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PREPARANDO PARA A EXISTÊNCIA PROFUNDA
Romanos 13,11-14 – A salvação está mais perto do que imaginamos | Mateus 24,37-44 – Fiquem atentos, preparem-se!

cordeiroevangelhoadvento

gravura – claudio pastro


Começamos o tempo do Advento, tempo de preparação para as celebrações natalinas do nascimento e manifestação de Jesus Cristo, e da encarnação do Logos, a Palavra de Deus. Não devemos nos esquecer que o logos corresponde a “davar”, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos: a teologia de João reflete o pensamento de um hebreu que pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica; ali, o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas, é davar, que significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua: davar é a Palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; davar é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que davar é a Palavra que torna perceptível a chegada do Reino de Deus. Davar  é o Evangelho do Cristo de Deus.

As advertências de Jesus põem uma nota de gravidade no tempo do Advento que hoje começamos a celebrar: não se trata somente dos enfeites natalinos dos quais já estão cheios os supermercados, as lojas, a mídia de marketing. Não se trata de uma falsa alegria, induzida artificialmente por musica melada importada do estrangeiro, na boca de musas neo-evangélicas sem garra profética, sem indignação. Nem da falsa aparência de bem-estar ao se esbanjar dinheiro em compras desnecessárias e injustificáveis. Que sinais de esperança e de desesperança a sociedade atual “realista”, “pragmática”, sem utopias, desencantada, desesperançada, anestesiada pela proclamação do “final da história”, apresenta sobre o final desses tempos? Que papel os cristãos teriam nesta hora de congelamento da esperança num país de tórrido clima tropical. 

Na profundidade do Advento do Senhor Jesus Cristo, uma rebelião também advirá inevitavelmente. Contra a superficialidade do mundo onde vivemos, onde certa conveniência satisfaz os poderes deste mundo, e nos fará mergulhar mais no campo profundo onde queremos encontrar a verdade das coisas. Vivemos o tempo do bem-estar individual, egoísta, narcisista, indiferente socialmente, estimulado através do consumismo irresponsável. 

Políticos oportunistas aproveitam-se de catástrofes e desastres ambientais para angariar recursos que os tornarão mais ricos. Vimos isso nas serras do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Recentemente. O desastre de Mariana MG, coincide com a preparação das próximas eleições municipais. Indiferentes ao projeto de Sebastião Salgado – Recuperação das Nascentes do Rio Doce –, enxergando os bilhões que serão movimentados, já se imaginam temas que serão aproveitados nas campanhas de 2016. O destacado fotógrafo e ambientalista declarou: O problema estaria na destinação dos recursos federais. Como impedir que o dinheiro vá parar no remoinho do sistema ético-político (duvidoso) que, como a lama, tudo digere e nada recicla (a não ser a corrupção costumeira)?

Outras pessoas, no cotidiano da ganância, se sentem poderosas e participantes da riqueza da sociedade porque têm emprego rendoso, carro do ano, apartamento em zonas urbanas valorizadas, TV FullHD, notebooks, iPod, celulares multifuncionais. Acreditam que já gozam do Éden capitalista, e que ingressaram na elite do consumo caro e sofisticado. Não sabem que mergulharam no buraco negro da inconsciência coletiva, e nem sabem mais sobre a solidariedade, a compaixão, a misericórdia e a ternura pelos desgraçados.

O Advento nos dirá sobre essa direção, nas palavras proféticas (Is 40,3): “Preparem o caminho do Senhor”. Os profetas bíblicos cuidavam desse assunto, diante do senso comum dos que afirmavam: o rei é bom, temos um bom governo; o rei é justo, mas só os bem-postos gozam plenamente de direitos sociais; faz isso para o bem de todos enquanto dá pão e diversão; o rei ignora a corrupção… Mas na profundidade das coisas o que existia mesmo era a miséria encoberta, a fome de muitos, a abastança de poucos, o desamparo do órfão e da viúva, o protecionismo e corporativismo destinados aos privilegiados das elites econômicas, e da corte monárquica. O que se escondia, abaixo da superfície era o falseamento público das estratégias econômicas, a falta de transparência na economia, nos negócios e na diplomacia internacional; era a negação dos direitos fundamentais das pessoas e do povo. E sonegação da dignidade.

