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COMENTÁRIO PUBLICADO EM JANEIRO – 2015 – ANO B

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Marcos 1, 14-20 – Depois de narrar o início do evangelho com João Batista batizando a Jesus, com a unção messiânica de Jesus no rio Jordão e com suas tentações no deserto, Marcos relata o início da atividade pública de Jesus: é o humilde carpinteiro de Nazaré que agora percorre sua região, a próspera, mas mal falada Galiléia, pregando nas aldeias e cidades, nas encruzilhadas do caminho, nas sinagogas e nas praças. Sua voz chega a quem quer ouvi-lo, sem exigir nada em troca. Uma voz clara e vibrante como a dos antigos profetas. Marcos resume todo o conteúdo da pregação de Jesus nestes dois momentos: o reinado de Deus começou – pois terminou o prazo de sua espera; perante o reinado de Deus só cabe converter-se à causa de Jesus, o Reino de Deus, acolher e aceitá-lo com fé.
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De que rei falava agora Jesus? Daquele anunciado pelos profetas e esperado com ânsias pelos justos. Um rei divino que garantiria a justiça e o direito aos pobres e aos humildes, e excluiria de sua vista os violentos e opressores. Um rei universal que anularia as fronteiras entre os povos e faria confluir a seu monte santo, Sião, a todas as nações, inclusive as mais bárbaras e sanguinárias, para instaurar no mundo uma era de paz e fraternidade, só comparável à era paradisíaca relatada no gênesis. Este reinado de Deus que Jesus anunciava há 2.000 anos pela Galiléia continua sendo a esperança, de todos os pobres e oprimidos da terra, e está em andamento desde que Jesus o proclamara. Os que o seguem anunciando seus discípulos, os que Ele chamou em seu seguimento para confiar-lhes a tarefa de “pescar”, trazendo às redes do Reino os seres humanos de boa vontade. É o reino que a Igreja deveria proclamar (mas ela reverte a ordem: de coadjuvante quer ser protagonista do Reino, como autoridade religiosa, em equívoco histórico escabroso e inaceitável teologicamente)

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A tarefa pertence  aos cristãos do mundo para que se empenham em preparar o Reino de mil maneiras, reflexos da vontade amorosa de Deus: curando os enfermos, dando pão aos famintos, acalmando a sede dos sedentos, ensinando aos que não sabem, perdoando aos ofensores e acolhendo-os na mesa fraterna da comunhão; denunciando com palavras e atitudes os violentos, opressores e injustos. A nós corresponde, como Jonas, Paulo, retomar as bandeiras do reinado de Deus e anunciá-lo em nosso tempo [Gravura: Cerezo Barredo].

Derval Dasilio

 CONVERSÕES – 

Depois da Epifania – Terceiro Domingo – Ano B
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta | Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio | 1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo | Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho!
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A conversão consiste em mudar de religião ou simplesmente adotar a causa de Jesus? O conceito de conversão necessita também alguma reformulação entre os próprios cristãos. O evangelho de hoje é, por assim dizer, “o primeiro sermão de Jesus”. Marcos o coloca ao início de seu evangelho como um manifesto programático. Possui todos os elementos centrais do que vem a ser a pregação  de Jesus. Todo o evangelho põe em relevo a importância central do Reino de Deus na missão de Jesus (“buscai em primeiro lugar o Reino”; a proposta de Deus para transformar o mundo e seus pensares religiosos, políticos, econômicos…). O Reino não é mais um elemento, mas o centro da pregação de Jesus. Se não se entende isto, não se entende, nem se entende o que é ser cristão e discípulo de Jesus. Ser religioso não representa garantia alguma, pois a própria religião à qual pertenciam Jesus e os Apóstolos recusou e julgou-o.
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Jonas 3, 1-5.10 – Esta leitura do livro do profeta Jonas (história contada com datação provável no III séc. a.C.; trata-se de um livro “rebelde”, entre outros, ao judaísmo formativo e suas ênfase racistas, legalistas, e ênfase numa eleição exclusivista), prepara a leitura do evangelho de Marcos, que será centro do lecionário ao longo de todos os domingos do tempo comum depois da Epifania. Como Jesus, Jonas também é enviado por Deus a proclamar sua salvação, a chamar todos os povos e raças à conversão. Que conversão? Certamente ao projeto de Deus para toda a humanidade. Recordemos que os escritores bíblicos não sabiam dos povos distantes do Oriente (Índia, China, etc.), nem sabiam dos povos do Continente australiano ou americano.
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Como Jesus, Jonas também experimenta a fragilidade humana (Mateus 4), a tentação de fugir, de não carregar o peso da vontade de Deus que se lhe oferece. Finalmente Jonas vai à cidade pagã de Nínive, a grande capital do império assírio, 700 anos antes de Cristo, e proclama, como Jesus, mais tarde, a vinda salvadora de Deus, ante a qual não resta outra atitude que a de converter-se à vontade de Deus (e não à lei, como querem muitos evangélicos e judeus, simultaneamente).
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Jonas é uma denúncia contra todo nacionalismo, centralismo, fundamentalismo, anti-ecumenismo, integrismo, racismo, exclusivismo religioso que pretenda excluir a qualquer ser humano da Graça amorosa de Deus Pai. O pequeno livro de Jonas foi escrito numa época difícil para o povo judeu, quando se sentia a tentação de fecharem-se privilégios religiosos, considerando-os como escolhidos exclusivos. Ao retornarem do exílio, e já reorganizando a nação em torno de uma religião dura, implacável, com ênfase no legalismo religioso. Ali nasceu o fundamentalismo bíblico-religioso ressuscitado recentemente entre evangélicos e católicos, por isso cristãos, para afirmarem o falso exclusivismo, numa hermenêutica da eleição do povo bíblico exclusivamente como tal, adotam a exclusão social, leis racistas, homo e heterofóbicas, interna  e externamente.
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Também sofreram a tentação de condenarem todos os demais povos, os quais não partilhavam de sua cultura, de sua fé religiosa e de sua história. Através de Jonas, Deus está dizendo aos judeus que sua salvação há de ser partilhada com todas as nações, inclusive com as nações opressoras, como fora a nação dos assírios. Lição de universalismo, de máxima tolerância, de ecumenismo e de abertura amorosa aos braços de Deus.  A religião exclui, mas Deus deseja acolher todos os seres humanos em sua casa (Jesus disse: “Na casa de meu pai há muitas moradas…”). Algo tão válido em nossos tempos de exclusivismos e fundamentalismos, como nos velhos tempos do Antigo Testamento.

NOTA: Os judeus que escutavam a Jesus recordavam muitos governos: o mui recente reinado de (…ou dos Herodes, quatro ao todo) Herodes, o Grande, sanguinário e ambicioso; o governo dos asmoneus, descendentes dos libertadores Macabeus, reis que haviam exercido simultaneamente o sumo sacerdócio e haviam oprimido o povo, tanto ou mais que os invasores gregos, selêucidas. Recordavam também os antigos reis do remoto passado — de fato israelitas  –, convertidos em figuras de lendas douradas. Davi e seu filho Salomão, e a longa lista de seus descendentes que por quase 500 anos haviam exercido sobre o povo um poder totalitário, governando pela violência. Foram quase sempre tiranos e exploradores, os reis de Israel. Os reis judeus não menos [dinastias dos sécs. I, II e III a.C., que não devem ser confundidas com as de Israel, também reis tirânicos, exterminadores, que duraram, desde Davi, apenas 500 anos antes de Jesus e dos apóstolos].

Derval Dasilio.

Derval Dasilio.  

 

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