…E JOGARAM JESUS MORRO ABAIXO

penhasco

…JOGARAM JESUS MORRO ABAIXO. – Isaías 6.1-8 (9-13); Salmo 138; 1Coríntios 15.1-11; Lucas 5.1-11  – (30.janeiro-2016)

QUINTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C


JESUS ANUNCIA O REINO EM SUA TERRA NATAL

Depois da leitura que Jesus fez do profeta Isaías (Lucas 4,21-30), terminava a leitura do evangelho, dizendo que “todos os presentes tinham os olhos fixos nele”. Hoje se observa o prosseguimento da cena que desenrola-se na sinagoga de Nazaré (Jesus lê Isaías 61, sobre o Jubileu bíblico, o Evangelho do Ano da Graça, conforme o AT). Jesus diz que na pessoa dele cumprem-se as palavras de Isaías. Quer dizer, que ele é o ungido (mashiah, messias), para anunciar a Boa Nova aos pobres e oprimidos… o Reino de Deus chegou!

[Nota: É imprescindível conferir a relação da pregação de Jesus com o Jubileu bíblico: Lv 25,31; Ex 21,2-11; Dt 15,1-6: a sociedade israelita religiosa obediente a Yahweh deve observar as leis contra a escravidão, a opressão do estrangeiro, a exploração do pobre e do fraco, colocando o órfão e a viúva como prioridade sob cuidado da sociedade inteira].


As palavras de Jesus enfurecem os presentes, e tentam jogá-lo morro abaixo, expulsando-o do povoado. O cenário é atualizado nos dias de hoje: negamos a mensagem do nazareno, expulsando-o de nossas igrejas para dar lugar a pregadores midiáticos da ganância e da prosperidade. É curioso como necessitados, oprimidos, excluídos, de Nazaré, sujeitos preferenciais do anúncio da Boa Nova, convertem-se em sujeitos de ódio e de morte, desprezando a Palavra evangelizadora em seu próprio ambiente.


Jesus percebe que seus conterrâneos não estão interessados no que diz, mas em seus gestos. Interessa-lhes antes de tudo o espetáculo de milagres, prestidigitação, hipnotismo coletivo (você já foi a uma dessas igrejas recentes, que transformadas em self-service de curas e milagres?), que “cure” os doentes do povoado em espetáculo público — como nos shows pentecostais de hoje. À moda dos tradicionais curandeiros que enriquecem com a venda de “milagres” duvidosos.


Mas não é essa “cura” que de fato interessa. Jesus lhes responde com adágios que percorrem o tempo sem perder o sentido: “nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”; “em Nazaré não haverá milagre algum”. Nazaré não merece, nem quer o Reino… Jesus se refere ao Antigo Testamento, à força da pregação dos profetas contra tiranos, déspotas, reis e os dominadores, para explicar a situação de seus compatriotas, entregues ao abandono, à miséria, à fome, à pobreza aviltante que “insulta aos céus” (João Dias de Araújo, saudoso e estimulante amigo da teologia: “Há tanta gente sem lar sem pão…”).


O EVANGELHO DE JESUS BUSCA PROTEGER OS DESVALIDOS

Quem reconhecerá neste texto a missão de anunciar a Boa Nova aos distantes, quer dizer, a Palavra que se lança ao destino final, que se amplia fora do âmbito racial, religioso e político, do povo originalmente eleito? O evangelho tem de ser uma palavra que busque sempre o caminho dos mais afastados e necessitados, estejam onde estiverem, parece sugerir Jesus.


Num tempo de tecnologias de ponta, de virtualidade, conecções espaciais, não podemos deixar-nos escravizar pela razão instrumental que envolve os conceitos de missão e evangelização salvacionistas ou doutrinários, petrificados ou superados historicamente pela ausência de resultados aceitáveis. Discute-se o que é evangelização e não se evangeliza. Lembro-me de uma frase de Ingmar Bergman, parafraseio-a: “Eles discursam o tempo todo sobre evangelização e amor, mas o que fazem é pregar doutrinas desgastadas e o ódio e desprezo aos adversários”.


Pregadores midiáticos, pentecostalistas, repetem as lições salvacionistas em proveito próprio — salvam para encurralar o fiel e tomar-lhe os recursos de seu trabalho sem qualquer escrúpulo. Agora, a massa pentecostal é orientada pelo pragmatismo capitalista: arrecadar, patrimonializar, lucrar. Pastores enriquecem — enquanto os fieis empobrecem ainda mais –, tornam-se milionários, e chamam os fieis para segui-los (e sustentá-los no luxo e ostentação). Mas a verdade é que, mesmo criticando a religião da prosperidade, as comunidades tradicionais não se questionam, não se perguntam se não fazem o mesmo, enquanto criticam os outros:


DENUNCIANDO AS MENTIRAS DO CAPITALISMO HISTÓRICO

“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização econômica é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é uma economia de arquipélagos dependentes que a globalização criou” (Jean Ziegler). Com a palavra a religião contemporânea (em suas semelhanças), de maior sucesso numérico e estatístico no Brasil, e os que criaram os meios para tanto, no protestantismo e catolicismo históricos que camuflam sua inveja.


