4o DOMINGO DA QUARESMA – Ano “C” – (06. março.2016)

perfume_liturgia

perfumes – dádivas

Isaías 43, 16-21 – Eis que eu farei coisas novas…
Salmo 32 – Bem-aventurado  quem não vive na iniquidade
Filipenses 3, 4b-14 – Por Cristo tudo entreguei
João 12,1-8 – Maria ungiu os pés de Jesus com um litro de perfume

Alguns estudiosos, como Maiko Deffaveri, apontam questões cristológicas importantes na Era Digital. A mais importante questão, na evangelização da juventude, é descobrir a importância de Jesus Cristo, para os meios de comunicação no século 21. Para tanto, o teólogo Jürgen Moltmann é lembrado pelo estudioso, em suas obras, as que destacam a centralidade de Jesus na vida das comunidades cristãs. Todo seguimento e compreensão de Jesus deveriam ser pautados na vivência da comunidade (inclusive as comunidades virtuais). A comunidade ouve e testemunha o Evangelho, diz o teólogo. É esta a comunidade de testemunho da qual falava Paul Tillich: “Na comunidade, de fato, o centro é a memória eucarística da paixão, da morte e ressurreição de Cristo”. Esta comunidade celebra a memória do Crucificado, em seu culto e na Ceia do Senhor.
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E agora Moltmann nos ajudará na busca das essências e sentidos da Ceia Pascal para irmos, em seguida, ao fundo da questão, e perguntarmos sobre os paralelos da comunidade que comemora com a alegria o anúncio da ressurreição, malgrado os sofrimentos de Cristo, para os quais, como comunidade solidária, deve preparar-se. Os seguidores, aqueles que acompanham Cristo no caminho, são os mais fracos, sem poder, sacrificados pelos interesses das classes dominantes e seus servidores satisfeitos, e os jovens e crianças, os primeiros que morrem (cf. Derval Dasilio – 3º Domingo – Quaresma). Por isso Jesus se regozija com a comunidade que testemunha o Reino de Deus com alegria. É por meio dela que a justiça de Deus entra neste mundo violento e injusto. O povo pobre, oprimido culturalmente pela sociedade gananciosa, socialmente moribundo, excluído das tecnologias para a educação e a saúde, das oportunidades de trabalho qualificado, testemunha a justiça do Reino de Deus.
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A fé das comunidades orientadas pela ganância de seus pastores milionários, reverso do testemunho de Cristo, é extorsiva, autoritária, abusiva. Acentua as doenças da sociedade, ganância, consumo irresponsável, desperdício. Desconsidera as lutas por direitos, da mulher e da criança, do jovem e do idoso, despreza as minorias oprimidas e as alija da vida de fé; esquece adolescentes sob forte risco social, que morrem como moscas nas periferias das metrópoles e são condenados à marginalização perpétua. A população jovem é a que mais sofre violência. Há pastores acusados de conluio com sequestradores e traficantes ou de surrar seus filhos. Crianças de hoje também levam armas de fogo para as salas de aula e pretendem matar professores. Por quê?
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Mas Judas Iscariotes*, precursor dos pastores pentecostais milionários, reage diante do que ele chama “desperdício” (trezentas moedas de prata gastas apenas com flores e perfumes). Com a desculpa de que essa enorme soma poderia usada de outra maneira – talvez administrada por ele – revela que não aderiu ao espírito da solidariedade e da partilha nem sabe reconhecer o amor gratuito, a misericórdia, a compaixão de Deus em Jesus Cristo.
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Judas, no evangelho, é chamado de ladrão, porque, em nome de uma falsa opção de economia propositista e de prosperidade material, como a moderna religião da ganância propõe, só faz aumentar seu patrimônio. Ele roubava dos discípulos o que por direito pertencia a todos (como fazem hoje os pastores milionários e seus servidores eclesiásticos). Por fim, pela ganância, acaba vendendo o Senhor por um punhado de moedas. Age na contramão da Graça.
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Jesus, na via da gratuidade e da compaixão que lhe é própria, quer ser reconhecido como aquele que doa a vida porque ama. E porque ama anuncia que o pragmatismo imediatista não resolve o problema maior, deslocado para o futuro, sob a intervenção da justiça de Deus. O Reino indica uma escatologia salvadora, uma nova sociedade, um mundo novo onde os bens são repartidos, sejam eles quais forem, sociais, culturais, espirituais. Um mundo sem lugar para a ganância e ostentação; o desperdício, a irresponsabilidade quanto ao coletivo. O Reino refletirá a solidariedade como resposta de Cristo aos poderes deste mundo.
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Judas não entende a linguagem do amor, da solidariedade, e da partilha. Ele só entende a linguagem do interesse egoísta. A graça vendida, caridade com retribuição, ostentação de grandeza. O amor sabe ser grato e servir. Numa lição de gratuidade e despreendimento, Maria simboliza o amor e o reconhecimento que as pessoas têm para com Jesus, aquele que dá sua vida gratuitamente a todos que se dispõem a receber o amor, homenageando o Senhor com tudo de que dispõe.
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Vejamos a linguagem simbólica: o “nardo” tem um perfume muito precioso e muito íntimo. Na Bíblia, o perfume é também tributo antecipado, aroma de vida perante sinais sepulcrais de morte, ou de corrupção; é símbolo de unidade fraterna (Sl 133), símbolo de amor (Ct 1,3.12-13; 4,14). O perfume difunde e dilata seu odor: desde o frasco, o corpo, a casa (e até mais além…). Escutando a densidade das coincidências de linguagem dessa perícope com o Cântico dos Cânticos, vários Pais da Igreja Antiga contemplaram essa mulher, como no poema hebraico, representando o papel da amada diante do Messias de Deus (cf. Bíblia do Peregrino, ou Bíblia de Jerusalém).
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Lázaro, Marta e Maria representam a comunidade de Jesus, no caminho: eles são irmãos, ou seja, vivem aquilo que a comunidade do Discípulo Amado considera ser o valor absoluto: o amor que gera relações fraternas na comunidade. Nesse clima acontece uma refeição, a Ceia, símbolo da partilha da vida e dos sentimentos de comunhão (eucaristia). E Jesus está presente. Cada um dos três irmãos simboliza um aspecto do discipulado: Lázaro representa o discipulado que se caracteriza pela intimidade e partilha com Jesus (está sentado à mesa, como que presidindo a Ceia). O testemunho de comunhão, no caminho de Jesus Cristo (J.Moltmann), conduz mais pessoas a Jesus. Marta resume todos os ministérios existentes na comunidade, pois em comunhão (koinonia) se “serve a mesa”, e se partilha o pão. Disse Jesus: “Eu sou o pão da vida”. Um texto essencialmente eucarístico.
Derval Dasilio –
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NOTA

