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[][][][][] QUARESMA – 2016 [][][][][]

diabo 22

Brosogó, Militão e o Diabo
[…]Eu sou o Diabo a quem todos/Chamam de monstro ruim/ E só você neste mundo/Teve a bondade sem fim/De um dia queimar três velas / Oferecidas a mim./ Quando disse estas palavras/No mesmo instante saiu.  /Adiante deu um pipoco/E pelo espaço sumiu/Porém pipoco baixinho/Que o Brosogó não ouviu. […]Caro leitor nesta estrofe /Não queira zombar de mim /Ninguém ouviu o estouro/Mas juro que foi assim/Pois toda história do Diabo/Tem um pipoco no fim (Patativa do Assaré).
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Que perguntas faremos nós, na Quaresma? O que é trair princípios de justiça, de cuidado com o outro? Quantas foram as infidelidades que se cometem depois dos compromissos feitos com a verdade e a justiça? Quantas vezes se deixa de lado o bom senso, fazendo-nos compreender equivocadamente que somos incapazes de viver com desconforto, sem luz elétrica, sem acesso ao transporte, sem geladeira, como milhões de pessoas em nosso País?

Por outro lado, apegados a um cotidiano privilegiado, é possível viver sem televisão, celular, roupa de griffe, sapatos caros, sem comida industrializada, sem dor de cabeça com cartões de crédito e boletos intermináveis de contas a pagar, sem a mínima proteção da saúde e contra o frio, a chuva e o sol? Pois, há milhões de brasileiros que vivem assim. Experimentam a vida no “deserto” todos os dias, como se não vivessem no meio de uma sociedade de abundância. Como diria Eduardo Galeano: a sociedade do uselo e tirelo, use e jogue fora…
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De quantas situações de injustiça participamos descuidadamente – falando de desigualdades na distribuição dos bens sociais –, sem prevermos o prejuízo da coletividade abandonada? Como entender aqueles que são desprezados pelos poderes públicos e pela sociedade, enquanto falamos de crise, perda de poder aquisitivo, quando pertencemos ao grupo privilegiado?
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O texto informa (Lucas 4,1-13), então, que há quem ilude os demais dizendo-se com poderes para transformar pedra em pão, e esconder com prestidigitação e magia o problema da fome, da saúde e da alimentação de milhões que “jazem perdidos na escuridão” das grandes carências humanas na religião da ganância. E, por que Jesus não opera os milagres da prosperidade sugerida pelo diabo, fazendo do deserto pedregoso uma padaria monumental?
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Por que Jesus não poderia satisfazer também ao que ensinam religiosos carismáticos e pentecostais gananciosos, em busca de saídas na prosperidade egoísta para substituir o sofrimento das carências sem passar pela denúncia dos poderes públicos omissos, os quais respondem pela obrigação de atender aos direitos fundamentais, saúde, escola, transporte, habitação, emprego, das pessoas e da comunidade, e não o fazem?
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Eis o plano de aconselhamento do diabo, em algumas sessões:  Você poderá alimentar seus seguidores, ou satisfazê-los (Lc 4,1-13: Jesus e as receitas do diabo). Com prestidigitação e magia, eles não se importarão com os indícios de charlatanismo através da mágica ou da hipnose, quando o interessado come pedra pensando que é o delicioso pão da melhor padaria do Brasil, entre as maravilhosas panificadoras de S.Paulo. Serão satisfeitos momentaneamente, e se esquecerão da fome permanente no planeta, e em nosso país – hoje, ¼ da humanidade passa fome, e no Brasil 10% padecem sob fome e desnutrição.
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Só pensarão no Carnaval e no Futebol – e nos Festivais Gospel, se forem evangélicos. Hipnotizados pela ganância, eles não pensarão em políticas governamentais necessárias para atender direitos fundamentais da coletividade, a começar pela saúde e nutrição; habitação, trabalho, transporte, igualdade na partilha dos bens sociais. Ignorarão a desproteção ambiental, miséria e a corrupção, enquanto absolvem as multinacionais que a sustentam (em Vitória ES a Vale pulverizou em cinco dias uma multa de 65 milhões, depois de autuada, mais uma entre centenas de vezes, por contaminação ambiental desde o Porto do Tubarão).
