penhasco

…JOGARAM JESUS MORRO ABAIXO. – Isaías 6.1-8 (9-13); Salmo 138; 1Coríntios 15.1-11; Lucas 5.1-11  – (30.janeiro-2016)

QUINTO DOMINGO DEPOIS DA EPIFANIA – ANO C


JESUS ANUNCIA O REINO EM SUA TERRA NATAL

Depois da leitura que Jesus fez do profeta Isaías (Lucas 4,21-30), terminava a leitura do evangelho, dizendo que “todos os presentes tinham os olhos fixos nele”. Hoje se observa o prosseguimento da cena que desenrola-se na sinagoga de Nazaré (Jesus lê Isaías 61, sobre o Jubileu bíblico, o Evangelho do Ano da Graça, conforme o AT). Jesus diz que na pessoa dele cumprem-se as palavras de Isaías. Quer dizer, que ele é o ungido (mashiah, messias), para anunciar a Boa Nova aos pobres e oprimidos… o Reino de Deus chegou!

[Nota: É imprescindível conferir a relação da pregação de Jesus com o Jubileu bíblico: Lv 25,31; Ex 21,2-11; Dt 15,1-6: a sociedade israelita religiosa obediente a Yahweh deve observar as leis contra a escravidão, a opressão do estrangeiro, a exploração do pobre e do fraco, colocando o órfão e a viúva como prioridade sob cuidado da sociedade inteira].


As palavras de Jesus enfurecem os presentes, e tentam jogá-lo morro abaixo, expulsando-o do povoado. O cenário é atualizado nos dias de hoje: negamos a mensagem do nazareno, expulsando-o de nossas igrejas para dar lugar a pregadores midiáticos da ganância e da prosperidade. É curioso como necessitados, oprimidos, excluídos, de Nazaré, sujeitos preferenciais do anúncio da Boa Nova, convertem-se em sujeitos de ódio e de morte, desprezando a Palavra evangelizadora em seu próprio ambiente.


Jesus percebe que seus conterrâneos não estão interessados no que diz, mas em seus gestos. Interessa-lhes antes de tudo o espetáculo de milagres, prestidigitação, hipnotismo coletivo (você já foi a uma dessas igrejas recentes, que transformadas em self-service de curas e milagres?), que “cure” os doentes do povoado em espetáculo público — como nos shows pentecostais de hoje. À moda dos tradicionais curandeiros que enriquecem com a venda de “milagres” duvidosos.


Mas não é essa “cura” que de fato interessa. Jesus lhes responde com adágios que percorrem o tempo sem perder o sentido: “nenhum profeta é bem recebido em sua pátria”; “em Nazaré não haverá milagre algum”. Nazaré não merece, nem quer o Reino… Jesus se refere ao Antigo Testamento, à força da pregação dos profetas contra tiranos, déspotas, reis e os dominadores, para explicar a situação de seus compatriotas, entregues ao abandono, à miséria, à fome, à pobreza aviltante que “insulta aos céus” (João Dias de Araújo, saudoso e estimulante amigo da teologia: “Há tanta gente sem lar sem pão…”).


O EVANGELHO DE JESUS BUSCA PROTEGER OS DESVALIDOS

Quem reconhecerá neste texto a missão de anunciar a Boa Nova aos distantes, quer dizer, a Palavra que se lança ao destino final, que se amplia fora do âmbito racial, religioso e político, do povo originalmente eleito? O evangelho tem de ser uma palavra que busque sempre o caminho dos mais afastados e necessitados, estejam onde estiverem, parece sugerir Jesus.


Num tempo de tecnologias de ponta, de virtualidade, conecções espaciais, não podemos deixar-nos escravizar pela razão instrumental que envolve os conceitos de missão e evangelização salvacionistas ou doutrinários, petrificados ou superados historicamente pela ausência de resultados aceitáveis. Discute-se o que é evangelização e não se evangeliza. Lembro-me de uma frase de Ingmar Bergman, parafraseio-a: “Eles discursam o tempo todo sobre evangelização e amor, mas o que fazem é pregar doutrinas desgastadas e o ódio e desprezo aos adversários”.


Pregadores midiáticos, pentecostalistas, repetem as lições salvacionistas em proveito próprio — salvam para encurralar o fiel e tomar-lhe os recursos de seu trabalho sem qualquer escrúpulo. Agora, a massa pentecostal é orientada pelo pragmatismo capitalista: arrecadar, patrimonializar, lucrar. Pastores enriquecem — enquanto os fieis empobrecem ainda mais –, tornam-se milionários, e chamam os fieis para segui-los (e sustentá-los no luxo e ostentação). Mas a verdade é que, mesmo criticando a religião da prosperidade, as comunidades tradicionais não se questionam, não se perguntam se não fazem o mesmo, enquanto criticam os outros:


DENUNCIANDO AS MENTIRAS DO CAPITALISMO HISTÓRICO

“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização econômica é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é uma economia de arquipélagos dependentes que a globalização criou” (Jean Ziegler). Com a palavra a religião contemporânea (em suas semelhanças), de maior sucesso numérico e estatístico no Brasil, e os que criaram os meios para tanto, no protestantismo e catolicismo históricos que camuflam sua inveja.


“A palavra evangelizadora ou é ativa na práxis de libertação, ou é antievangelizadora. A palavra evangelizadora não é palavra de teoria abstrata, dominada pela razão. É uma palavra que faz referencia à realidade – política, econômica, jurídica, social –, e a confronta com o projeto libertador de Deus. ‘Evangelizar é libertar a Palavra’ (Nolan). Evangelizar é permitir e criar meios para a ação de Deus. Uma palavra que não entra na historia dos sofrimentos humanos, das escravidões e das opressões; que não se pronuncia contra as indignidades infligidas ao ser humano; que se mantém acima da história humana, ou nas nuvens da indiferença, ou não mobiliza, são sacode, não provoca reações ao mal cultural, social, econômico, político; que não suscita solidariedade aos mais fracos (nem suscita adversários nas elites privilegiadas), não é herdeira da ‘paixão’ do Filho de Deus. Disse Jesus: Fui ungido para trazer libertação aos cativos” (cf. domingo anterior).


A Palavra será sua força na luta contra falsos profetas, sacerdotes cooptados, reis, ministros e proprietários de bens, terra e imóveis. São os que esqueceram a aliança de Deus, oprimindo e marginalizando seu próprio povo. O profeta encontra-se forte na obediência à Palavra (davar = palavra que transforma; que cria a novidade na ordem injusta). Ele a anuncia. Jesus está  familiarizado com Israel bíblico, sua história contra a ganância dos reis infiéis e suas cortes (na história da dinastia davídica, somente 4 reis mereceram elogios por seu empenho pela justiça), e não com os poderosos impérios helênico ou romano, ou quaisquer outros dos que oprimiram Israel em toda a sua história. Sua linguagem e suas culturas, marcadas pela injustiça social, não conferem com a linguagem dos profetas de Israel. Isto lhe assegura a companhia permanente de Deus e da fé bíblica.

Derval Dasilio


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