32° DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “B / Rute 3,1-5; 4,13-17 – Orientação para a solidariedade / Salmo 127 – …é inútil todo o esforço pela prosperidade / Hebreus 9,24-28 – Cristo ofereceu-se de uma vez, para todo o sempre / Marcos 12,38-44 – Jesus denuncia a ganância

viúvas da justiça

[Marcos 12,38-44]  A palavra “viúva” é também a chave do texto neotestamentário. Podemos recordar a viúva fenícia, portanto, estranha à comunidade israelita, que partilhou com Elias os últimos alimentos que dispunha para alimentar-se e ao seu filho órfão (1Reis 17). Acrescentaríamos a narrativa sobre o cofre do templo (2Reis 12,4-6; 13-15), que deveria ser aberto, por ordem do rei Joaz, para os reparos do templo, mas sem excluir o resgate de pessoas prisioneiras ou escravizadas, enquanto se remuneravam os servidores da casa de culto em reconstrução. No tempo apostólico, havia vários cofres para os depósitos, segundo a categoria da oferta, no Templo.


As viúvas, segundo ampla denúncia na tradição profética de Israel (Is 1,17-23), são desprezadas sob pretexto do culto e de orações que resultam viciadas, corrompidas; abusam-se, inclusive e ao mesmo tempo, das ofertas e do culto, quanto à sua legítima destinação. De modo bem diferente, no passado, profetas como Elias e Eliseu socorriam as viúvas e os órfãos (1Rs 17; 2Rs 4 e 8), símbolos da desproteção social. Colocada nesse contexto irradia reflexos de contraste. O desprendimento total ante a cobiça e a ganância, sob pretexto religioso dos dirigentes que também conduzem o povo à corrupção do culto.


Finalmente, Jesus está declarando que a viúva, cuja figura se preserva através de gerações, nas comunidades cristãs, e sua oferta de mulher pobre e anônima, por si, denuncia a ganância propositista no culto à prosperidade. A comunidade está esquecida da finalidade primeira da contribuição dizimal solidária. A oferta da viúva, segundo Jesus, valia mais que os 613 preceitos religiosos em vigor: 365 proibições e 248 imperativos de conduta. A viúva sabia “dar o que era de Deus para os pobres de Deus”, como ensinara Jesus.


Desmond Tuto aponta, segundo a compreensão africana para a solidariedade: “Ubuntu é a essência do ser humano. Significa que minha humanidade está indissolutamente presa à sua humanidade. Eu sou humano porque pertenço à mesma humanidade do outro ser humano. Ubuntu fala da totalidade do ser, fala de compaixão, de solidariedade intrínseca. Uma pessoa movida pelo ubuntu é acolhedora, receptiva, hospitaleira, generosa, pronta para repartir e compartilhar”.


Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e solidariedade se aproxima do conceito essencial do ubuntu. A filosofia africana difere enormemente da ocidental, quando estabelece a suprema importância das alianças e relacionamento das pessoas umas com as outras. Poderíamos tentar traduzir, buscando aproximação favorável ao sentido do termo, que ubuntu significaria “humanidade para com os outros”, lembra a africana Natália da Luz.


A lição é de solidariedade e cooperação, para lembrarmos mais uma vez o que disse Paulo Freire: “Ninguém se liberta sozinho, nós nos libertamos em comunhão”. Que comunhão? Comunhão com o projeto de Deus. O Reino e a Justiça, em primeiro lugar. Faz-se necessário que as comunidades se conscientizem da própria contaminação retributiva, na experiência evangélica, e se coloquem na dinâmica da conversão, da mudança de direção, buscando a humanização da sociedade e de si mesmas, enquanto se exibe o machado contra a idolatria financeiro-religiosa dos nossos dias.

Derval Dasilio

UMA HISTÓRIA DE VIÚVAS, DESTERRADOS E REFUGIADOS


Rute 3,1-5; 4,13-17 – O livro de Rute antes de tudo fala de situações de extrema urgência. Deserdados, estrangeiros, pobres, desterrados, enfim, vivem uma situação de partilha necessária para a sobrevivência de todos. Uma relação entre a mulher e a terra não é olvidada. A mulher como representante da comunidade e suas afinidades naturais reprodutivas não são esquecidas. Não convém desprezar esse simbolismo, ele é tão forte em Israel quanto nas nações vizinhas. A situação pós-exílica é evidente. Há esperança! A cena é precedida do informe: Rute deixa seus pais como Abraão deixa sua terra. Confia nas promessas de Deus.


Petra Laszlo, repórter de televisão, estava filmando refugiados correndo da polícia húngara quando um homem passou em sua frente com uma criança nos braços. Ela estica a perna, fazendo-o cair com a criança. A emissora publicou uma mensagem dizendo que o comportamento dela é “inaceitável” e que ela foi demitida. “O emprego dela acabou hoje, o caso está encerrado para nós”, diz o responsável pela mídia televisiva, em comunicado. Não bastou, o caso teve repercussão mundial. Não é assim, o fim dessa história de impiedade, a história dos oprimidos pela miséria oceânica, no planeta, continua. A sequência mostra o homem correndo com a criança no colo e tropeçando na perna estendida propositalmente pela cinegrafista húngara.


Quem é o Deus de Noemi e de Rute? O relato é parcimonioso, Yahweh aparece discretamente, não intervém de forma direta no entorno ou na cena. O dom de Deus se atualiza com a legislação social do Jubileu Bíblico. Ali, estrangeiros e escravos são devidamente protegidos; o órfão e a viúva, vítimas simbólicas das desigualdades econômicas, são amparados obrigatoriamente. O trabalho na terra ou a posse da mesma, é regulamentado pelo Deus de Israel.


Não há culto ou rituais litúrgicos envolvendo a narrativa. Não se fala de pecado, nem de purificação. Sobreviver, semear, fecundar, é tudo que importa. A esperança de vida está no Deus da vida. Uma pergunta fica no ar, quanto a esta narrativa de autor desconhecido, se levamos em conta o legalismo e o código de pureza que virão a seguir, na religiosidade de Israel. “Onde se situará o confronto com a “doutrina” farisaica, posterior, que muda o sentido da partilha, da cooperação solidária, no dízimo ou na oferta ao altar, tornando-os impostos religiosos de uso duvidoso? Quantos são sacrificados para que esse fetiche se sobreponha?”.

Derval Dasilio

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