cortar a figueira (1)f

QUARESMA – 2o DOMINGO – ANO “C” 2016 (21-fev.2016)
Isaías 55,1-9 – Por Deus… afastem-se dos maus
Salmo 63,1-8 – O Senhor é bondoso e compassivo
1Coríntios 10,1-6;10-12 – Vida no deserto, exemplo
Lucas 13,1-9 – Sem vos converterdes, morrereis sem frutos

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As parábolas de Jesus pretendem dar um sentido mais humano à vida das pessoas. Que elas se compreendam em sua humanidade real, enquanto se situam dentro da realidade da coletividade humana. Se esta se entrega ao barbarismo intuitivo, e se entrega tão somente às pulsões da vida, de desejo de vingança (de retribuição, por exemplo), de poder, ganância, é preciso encontrar um caminho libertador, através de uma espiritualidade que não ignore as forças contrárias à justiça igualitária, gratuidade, ternura, compaixão, solidariedade e tolerância. É o que sugere o texto bíblico, reproduzindo os ensinamentos de Jesus. Se as demais plantas são bem cuidadas, no parreiral, por que produzem, por que não adubar outras, no mesmo pomar, para se obter resultados iguais? Bons frutos podem surgir daí.
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A figueira só deixa de produzir fruto se for negligenciada. Por isso ocupa um lugar importante no pensamento bíblico: é preciso cuidar dos que não produzem para sustentar a vida, e não “passar o machado para eliminá-los”. O agricultor repete o que já sabemos: foi colher e não encontrou frutos. Entretanto acrescenta novos elementos: “há três anos repete a mesma busca em vão, e então decide cortá-la”. A “destruição” aqui é imagem do juízo, um alerta sobre o que não deve acontecer, e não uma condenação ou sentença.

O surpreendente é a intercessão (na Bíblia é comum que o intercessor seja um subalterno; neste caso o gerente, dirigindo-se ao dono da plantação de uvas para o fabrico do vinho). Ele se ocupará de alimentar e irrigar a planta, enquanto conduzirá à última esperança de futuros frutos, no caso isolado da figueira temporariamente infértil. Esta será a última oportunidade da árvore produzir frutos, caso contrário será cortada.
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A pergunta de Jesus é instigante: “Vocês, por que se consideram privilegiados pela eleição de Deus, pensam que aqueles ‘galileus’ são inferiores pelo que fizeram no passado, e por isso merecem castigo e morte violenta”? Na tradição do povo bíblico, havia uma convicção de que a saúde, a vida longeva, são sinais de bênção. Do mesmo modo que possuir bens, muitos filhos e descendentes.
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O contrário também ocorria, sendo a morte prematura, morte violenta, e a enfermidade, sinais da “inimizade com Deus”. O livro de Jó é o que mais se destaca, no AT, quanto a essa forma de pensar: os justos, os obedientes à lei religiosa e suas prescrições, são “preservados”, imunizados,  quanto à enfermidade e morte por doença incurável, como também da morte violenta, à semelhança da catástrofe que foi o desabamento da torre de Siloé. Diriam os “amigos” fundamentalistas de Jó: as mortes em Siloé, como numa catástrofe ambiental semelhante à de Mariana MG seriam por castigo merecido…
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Ou seja, “Deus permite a doença, a morte e desastres naturais ou provocados” para castigar infiéis. Jesus nega tal coisa, enquanto recusa os méritos da vida consagrada ou “avivada” (que vergonha, senhores evangélicos!…) para a salvação de alguém. A parábola oferece oportunidade para a figueira voltar a dar frutos, depois de adubada e cuidada, é significativa. Metáfora magnífica para a fidelidade ao Deus da vida: a Graça sempre está à disposição de quem precisa ser salvo. Cada um dos que foram alcançados e vive produtivamente tem o dever de socorrer o que temporariamente deixou de produzir os frutos do Reino.
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Três anos depois, sem julgamento conclusivo, voltemos nossos olhos para a tragédia dos jovens em Santa Maria RS, quando morreram mais de duas centena de jovens numa boate. O bem, o amor, a misericórdia e a compaixão, não podem ser definidos nem alcançados por explicação inteligente, no uso da razão — sugeriria Jesus? — aqueles jovem pereceram, na verdade, por negligência dos empresários e autoridades responsáveis. Estes, sim, devem  ser julgados, e não os jovens que procuravam diversão.
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Nem o mal pode ser explicado por esse meio. Freud descobriu que há pulsões determinantes na vida humana que nos permitem uma melhor compreensão do funcionamento do inconsciente. O coletivo (Carl Jung), a irrupção dos impulsos irrefreáveis, em busca de diversão, de prazer, quando em rebanho, numa trajetória de morte e destruição, têm explicação nas heranças ancestrais atávicas.
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Como vimos na recente tragédia de Santa Maria – RS. Sem responsabilizar governantes e fiscais venais, depois da morte de quase três centenas de jovens num curral sem saída, sufocados por uma fumaça negra e asfixiante. Discorrendo com habilidade professoral — vimos psicólogos falando do luto das famílias — sobre “as causas imediatas da tragédia”, escondemos fiscais, prefeitos, governadores e autoridades governativas responsáveis pela tragédia.* Estamos diante de um escândalo à razão, na cultura popular ou na religião. O teólogo Jürgen Moltmann destacou muito bem: “Deus é solidário com o oprimido, o explorado, e não o causador da sua dor; Deus não é conivente ou indiferente ao sofrimento”, onde quer que ele se manifeste. E temos o complemento inaceitável pela razão religiosa que justifica o racismo: “Deus nunca se isentou do sofrimento, ele sempre sofreu e sofre conosco”.
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Derval Dasilio.


