|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||



QUARTO DOMINGO – DEPOIS DA EPIFANIA –   ANO “C”  – Cor litúrgica: VERDE (na túnica, estola, panos da mesa da comunhão:  branca e verde, também nas flores do altar)


Jeremias 1,4-10; 17-19 – Já te havia designado profeta
Salmo 71,1-6 – Minha boca só proclamará sua justiça…
1Coríntios 12,31 – 13, 13 –  O amor é a maior das virtudes
Lucas 4,21-30 – Jesus foi enviado para evangelizar…



multidões (2)


O EVANGELHO DOS VIGARISTAS E OPORTUNISTAS

Nem tudo dá certo para os negociantes de igrejas. Ex-jogador da seleção, o pastor pentecostal Muller admitiu ter perdido muito dinheiro ganho na igreja,  morando de favor com o ex-jogador Pavão. “O Muller não soube aplicar o que ganhou com o futebol, acreditou em supostos amigos e perdeu  também dinheiro em sua igreja”, conta Ronaldo Luís, outro amigo e pastor. Como empreendedor religioso, Muller teve prejuízos. Ainda como jogador, ele investiu na criação da Igreja Pentecostal Vida com Deus, em Minas Gerais. A instituição foi fechada pouco depois por Muller, dando grande prejuízo. A igreja do Muller acabou não indo à frente. Ele decidiu vendê-la”, relembra Ronaldo Luís, pastor da Igreja Batista Getsêmani, de Belo Horizonte MG.


Há algumas décadas o orientalismo ocupava as mentes dos que desejavam diferenciar-se das práticas cristãs tradicionais. Receitas sobre o caminho de Sootraying, seis dias inteiros de reflexão sem ligar a televisão, o aspirador de pó, o ar condicionado, o chuveiro elétrico, para se alcançar o estágio do Shanmukhi. E, seu corpo ficaria mais leve, você encontraria  a absoluta leveza do ser, enquanto perderia o acúmulo de superficialidades que sobrecarregam seu cotidiano. Com seis anos de exercícios metafísicos  qualquer praticante chegaria ao Nirvana, dispensando o telefone (celular?),  a luz elétrica, o gás de aquecimento ou de cozinha, o automóvel, o metrô, e tudo que constitui “dependência material”. Na moda as flores de lótus, que se estendiam até às posições do YogaHata (yôga, meu caro!), e você aprenderia a plantar bananeiras em estilo oriental, nas posições W para os braços, e K para as pernas. Então, você se livraria de uma vez do mundo desesperado em que vivia, enquanto se afastaria gradualmente das coisas materiais que cercam a vida do homem e da mulher modernos. Meditação…

Evangelizar é viver pela utopia de Deus, segundo a própria Escritura. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso, para que eu não deixe de caminhar” (Eduardo Galeano).

A religião oposta ao realismo racionalista no século 20, em suas perspectivas intimistas, ressalta a preocupação por estados mentais sem inquietação, negando estranhamentos próprios ao mundo secularizado do momento. Presa do positivismo eclesiástico (o fundamentalismo nos parece contraditório?), embarca no materialismo pentecostal que sugere a prosperidade como fim último, deixa-se de lado o mistério da fé, o inusitado, o inexprimível. 

Nesse lugar, falta vigor ético para recusar e rebater a insanidade consumista, entre outras compulsões coletivas. Falta vigor para denunciar a ausência das responsabilidades éticas sobre diferenças sexuais e raciais; para enfrentar e combater o autoritarismo e seletividade social; para recusar a inconsciência sobre a dignidade e totalidade humanas. O sistema de crenças é permeado, então, pelas novas concepções religiosas pragmáticas — religião da prosperidade –, inclusive as demais, também religiosas, alimentando o individualismo cego, a anarquia política e o combate à socialização e repartição dos bens da sociedade coletiva.

Inquietação, emoção, estranhamentos, espiritualidades negativas, perversidade na condenação de direitos fundamentais, são temas que interessam à religião simbólica do nosso tempo? Na verdade, não estamos diante de uma reação ao materialismo e positivismo, ao cientificismo, ao progresso tecnológico. De fato, regredimos nos temas e objetos da evangelização, como parte essencial da responsabilidade social das igrejas e dos cristãos.

FOI SUGADA A ÚLTIMA GOTA DE HUMANIDADE…

A evangelização tem que clamar pelo legado cristão aos novos evangelizadores, que encaixem a figura do fraco, do depreciado e diminuído, do estrangeiro, migrante ou imigrante; do diferente nas opções da sexualidade ou na cor da pele; do oprimido socialmente, que necessita ser reconhecido dentro dos parâmetros da sociedade moderna que abafa o humanismo, sugando até à última gota os resquícios de humanidade alcançados. Os novos evangelizadores terão a função de trazer o futuro oferecido pelo Reino de Deus para dentro do verdadeiro lugar sagrado: o mundo onde se cumprem as bem-aventuranças. “Na pauta da utopia estão o próximo e a próxima, especialmente o pobre, o diferente, o fraco, o estigmatizado, o oprimido e o sofredor” (Juan Simarro).


Buscamos revelar os significados da vida interior, ao invés da aparência e da familiaridade com o mundo exterior? No momento, nem mesmo buscas esotéricas e espiritualidades orientais  são estimuladas — observemos o desinteresse pelo espiritismo, ou pelo movimento rosa-cruz; sem igualá-los, ao esvaziamento do budismo, do harekrishna e outros. Porém, modas estranhas, prazeres escandalosos, inveja, ganância, consumismo compulsivo, ocupam espaços anteriormente condenados. O pentecostalismo materialista encampou tudo isso, enquanto é aplaudido pelo fundamentalismo, companheiro ideológico do pentecostalismo moderno.

Hoje, a sexualidade aprecia ambos os sexos, androginia, ofuscando o homossexualismo reivindicatório de igualdade social. Há ambivalência nas imagens, refletindo os tempos atuais, dificultando a distinção das piadas sobre homoafetividade e a panssexualidade das drag queens, desvairadas que sugerem uma “originalidade” greco-romana necessária ao mundo moderna. Precisamos compreender tais tendências, porém despidos de moralismos inúteis, juntamente com a compreensão amorosa para com os corpos que sugerem medos e desejos desconcertantes senão contraditórios, os quais comparecem negativamente, concomitantemente, no simbolismo da secularização eclesiástica. Enquanto isso, desaparecem dos cenários a evangelização a respeito dos temas do Evangelho.

A Tempestade, de Edvard Munch, pintor da virada do século 20, pode ilustrar o que acontece com a religiosidade pentecostal soft, gospel, prazer das elites bem-postas socialmente, como um acontecimento físico para alcançar a vida emocional estável. O assunto está conectado com as passagens das igrejas jovens do estado virgem para a vida adulta, enquanto indica a perda da inocência imposta pela religião positivista, da prosperidade, da inveja e da ganância. Barulhos, ruídos e estrondos de raios e trovões são comparáveis às aflições das igrejas mais jovens diante de um mundo a que talvez  nem queiram pertencer.

Derval Dasilio

********

Anúncios