Algumas palavras precisam ser decifradas, no texto do evangelho (João 12,1-8). “Então Maria levou quase um litro de perfume de nardo puro e muito caro. Ungiu com ele os pés de Jesus e os enxugou com seus cabelos. A casa inteira se encheu com o perfume” (12,3). O gesto de Maria é reconhecimento pelo dom da vida que Jesus comunica, e já estamos falando de “ressurreição” (mas não a ressurreição histórica, doutrinal, do Credo). De fato, no contexto, Jesus ressuscitou Lázaro, dando-lhe vida além das expectativas humanas. É o amor que responde ao amor que dá vida (agape). Maria encarna, dessa forma, a comunidade reconhecida e agradecida, porque a ressurreição lhes é facultada. Os Pais Apostólicos da Igreja Antiga, já recordavam: o perfume derramado recorda o que fez a noiva do Cântico dos Cânticos (cf. Ct 1,12; 7,6): a comunidade reconhece em Jesus o doador da vida e aquele que se dispõe a dar a vida por uma causa. A missão do Pai.

Quando este artigo estava sendo escrito, a cúpula da Igreja Maranata, o presidente e vários pastores, eram presos e conduzidos à prisão do Quartel Central da Polícia Militar acusados de intimidar e ameaçar até com o uso de armas cerca de 22 testemunhas dos crimes dos quais são acusados o presidente e seus auxiliares; de formação de quadrilha que rouba os fiéis e o erário. Promotores e juízes, pressionados e intimidados pelos mesmos, obtiveram suas prisões cautelares, para garantir a segurança das testemunhas (A Gazeta, 13.março.2013). Os dirigentes da Maranata, de posse da Bíblia, informam aos fiéis que as Escrituras já profetizavam a perseguição da Igreja Maranata (?!). Domingo (10 de março/2013), promoveram uma concentração de 130 mil fiéis para denunciar as perseguições sofridas pela Igreja Maranata, com 700 mil fiéis e arrecadação dizimal estimada em 200 milhões de reais por ano, com total isenção de impostos municipais, estaduais e federais. Pastores da ganância querem garantir a impunidade de suas lideranças, nunca saciadas. Querem sempre mais e mais… dinheiro, e não discípulos de Cristo… sugerem observadores da situação.

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