JUVENTUDE – USE E JOGUE FORA


JUVENTUDE – USE E JOGUE FORA
QUARESMA -3o DOMINGO – ANO C (28.fev.2016)
Josué 5,9-12 – Importa celebrar a libertação em todo tempo
Salmo 32 – A misericórdia de Deus na totalidade
2Coríntios 5,16-21 – Deus em Cristo reconcilia com Deus
Lucas 15,1-3; 11b-32 – Seduzido pelo mercado da “felicidade”
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Insira uma legenda

Esta parábola evoca sentidos referentes ao Reino de Deus, o lugar da justiça, da misericórdia, da solidariedade e partilha do banquete da vida. Abundância e gratuidade encontram-se à mão de quem diz “sim” ao Pai. Exclusiva de Lucas, ela é – ao lado das parábolas da ovelha perdida e da moeda perdida – uma resposta de Jesus à acusação dos especialistas em religião. Jesus acolhia pecadores e comia com eles (v.2). Mas diferentemente das parábolas anteriores, esta tem um contraponto ao autor da ação amorosa reprovada em favor das obrigações retributivas por mérito: o filho mais velho, que se supõe, ele sim, merecedor das bênçãos e dos bens do pai, rejeita o mais novo (pecador), e tudo o que o pai fez por este, estabelecendo um juízo de valor sobre o caçula que retorna.
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O “incluído” não abre mão desse juízo. Recusa a gratuidade incondicional ao irmão, julgando-o não merecedor da graça. O mesmo juízo condenatório que as lideranças judaicas tinham sobre a maior parte da população que não seguia a “reta doutrina” da religião (Flávio Irala). Estes, os quais já compartilham do perdão e da reconciliação, são meros espectadores. Nos relatos, assemelham-se aos participantes da festa de acolhida. São os que já descobriram a intimidade do amor misericordioso do Pai, pela reconciliação, porque Deus não despreza o que sofre.
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Nos dias modernos, as antenas altas colocadas no alto dos grandes edifícios simbolizam as posições da juventude diante do mundo, por seu alcance sem limites, via satélite. “O modo como uma sociedade olha para a juventude é uma metáfora de como ela olha para si mesma”, disse Marília Spósito. Se ela não quer transformar a realidade, o jovem não quererá mudar o mundo, como lhe é próprio, desde todas as eras. O protagonismo que esperamos será exercido para “conservar” os interesses externos dos fabricantes da “felicidade” consumista, servida num “self-service” da esquina mais próxima.
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A rede de atendimento aos “famintos de felicidade” tornou-se um negócio rendoso, e os usuários, para mantê-la, exigem mais exploração daqueles que já são super-explorados. Ecstasy, viagra e fast-food são símbolos da excitação permanente em que se mantêm os jovens  (Dasilio, D. – Pedagogia da Ganância, 2013). Há uma expressiva multidão de “especialistas” em felicidade religiosa, felicidade sexual, felicidade amorosa e felicidade química que, em coro, propagam e reforçam na mídia o mito da salvação individual.
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O Brasil moderno, informatizado, “liberalizado” eticamente e com todos os problemas resolvidos, de antemão, pelas leis do mercado, busca a salvação pelo cartão de crédito. Não há símbolo cultural mais significativo que um credicard. O shopping-center tornou-se o templo onde jovens depositam suas maiores esperanças.
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Não conta para estes a outra parte, o outro mundo onde estão os jovens sendo “preparados” para aproveitar o descalabro total desta sociedade. Esta que cada vez mais se parece com as do mundo chamado desenvolvido. A massa de flanelinhas, pivetes, crackeiros, traficantes de cocaína, representa o lado sem o qual a visibilidade da primeira fila fica comprometida. Estes veem nos ricos apenas consumidores de drogas e outras porcarias, e “trabalham” pra valer no sentido de atendê-los (bem lembrado por Chico Buarque: “Meu Guri”). Formam-se vocações para assaltantes, estupradores, assassinos gratuitos, à margem e ao mesmo tempo dentro da sociedade que dela parece depender e se alimentar.
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A sociedade moderna vive, como um vampiro, do sangue dos jovens. É fonte geradora de incertezas e de toda desgraça. Causa da prostituição, do analfabetismo, da mortandade infantil, do turismo sexual, do tráfico de mulheres, segundo  Mozart Noronha, conhecido pastor luterano. Imaginemos que os filhos do povo brasileiro, seduzidos, vão esgotar seus potenciais desperdiçando a vida com as ofertas da globalização cultural… E teremos uma legião de jovens seduzidos, como o rapaz da parábola.
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O mapa dos focos da violência mostra que as vítimas mais frequentes de morte violenta, hoje, são jovens e negros. Um cenário pior do que o de uma guerra contra a juventude. Na Antiguidade, jovens eram recrutados pela defesa nacional preferencialmente para a guerra. Hoje o recrutamento pelo crime, organizado ou espontâneo, na expressão urbana do consumo de drogas pela sociedade mais privilegiada.