“A palavra evangelizadora ou é ativa na práxis de libertação, ou é antievangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata, dominada pela razão. É uma palavra que faz referencia à realidade – política, econômica, jurídica, social –, e a confronta com o projeto libertador de Deus. ‘Evangelizar é libertar a Palavra’ (Nolan). Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus. Uma palavra que não entra na historia dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades infligidas ao ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens da indiferença, ou não mobiliza, são sacode, não provoca reações ao mal cultural, social, econômico, político; que não suscita solidariedade aos mais fracos (nem suscita adversários nas elites privilegiadas), não é herdeira da ‘paixão’ do Filho de Deus. Disse Jesus: Fui ungido para trazer libertação aos cativos” (cf. domingo anterior).


A Palavra será sua força na luta contra falsos profetas, sacerdotes cooptados, reis, ministros e proprietários de bens, terra e imóveis. São os que esqueceram a aliança de Deus, oprimindo e marginalizando seu próprio povo. O profeta encontra-se forte na obediência à Palavra (davar = palavra que transforma; que cria a novidade na ordem injusta). Ele a anuncia. Jesus está  familiarizado com Israel bíblico, sua história contra a ganância dos reis infiéis e suas cortes (na história da dinastia davídica, somente 4 reis mereceram elogios por seu empenho pela justiça), e não com os poderosos impérios helênico ou romano, ou quaisquer outros dos que oprimiram Israel em toda a sua história. Sua linguagem e suas culturas, marcadas pela injustiça social, não conferem com a linguagem dos profetas de Israel. Isto lhe assegura a companhia permanente de Deus e da fé bíblica.

Derval Dasilio


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O EVANGELHO DOS VIGARISTAS E OPORTUNISTAS

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QUARTO DOMINGO – DEPOIS DA EPIFANIA –   ANO “C”  – Cor litúrgica: VERDE (na túnica, estola, panos da mesa da comunhão:  branca e verde, também nas flores do altar)


Jeremias 1,4-10; 17-19 – Já te havia designado profeta
Salmo 71,1-6 – Minha boca só proclamará sua justiça…
1Coríntios 12,31 – 13, 13 –  O amor é a maior das virtudes
Lucas 4,21-30 – Jesus foi enviado para evangelizar…



multidões (2)


O EVANGELHO DOS VIGARISTAS E OPORTUNISTAS

Nem tudo dá certo para os negociantes de igrejas. Ex-jogador da seleção, o pastor pentecostal Muller admitiu ter perdido muito dinheiro ganho na igreja,  morando de favor com o ex-jogador Pavão. “O Muller não soube aplicar o que ganhou com o futebol, acreditou em supostos amigos e perdeu  também dinheiro em sua igreja”, conta Ronaldo Luís, outro amigo e pastor. Como empreendedor religioso, Muller teve prejuízos. Ainda como jogador, ele investiu na criação da Igreja Pentecostal Vida com Deus, em Minas Gerais. A instituição foi fechada pouco depois por Muller, dando grande prejuízo. A igreja do Muller acabou não indo à frente. Ele decidiu vendê-la”, relembra Ronaldo Luís, pastor da Igreja Batista Getsêmani, de Belo Horizonte MG.


Há algumas décadas o orientalismo ocupava as mentes dos que desejavam diferenciar-se das práticas cristãs tradicionais. Receitas sobre o caminho de Sootraying, seis dias inteiros de reflexão sem ligar a televisão, o aspirador de pó, o ar condicionado, o chuveiro elétrico, para se alcançar o estágio do Shanmukhi. E, seu corpo ficaria mais leve, você encontraria  a absoluta leveza do ser, enquanto perderia o acúmulo de superficialidades que sobrecarregam seu cotidiano. Com seis anos de exercícios metafísicos  qualquer praticante chegaria ao Nirvana, dispensando o telefone (celular?),  a luz elétrica, o gás de aquecimento ou de cozinha, o automóvel, o metrô, e tudo que constitui “dependência material”. Na moda as flores de lótus, que se estendiam até às posições do YogaHata (yôga, meu caro!), e você aprenderia a plantar bananeiras em estilo oriental, nas posições W para os braços, e K para as pernas. Então, você se livraria de uma vez do mundo desesperado em que vivia, enquanto se afastaria gradualmente das coisas materiais que cercam a vida do homem e da mulher modernos. Meditação…

Evangelizar é viver pela utopia de Deus, segundo a própria Escritura. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso, para que eu não deixe de caminhar” (Eduardo Galeano).

A religião oposta ao realismo racionalista no século 20, em suas perspectivas intimistas, ressalta a preocupação por estados mentais sem inquietação, negando estranhamentos próprios ao mundo secularizado do momento. Presa do positivismo eclesiástico (o fundamentalismo nos parece contraditório?), embarca no materialismo pentecostal que sugere a prosperidade como fim último, deixa-se de lado o mistério da fé, o inusitado, o inexprimível. 

Nesse lugar, falta vigor ético para recusar e rebater a insanidade consumista, entre outras compulsões coletivas. Falta vigor para denunciar a ausência das responsabilidades éticas sobre diferenças sexuais e raciais; para enfrentar e combater o autoritarismo e seletividade social; para recusar a inconsciência sobre a dignidade e totalidade humanas. O sistema de crenças é permeado, então, pelas novas concepções religiosas pragmáticas — religião da prosperidade –, inclusive as demais, também religiosas, alimentando o individualismo cego, a anarquia política e o combate à socialização e repartição dos bens da sociedade coletiva.

Inquietação, emoção, estranhamentos, espiritualidades negativas, perversidade na condenação de direitos fundamentais, são temas que interessam à religião simbólica do nosso tempo? Na verdade, não estamos diante de uma reação ao materialismo e positivismo, ao cientificismo, ao progresso tecnológico. De fato, regredimos nos temas e objetos da evangelização, como parte essencial da responsabilidade social das igrejas e dos cristãos.

