.escrituras testemunham

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A seguir, mais um capítulo dentro da série de armadilhas que as autoridades religiosas de Jerusalém preparam contra Jesus, vamos encontrar um doutor da Lei, um teólogo que é honesto e que reconhece a integridade de Jesus, ao passo que os outros o estão condenando. Esse episódio é importante porque se trata da questão central na lei judaica: “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” (12,28).

Ajuntando dois trechos da Bíblia (Dt 6,4-5; Lv 19,18), Jesus responde: “O primeiro mandamento é este: Ouve, ó Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor! E ame ao Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma, com todo o seu entendimento e com toda a sua força. O segundo mandamento é este: Ame ao seu próximo como a si mesmo. Não existe outro mandamento mais importante do que esses dois” (Bíblia Pastoral) .

As perguntas que despontam, a partir do conhecimento das Escrituras, levar-nos-ão imediatamente ao plano social nacional. Lembrarão que há “democracias” mais importantes que a eleitoral. Que têm a ver as prioridades proféticas do amor e dedicação ao projeto de Deus e “ao próximo”, sob a ótica evangélica? As distâncias e os abismos existentes têm uma ponte construída e tornada disponível por Jesus Cristo.

Quando compreendemos os significados escriturísticos, na boa leitura da Bíblia para a abordagem dos problemas nossos e do “próximo”, na luta contra a fome e a miséria; a favor da educação básica de qualidade para todos, e não só para os membros da elite nacional, privilegiada economicamente; na promoção da igualdade racial, e entre os sexos, e na erradicação da violência contra a mulher e a criança.

Jesus reduz a hierarquia dos mandamentos ao núcleo do amor a Deus e ao próximo, chamando a esse centro todas as outras leis e tradições. Sem o amor a Deus que se concretiza no amor ao próximo, as leis e “tradições” se tornam “traições” do projeto de Deus. O doutor da Lei reconheceu esse núcleo central da fé, do qual depende todo o resto: “amar a Deus e o próximo é melhor do que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios” (Mc 12,33). E Jesus diz: “Não estás longe do Reino de Deus”. Com isso Jesus mostra o seguinte: nem todas as leis e tradições abrigam por igual que esse mandamento é o centro da Aliança.  Não é uma opinião, é o único que corresponde ao núcleo da fé, e da vida de fé no testemunho do Reino de Deus. O culto, os sacrifícios, as liturgias, valem muito pouco, ou quase nada.

Assim, Jesus abre uma alternativa de vida que a multidão de leis, e a tradição sobre o puro e impuro, tinham estabelecido para o povo israelita. O Reino de Deus se torna acessível para o povo simples, excluídos, despoderados, diminuídos, marginalizados quanto à dignidade e ao bem-estar social, pois o importante para entrar e dele participar pode ser reconhecido e cumprido por todos, sem necessidade de grandes estudos e sem precisar pertencer a um grupo religioso privilegiado.  Religiosos fieis à Lei e aos preceitos, os quais garantiriam a retribuição sacrificial e cultual conforme os ditames da tradição, não são privilegiados pelo conhecimento ou por sua obediência legal aos regulamentos da religião oficial.

A formulação dessas antíteses revela, pois, claramente, que cada proibição véterotestamentaria é vista como parte da tradição. Na perspectiva da tradição profética. Além disso, evidencia-se que, para a “sua” compreensão particular da vontade de Deus, a Palavra de Deus, Jesus não recorre a termos das Escrituras. Nem a qualquer tradição, mas com um enfático “eu” (a Palavra em carne e osso) ele contrapõe com autoridade sua interpretação à compreensão tradicional da vontade da Palavra de Deus. Jesus está dizendo:

“Eu sou a Palavra” (E a Palavra se fez carne e habitou no meio dos homens) como João afirmará textualmente (Jo 1,14).  Consequentemente, Jesus entendeu ser sua a tarefa de dar sentido verdadeiro à revelação transmitida até então: “Não penseis que vim revogar a lei ou os profetas; não vim para revogar, mas para cumprir a mesma [afirmo através de ‘minha’ interpretação da Lei e dos Profetas]”: Mt 5,17). A mais antiga tradição bíblica é evocada, para além do rabinato judaico da época.

[Nota: O profeta Miquéias, um dos modelos proféticos citados por Jesus, atuou no reino do Sul. Os israelitas o conheciam muito bem. Dá-nos uma visão pessimista da sociedade elitizada, poucos ricos, muitos pobres: maquinações dos grandes proprietários e controladores da economia (2,1-5); situação das viúvas e dos órfãos, símbolos dos desamparados socialmente (2,8-10); ambição desmedida dos dirigentes políticos e a consequente exploração e exclusão do pobre (3,1-4); juízes corruptos (3,9-11) e “profetas” (parlamentares da época?) subornados pelo mercado e pela religião “conformadora” (3,5-11); desconfiança generalizada,  por causa da corrupção endêmica, persistente (a exemplo do Brasil, desde a casa-grande e senzala), mesmo no interior das famílias israelitas (7,5-6)].

Jesus desbloqueia o acesso ao Reino e diz que ele não está disponível para as castas privilegiadas com o saber, na elite israelita. O Reino de Deus é prioritariamente dos pobres e excluídos, vítimas da fome, da miséria, da dignidade sonegada. O Reino não é reservado aos “sábios e racionais”, homens (ou mulheres) de conhecimento, os que sabem usar recursos legais para proteger seus bens, culturais ou econômicos. Os desprotegidos não têm um tribunal para defenderem sua causa (Mq 3,9-11); um “procom”; um “centro de defesa dos direitos humanos e cidadania”; não têm políticos nem câmaras legislativas para defenderem seus interesses. 

Cada mandamento do Antigo Testamento é introduzido por Jesus com as palavras “Ouvistes o que foi dito aos antigos”, ou “Ouvistes o que foi dito”. Ao que ele contrapõe sua interpretação da vontade de Deus, introduzida com as palavras: “Eu, porém, vos digo”. É uma voz profética; é a Palavra de Deus, na voz de Jesus Cristo (G.Kümmel). Não conheceis as Escrituras?  Elas dão testemunho de mim…

Derval Dasilio 

31° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
Rute 1,1-18 – “Não seja a morte a separar-nos…”
Salmo 146  –  O Senhor faz justiça aos oprimidos.
Hebreus 9,11-14 – Sacrifícios são ineficazes, a misericórdia é que vale.
Marcos 12,28-34 –“…desconhecem o testemunho das Escrituras ”/

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