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O Estado brasileiro campeão em violência contra os jovens era Alagoas (taxa de 125,3), seguido do Espírito Santo (120) e Pernambuco (106,1). A tragédia nos municípios campeões em violência são ainda mais impressionantes: Maceió (AL), com taxa de 251,4 homicídios de jovens a cada 100 mil habitantes; Serra (ES), com 245,8. Itabuna (BA), com 229,4. É uma carnificina.
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Jovens se encontram sitiados pelo dinheiro, como parte da sociedade “uselo y tirelo”, use e jogue fora. O dinheiro que serviria para ser compartilhado solidariamente para melhorar  a saúde, a mobilidade urbana, a habitação, a escola para os situados nos mais baixos degraus da pirâmide, é desperdiçado no consumo estimulado irresponsavelmente.
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Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando nos jovens, perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. Sonhamos com paraísos, construímos utopias. Como os sons e as tonalidades do Universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.
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Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança de um mundo novo possível. É o reinado de Deus. Reino de justiça e bem-aventuranças compartilhadas em igualdade. Paraísos precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado em igualdade e justiça. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Sl 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. É preciso convidar os jovens para embarcar nessa loucura.
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Só os poetas, e o próprio Deus, creem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está ao dispor dos jovens. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos. O Reino está próximo, disse Jesus. Todas as possibilidades da justiça e alcance de bem-aventuranças em igualdade fraternal estão próximas. A festa da vida já começou, há lugar para todos os que buscam a acolhida de Deus, e dizem “sim” ao Reinado de Deus.
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Derval Dasilio

Nota

Jovens pentecostais evangélicos ou carismáticos católicos também abraçam a religião emocional “salvadora” do mundo pecaminoso, enquanto se entregam à religião de mercado. Ou religião da ganância. Vale tudo, enquanto se convidam os jovens para esquecer a História, as lutas pela democracia e pelas liberdades civis e direitos fundamentais do homem e da mulher.

O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, porque amanhã… não interessa. Tão escondida está, a fé na utopia cristã de “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21), um mundo novo possível, que não se pode ver sua beleza verdadeira e o que se pode fazer para mudar coisas verdadeiramente malignas que cercam a vida humana, invadindo-a com desigualdades, preconceitos, narcisismo, sofrimento e dor.