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Na segunda sessão trataremos do “poder”, diz o diabo. Ensinarei você a exercer uma autoridade inquestionável sobre toda e qualquer questão, no mar, no céu e na terra. Você assumirá o controle da massa com espetáculos nas praias do Brasil. Tal qual uma “star” do gospel business. Para anestesiar a massa, você oferecerá shows e festivais grandiosos tipo jesus-viva-verão, marchas-para-jesus… Milhões virão olhar você.
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A massa é narcisista, não pode ver uma câmera e imediatamente faz pose, enquanto busca espelhos exemplares nas lideranças, logo fazendo selfies com elas. As igrejas comunitárias, lotadas, serão lugares de encontros divertidos, com holofotes no altar e nas fachadas, ou com datashow e telões que não faltarão em lugar nenhum (Nota do autor: perdi algum detalhe?, ajudem-me se estou descrevendo modelos inexistentes…). E trate de esquecer a tolice de que igrejas são espaços de comunhão e reflexão.
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Nuvens de gelo seco se encarregarão de esconder o essencial, no espaço sagrado. Os fieis adorarão ver suas projeções nas telas enquanto esquecem as carências da coletividade humana. Você será adorado. Nesse setor as pessoas desejam ser felizes não amanhã, mas hoje, agora, e talvez desde ontem. Por isso bajulam personalidades que as convidam ao espetáculo da materialidade.
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Você será exaltado como se faz com um pastor milionário, rolex no pulso, símbolo de luxo e ostentação, circulando de Mercedes importada, sobrevoando a cidade com helicópteros particulares, mantendo mansões em Miami ou Boca Ratón. Será deificado na tv, aparecerá na revista Forbes entre os mais ricos do planeta, enquanto observado, e seu nome estará na boca de milhões de telespectadores. Cartões para depósito de contribuição serão distribuídos aos milhões, para seus seguidores, que engrossarão imediatamente sua conta bancária. Sem impostos, claro. Usando as contas eclesiásticas, você será um cidadão privilegiado diante do fisco.
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Terá milhões e bilhões em igrejas moldadas em lavanderias de dinheiro. Para alegria dos paraísos fiscais no mundo inteiro, igrejas serão suas agências internacionais, não se sujeitarão — pois o dinheiro eclesiástico é inimputável –, ao fisco. “Lavarão” (não seria levarão?) dinheiro amealhado com seu charme. O charlatanismo religioso e a sonegação de obrigações civis não será mais crime ou pecado. Em troca você me entregará sua alma –- como Fausto entregou a sua a Mephisto.
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Quanto aos demais, não mais precisarão observar a Quaresma, porque a mesma não fará sentido num cristianismo secularizado, tomado pela ganância do capital privado. A síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo será finalmente alcançada, superando o materialismo capitalista das igrejas. Sem o exemplo para se meditar sobre as grandes carências da humanidade; sem meditação sobre a desumanização da vida; sem meditar a respeito do coração da humanidade — o complexo de acumulação material –, que gera falso bem-estar e falso conforto, a Quaresma será inútil.
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Enquanto isso o corpo vai recebendo influxos da civilização moderna em torno do capital, aconselha o diabo, sem meditar sobre os valores que sustentam o corpo, a partir do cuidado e do cultivo da misericórdia, da compaixão e da solidariedade, que se dissolverão com a ganância líquida (como diria Z.Baumann). Diante dos meus conselhos, como fez Mephisto com Fausto — ou no cordel da Patativa do Assaré –, será muito mais fácil exercer sua soberania.
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Quando “o cerco das multidões”, agora mantidas em currais religiosos, for completado, você imporá seu poder, supremacia, controle e mando sobre todos os seus admiradores. Por fim, tornar-se-á inútil meditar sobre “um certo Jesus” em suas lutas para salvar homens e mulheres da ganância que atravessa os tempos da perdição humana. E a obra do Mal estará completa.
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Em Tempo: Patativa do Assaré, poeta de cordel, se vivesse nos dias de hoje, não teria a menor dificuldade em fazer novos cordéis sobre nossos encontros com o diabo, concorrendo em pé de igualdade com Goethe (Fausto e Mephisto), diante do material abundante oferecido gratuitamente na religião que mais encontra adeptos em nosso país.
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Derval Dasilio (Quaresma de 2016).

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