FOI SUGADA A ÚLTIMA GOTA DE HUMANIDADE…

A evangelização tem que clamar pelo legado cristão aos novos evangelizadores, que encaixem a figura do fraco, do depreciado e diminuído, do estrangeiro, migrante ou imigrante; do diferente nas opções da sexualidade ou na cor da pele; do oprimido socialmente, que necessita ser reconhecido dentro dos parâmetros da sociedade moderna que abafa o humanismo, sugando até à última gota os resquícios de humanidade alcançados. Os novos evangelizadores terão a função de trazer o futuro oferecido pelo Reino de Deus para dentro do verdadeiro lugar sagrado: o mundo onde se cumprem as bem-aventuranças. “Na pauta da utopia estão o próximo e a próxima, especialmente o pobre, o diferente, o fraco, o estigmatizado, o oprimido e o sofredor” (Juan Simarro).


Buscamos revelar os significados da vida interior, ao invés da aparência e da familiaridade com o mundo exterior? No momento, nem mesmo buscas esotéricas e espiritualidades orientais  são estimuladas — observemos o desinteresse pelo espiritismo, ou pelo movimento rosa-cruz; sem igualá-los, ao esvaziamento do budismo, do harekrishna e outros. Porém, modas estranhas, prazeres escandalosos, inveja, ganância, consumismo compulsivo, ocupam espaços anteriormente condenados. O pentecostalismo materialista encampou tudo isso, enquanto é aplaudido pelo fundamentalismo, companheiro ideológico do pentecostalismo moderno.

Hoje, a sexualidade aprecia ambos os sexos, androginia, ofuscando o homossexualismo reivindicatório de igualdade social. Há ambivalência nas imagens, refletindo os tempos atuais, dificultando a distinção das piadas sobre homoafetividade e a panssexualidade das drag queens, desvairadas que sugerem uma “originalidade” greco-romana necessária ao mundo moderna. Precisamos compreender tais tendências, porém despidos de moralismos inúteis, juntamente com a compreensão amorosa para com os corpos que sugerem medos e desejos desconcertantes senão contraditórios, os quais comparecem negativamente, concomitantemente, no simbolismo da secularização eclesiástica. Enquanto isso, desaparecem dos cenários a evangelização a respeito dos temas do Evangelho.

A Tempestade, de Edvard Munch, pintor da virada do século 20, pode ilustrar o que acontece com a religiosidade pentecostal soft, gospel, prazer das elites bem-postas socialmente, como um acontecimento físico para alcançar a vida emocional estável. O assunto está conectado com as passagens das igrejas jovens do estado virgem para a vida adulta, enquanto indica a perda da inocência imposta pela religião positivista, da prosperidade, da inveja e da ganância. Barulhos, ruídos e estrondos de raios e trovões são comparáveis às aflições das igrejas mais jovens diante de um mundo a que talvez  nem queiram pertencer.

Derval Dasilio

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CONVERSÕES – 3o. Domingo do Tempo Comum [depois da Epifania]

Teologia & Liturgia e Culto Cristão - ANO "C"

CONVERSÕES – 3º Domingo do Tempo Comum – Ano B  
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta                  
Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio            
1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo        
Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho! 

A conversão consiste em mudar de religião ou simplesmente adotar a causa de Jesus? O conceito de conversão necessita também alguma reformulação entre os próprios cristãos. O evangelho de hoje é, por assim dizer, “o primeiro sermão de Jesus”. Marcos o coloca ao início de seu evangelho como um manifesto programático. Possui todos os elementos centrais do que vem a ser a pregação  de Jesus. Todo o evangelho põe em relevo a importância central do Reino de Deus na missão de Jesus (“buscai em primeiro lugar o Reino”; a proposta de Deus para transformar o mundo e seus pensares religiosos…

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CONVERSÕES?

 

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COMENTÁRIO PUBLICADO EM JANEIRO – 2015 – ANO B

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Marcos 1, 14-20 – Depois de narrar o início do evangelho com João Batista batizando a Jesus, com a unção messiânica de Jesus no rio Jordão e com suas tentações no deserto, Marcos relata o início da atividade pública de Jesus: é o humilde carpinteiro de Nazaré que agora percorre sua região, a próspera, mas mal falada Galiléia, pregando nas aldeias e cidades, nas encruzilhadas do caminho, nas sinagogas e nas praças. Sua voz chega a quem quer ouvi-lo, sem exigir nada em troca. Uma voz clara e vibrante como a dos antigos profetas. Marcos resume todo o conteúdo da pregação de Jesus nestes dois momentos: o reinado de Deus começou – pois terminou o prazo de sua espera; perante o reinado de Deus só cabe converter-se à causa de Jesus, o Reino de Deus, acolher e aceitá-lo com fé.
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De que rei falava agora Jesus? Daquele anunciado pelos profetas e esperado com ânsias pelos justos. Um rei divino que garantiria a justiça e o direito aos pobres e aos humildes, e excluiria de sua vista os violentos e opressores. Um rei universal que anularia as fronteiras entre os povos e faria confluir a seu monte santo, Sião, a todas as nações, inclusive as mais bárbaras e sanguinárias, para instaurar no mundo uma era de paz e fraternidade, só comparável à era paradisíaca relatada no gênesis. Este reinado de Deus que Jesus anunciava há 2.000 anos pela Galiléia continua sendo a esperança, de todos os pobres e oprimidos da terra, e está em andamento desde que Jesus o proclamara. Os que o seguem anunciando seus discípulos, os que Ele chamou em seu seguimento para confiar-lhes a tarefa de “pescar”, trazendo às redes do Reino os seres humanos de boa vontade. É o reino que a Igreja deveria proclamar (mas ela reverte a ordem: de coadjuvante quer ser protagonista do Reino, como autoridade religiosa, em equívoco histórico escabroso e inaceitável teologicamente)