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PASSE O MACHADO SE NÃO DER FRUTO…

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QUARESMA – 2o DOMINGO – ANO “C” 2016 (21-fev.2016)
Isaías 55,1-9 – Por Deus… afastem-se dos maus
Salmo 63,1-8 – O Senhor é bondoso e compassivo
1Coríntios 10,1-6;10-12 – Vida no deserto, exemplo
Lucas 13,1-9 – Sem vos converterdes, morrereis sem frutos

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As parábolas de Jesus pretendem dar um sentido mais humano à vida das pessoas. Que elas se compreendam em sua humanidade real, enquanto se situam dentro da realidade da coletividade humana. Se esta se entrega ao barbarismo intuitivo, e se entrega tão somente às pulsões da vida, de desejo de vingança (de retribuição, por exemplo), de poder, ganância, é preciso encontrar um caminho libertador, através de uma espiritualidade que não ignore as forças contrárias à justiça igualitária, gratuidade, ternura, compaixão, solidariedade e tolerância. É o que sugere o texto bíblico, reproduzindo os ensinamentos de Jesus. Se as demais plantas são bem cuidadas, no parreiral, por que produzem, por que não adubar outras, no mesmo pomar, para se obter resultados iguais? Bons frutos podem surgir daí.
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A figueira só deixa de produzir fruto se for negligenciada. Por isso ocupa um lugar importante no pensamento bíblico: é preciso cuidar dos que não produzem para sustentar a vida, e não “passar o machado para eliminá-los”. O agricultor repete o que já sabemos: foi colher e não encontrou frutos. Entretanto acrescenta novos elementos: “há três anos repete a mesma busca em vão, e então decide cortá-la”. A “destruição” aqui é imagem do juízo, um alerta sobre o que não deve acontecer, e não uma condenação ou sentença.

O surpreendente é a intercessão (na Bíblia é comum que o intercessor seja um subalterno; neste caso o gerente, dirigindo-se ao dono da plantação de uvas para o fabrico do vinho). Ele se ocupará de alimentar e irrigar a planta, enquanto conduzirá à última esperança de futuros frutos, no caso isolado da figueira temporariamente infértil. Esta será a última oportunidade da árvore produzir frutos, caso contrário será cortada.
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A pergunta de Jesus é instigante: “Vocês, por que se consideram privilegiados pela eleição de Deus, pensam que aqueles ‘galileus’ são inferiores pelo que fizeram no passado, e por isso merecem castigo e morte violenta”? Na tradição do povo bíblico, havia uma convicção de que a saúde, a vida longeva, são sinais de bênção. Do mesmo modo que possuir bens, muitos filhos e descendentes.
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O contrário também ocorria, sendo a morte prematura, morte violenta, e a enfermidade, sinais da “inimizade com Deus”. O livro de Jó é o que mais se destaca, no AT, quanto a essa forma de pensar: os justos, os obedientes à lei religiosa e suas prescrições, são “preservados”, imunizados,  quanto à enfermidade e morte por doença incurável, como também da morte violenta, à semelhança da catástrofe que foi o desabamento da torre de Siloé. Diriam os “amigos” fundamentalistas de Jó: as mortes em Siloé, como numa catástrofe ambiental semelhante à de Mariana MG seriam por castigo merecido…
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Ou seja, “Deus permite a doença, a morte e desastres naturais ou provocados” para castigar infiéis. Jesus nega tal coisa, enquanto recusa os méritos da vida consagrada ou “avivada” (que vergonha, senhores evangélicos!…) para a salvação de alguém. A parábola oferece oportunidade para a figueira voltar a dar frutos, depois de adubada e cuidada, é significativa. Metáfora magnífica para a fidelidade ao Deus da vida: a Graça sempre está à disposição de quem precisa ser salvo. Cada um dos que foram alcançados e vive produtivamente tem o dever de socorrer o que temporariamente deixou de produzir os frutos do Reino.
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Três anos depois, sem julgamento conclusivo, voltemos nossos olhos para a tragédia dos jovens em Santa Maria RS, quando morreram mais de duas centena de jovens numa boate. O bem, o amor, a misericórdia e a compaixão, não podem ser definidos nem alcançados por explicação inteligente, no uso da razão — sugeriria Jesus? — aqueles jovem pereceram, na verdade, por negligência dos empresários e autoridades responsáveis. Estes, sim, devem  ser julgados, e não os jovens que procuravam diversão.
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Nem o mal pode ser explicado por esse meio. Freud descobriu que há pulsões determinantes na vida humana que nos permitem uma melhor compreensão do funcionamento do inconsciente. O coletivo (Carl Jung), a irrupção dos impulsos irrefreáveis, em busca de diversão, de prazer, quando em rebanho, numa trajetória de morte e destruição, têm explicação nas heranças ancestrais atávicas.
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Como vimos na recente tragédia de Santa Maria – RS. Sem responsabilizar governantes e fiscais venais, depois da morte de quase três centenas de jovens num curral sem saída, sufocados por uma fumaça negra e asfixiante. Discorrendo com habilidade professoral — vimos psicólogos falando do luto das famílias — sobre “as causas imediatas da tragédia”, escondemos fiscais, prefeitos, governadores e autoridades governativas responsáveis pela tragédia.* Estamos diante de um escândalo à razão, na cultura popular ou na religião. O teólogo Jürgen Moltmann destacou muito bem: “Deus é solidário com o oprimido, o explorado, e não o causador da sua dor; Deus não é conivente ou indiferente ao sofrimento”, onde quer que ele se manifeste. E temos o complemento inaceitável pela razão religiosa que justifica o racismo: “Deus nunca se isentou do sofrimento, ele sempre sofreu e sofre conosco”.
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Derval Dasilio.


