32° DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO “B”
Rute 3,1-5; 4,13-17 – Orientação para a solidariedade
Salmo 127 – …é inútil o esforço pela prosperidade
Hebreus 9,24-28 – Cristo ofertou-se, para sempre
Marcos 12,38-44 – Jesus denuncia a ganância

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Já estamos nos acostumando com carros-fortes e seguranças armados estacionados nas frentes dos mega-templos evangélicos. Campanhas empresariais de grande monta estão na mídia. Com tantos problemas, quem não gostaria que isso acontecesse com suas igrejas, adequando-nos à religiosidade sacrificial da prosperidade? Poucos. Causam inveja, os aparatos.

Sinais dos tempos. O dinheiro passa a ser uma mercadoria de muita procura, nada de extraordinário nisso. Extraordinário é querer alcançá-lo como sinal de prosperidade através da “obrigação da oferta no altar”. Ouve-se “antes eu era assim… Hoje, depois que passei a ser contribuinte, tenho tantos apartamentos, casas, carros do ano e muito dinheiro aplicado no banco…” Um parlamentar evangélico do momento, pentecostal, movimenta contas milionárias na Suíça… E há vozes para defendê-lo: Não toquem no ungido do Senhor…

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Desse modo, breve estaremos cantando o hino apócrifo nos cultos evangélicos, como se faz em tantos lugares na passagem do ano: “…muito dinheiro no bolso”! O imposto religioso “resolve todos os nossos problemas”, se diz impunemente nos púlpitos, onde pastores inatingíveis pela Receita Federal arrotam riqueza. Casamento mal das pernas, cargo político, representação no Congresso, emprego, namorado bonito, passar no vestibular, moradia própria… Pode ser que não se consiga tanto, mas que resolve o problema de certas autoridades religiosas, nas comunidades locais ou nacionais, lá isso resolve!

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Os exemplos são muitos. Novas e antigas igrejas “evangélicas” firmam-se no dinheiro como sinal importante de prosperidade espiritual ou material. Sinais de sucesso pessoal, são exibidos… E a sacola passa, sem cessar, entre os fieis. Não ouse ir com pouco dinheiro a um culto pentecostal, seu bolso será virado pelo avesso, até lhe tomaram a última moeda. Vencer na vida e ter dinheiro de sobra é imperativo. Ser pobre é vergonha, e sinal de ausência de fé, dirá o pregador. Aos gritos, certo, e está certo… de que se dirige a um público surdo.

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Os primeiros capítulos dos Atos dos Apóstolos apresentam um ideal reverso: assim devia ser a vida dos cristãos! Lucas carrega nas tintas esboçando sobre o sentido da contribuição cristã, e chega a dizer: “Todos vendiam tudo o que tinham” (At 4,34). Já em outro ponto ele esclarece melhor: “Os cristãos vendiam o que possuíam cada vez que alguém precisasse” (At 2,44). E depois, quando chega o momento de apresentar os fatos para os bem-postos, ele diz: “Barnabé é um deles. Barnabé vendeu tudo, colocou ao dispor dos apóstolos para que eles distribuíssem ficando pessoalmente sem nada” (At 4,36-37). E por causa disso ganhou grande respeito na comunidade.

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Ao terminar de contar o caso, Lucas passa para outro fato e fala de Ananias e Safira (cf. At 5,1-11). O casal quis fazer como Barnabé? Os dois venderam seus bens, guardaram uma parte e colocaram o restinho aos pés dos apóstolos, dizendo que era tudo que tinham! Mentiram. O castigo é terrível, porque fizeram uma coisa muito grave: o compromisso com Deus transformado em busca de prosperidade à custa da comunidade empobrecida.

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A comunidade não pode ser usada para o nosso próprio interesse de crescimento pessoal, é a lição. Não é fácil explicar esse fato do livro de Atos, mas a mensagem que está por trás é a seguinte: o dinheiro que surge por interesses de exibição de prosperidade é maldito. Como brandir o “machado corretivo”, bíblico, contra a idolatria financeira que impera?

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Aí a cobiça por dinheiro miraculoso como um prêmio da loteria, ou no “jogo-do-bicho”, incentivada por pastores na televisão, faz desanimar os cristãos “fracassados” nessa busca da prosperidade e sucesso a qualquer custo. Fracassados, porque permanecem pobres, mesmo quando contribuem com o que podem, desqualificados para competir no mercado religioso cada vez mais exigente, sem a “graça barata” vendida no balcão da igreja. Frustra-se quem não consegue entrar nesse mercado como consumidor de bem-aventuranças – não tendo cartão de crédito, pleiteia-se um cartão salvacionista que o pastor manda pelo correio. Porque não têm como ser “investidores” ou compradores de indulgências milagrosas que garantam lugar no céu capitalista, tirando-os do inferno da pobreza e da miséria, é-lhes imputada a culpa da “falta de fé”. São, na melhor das hipóteses, condenados ao “purgatório” social onde pagam pelo pecado de ser diminuído e fraco.

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[O bispo metodista Paulo Ayres Mattos disserta, em tese de doutoramento, sobre a teologia sacrificial do neopentecostalismo recente, e o “gênio em finanças religiosas” que comanda a competição capitalista entre igrejas-marketing. A anti-teologia impera, associada ao crescimento numérico, clientela cativa, almejado obsessivamente, como resultado de “vida abençoada” nas igrejas que crescem compulsivamente].

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Sacrifícios pessoais, ofertas e dízimos, conseguirão libertar e livrar-nos do inferno financeiro em que vivemos? Falando-se tanto em prosperidade abençoada, através de gordas ofertas, não estando preocupados com a sociedade, nem com a fome e a miséria do povo, até se justifica tudo isso: pobreza é maldição que pesa sobre os ombros dos que não ofertam… O pregador, (ou pregadora) diz: “É preciso quebrar a maldição”, da pobreza; não tem prosperidade quem é infiel no dízimo; “buscai primeiro o Reino… (corta-se o meio: “…e a sua justiça”) e todas as coisas vos serão acrescentadas”, referindo-se à conta bancária polpuda. A turba responde embevecida com a sabedoria da economia divina sustentada no discurso pastoral “pseudobíblico” da prosperidade e da vida abençoada… Johannes Tetzel, dominicano que pregava indulgências salvadoras no século XVI, ressuscitou na pregação pentecostal e evangelical do nosso tempo. Boas imitações, quase autênticas… Que saudade de Lutero!

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Derval Dasilio

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