(10.jan.2016)

COMEÇANDO A CAMINHADA MISSIONÁRIA

  • No relato de Lucas se configura como o movimento do Batista sofre importantes influências [Atos 10,34-38], transcendendo o ambiente ideológico-religioso daquele que se apresentava “preparando o caminho do Senhor”, “a voz no deserto”, “o Reino de Deus está próximo”. A unção do Espírito confere o poder originário de Deus [na Bíblia, só Deus têm poder, com o que não concordarão os teóricos religiosos inclinados a admitir poder-autoridade naturalmente, politicamente, como Machiavelli (O Príncipe) e Hobbes (Leviatã), sob orientação para alguma hierarquia, seja ela episcopal, presbiteral, conciliar ou congregacional. Igrejas e denominações, via de regra, inclinam-se à hierarquização  e monarquia interna. Desconhecem as democracias modernas.
  • Thomas Hobbes foi o ideólogo e teórico do poder soberano, absoluto, especialmente aplicado ao Estado, mas que logo se estende às instituições de governo. Dizia que a realização máxima de uma sociedade civilizada e racional era o poder soberano. Os homens, sem a segurança do poder, viveriam em igualdade, sim, mas entregues aos seus instintos. O poder histórico é habitado por um “demônio”.

O poder quer sempre mais poder. Caso contrário, “perde poder” até deixar de ser poder. Por causa desta lógica, o poder tende a se aliar a outros poderes ou a absorvê-los. Não é incrível que na igreja inicial já caracterize essa função diabólica? Na teologia, há muita coisa importante sobre o poder. Mas as passagens de Mateus 4,1-11 – sobre a “tentação do poder”; 10,34 – sobre as “divisões e inimigos dentro da própria família”; 20, 21e 22; 24-26 – sobre as “posições de destaque”. O antídoto anti-poder é extraordinário: “entre vós, o maior servirá o menor”.

De fato, o poder é coisa do “diabo”; é para se acreditar piamente em sua malignidade (cf. Leonardo Boff). Adler – no início da psicanálise moderna – rompeu com Freud, por achar que a pulsão central da psiquê humana é o “poder”, e não o “prazer”; estudando o assunto, chego à conclusão que falta um elemento na discussão: a “ganância”.

Jesus, porém, no Evangelho, recebe poder/autoridade (exousia) da parte de Deus, para atuar em favor dos oprimidos pelo “diabo” (provém de dia-bolos, “o que separa”, e não da imagem supersticiosa da religião; conferir o folclore brasileiro, na literatura de Mestre Vitalino: capiroto, capeta, capiroto, chifrudo, coisa-ruim, cramulhão, crinado, danado, demo, e outras dezenas de nomes populares). O Espírito manifesta a presença divina, “teofania” exemplar, como Pedro proclama, acima de todas as concepções diabólicas, folclóricas ou culturalmente ideológicas.

Mateus 3,13-17 – O Batismo de Jesus, relatado por Mateus, consta como uma dificuldade técnica de redação e sentido que necessita ser deslindada, são duas seções: o encontro de Jesus com o Batista (13-15), e a teofania, manifestação de Deus, que se segue. A teofania tem o caráter profundo de modelos apocalípticos e sapienciais. Como se observa na primeira leitura litúrgica deste domingo, existe uma tendência para assinalar como definitiva a vocação de Jesus pautada no Servo de Yahweh (Is 42), não há dúvida.


A vocação divina, mais que uma vocação profética, é construída sobre modelos apocalípticos, uma abertura do céu, e graças a ela uma Palavra definitiva produz, ao mesmo tempo, uma nova Criação. A criação mais recente, como em Gn 1, torna o Espírito presente (ruah) em forma de “uma ave pairando sobre a Criação” (parece-me que há um testemunho rabínico desse tempo que fala também de uma “pomba”, como neste texto de Mateus; é preciso confirmar tal coisa, no entanto).

Também a literatura sapiencial da Bíblia Hebraica mostra a capacidade de uma intervenção divina para se realizar o intento divino de humanizar-se; de querer ser como o homem, através de outras atitudes e de outros conhecimentos. Este substantivo, batismo, também se apresenta como batisma, batizo e bato, sendo derivado do verbo “batis”, o qual pode ser traduzido por “batizar”, “imergir”, “banhar”, “lavar”, “derramar”, “cobrir” ou “tingir”.


Então, em Mateus se trata de uma nova criação, a mais recente, que se realiza em Jesus de Nazaré. Deus humaniza-se no batismo de João. É assim que os seres humanos podem adquirir as características do “novo ser humano”. O batismo é sinalização dessa mudança. Dessa forma introduz-se um conceito novo de messianismo, remontando-se também ao tempo dos discípulos do (Segundo) Isaías (no exílio babilônico). Segundo ele, o Messias de Deus compartilha solidariamente a debilidade, vulnerabilidade e fraqueza, da condição humana. É a total coerência, “Deus conosco”, o que habita no meio de nós, do princípio ao fim (Mt 1,23 e 26,20). Esta alusão ao servo sofredor nos coloca diante de um projeto denominado:“o Messias será luz das nações”, surgido nos tempos babilônicos.

A parte anterior do relato neotestamentário serve para colocar em relevo a divergência que existe entre a concepção messiânica e todas as outras formas de messianismo. Sob as diversas atitudes de João e de Jesus a respeito do batismo do nazareno, também desponta uma concepção do Reino de Deus. Diferente das outras, sim, como função do Messias, em particular.


CONSIDERAÇÕES SOBRE O BATISMO NO NT

  • Devido à surpreendente reação de João diante de Jesus (Lc 3,14): “vens a mim, se sou eu quem necessita que tu me batizes?”… fica claro que João Batista concebe o Reino e o Messias a seu modo. O movimento do Batista via a instauração do Reino como a chegada do Juízo de Deus. O ser humano pecador devia ter em vista a irrupção do reinado divino como uma dinâmica de “purificação” na qual o batismo assumia um papel de suma importância, quando recebido. A intervenção divina, assim, se levava a cabo graças à ação do Messias, com exceção das debilidades próprias da condição humana.
  • A continuação do relato esclarece suas opiniões: a atenção sobre o juízo divino desloca-se para a realização da justiça “conforme Deus quiser” (v.15), submete-se ao Batista. Assim, a atenção sobre a realização dessa justiça se desloca para o momento presente. Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) ocasiona a morte, também Deus morre para testemunhar o valor do seu Reino.
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    Derval Dasilio
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