PALAVRAS DA BÍBLIA – Vingança, Retribuição, Graça Cultivada, Misericórdia e Sofrimento

COMENTÁRIO  EXEGÉTICO

Jesus desmente a tradição da retribuição ou a isenção de Deus quanto ao mal existente. Na paixão de Cristo, Deus percorreu os nossos caminhos andando em meio ao sofrimento humano, não foi poupado dos clamores e lágrimas de todo homem e de toda mulher, apreendendo a dor, vivenciando toda espécie de sofrimento, mas propondo modificá-lo. Pela justiça aplicada aos culpados. O profeta do Apocalipse afirmou que, por fim: “não haverá fome nem sede”, entre os sofrimentos humanos (Ap 21,1-4). De fato, Deus estará conosco para sempre, e “enxugará nossos olhos de toda lágrima, a morte não mais existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso terá passado”.  

  • O abismo das desigualdades; as diferenças no repartir dos bens sociais, passam ao largo do interesse popular, do senso comum e da mídia. Freud explica? Não. Mas a parábola da figueira infértil, proferida por Jesus, aponta para o cultivo da Graça, para que o povo eleito, não se entregue às demandas da ganância, do poder político setorial, da felicidade vendida em qualquer esquina. Esta parábola sugere a proliferação da Graça sem limites, para todos os povos, raças e nações.
  • Deus, o Pai, não é justiceiro nem um capataz endurecido que castiga e manda vir o mal e o sofrimento a “servos desobedientes”, os que ignoram os ditames da moral religiosa em vigor, sugere o texto bíblico. Os fatos históricos, que antecedem ao conto, nessa história exemplar, são indicadores de que experiências negativas do passado, se vividas ainda no presente, podem servir para mudar o futuro.
  • Contratempos, sofrimentos, motivam a compreensão do modo de agir de Deus, orientando para dar sentido concreto à Graça, depois de alcançada. É preciso escutar e repensar esta questão. Privilegiados pela Graça, vivendo como eleitos, mas sem nada produzir, insensíveis, indiferentes, merecemos julgamento. É preciso fazer nossa vida frutífera, de algum modo, para que a Graça seja manifesta e repartida. Graça concreta, expressa na compaixão, na misericórdia, no cuidado e na solidariedade incondicional. A vida de fé sob a graça pressupõe fecundidade na prática e na vida cotidiana. 
  • O acontecimento da Torre de Siloé desmoronando é desconhecido historicamente. Foram propostos diferentes fatos, mas nenhum coincide exatamente com este. É estranho que Flávio Josefo (historiador do séc. 1  DC) não o tenha narrado. Entretanto o debate supõe um acontecimento ocorrido.
  • A miscigenação racial, da qual eram acusados os compatriotas de Jesus, a participação dos galileus nos sacrifícios cultuais das religiões do lugar, Faz pensar na festa da Páscoa: nesta data os peregrinos judeus – e também os galileus, discriminados! –, se encontram em Jerusalém, e fiéis comuns participam dos sacrifícios uma vez que devem levar para sua casa o cordeiro para ser comido em família, segundo tradição remota. É nesse momento que brota a parábola registrada por Lucas [Derval Dasilio].