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A tarefa pertence  aos cristãos do mundo para que se empenham em preparar o Reino de mil maneiras, reflexos da vontade amorosa de Deus: curando os enfermos, dando pão aos famintos, acalmando a sede dos sedentos, ensinando aos que não sabem, perdoando aos ofensores e acolhendo-os na mesa fraterna da comunhão; denunciando com palavras e atitudes os violentos, opressores e injustos. A nós corresponde, como Jonas, Paulo, retomar as bandeiras do reinado de Deus e anunciá-lo em nosso tempo [Gravura: Cerezo Barredo].

Derval Dasilio

 CONVERSÕES – 

Depois da Epifania – Terceiro Domingo – Ano B
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta | Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio | 1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo | Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho!
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A conversão consiste em mudar de religião ou simplesmente adotar a causa de Jesus? O conceito de conversão necessita também alguma reformulação entre os próprios cristãos. O evangelho de hoje é, por assim dizer, “o primeiro sermão de Jesus”. Marcos o coloca ao início de seu evangelho como um manifesto programático. Possui todos os elementos centrais do que vem a ser a pregação  de Jesus. Todo o evangelho põe em relevo a importância central do Reino de Deus na missão de Jesus (“buscai em primeiro lugar o Reino”; a proposta de Deus para transformar o mundo e seus pensares religiosos, políticos, econômicos…). O Reino não é mais um elemento, mas o centro da pregação de Jesus. Se não se entende isto, não se entende, nem se entende o que é ser cristão e discípulo de Jesus. Ser religioso não representa garantia alguma, pois a própria religião à qual pertenciam Jesus e os Apóstolos recusou e julgou-o.
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Jonas 3, 1-5.10 – Esta leitura do livro do profeta Jonas (história contada com datação provável no III séc. a.C.; trata-se de um livro “rebelde”, entre outros, ao judaísmo formativo e suas ênfase racistas, legalistas, e ênfase numa eleição exclusivista), prepara a leitura do evangelho de Marcos, que será centro do lecionário ao longo de todos os domingos do tempo comum depois da Epifania. Como Jesus, Jonas também é enviado por Deus a proclamar sua salvação, a chamar todos os povos e raças à conversão. Que conversão? Certamente ao projeto de Deus para toda a humanidade. Recordemos que os escritores bíblicos não sabiam dos povos distantes do Oriente (Índia, China, etc.), nem sabiam dos povos do Continente australiano ou americano.
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Como Jesus, Jonas também experimenta a fragilidade humana (Mateus 4), a tentação de fugir, de não carregar o peso da vontade de Deus que se lhe oferece. Finalmente Jonas vai à cidade pagã de Nínive, a grande capital do império assírio, 700 anos antes de Cristo, e proclama, como Jesus, mais tarde, a vinda salvadora de Deus, ante a qual não resta outra atitude que a de converter-se à vontade de Deus (e não à lei, como querem muitos evangélicos e judeus, simultaneamente).
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Jonas é uma denúncia contra todo nacionalismo, centralismo, fundamentalismo, anti-ecumenismo, integrismo, racismo, exclusivismo religioso que pretenda excluir a qualquer ser humano da Graça amorosa de Deus Pai. O pequeno livro de Jonas foi escrito numa época difícil para o povo judeu, quando se sentia a tentação de fecharem-se privilégios religiosos, considerando-os como escolhidos exclusivos. Ao retornarem do exílio, e já reorganizando a nação em torno de uma religião dura, implacável, com ênfase no legalismo religioso. Ali nasceu o fundamentalismo bíblico-religioso ressuscitado recentemente entre evangélicos e católicos, por isso cristãos, para afirmarem o falso exclusivismo, numa hermenêutica da eleição do povo bíblico exclusivamente como tal, adotam a exclusão social, leis racistas, homo e heterofóbicas, interna  e externamente.
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Também sofreram a tentação de condenarem todos os demais povos, os quais não partilhavam de sua cultura, de sua fé religiosa e de sua história. Através de Jonas, Deus está dizendo aos judeus que sua salvação há de ser partilhada com todas as nações, inclusive com as nações opressoras, como fora a nação dos assírios. Lição de universalismo, de máxima tolerância, de ecumenismo e de abertura amorosa aos braços de Deus.  A religião exclui, mas Deus deseja acolher todos os seres humanos em sua casa (Jesus disse: “Na casa de meu pai há muitas moradas…”). Algo tão válido em nossos tempos de exclusivismos e fundamentalismos, como nos velhos tempos do Antigo Testamento.

