Trindade Solidária

Gravura de Cerezo Barredo

CRISTO, UM REI SOLIDÁRIO
(2Samuel 23,1-7) Daniel 7,13-14 – O Filho do Homem reina / Apocalipse 1,5-8 – Jesus reina acima de  todos os reis / João 18, 33-37 – Disse Jesus: “Tu o dizes: eu sou Rei”

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Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
acreditam nas coisas lá do céu
Muita gente se arvora a ser deus
e promete tanta coisa pro sertão
Que vai dar um vestido pra Maria,
e promete um roçado pro João
Entra ano, sai ano, e nada vem,
meu sertão continua ao deus-dará
Mas se existe Jesus no firmamento,
cá na Terra isso tem que se acabar.
(Gilberto Gil)


“Na Bíblia, o povo eleito sempre está do lado dos reinos deste mundo”, disse Rubem Alves. Não é difícil ler isso: o povo bíblico sempre se encontra às voltas com bezerros de ouro, ídolos de pés-de-barro, divindades surdas, cegas e mudas. São ídolos que não trazem salvação e bem-estar senão para si mesmos — os construtores de imagens paliativas, como placebos espirituais  –, diante dos quais inclinam-se povos e raças. Jesus Cristo está sendo julgado pelos poderes deste mundo. O evangelho, nesse momento, proclama: “o Reino de Jesus não é deste mundo”. Não há, neste mundo, reinos que busquem em primeiro lugar a justiça, a misericórdia, a compaixão e a solidariedade. Que, juntas, constituem a Paz.

Ainda presos aos padrões dominantes, imaginamos um rei sobre a economia mundial; um governante ao estilo de Barak Obama, comandando um império mundial de interesses que vão da indústria de armamentos à garantia de acesso aos mananciais petrolíferos do Golfo Pérsico ao Mar Negro, berço das mais importantes civilizações do mundo antigo, manipulando e influenciando impositivamente políticas de nações islâmicas como o Irã, Iraque e Síria, neste momento.

Esse povo, bíblico, subserviente às potestades deste mundo, também é chamado de “prostituta”. Diz a Bíblia: como Deus, o profeta Oséias amava uma prostituta. Esta, por sua vez, amava a prostituição. Parábola da perversão popular, aplica-se também aos falsos profetas, bajuladores do rei. Diziam mentiras doces: há paz, comida, habitação, trabalho… Os profetas verdadeiros, porém, contavam verdades amargas, falando dos frutos azedos da miséria e das opressões reinantes, enquanto “reina o rei”. Festa para o falso, morte ao verdadeiro. E o povo?

O povo é uma prostituta de barranco, como se diz no Nordeste, oferecendo-se a preço baixo, “quarqué dois real”. É bíblico, esse povo? Sim. Porém, é uma gente prostituída. Pronta, inclusive, a dizer, conforme a oportunidade: “Crucifica, crucifica! César é o nosso rei”. Os romanos também sabiam disso: o que o povo gosta é de panis et circences, pão e circo. Outras vezes, o povo aprecia os entretenimentos perversos, diversão, gladiadores e leões ferozes nas arenas, sangue derramado em profusão, mártires destroçados porque não abjuram a fé… É muito divertido para o povo, o banimento dos mártires, enquanto aprova a tortura, a humilhação ou o “desaparecimento” dos mesmos. Pois, é só ler a Bíblia… não custa muito. Só a teologia ingênua idealiza o comportamento popular que não existe.

João 18, 33-37 – Categoricamente, o povo que sobrou do antigo e infiel, Israel, em plebiscito público declara: “César é o nosso rei”. Hoje, que posição tomamos? Ao lado de César, Pilatos, Caifás (poder político, judiciário, religioso) e do Templo (= religião)? Tratamos de consciências vendidas aos poderes dominantes? Utilizamos os avanços tecnológicos como desculpa de atualização necessária aos nossos fins? Queremos participar do “espírito” imediatista e consumista do mundo globalizado e dele tirar tudo “que temos direito de consumir, culturalmente”, inclusive no ambiente eclesiástico ou religioso?

Absorvemos sem questionar a ética e a “espiritualidade” do mercado global, pós-industrial? Submetemo-nos sem resistência ao poder e valores da cultura global; ao modo de pensar do mercado? Nossas igrejas vão se tornar simulacros do reality show e de toda a obscenidade e imitação cultural que se propaga como uma praga litúrgica no meio da Igreja Evangélica? Dobramos nossos joelhos aos reis deste mundo (mercado, economia, política), enquanto simulamos dobrá-los a Cristo, na liturgia corrompida que tomou o pseudo culto dos nossos dias?