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NÃO À GANÂNCIA DOS PASTORES MILIONÁRIOS

Teologia & Liturgia e Culto Cristão - ANO "C"

5o DOMINGO DA QUARESMA – Ano “C”

Isaías 43, 16-21 – Eis que eu farei coisas novas, e as darei ao meu povo                    

Salmo 32 – Bem-aventurado aquele a quem o Senhor não atribui iniqüidade    

Filipenses 3, 4b-14 – Por causa de Cristo eu entreguei tudo….

João 12,1-8 – Maria ungiu os pés de Jesus com um litro de perfume   

perfume_liturgiaAlguns estudiosos, como Maiko Deffaveri, apontam questões cristológicas importantes na Era Digital. A mais importante questão, na evangelização da juventude, é descobrir a importância de Jesus Cristo, para os meios de comunicação no século 21. Para tanto, o teólogo Jürgen Moltmann é lembrado pelo estudioso, em suas obras, as que destacam a centralidade de Jesus na vida das comunidades cristãs. Todo seguimento e compreensão de Jesus deveriam ser pautados na vivência da comunidade (inclusive as comunidades virtuais). A comunidade ouve e testemunha o Evangelho, diz o teólogo…

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JUVENTUDE

Teologia & Liturgia e Culto Cristão - ANO "C"


4o DOMINGO DA QUARESMA
Josué 5,9-12 –  Importa celebrar a libertação em todo tempo
Salmo 32 – A  totalidade do mundo é alcançada pela misericórdia de Deus
2Coríntios 5,16-21 – Deus estava em Cristo reconciliando o mundo com Deus
Lucas 15,1-3; 11b-32 – A gratuidade ilimitada do Pai ao jovem seduzido pelo mercado da “felicidade”

filho pródigoEsta parábola evoca sentidos referentes ao Reino de Deus, o lugar da justiça, da misericórdia, da solidariedade e partilha do banquete da vida plena em abundância e gratuidade. Exclusiva de Lucas, ela é – ao lado das parábolas da ovelha perdida e da moeda perdida – uma resposta de Jesus à acusação dos especialistas em religião. Jesus acolhia pecadores e comia com eles (v.2). Mas diferentemente das parábolas anteriores, esta tem um contraponto ao autor da ação amorosa reprovada em favor das obrigações por mérito: o filho mais velho, que se supõe, ele sim, merecedor…

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CONSELHOS DO DIABO

 

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[][][][][] QUARESMA – 2016 [][][][][]

diabo 22

Brosogó, Militão e o Diabo
[…]Eu sou o Diabo a quem todos/Chamam de monstro ruim/ E só você neste mundo/Teve a bondade sem fim/De um dia queimar três velas / Oferecidas a mim./ Quando disse estas palavras/No mesmo instante saiu.  /Adiante deu um pipoco/E pelo espaço sumiu/Porém pipoco baixinho/Que o Brosogó não ouviu. […]Caro leitor nesta estrofe /Não queira zombar de mim /Ninguém ouviu o estouro/Mas juro que foi assim/Pois toda história do Diabo/Tem um pipoco no fim (Patativa do Assaré).
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Que perguntas faremos nós, na Quaresma? O que é trair princípios de justiça, de cuidado com o outro? Quantas foram as infidelidades que se cometem depois dos compromissos feitos com a verdade e a justiça? Quantas vezes se deixa de lado o bom senso, fazendo-nos compreender equivocadamente que somos incapazes de viver com desconforto, sem luz elétrica, sem acesso ao transporte, sem geladeira, como milhões de pessoas em nosso País?

