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DOMINGO DA RESSURREIÇÃO DO SENHOR
Atos 10,34-46 – “Deus estava com ele”, o Ressuscitado
1Coríntios 15,19-26 – Vi o Cristo ressuscitado, ressuscitei!
João 20,1-18 – A fé na ressurreição é maior que qualquer dúvida
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Sem a morte e ressurreição, sem o Cristo na cruz, a cultura ocidental,  religião, artes e símbolos de libertação observados no mundo inteiro, não existiria o maior dos clamores sobre a liberdade e a redenção dos oprimidos no planeta Terra. Não faria sentido a canção de Tom Jobim, que versejava: “Cristo Redentor, braços abertos sobre a Guanabara”. A arte de Rafael, El Greco, Velázquez, Marc Chagall, retratando o Cristo morto na cruz — como mártir da causa de Deus –,  seria enfraquecida, perderia a força simbólica. Em vinte séculos, a arte não assumiria a força motriz que aproximaria o ser humano do projeto do reinado de Deus.

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O impulso pela liberdade, justiça, igualdade para todos os homens e mulheres, não nortearia o caminho da fé cristã, enquanto seriam impossibilitadas as referências sinalizadoras da essência do próprio cristianismo. As questões relacionadas à sobrevivência da vida humana, na morte e ressurreição do Senhor, não indicariam as crises permanentes, não veríamos obstáculos interpostos de muitas maneiras, desde a natureza e posse do poder das políticas  ameaçadoras da liberdade,  justificando a opressão, e acompanharíamos as multidões nas ruas, fascinadas pelo autoritarismo, clamando por dominações e poderes totalitários.

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De todas as crises (krysis), a morte é a mais decisiva da vida humana. Isso implica também em decisão, porque até aqui ainda se pode adiar, protelar, manter em luz-e-sombra o que fazer da vida. Agora não há meio-termo. Não é mais possível flutuar na ambiguidade, é inevitável o desmoronamento do homem exterior, disse L.Boff.

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Mergulhadas no profundo de nossa humanidade, evocando o que não é consciente, individual e coletivamente, à luz de atavismos e heranças ancestrais que agora se apresentam irrevogavelmente, as verdadeiras dimensões do que somos são expostas à clareza do sol do meio-dia, com a morte. Caem todas as máscaras que encobrem nossa identidade, a realidade sai da nebulosidade, não há claros nem escuros: nós somos o que somos, sem mais recursos. Não há maquiagens que possam esconder nosso verdadeiro rosto. Na morte.
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A ressurreição marca a presença da vida que se sobrepõe à morte e ao sofrimento; ao derrotismo, quietismo, conformismo e fatalismo, como falsas exigências divinas para se esconder as velhas opressões. A história humana é implacável, do Neandertal a Lucy, e mesmo desde a humanidade pré-histórica, denuncia-se uma comunhão indesejável de vítimas e algozes, explorados e exploradores. Bilhões, trilhões, uma imensidão de corpos injustiçados, sepultados por causa da violência, ou da pulsão do poder.

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Trata-se do inato impulso em direção à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações que envolvem multidões, povos, para submetê-los. Rendemo-nos quando identificamos o “poder” como pulsão primordial incontrolável e irreversível. A paixão fundamentalista pela violência do poder contra os oprimidos contrasta com a justiça e a verdadeira luta pela liberdade e igualdade.

RESSURREIÇÃO E IMORTALIDADE – CONCEITOS ANTAGÔNICOS

Já estaríamos falando de imortalidade – como se os gregos da antiguidade já não tivessem concebido esta possibilidade –, pensando em deuses e semi-deuses vivendo para sempre. Como se o mito do “eterno retorno” fosse uma novidade no terceiro milênio… A aceleração evolutiva da inteligência humana – que já chamamos de “alma virtual” – dirigiria a humanidade no retorno permanente à vida numa espiral auto-alimentadora inesgotável. E não se falaria mais de ressurreição, porque nem mesmo haveria uma humanidade mortal que dela se beneficiaria. Enquanto estivéssemos pensando assim, estaríamos também conjugando os mesmos verbos do fundamentalismo persistente que comunga com a morte da liberdade e dos direitos fundamentais.
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Para Deus até as trevas dos tempos e das eras é luz (Sl 139,12). Em meio às trevas da primeira Páscoa cristã, ressurgiu o brilho de uma vida nova que nenhum poder pode exterminar (L.C.Susin). Jesus sempre atinge de novo os que passam perto dele: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”… Nessa eclosão do novo, que é a ressurreição, Deus revela a verdadeira potência, o verdadeiro poder sobre a morte em todas as suas manifestações.
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Jesus é o fruto amadurecido de uma nova criação, uma nova humanidade renovada e em transfiguração (Susin). Esperança de uma nova criação, nas palavras de Paulo, o apóstolo, como escreveu aos cristãos romanos (Rm 8), ainda no primeiro século. A ressurreição de Jesus é um protesto não-violento às ameaças do poder, venham donde venham. Políticas, econômicas, religiosas. Na ressurreição do Senhor, Deus informa que a injustiça não prevalecerá, e que o justo não se corromperá, igualmente.

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Jesus continua nos pequeninos, nas vítimas, nos que clamam por justiça, através da lógica própria do amor. A misericórdia, a compaixão, a solidariedade, são superlativos da perfeição do amor de Deus. Jesus, o Ressuscitado, derrama seu Espírito no caminho dos que sofrem injustiças, dos abandonados e esquecidos.
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Um alerta exemplar: a pequena comunidade dos discípulos não apenas se tinha dispersado após a “condenação” de Jesus à morte, mas também por temerem os inimigos dele e pela insegurança gerada no grupo por causa da traição à causa por ele defendida. Os corações estavam feridos. Na hora da verdade, todos eram dignos de censura: ninguém tinha entendido corretamente a proposta do Cristo de Deus. Por isso, os que não o haviam atraiçoado, tinham-no abandonado à própria sorte. E, se todos tinham errado, todos estavam necessitados de perdão. Voltar a dar coesão à comunidade de seguidores, dar-lhe unidade interna no perdão mútuo, na solidariedade, na fraternidade e na igualdade, era humanamente impossível.
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E agora diremos das gentes sem esperança, derrotadas pela realidade que esmaga e destrói as utopias de salvação, detonando os sonhos de bilhões de seres humanos oprimidos. Dos que são submetidos ao império da morte. O desespero sobre a morte é uma força que instila impotência, fatalismo, inevitabilidade, submissão, como se este fora um decreto divino irrevogável e irreversível. A ressurreição do Senhor desmente a falácia do mal e a opressão irreversível. Ela constitui a nossa esperança suprema na salvação, na libertação que só Deus pode proporcionar.
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Falaremos nesta Páscoa sobre a ressurreição, reconhecendo a intervenção de Deus na história dos sofredores e dos oprimidos, vítimas dos pecados seus e da sociedade opressora, dos crentes e da religião que se juntam mortalmente na mesma vala da alienação, na equidistância das massas sofredoras, especialmente neste mundo histórico e geograficamente situado abaixo da Linha do Equador.

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Lugar de povos humilhados, vítimas de pecados estruturais e de tantas violências da parte de outros; etnias exterminadas, culturas apagadas por processos de aculturação, pensava Paulo Freire. Doentes, moribundos, acometidos de enfermidades que retornam continuamente, enquanto populações inteiras são exterminadas, inclusive culturalmente, não estão presentes no clamor da massa fundamentalista, enquanto quer golpear de morte quem luta por manter vivo o espírito de defesa dos oprimidos.

Derval Dasilio

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