NOTA: Os judeus que escutavam a Jesus recordavam muitos governos: o mui recente reinado de (…ou dos Herodes, quatro ao todo) Herodes, o Grande, sanguinário e ambicioso; o governo dos asmoneus, descendentes dos libertadores Macabeus, reis que haviam exercido simultaneamente o sumo sacerdócio e haviam oprimido o povo, tanto ou mais que os invasores gregos, selêucidas. Recordavam também os antigos reis do remoto passado — de fato israelitas  –, convertidos em figuras de lendas douradas. Davi e seu filho Salomão, e a longa lista de seus descendentes que por quase 500 anos haviam exercido sobre o povo um poder totalitário, governando pela violência. Foram quase sempre tiranos e exploradores, os reis de Israel. Os reis judeus não menos [dinastias dos sécs. I, II e III a.C., que não devem ser confundidas com as de Israel, também reis tirânicos, exterminadores, que duraram, desde Davi, apenas 500 anos antes de Jesus e dos apóstolos].

Derval Dasilio.

Derval Dasilio.  

 

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LIBERDADE PARA OS CATIVOS

LIBERDADE PARA OS CATIVOS
Evangelho: Lucas 1,1-4;4,14-21 – O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me ungiu para libertar os cativos
O texto de Lucas 4,14ss era sem relevância na vida prática da comunidade cristã até recentemente (teologia de raiz, evocando Isaías 61 e as questões do Jubileu Bíblico, o Pacto da Aliança, e textos fundamentais do Deuteronômio). Um texto esquecido, desprezado, como tantos outros que hoje nos parecem fundamentais. Foi a teologia latino-americana que colocou este texto em relevo, desde Richard Shaull, Milton Shwantes, Joaquim Beato,  José Luis Segundo, Leonardo Boff e outros teólogos ecumênicos. Lucas coloca-o no inicio da vida pública de Jesus. Pode não ter acontecido exatamente na ordem apresentada cronologicamente, porém sim na ordem da “significação”. Talvez as coisas possam não ter ocorrido assim (e não é possível saber historicamente), porém Lucas tem razão quando situa esta cena em seu evangelho como um início programático que contém, já e simbolicamente, o germe de toda a sua missão.  Como atualizador da libertação, da parte de Deus; “davar” sempre é a “palavra de Deus”). As aplicações são muitas e diretas:

Jesus, sem dúvida, teve que interpretar muitas vezes sua própria vida com este texto profético de Isaías (61). A única vez em que a palavra “evangelho” aparece no AT ocorre nesse capítulo. Parece óbvio que Jesus tenha visto sua vida como o cumprimento, o prolongamento daquele anuncio profético da “Boa Nova para os pobres”. A missão de Jesus é o anúncio da Boa Nova da libertação. A “evangelização” (“eu-angelion” = boa noticia, já na Bíblia Alexandrina, a Septuaginta) não é mais que uma forma de libertação. “Libertação pela palavra” (em hebraico é “davar”, ato criador, transformador, “novidador”, atualizador da libertação, da parte de Deus; “davar” sempre é a “palavra de Deus”). As aplicações são muitas e diretas:


A missão cristã hoje, continuando a missão de Jesus, tem que ser isso mesmo, ou seja: “continuação da missão de Jesus”, em sentido literal e direto. Ser cristão, será “viver e lutar pela causa de Jesus”, sentir-se chamado a proclamar a Boa Notícia, a “a Palavra libertadora” tem que ser “boa” e tem que ser noticia sobre as urgências de Deus. Não pode subsistir semanticamente pelo catecismo eclesiástico ou religiosos, ou pela “doutrina” sobre a infalibilidade da Bíblia. A “evangelização” de Jesus não foi uma “catequese eclesiástico-pastoral”, nem refletia tão somente o que se diz sobre as virtudes da Bíblia, isoladamente… A instalação do reinado de Deus é a essência de sua Palavra.


Pode ser bom lembrar uma vez mais: Jesus está longe do legalismo “bíblico”, da beneficência e do assistencialismo… Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a ordem nova integral regida pelas “políticas” do Reino de Deus: justiça, igualitarismo nos bens culturais, sociais, econômicos; fazer irromper e promover a única ordem em que se permite falar de uma libertação real… É importante levar em conta de que muitas vezes, quando se fala de uma “opção preferencial pelos pobres”, se está claramente combatendo uma mentalidade originada entre bem-postos, como forma de alívio de consciências culpadas sócio-economicamente.


Como um lastro que se atira fora para facilitar a velocidade da nave econômica injusta e sem distribuição igualitária. A mentalidade assistencial, como sobra ou esmola dos socialmente melhor posicionados, está muito distante do espírito de Lucas (4, 14ss). A palavra evangelizadora, ou é ativa e prática na prática da libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata (cf. texto do domingo anterior). É uma palavra que faz referencia à realidade — política, econômica, jurídica, social — e confronta a mesma com o projeto libertador de Jesus Cristo (irromper o Reino de Deus). “Evangelizar é libertar a Palavra” (Nolan). Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus.


Uma palavra que não entra na historia dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades contra o ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens, ou não mobiliza, não sacode, não provoca reações ao mal cultural, social; que não suscita solidariedade aos mais fracos (nem suscita adversários)… não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus. Disse Jesus: “Fui ungido para trazer libertação aos cativos”.


Oração: Ó Deus que em tantos povos e religiões suscitastes desde o início dos tempos, por obra do Espírito, homens e mulheres capazes de intuir teu amor libertador pelos pobres e que em Jesus nos deste o modelo perfeito. Faze, te pedimos, que também nós, hoje, em nosso dia-a-dia, cumpramos o sonho dos profetas, sentindo-nos enviados a anunciar a Boa Noticia aos pobres e a todos os que necessitam converter-se aos pobres. Nos te pedimos, inspirados por Jesus, teu filho e irmão nosso amado em reciprocidade. Amém.