Por outro lado, apegados a um cotidiano privilegiado, é possível viver sem televisão, celular, roupa de griffe, sapatos caros, sem comida industrializada, sem dor de cabeça com cartões de crédito e boletos intermináveis de contas a pagar, sem a mínima proteção da saúde e contra o frio, a chuva e o sol? Pois, há milhões de brasileiros que vivem assim. Experimentam a vida no “deserto” todos os dias, como se não vivessem no meio de uma sociedade de abundância. Como diria Eduardo Galeano: a sociedade do uselo e tirelo, use e jogue fora…
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De quantas situações de injustiça participamos descuidadamente – falando de desigualdades na distribuição dos bens sociais –, sem prevermos o prejuízo da coletividade abandonada? Como entender aqueles que são desprezados pelos poderes públicos e pela sociedade, enquanto falamos de crise, perda de poder aquisitivo, quando pertencemos ao grupo privilegiado?
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O texto informa (Lucas 4,1-13), então, que há quem ilude os demais dizendo-se com poderes para transformar pedra em pão, e esconder com prestidigitação e magia o problema da fome, da saúde e da alimentação de milhões que “jazem perdidos na escuridão” das grandes carências humanas na religião da ganância. E, por que Jesus não opera os milagres da prosperidade sugerida pelo diabo, fazendo do deserto pedregoso uma padaria monumental?
*
Por que Jesus não poderia satisfazer também ao que ensinam religiosos carismáticos e pentecostais gananciosos, em busca de saídas na prosperidade egoísta para substituir o sofrimento das carências sem passar pela denúncia dos poderes públicos omissos, os quais respondem pela obrigação de atender aos direitos fundamentais, saúde, escola, transporte, habitação, emprego, das pessoas e da comunidade, e não o fazem?
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Eis o plano de aconselhamento do diabo, em algumas sessões:  Você poderá alimentar seus seguidores, ou satisfazê-los (Lc 4,1-13: Jesus e as receitas do diabo). Com prestidigitação e magia, eles não se importarão com os indícios de charlatanismo através da mágica ou da hipnose, quando o interessado come pedra pensando que é o delicioso pão da melhor padaria do Brasil, entre as maravilhosas panificadoras de S.Paulo. Serão satisfeitos momentaneamente, e se esquecerão da fome permanente no planeta, e em nosso país – hoje, ¼ da humanidade passa fome, e no Brasil 10% padecem sob fome e desnutrição.
*
Só pensarão no Carnaval e no Futebol – e nos Festivais Gospel, se forem evangélicos. Hipnotizados pela ganância, eles não pensarão em políticas governamentais necessárias para atender direitos fundamentais da coletividade, a começar pela saúde e nutrição; habitação, trabalho, transporte, igualdade na partilha dos bens sociais. Ignorarão a desproteção ambiental, miséria e a corrupção, enquanto absolvem as multinacionais que a sustentam (em Vitória ES a Vale pulverizou em cinco dias uma multa de 65 milhões, depois de autuada, mais uma entre centenas de vezes, por contaminação ambiental desde o Porto do Tubarão).
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Na segunda sessão trataremos do “poder”, diz o diabo. Ensinarei você a exercer uma autoridade inquestionável sobre toda e qualquer questão, no mar, no céu e na terra. Você assumirá o controle da massa com espetáculos nas praias do Brasil. Tal qual uma “star” do gospel business. Para anestesiar a massa, você oferecerá shows e festivais grandiosos tipo jesus-viva-verão, marchas-para-jesus… Milhões virão olhar você.
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A massa é narcisista, não pode ver uma câmera e imediatamente faz pose, enquanto busca espelhos exemplares nas lideranças, logo fazendo selfies com elas. As igrejas comunitárias, lotadas, serão lugares de encontros divertidos, com holofotes no altar e nas fachadas, ou com datashow e telões que não faltarão em lugar nenhum (Nota do autor: perdi algum detalhe?, ajudem-me se estou descrevendo modelos inexistentes…). E trate de esquecer a tolice de que igrejas são espaços de comunhão e reflexão.