PALAVRAS DA BÍBLIA – Vingança, Retribuição, Graça Cultivada, Misericórdia e Sofrimento

COMENTÁRIO  EXEGÉTICO

Jesus desmente a tradição da retribuição ou a isenção de Deus quanto ao mal existente. Na paixão de Cristo, Deus percorreu os nossos caminhos andando em meio ao sofrimento humano, não foi poupado dos clamores e lágrimas de todo homem e de toda mulher, apreendendo a dor, vivenciando toda espécie de sofrimento, mas propondo modificá-lo. Pela justiça aplicada aos culpados. O profeta do Apocalipse afirmou que, por fim: “não haverá fome nem sede”, entre os sofrimentos humanos (Ap 21,1-4). De fato, Deus estará conosco para sempre, e “enxugará nossos olhos de toda lágrima, a morte não mais existirá, nem haverá luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso terá passado”.  

  • O abismo das desigualdades; as diferenças no repartir dos bens sociais, passam ao largo do interesse popular, do senso comum e da mídia. Freud explica? Não. Mas a parábola da figueira infértil, proferida por Jesus, aponta para o cultivo da Graça, para que o povo eleito, não se entregue às demandas da ganância, do poder político setorial, da felicidade vendida em qualquer esquina. Esta parábola sugere a proliferação da Graça sem limites, para todos os povos, raças e nações.
  • Deus, o Pai, não é justiceiro nem um capataz endurecido que castiga e manda vir o mal e o sofrimento a “servos desobedientes”, os que ignoram os ditames da moral religiosa em vigor, sugere o texto bíblico. Os fatos históricos, que antecedem ao conto, nessa história exemplar, são indicadores de que experiências negativas do passado, se vividas ainda no presente, podem servir para mudar o futuro.
  • Contratempos, sofrimentos, motivam a compreensão do modo de agir de Deus, orientando para dar sentido concreto à Graça, depois de alcançada. É preciso escutar e repensar esta questão. Privilegiados pela Graça, vivendo como eleitos, mas sem nada produzir, insensíveis, indiferentes, merecemos julgamento. É preciso fazer nossa vida frutífera, de algum modo, para que a Graça seja manifesta e repartida. Graça concreta, expressa na compaixão, na misericórdia, no cuidado e na solidariedade incondicional. A vida de fé sob a graça pressupõe fecundidade na prática e na vida cotidiana. 
  • O acontecimento da Torre de Siloé desmoronando é desconhecido historicamente. Foram propostos diferentes fatos, mas nenhum coincide exatamente com este. É estranho que Flávio Josefo (historiador do séc. 1  DC) não o tenha narrado. Entretanto o debate supõe um acontecimento ocorrido.
  • A miscigenação racial, da qual eram acusados os compatriotas de Jesus, a participação dos galileus nos sacrifícios cultuais das religiões do lugar, Faz pensar na festa da Páscoa: nesta data os peregrinos judeus – e também os galileus, discriminados! –, se encontram em Jerusalém, e fiéis comuns participam dos sacrifícios uma vez que devem levar para sua casa o cordeiro para ser comido em família, segundo tradição remota. É nesse momento que brota a parábola registrada por Lucas [Derval Dasilio].


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