Mas os profetas profissionais, a serviço dos governantes, diziam que havia paz, e que a sociedade encaminhava-se para melhores posições diante das potências do mundo desenvolvido. Os profetas verdadeiros, porém, em nome de Deus, diziam: não há paz. Falta tudo que diz respeito à paz (a palavra ‘shalom’ é abrangente, desde a dignidade humana em sociedade no gozo dos direitos fundamentais como na moderna Carta dos Direitos Humanos) – na interioridade e exterioridade existencial de cada um de nós – ou na falta de distribuição e participação equânime dos bens sociais que trazem a paz.

Os poetas também fazem isso quando expressam profundos sentimentos a respeito de catástrofes que irromperiam até a superfície da história da sociedade humana (Neruda, Thiago de Mello, i.e.). Quando a teologia do Advento mergulha em profundidade na história da miséria, das desigualdades, dos sofrimentos causados pela distribuição diferenciada das riquezas de uma sociedade, sempre favorecendo quem já é socialmente privilegiado. Quando a exclusão de desprotegidos e despoderados diminui ainda mais os pequenos.

Quando se faz arqueologia nos fossos profundos que separam as massas empobrecidas dos bem-postos, em termos comunitários e sociais, da sociedade, do mundo, temos a consciência de que esse conhecimento poderia fazer-nos entender também os ódios transportados através do tempo sem memória: intolerância sexual e racial; preconceitos de classe, raciais, sexistas, anti-ecumênicos.

O conformismo com as opressões, a entrega ao fatalismo e a aceitação dos determinismos sociais. Dizem: “bom mesmo é poder comprar, consumir, ter e acumular”, como nos ensinam as sociedades capitalistas. E constatamos um obstáculo à profundidade existencial na vida do cristão e da cristã desse tempo de insanidade. Prevalecem o homo-femina demens (homem e mulher insanos) contra o homo-femina sapiens (homem e mulheres conscientes).

Eles nos levam a buscar direitos a céus abstratos contidos em doutrinas salvacionistas ausentes da realidade humana, doutrinas que não explicitam a salvação de quê nem para quê, na existência e na vida concreta. Ideologias que impedem a indignação quanto às pressões da sociedade materialista e impiedosa de nossos dias.

Por outro lado, o Advento inspira a espiritualidade e vivência na vida de fé, que nos ajudam a reconhecer as lutas históricas pelas liberdades, na comunidade e na sociedade; pelo reconhecimento de direitos fundamentais, dignidade, “medindo” os resultados das lutas humanas. A esperança contida no Advento do Filho de Deus também nos ajuda a reconhecer a necessidade de transformações, radiografando e examinando endoscopicamente os esquemas das desigualdades e injustiças sociais, no mundo em que vivemos. Eis o Advento: o Senhor vem! Vem, Senhor, restaura a Criação.

Vemos no Avento, como observamos as estações que se sucedem, sob desígnio divino, as flores que nascem e morrem a semente que fica e recria; o nascer de cada dia com um sol diferente, uma luz que não se iguala à de ontem, depois de cada noite. Mesmo as noites mais escuras. Ouvimos canários da mesma espécie que cantam diferente um do outro, sem perder a beleza do canto mavioso da espécie. A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é Deus. Se alguém ainda pergunta sobre a existência profunda; sobre seu futuro e a salvação de sua própria vida, encontrará a resposta no Vento, o Espírito da verdade. Disse Jesus: eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida, e ninguém vai ao Pai senão por mim. Cada dia do ano litúrgico, que seguiremos com fidelidade, nos ensinará sobre o Caminho.

Derval Dasilio

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