A LEI DE DEUS AO INÍCIO DO JUDAÍSMO FORMATIVO

O livro de Neemias fala de uma leitura pública e solene do livro da lei de Deus, Pentateuco, ou Torah para os judeus. Estamos em fins do século V a.C., os judeus há poucos anos regressaram do deserto na Babilônia, estavam de novo na província da Judéia, e a duras penas conseguiram reconstruir o templo, as muralhas da cidade, e suas próprias casas. Enfrentam a hostilidade de muitos vizinhos invejosos que os imperadores persas haviam permitido regressar. Faz falta uma norma de vida, uma espécie de “constituição” por meio da qual poderiam reger os aspectos da vida pessoal, social e religiosa.

Esdras, um líder carismático, respeitado por todos, e considerado levita e escriba — quer dizer, sacerdote e mestre –, lhes oferece essa lei, essa constituição que necessitam, proclamando solenemente, diante do povo reunido, a  Lei de Deus. [Observação: O conjunto de textos componentes da Lei de Deus tem como referência direta o antigo Israel orientado pelos profetas clássicos; o Código da Aliança — “normas” de vida no cotidiano dos exilados; observância das leis libertárias do Jubileu bíblico vétero-testamentário].

A prescrições dos textos “javistas” do Êxodo — os documentos mais antigos, reconhecidos, são os “heloistas”, “sacerdotalistas” ou P1,  P2, P3, P4, são documentos resgatados e reconstruídos por volta do 6o. séc. aC — refere-se à atualização da concepção da libertação da escravidão no Egito, sob as dominações babilônica e persa; código para “incontaminação” racial (Código de Pureza), sob a dominação babilônica, sua “ética”, seus costumes e práticas em regime de escravidão imposta; obrigações para com o trabalho, alforriando  escravos periodicamente; obrigações matrimoniais com o fim de evitar-se a contaminação pelos costumes impuros do meio pagão impostos às famílias; submissão à religiosidade idolátrica, etc. Comparece agora, sob o exílio, debaixo do império persa (+- 450 aC) o moralismo legalista, racista, exclusivista, discriminatório étnica e religiosamente ainda estava por vir, sufocando a objetividade ética aplicada à política, economia e à sociedade israelita. 

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Já vimos como o povo respondeu: comprometendo-se a cumprir a lei e guardá-la, chorando suas infidelidades e, a pedido dos líderes, celebrando uma festa nacional: a festa da promulgação da Lei divina para os israelitas. Deste esse remoto dia, quinhentos anos antes de Jesus Cristo, até hoje, o povo bíblico ordenaria, parcialmente, como mera referência, em tese, sua vida política-econômica-jurídico-civil e religiosa segundo os mandamentos da Torah ou Pentateuco (a Tanah, ou Bíblia Hebraica, também seria construída sob a inspiração da autêntica Torah). Na verdade, adotou-se o Mishnah e os 630 mandamentos religiosos do judaísmo iniciado desde Esdras e Nehemias.

Terceiro Domingo – Depois da Epifania – Ano C
Primeira leitura: Neemias 8,2-4a.5-6.8-10 – Este é um dia de festa consagrada ao Senhor, nosso Deus
Salmo responsorial: 18(19),8.9.10.15 (R. Jo 6,63c) – A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma
Segunda leitura: 1 Corintios 12,12-30 – Ora, vós sois o Corpo de Cristo e cada um é um dos seus membros

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SEGUNDO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA


 (10.jan.2016)

COMEÇANDO A CAMINHADA MISSIONÁRIA

  • No relato de Lucas se configura como o movimento do Batista sofre importantes influências [Atos 10,34-38], transcendendo o ambiente ideológico-religioso daquele que se apresentava “preparando o caminho do Senhor”, “a voz no deserto”, “o Reino de Deus está próximo”. A unção do Espírito confere o poder originário de Deus [na Bíblia, só Deus têm poder, com o que não concordarão os teóricos religiosos inclinados a admitir poder-autoridade naturalmente, politicamente, como Machiavelli (O Príncipe) e Hobbes (Leviatã), sob orientação para alguma hierarquia, seja ela episcopal, presbiteral, conciliar ou congregacional. Igrejas e denominações, via de regra, inclinam-se à hierarquização  e monarquia interna. Desconhecem as democracias modernas.
  • Thomas Hobbes foi o ideólogo e teórico do poder soberano, absoluto, especialmente aplicado ao Estado, mas que logo se estende às instituições de governo. Dizia que a realização máxima de uma sociedade civilizada e racional era o poder soberano. Os homens, sem a segurança do poder, viveriam em igualdade, sim, mas entregues aos seus instintos. O poder histórico é habitado por um “demônio”.

O poder quer sempre mais poder. Caso contrário, “perde poder” até deixar de ser poder. Por causa desta lógica, o poder tende a se aliar a outros poderes ou a absorvê-los. Não é incrível que na igreja inicial já caracterize essa função diabólica? Na teologia, há muita coisa importante sobre o poder. Mas as passagens de Mateus 4,1-11 – sobre a “tentação do poder”; 10,34 – sobre as “divisões e inimigos dentro da própria família”; 20, 21e 22; 24-26 – sobre as “posições de destaque”. O antídoto anti-poder é extraordinário: “entre vós, o maior servirá o menor”.

De fato, o poder é coisa do “diabo”; é para se acreditar piamente em sua malignidade (cf. Leonardo Boff). Adler – no início da psicanálise moderna – rompeu com Freud, por achar que a pulsão central da psiquê humana é o “poder”, e não o “prazer”; estudando o assunto, chego à conclusão que falta um elemento na discussão: a “ganância”.

