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neandertal (2)Consta que há uns quatro bilhões e quinhentos milhões de anos, talvez mais, talvez menos, uma estrela anã cuspiu um planeta que hoje se chama Terra. Faz uns quatro milhões e tantos anos, hominídios machos e fêmeas, ergueram-se, cansados de andar de quatro, abraçaram-se e, espantados, olharam-se cara a cara, enquanto sentiam alegria e pânico sobre o que estava acontecendo com eles. Faz uns quatrocentos e cinquenta mil anos, descobriram que certas pedras, esfregadas umas nas outras, produziam centelhas. Juntaram uns gravetinhos secos, atritaram as pedrinhas, e inventaram o primeiro isqueiro. E, assim, tocaram fogo no mundo.

Há uns trezentos mil anos, o homem e a mulher começaram a balbuciar palavras, enquanto nascia a linguagem. Acharam que poderiam se entender. Não deu certo, sugeria Eduardo Galeano. Parecemos, ainda hoje, seres mortos de medo uns dos outros, mortos de frio, tagarelas produzindo palavras ininteligíveis sobre o verdadeiro sentido da vida.

Os neandertais surgiram há aproximadamente trezentos mil anos, principalmente em regiões da Inglaterra, Espanha e França. A principal teoria sobre sua extinção diz que eles foram eliminados pelas mudanças climáticas da última era glacial. Mas há estudos que apontam outro motivo: guerras intermináveis entre as espécies.

Houve uma época em que seis classes de hominídeos habitaram a Terra. Alguns fósseis de neandertalianos têm ferimentos causados por armas que somente os sapiens possuíam. Ou seja, os encontros entre as espécies humanas não eram nada pacíficos (E SE… – Editora Abril, 2015).

A duras penas, mesmo a contragosto, urge admitir que somos humanos. O ser-humano, homem-mulher, é supercomplexo. Comparece na história como homo sapiens, mas somos mais conhecidos uns pelos outros como homo demens. Há duzentos mil anos, já falante, o ser-humano fazia das suas (Stanley Kubrich: Uma Odisséia no Espaço). Societário e trabalhador, desde quarenta mil anos atrás, já inventava a posse privada e a escravidão, das quais nunca nos livramos.

Desde Descartes e Kant, lá pelos 1600 e 1800 e lá vai pedrada, imaginou-se a construção de um planeta novo – Voltaire e J-J. Rousseau, “comunistas históricos”, diria um colega ultra-direitista, contrariando os demais, imaginaram a possibilidade de igualar direitos fundamentais, estendidos aos camponeses, cidadãos e à plebe. Ao estilo do Ocidente, ignorando ¾ do planeta não-cristão, exaltou-se até às estrelas e o espaço sideral a sapiência desses hominídios “desenvolvidos”, que já foram à Lua e preparam-se para ir a Marte. A história, entretanto, continuamente, desfaz essa imagem magnificadora da “razão” e da “sapientia”. Machado de Assis já dizia, em seu tempo, história recente: “Tem razão quem tem o chicote na mão…”

Hoje, professores, exemplares da espécie sapientis, ainda se acreditam capazes de reproduzir a sabedoria na história, fazem curso de tiro, buscam certificados para portar armas. Parecem estimulados pelos massacres em Columbine, Troudale, Realengo. Nos EUA, 31 escolas tiveram pelo menos um caso de violência com armas, nos últimos anos. O Estado da Geórgia é o que lidera a lista.

Como essa medida alcançará os lares das frequentes vítimas, residências tornadas em casa de armamentos? Quartos de bebês, pode-se estimar, terão armas no futuro, enquanto a violência contra crianças continua em ascensão. Quando descobriremos que somos portadores de afeto, cuidado, compaixão, inteligência, criatividade, arte, poesia e êxtase diante da beleza da vida?

No lapso otimista do gênero ocuparíamos todo o Planeta, já sairíamos dele voando e rumando para o céu infinito em naves espaciais em busca de um mundo melhor. Mas nossas contradições fazem-nos morder a língua toda vez que exaltamos essas qualidades humanas. Lembrando Duns Scotus, na Idade Média: “o homem tem a vocação do infinito”, mas adotamos a violência e nos comprometemos com assassinos, ladrões da economia social, violadores de direitos fundamentais, exterminadores frequentes e contumazes, consentindo e entregando-nos naturalmente ao abreviamento da vida.

Nossa arrogância faz-nos esquecer que só no século 20 foram chacinados em guerras mundiais mais de 200 milhões de pessoas, disse Hobsbawn. Cristãos estão envolvidos nisso até o pescoço, mesmo os engravatados ou com clergyman abençoando armamentos. A violência humana excede à de qualquer outra espécie, inclusive dos tiranossauros, dragões pré-históricos proverbiais e simbólicos da violência contra a criação. A demência não é ocasional. O homem configura uma desordem originária, transportando o medo e o ódio ao semelhante enquanto constrói a história da humanidade com sangue e destruição (Edgar Morin).

O que precisa ser visto, e ouvido, como Maria nos ensinará, quando Jesus lhe chama a atenção para a realidade observada na Epifania: “Mãe, você não sabe que tenho que cuidar das coisas do meu Pai”? Aqui, nos reportaremos à sabedoria da mãe que silencia e ouve enquanto observa a realidade herodiana que o menino sobrevivente já denunciava no nascimento. Os significados da revelação libertadora da presença do Reino de Deus estão naquele que foi chamado pelo Credo cristão de “fruto do ventre de Maria”.

Ninguém conheceu melhor o sentido de gerar-se um Salvador. Maria, enquanto medita, ensina a humildade e a coragem para os enfrentamentos dos acontecimentos catastróficos, e a dissolução, que irrompem até à superfície da história. Maria já estava comprometida com o movimento de Jesus em prol da causa libertadora de Deus. Entre elas o combate à violência sistêmica que escolhe a criança e o jovem como vítimas preferenciais, porque são fracos e indefesos. São os adultos que matam ou ensinam a matar. Maria sabia disso, e para proteger seu menino, montou num burrinho e seguiu provisoriamente para fora desse inferno pré-histórico no qual ainda vivemos. E, assim, deu-se a Epifania: Deus permanece conosco para sempre.

Derval Dasilio.

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