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Nuvens de gelo seco se encarregarão de esconder o essencial, no espaço sagrado. Os fieis adorarão ver suas projeções nas telas enquanto esquecem as carências da coletividade humana. Você será adorado. Nesse setor as pessoas desejam ser felizes não amanhã, mas hoje, agora, e talvez desde ontem. Por isso bajulam personalidades que as convidam ao espetáculo da materialidade.
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Você será exaltado como se faz com um pastor milionário, rolex no pulso, símbolo de luxo e ostentação, circulando de Mercedes importada, sobrevoando a cidade com helicópteros particulares, mantendo mansões em Miami ou Boca Ratón. Será deificado na tv, aparecerá na revista Forbes entre os mais ricos do planeta, enquanto observado, e seu nome estará na boca de milhões de telespectadores. Cartões para depósito de contribuição serão distribuídos aos milhões, para seus seguidores, que engrossarão imediatamente sua conta bancária. Sem impostos, claro. Usando as contas eclesiásticas, você será um cidadão privilegiado diante do fisco.
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Terá milhões e bilhões em igrejas moldadas em lavanderias de dinheiro. Para alegria dos paraísos fiscais no mundo inteiro, igrejas serão suas agências internacionais, não se sujeitarão — pois o dinheiro eclesiástico é inimputável –, ao fisco. “Lavarão” (não seria levarão?) dinheiro amealhado com seu charme. O charlatanismo religioso e a sonegação de obrigações civis não será mais crime ou pecado. Em troca você me entregará sua alma –- como Fausto entregou a sua a Mephisto.
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Quanto aos demais, não mais precisarão observar a Quaresma, porque a mesma não fará sentido num cristianismo secularizado, tomado pela ganância do capital privado. A síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo será finalmente alcançada, superando o materialismo capitalista das igrejas. Sem o exemplo para se meditar sobre as grandes carências da humanidade; sem meditação sobre a desumanização da vida; sem meditar a respeito do coração da humanidade — o complexo de acumulação material –, que gera falso bem-estar e falso conforto, a Quaresma será inútil.
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Enquanto isso o corpo vai recebendo influxos da civilização moderna em torno do capital, aconselha o diabo, sem meditar sobre os valores que sustentam o corpo, a partir do cuidado e do cultivo da misericórdia, da compaixão e da solidariedade, que se dissolverão com a ganância líquida (como diria Z.Baumann). Diante dos meus conselhos, como fez Mephisto com Fausto — ou no cordel da Patativa do Assaré –, será muito mais fácil exercer sua soberania.
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Quando “o cerco das multidões”, agora mantidas em currais religiosos, for completado, você imporá seu poder, supremacia, controle e mando sobre todos os seus admiradores. Por fim, tornar-se-á inútil meditar sobre “um certo Jesus” em suas lutas para salvar homens e mulheres da ganância que atravessa os tempos da perdição humana. E a obra do Mal estará completa.
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Em Tempo: Patativa do Assaré, poeta de cordel, se vivesse nos dias de hoje, não teria a menor dificuldade em fazer novos cordéis sobre nossos encontros com o diabo, concorrendo em pé de igualdade com Goethe (Fausto e Mephisto), diante do material abundante oferecido gratuitamente na religião que mais encontra adeptos em nosso país.
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Derval Dasilio (Quaresma de 2016).

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