Jesus, porém, no Evangelho, recebe poder/autoridade (exousia) da parte de Deus, para atuar em favor dos oprimidos pelo “diabo” (provém de dia-bolos, “o que separa”, e não da imagem supersticiosa da religião; conferir o folclore brasileiro, na literatura de Mestre Vitalino: capiroto, capeta, capiroto, chifrudo, coisa-ruim, cramulhão, crinado, danado, demo, e outras dezenas de nomes populares). O Espírito manifesta a presença divina, “teofania” exemplar, como Pedro proclama, acima de todas as concepções diabólicas, folclóricas ou culturalmente ideológicas.

Mateus 3,13-17 – O Batismo de Jesus, relatado por Mateus, consta como uma dificuldade técnica de redação e sentido que necessita ser deslindada, são duas seções: o encontro de Jesus com o Batista (13-15), e a teofania, manifestação de Deus, que se segue. A teofania tem o caráter profundo de modelos apocalípticos e sapienciais. Como se observa na primeira leitura litúrgica deste domingo, existe uma tendência para assinalar como definitiva a vocação de Jesus pautada no Servo de Yahweh (Is 42), não há dúvida.


A vocação divina, mais que uma vocação profética, é construída sobre modelos apocalípticos, uma abertura do céu, e graças a ela uma Palavra definitiva produz, ao mesmo tempo, uma nova Criação. A criação mais recente, como em Gn 1, torna o Espírito presente (ruah) em forma de “uma ave pairando sobre a Criação” (parece-me que há um testemunho rabínico desse tempo que fala também de uma “pomba”, como neste texto de Mateus; é preciso confirmar tal coisa, no entanto).

Também a literatura sapiencial da Bíblia Hebraica mostra a capacidade de uma intervenção divina para se realizar o intento divino de humanizar-se; de querer ser como o homem, através de outras atitudes e de outros conhecimentos. Este substantivo, batismo, também se apresenta como batisma, batizo e bato, sendo derivado do verbo “batis”, o qual pode ser traduzido por “batizar”, “imergir”, “banhar”, “lavar”, “derramar”, “cobrir” ou “tingir”.


Então, em Mateus se trata de uma nova criação, a mais recente, que se realiza em Jesus de Nazaré. Deus humaniza-se no batismo de João. É assim que os seres humanos podem adquirir as características do “novo ser humano”. O batismo é sinalização dessa mudança. Dessa forma introduz-se um conceito novo de messianismo, remontando-se também ao tempo dos discípulos do (Segundo) Isaías (no exílio babilônico). Segundo ele, o Messias de Deus compartilha solidariamente a debilidade, vulnerabilidade e fraqueza, da condição humana. É a total coerência, “Deus conosco”, o que habita no meio de nós, do princípio ao fim (Mt 1,23 e 26,20). Esta alusão ao servo sofredor nos coloca diante de um projeto denominado:“o Messias será luz das nações”, surgido nos tempos babilônicos.

A parte anterior do relato neotestamentário serve para colocar em relevo a divergência que existe entre a concepção messiânica e todas as outras formas de messianismo. Sob as diversas atitudes de João e de Jesus a respeito do batismo do nazareno, também desponta uma concepção do Reino de Deus. Diferente das outras, sim, como função do Messias, em particular.


CONSIDERAÇÕES SOBRE O BATISMO NO NT

  • Devido à surpreendente reação de João diante de Jesus (Lc 3,14): “vens a mim, se sou eu quem necessita que tu me batizes?”… fica claro que João Batista concebe o Reino e o Messias a seu modo. O movimento do Batista via a instauração do Reino como a chegada do Juízo de Deus. O ser humano pecador devia ter em vista a irrupção do reinado divino como uma dinâmica de “purificação” na qual o batismo assumia um papel de suma importância, quando recebido. A intervenção divina, assim, se levava a cabo graças à ação do Messias, com exceção das debilidades próprias da condição humana.
  • A continuação do relato esclarece suas opiniões: a atenção sobre o juízo divino desloca-se para a realização da justiça “conforme Deus quiser” (v.15), submete-se ao Batista. Assim, a atenção sobre a realização dessa justiça se desloca para o momento presente. Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) ocasiona a morte, também Deus morre para testemunhar o valor do seu Reino.
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    Derval Dasilio
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DOS ENLUTADOS E DOS FESTEIROS

 

jesus [2] e desprotegidos

A missão de Jesus não pode pretender ser neutra, ou “de centro”, “para todos”, “sem distinção”. Ouvimos que esta missão “não é inclinada nem para os ricos nem para os miseráveis…”, de quem pretende confundir a igreja cristã com uma espécie de antecipação piedosa da Cruz Vermelha, recolhendo feridos nas batalhas da vida, enquanto ignora tiroteios e bombardeios que exterminam a vida ao redor. O pior que se poderia dizer do Evangelho é que seja neutro, que não se manifeste, que não opte pelos diminuídos, fracos, pobres, sem-poder, triturados, esmagados pelos sistemas vigentes, manifestos na religião, na política e na economia. A pior ideologia seria a que defende o Evangelho como neutro e indiferente aos problemas humanos, às desigualdades, e aos pecados estruturais das sociedades humanas.

