do Senhor…

*

Desse modo, breve estaremos cantando o hino apócrifo nos cultos evangélicos, como se faz em tantos lugares na passagem do ano: “…muito dinheiro no bolso”! O imposto religioso “resolve todos os nossos problemas”, se diz impunemente nos púlpitos, onde pastores inatingíveis pela Receita Federal arrotam riqueza. Casamento mal das pernas, cargo político, representação no Congresso, emprego, namorado bonito, passar no vestibular, moradia própria… Pode ser que não se consiga tanto, mas que resolve o problema de certas autoridades religiosas, nas comunidades locais ou nacionais, lá isso resolve!

*

Os exemplos são muitos. Novas e antigas igrejas “evangélicas” firmam-se no dinheiro como sinal importante de prosperidade espiritual ou material. Sinais de sucesso pessoal, são exibidos… E a sacola passa, sem cessar, entre os fieis. Não ouse ir com pouco dinheiro a um culto pentecostal, seu bolso será virado pelo avesso, até lhe tomaram a última moeda. Vencer na vida e ter dinheiro de sobra é imperativo. Ser pobre é vergonha, e sinal de ausência de fé, dirá o pregador. Aos gritos, certo, e está certo… de que se dirige a um público surdo.

*

Os primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos apresentam um ideal reverso: assim devia ser a vida dos cristãos! Lucas carrega nas tintas esboçando sobre o sentido da contribuição cristã, e chega a dizer: “Todos vendiam tudo o que tinham” (At 4,34). Já em outro ponto ele esclarece melhor: “Os cristãos vendiam o que possuíam cada vez que alguém precisasse” (At 2,44). E depois, quando chega o momento de apresentar os fatos para os bem-postos, ele diz: “Barnabé é um deles. Barnabé vendeu tudo, colocou ao dispor dos apóstolos para que eles distribuíssem ficando pessoalmente sem nada” (At 4,36-37). E por causa disso ganhou grande respeito na comunidade.

*

Ao terminar de contar o caso, Lucas passa para outro fato e fala de Ananias e Safira (cf. At 5,1-11). O casal quis fazer como Barnabé? Os dois venderam seus bens, guardaram uma parte e colocaram o restinho aos pés dos apóstolos, dizendo que era tudo que tinham! Mentiram. O castigo é terrível, porque fizeram uma coisa muito grave: o compromisso com Deus transformado em busca de prosperidade à custa da comunidade empobrecida.

*

A comunidade não pode ser usada para o nosso próprio interesse de crescimento pessoal, é a lição. Não é fácil explicar esse fato do livro de Atos, mas a mensagem que está por trás é a seguinte: o dinheiro que surge por interesses de exibição de prosperidade é maldito. Como brandir o “machado corretivo”, bíblico, contra a idolatria financeira que impera?

*

Aí a cobiça por dinheiro miraculoso como um prêmio da loteria, ou no “jogo-do-bicho”, incentivada por pastores na televisão, faz desanimar os cristãos “fracassados” nessa busca da prosperidade e sucesso a qualquer custo. Fracassados, porque permanecem pobres, mesmo quando contribuem com o que podem, desqualificados para competir no mercado religioso cada vez mais exigente, sem a “graça barata” vendida no balcão da igreja. Frustra-se quem não consegue entrar nesse mercado como consumidor de bem-aventuranças – não tendo cartão de crédito, pleiteia-se um cartão salvacionista que o pastor manda pelo correio. Porque não têm como ser “investidores” ou compradores de indulgências milagrosas que garantam lugar no céu capitalista, tirando-os do inferno da pobreza e da miséria, é-lhes imputada a culpa da “falta de fé”. São, na melhor das hipóteses, condenados ao “purgatório” social onde pagam pelo pecado de ser diminuído e fraco.

*

[O bispo metodista Paulo Ayres Mattos disserta, em tese de doutoramento, sobre a teologia sacrificial do neopentecostalismo recente, e o “gênio em finanças religiosas” que comanda a competição capitalista entre igrejas-marketing. A anti-teologia impera, associada ao crescimento numérico, clientela cativa, almejado obsessivamente, como resultado de “vida abençoada” nas igrejas que crescem compulsivamente].

*

Sacrifícios pessoais, ofertas e dízimos, conseguirão libertar e livrar-nos do inferno financeiro em que vivemos? Falando-se tanto em prosperidade abençoada, através de gordas ofertas, não estando preocupados com a sociedade, nem com a fome e a miséria do povo, até se justifica tudo isso: pobreza é maldição que pesa sobre os ombros dos que não ofertam… O pregador, (ou pregadora) diz: “É preciso quebrar a maldição”, da pobreza; não tem prosperidade quem é infiel no dízimo; “buscai primeiro o Reino… (corta-se o meio: “…e a sua justiça”) e todas as coisas vos serão acrescentadas”, referindo-se à conta bancária polpuda. A turba responde embevecida com a sabedoria da economia divina sustentada no discurso pastoral “pseudobíblico” da prosperidade e da vida abençoada… Johannes Tetzel, dominicano que pregava indulgências salvadoras no século XVI, ressuscitou na pregação pentecostal e evangelical do nosso tempo. Boas imitações, quase autênticas… Que saudade de Lutero!

*

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DISSE JESUS: VENHAM A MIM…

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Cerezo Barredo Cerezo Barredo

Eduardo Galeano colheu esta frase irônica, colocada no portão de Auschwitz, campo de concentração nazista: “O trabalho liberta!”. Por outro lado, numa igreja frequentada pelo populacho pobre, no centro da Cidade do México, estava o cartaz: “Amados paroquianos, cuidado com seus pertences…”. Gandhi, na África do Sul, procurou uma igreja protestante, depois de uma noite lendo os Evangelhos, e viu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros…”. O evangelho requer atenção para com o convite de Cristo: “Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, e eu lhes darei alívio” (Sl 40.18; Mt 11.28).
 
Temos um convite para desfrutar a alegria da vida com Deus. Viver. Vida bem-aventurada, no chamado de Jesus. Evidente é que o gozo, a alegria, se apoia na beleza e na simplicidade, no observar dos mais humildes, ingênuos, pacíficos, não-violentos, enfim, os que são amados por Deus…

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