No relato da Paixão, no quarto evangelho, não temos dúvidas: afirma-se que Jesus é o “rei dos judeus”. Por 6 vezes esta expressão aparece, e a palavra “rei” (basileus) é encontrada por 12 vezes. O contexto é o “julgamento de Pilatos”, o representante político de César na Palestina. O julgamento é político, sem dúvida. Claramente, Jesus define a sua realeza. No entanto, uma negativa se evidencia: “meu Reino não é deste mundo”. Se fosse um reino comum, para os judeus, ele não seria combatido ou preso por sua própria gente. A realeza de Jesus não está em função do reconhecimento público da sua gente (que, como hoje, prefere declarar outros como seus reis: “…César é o nosso rei, crucifica-o!”), menos ainda do poder reinante. A realeza de Jesus é de outra ordem, não acompanha a violência do poder político, não se submete ao mesmo. 

O Reino do qual é Rei está sobre todos os reis deste mundo, inclusive o César. Pilatos representa César, o rei de todos os reis deste mundo. A inscrição sobre a cruz é irrefutável: “Rei dos Judeus”. Não havia engano possível: César não admitia e mandava crucificar aquele que se apresentava com “poder” concorrente com o dele. Pilatos, preposto, é advertido: “Se o soltas, não representas a César, ele enfrenta o imperador. Nosso rei é César, e ninguém mais” (Jo19,12e15). As opções por César, de um lado, e a opção por Jesus, por outro, são incompatíveis. Há conflito, de finalidade e de reconhecimento relativo à autoridade de cada um. Um reino “deste mundo” representa a dominação, massacre cultural, morte de tradições e princípios da fé genuína. O Reino de Jesus representa a Verdade e a Vida, Salvação e Libertação, a solidariedade com os pobres e miseráveis; com os oprimidos, pelas dominações e realezas que governam o mundo. Jesus representa a libertação das cadeias culturais impostas.

Apocalipse 1,5-8 – O Evangelho de João apresenta Pilatos como a besta romana; Jesus, o Filho do Homem, é representante daqueles que não adoram a besta, todos os santos. João coloca na boca de Pilatos as palavras: “Eis aqui o Homem”.  É o Filho do Homem que reina, porém sua coroa é de espinhos, colocada em sua cabeça pelos soldados da besta. Todos os povos e nações  adoram o Filho do Homem revelado. Seu império é eterno e seu reino jamais terminará. Esta figura, chamada Filho do Homem, está em oposição aos 4 impérios que têm oprimido o povo de Deus (1-8) (cf. Daniel 7,13-14). Assírios, babilônios, persas e helenos, seqüencialmente. Se as bestas representam a opressão do povo santo do Altíssimo, o Filho do Homem é a figura coletiva do povo eleito. As bestas são destruídas e o Filho do Homem recebe todo o poder, bem como o império. Podemos atualizar, em cânon aberto, hoje, uma “quinta besta” em oposição do Filho do Homem aos impérios do nosso tempo? Certamente não. Haja espaço e teologia simbólica para as dominações (bestas) que sucederam a César. Não há museu histórico capaz de comportar tantos poderes bestiais na história do Ocidente cristão.

No Apocalipse de João, Jesus saúda a comunidade, porque o Messias é fiel “testemunha” (martyria); é o “primeiro” nascido dentre os mortos, o Príncipe dos reis da terra. Para uma comunidade perseguida o importante é confessar Jesus como o Messias; como o Mártir, testemunha do Reino de Deus; como o primeiro ressuscitado (aquele que anuncia que todos ressuscitarão) e como aquele que tem poder sobre todos os reis da terra. A comunidade responde a partir de sua própria experiência, reconhecendo-se como constituída de sacerdotes do Reino de Deus. Todo o povo participa da realeza de Jesus é um povo sacerdotal. Não preenchendo o papel testemunhal de intercessores e interventores para a reconciliação com o projeto do Reino de Deus, que povo sacerdotal é esse, que não se reconhece na resistência aos poderes e potestades, enquanto se ajoelha diante dos deuses deste mundo; e protesta falsamente sua fidelidade ao Rei do Universo?

Derval Dasilio

 

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