Sem dúvida, Jesus teve que “interpretar” muitas vezes sua própria vida, com estes textos proféticos, tipológicos, de Isaías (BPg Is 61,1-3: “O Espírito do Senhor Yahaweh  está sobre mim, porque Yahaweh me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres para curar os corações feridos; para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Yahaweh, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar os aflitos, os aflitos de Sião, para transformar sua cinza em coroa, o odor do luto em perfume de festa, seu abatimento em roupa de gala”.

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O Evangelho de Lucas era considerado um texto sem importância na vida prática da comunidade cristã, até uns cem anos atrás; um texto esquecido, como tantos outros que hoje nos parecem fundamentais (4,14-21). Foi a teologia latino-americana que o colocou em relevo como texto capital. Lucas o põe no início da vida pública de Jesus. Pode ser que não corresponda ao que aconteceu realmente no princípio (João de fato coloca outras passagens como começo de seu evangelho, em seu significado. Ou seja, talvez não tenham ocorrido coisas assim, nessa ordem, nem é possível sabê-lo historicamente, mas Lucas tem razão quando situa esta cena em seu evangelho como um início programático que contém o germe da missão de Jesus Cristo: “o Reino de Deus está diante de vós”).

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Parece óbvio, que Jesus viu sua vida como o cumprimento, prolongamento daquele anúncio profético da “Boa Nova para os pobres”. A missão de Jesus é o anúncio da Boa Nova da Libertação (é chegado o reinado de Deus). A “evangelização” (eu = boa, e agelion = nova notícia) não é mais que uma forma da libertação, a “libertação pela palavra” [o termo davar é a chave hermenêutica bíblica da evangelização profética: a Palavra que cria, transforma, renova, traz a grande novidade libertadora (“Eis que faço novas todas as coisas!”). João era hebreu, pensava no termo davar, enquanto a Vulgata, 405 d.C., consagraria a versão grega koinê, logos, traduzida para verbum, no latim, e passamos a pensar como gregos e romanos, afastando-nos dos textos originais.

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O Verbo divino, Logos, passa a ser um conceito filosófico traduzido como razão, conhecimento, inteligência, tanto como capacidade de racionalização individual ou como um princípio cósmico da ordem e da beleza. Ouvimos durante séculos a exposição desse conceito falsamente “autêntico”, não-bíblico, “gnóstico”, “ariano”, “adocionista” (cf. C.H.Dodd)]. O intérprete da Escritura, que exclui a salvação do corpo e afirma a salvação da alma ou do espírito, pensa como quem dispensa a Bíblia cristã original. Essa hermenêutica nega a humanidade de Deus em Jesus Cristo, em favor de ambiguidades, dicotomias. São todas elas espiritualizações inaceitáveis biblicamente.

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Pode ser bom recordar uma vez mais: Jesus está longe da beneficência e do assistencialismo, em primeira instância. Não se trata de “fazer caridade” aos pobres, mas de inaugurar a nova ordem integral, a única que permite falar de uma libertação real. É importante dar-se conta de que muitas vezes quando se fala da opção pelos pobres na mentalidade assistencial, paternalista, distanciada do espírito de Lucas (4,14ss), não estamos falando do autêntico Evangelho (Karl Barth, Jesus e o Povo, in: Dádiva e Louvor, Sinodal, 2006, p.319).

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A palavra evangelizadora ou é ativa e concreta na prática da salvação e da libertação, ou é anti-evangelizadora. A palavra “evangelização” não é teoria abstrata. É uma “palavra” que se refere à realidade confrontada com o projeto de Deus. “Evangelizar é libertar pela Palavra”, evangelizar é anunciar que as escravidões e determinismos podem ser superados  (A.Nolan). Uma palavra que não entra na história dos homens e das mulheres, que não se pronuncia; que se mantém acima dela ou das nuvens; que não mobiliza, não sacode, não provoca solidariedade (nem suscita adversários ou inimigos). Não é herdeira da “paixão” do Filho de Deus pelos pobres, diminuídos, sofredores. Sempre, porém, dever-se-á perguntar, quando se evangeliza:  a) “salvar a quem?”; b) “salvar de quem?”; c) “salvar para quê?”. A paixão de Jesus é salvar e libertar quem necessita de salvação e libertação.

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“O conhecimento de Jesus é o bastante”? Não! Existencialmente, o evangelho de Jesus exige decisão por força da Palavra, do ensinamento apostólico, do kerigma libertador (Rudolf Bultmann). Não se deve especular sobre Deus, sendo abstrato o conceito abstrato de Deus. Ao contrário, a Palavra evangelizadora falará do Deus real, e da Humanidade de Deus (Karl Barth); quando falamos de Deus, ao mesmo tempo falamos do homem, das suas lutas, e das opressões que o envolvem, das quais precisa ser libertado e salvo.

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A Palavra evangélica fala de Jesus, tem a ver com o homem e a mulher, antes de tudo, antes de qualquer coisa. Antes de qualquer discussão abstrata sobre sua divindade. O Evangelho apresenta o fato concreto, humano, verdadeiro, que Jesus faz parte da realidade histórica de cada um de nós, e de toda a humanidade.

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Derval Dasilio 

A. Derval. black withe(0)

[Depois da Epifania – Segundo Domingo – Ano “C”]
Neemias 8, 2-4a. 5-6. 8-10 – Leram ao povo o livro da Lei
Salmo 19 (+ João 6, 63c) – Palavras são espírito e vida
1Coríntios 12, 12-30 – Todos são do corpo de Cristo
Lucas 1, 1-4; 4, 14-21 – Hoje se cumpre a Escritura
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