resasurreiçãoVOCÊS QUE GEMEM, CRISTO RESSUSCITOU!
PÁSCOA – 2° – Ano C
Atos 5,27-32 – Eles eram perseverantes na fé recebida |Salmo 150 – Todo ser que respira a vida louve ao Senhor. Aleluia! |Apocalipse 1,4-8 – Testemunha do primeiro nascido dos mortos | João 21,1-19 – Jesus estava na praia, eles não sabiam que era o ressuscitado!
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A Páscoa é hora de sofrimento, de dor e de paixão, mas também de vida sem medo da morte, porque o profeta bíblico, aqui parafraseado, diz: “Farei jorrar, rios entre montes desnudos./Transformarei o deserto em um maravilhoso pantanal matogrossense./A terra seca nordestina terá nascentes de águas cristalinas” (Is 41,18–19: paráfrase do autor). “Alegre-se o deserto, a terra seca, rejubile-se a caatinga e refloresça, como o narciso, cubra-se de flores, sim, rejubile-se com grande alegria e exulte” (Poema hebraico antigo: Is 35,1–2). É isso! O poema da ressurreição do corpo, do ser e da vida é assim. Por inteiro.

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A Rosa-de-Jericó,  flor da ressurreição, planta do deserto, cresce  quando parece seca e morta. Vive nos desertos, reproduzindo-se como qualquer  outra planta, crescendo de forma exuberante e muito rapidamente. Quando o ar e a terra tornam-se secos e a umidade chega perto de zero, a flor da ressurreição se encolhe toda formando uma bola e guardando um mínimo de umidade e vida no seu interior. Suas raízes se soltam do “corpo” e desta forma podem sobreviver por longos períodos sem uma gota d’água sequer. Como não está enraizada e suas folhas estão secas e enroladas elas são transportadas pelo vento por quilômetros e quilômetros pelo deserto até que encontre um ambiente em que possa se instalar e continuar a crescer e reproduzir.
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Necessitamos de espaço para introduzir um hino medieval que foi adaptado pelo poeta-compositor nordestino Reginaldo Veloso, “Cristo Ressuscitou”: Cristo Ressuscitou /O sertão se abriu em flor, /Da pedra  água saiu, /Era noite e o sol surgiu, /Glória ao Senhor! Uma beleza, simplesmente! O poema sugere as dores da gestação de uma fraternidade nova, um corpo novo que brota da ressurreição. No Antigo Testamento, o parto é uma coisa dolorosa, um castigo terrível (Gn 3,16; Jr 4,31; 6;24; 13,21: “…acaso não se apoderarão de ti as dores, como as da mulher que está parindo”?).
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Os cristãos dos primeiros dias tiveram que aprender que a hora da paixão, hora dos sofrimentos do Cristo crucificado, eram também hora de vida nova. A terrível morte de Jesus, na dor do Getsêmani, do caminho da cruz, da perseguição, da tortura e da crucificação, era também hora do parto de uma nova humanidade. Cristo se irmanou conosco, solidarizando-se com a angústia humana, nosso corpo e nosso ser ganham um irmão solidário, para sempre. Sofre, mas sofre na esperança do triunfo do Reino, a vida será mais forte que a morte! Finalmente.
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Esse cântico se esforça por recolher nosso ser como um todo: corpo, mente, alma, espírito, inteligência, afetividade, consciência e subconsciência; heranças ancestrais, sentimentos do coletivo libertário.
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Aí, precisamos colher a força das palavras, os seus significados, do mesmo modo, como o poema e seus sons, que atingem nossa sensibilidade mais profunda. Nos termos da necessidade de compreensão da Revelação de Deus e da Epifania permanente. Os textos em Isaías, por exemplo, sobre o sofrimento do Servo, sugerem perplexidade diante do sofrimento dos humilhados e excluídos, a dor dos perseguidos e esquecidos, lembram o homem de Nazaré pregado no madeiro. Como os esquecidos por quem teria o poder de transformar a humilhação em dignidade, a marginalização em inclusão, a opressão em paz, a solidão em comunhão.
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Todo o universo criado espera, com ardente expectativa, sentimentos brotados no fundo do peito, bem junto do coração, que se retire o véu que esconde os filhos de Deus. Vítima da frustração, não por vontade mas por destino imposto, não abandonou a esperança: o universo inteiro será libertado das correntes, do matadouro entre irmãos, da mortalidade, para participar, com os filhos de Deus, da sua luminosidade.
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Mas o que conhecemos até agora? O universo inteiro gemendo, em todas as suas partes, como se estivesse em dores de parto. E não somente ele, mas principalmente nós – nós que já provamos o aperitivo do Espírito, da nova vida, dos primeiros frutos, das primeiras cores e perfumes, dos primeiros risos do mundo novo que amadurece.
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Sim, nós também esperamos, no fundo do peito, o momento em que Deus fará a nova criatura, e nos transformará em seus filhos. E aí, então, nosso corpo estará livre. Liberdade do corpo: salvação! Acontece que, por agora, experimentamos esta salvação apenas em esperança. Porque o Reino é agora e ainda não… Não vemos coisa alguma. Se víssemos, não teríamos necessidade de esperar. Por que haveria alguém de sofrer e esperar por aquilo que já se vê? Mas, se esperamos por algo que não vemos ainda, no próprio ato de esperar demonstramos a nossa tenacidade interior (Rm 8,18-25: paráfrase de R.Alves).
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Cristo ressuscitou! Que elementos mais claros necessitamos, nessa declaração que move nosso espírito e faz brotar de ossos secos e corpos sem sangue a esperança de vida, na certeza da ressurreição? As imagens do sertão, do deserto, da flor, da água, da noite e do sol que surgem, são carregadas de libertação, de salvação da vida condenada pelas forças cegas insensíveis à vida: “O sertão se abriu em flor, da pedra saiu água, / era noite e o sol surgiu. /Vocês que estão tristes, que gemem sob a dor, / na dor de sua paixão, / Deus se irmanou. / Vocês que pobres são, /que temem o opressor, / por sua ressurreição, / Deus nos livrou” (Padre Reginaldo Veloso).
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Derval Dasilio
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Atos 5,27-32 – Nos textos iniciais de Atos aparece a tensão entre a tendência institucional (a reconstituição dos 12 apóstolos para dar identidade e continuidade ao movimento de Jesus organizadamente) e a “violência” do Espírito (furacão e fogo) que impulsiona o movimento de Jesus como impulso missionário na direção de todas as nações. Um típico caso de desobediência civil por parte dos apóstolos (Carlos Eduardo Calvani). Os mesmos desobedeceram às leis vigentes e são presos pelas autoridades constituídas. O poder da ressurreição de Cristo, para eles um fato incontestável, os colocara em outro nível de compreensão, quanto à religião e aos poderes da sociedade civil. Como vivemos esta tensão na atualidade?
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A institucionalização normalmente é restritiva, no entanto (cf. exigências de Pedro para o apostolado); o Espírito é universal (todas as nações, toda carne: filhos/filhas, jovens/anciãos, servos/servas: “… para vós e para os que estão longe”!). Como vivemos hoje o universalismo do Espírito? O que se narra nestes sumários são as atividades constitutivas da comunidade total; não são fatos isolados, mas ações permanentes com fundamentos na fé apostólica. Vejamos cada uma delas: “Eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos, na comunhão, na fração do pão e nas orações. Em todos eles havia temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os apóstolos realizavam”.
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Eram perseverantes no ensinamento dos apóstolos (2, 42). O ensinamento (didakê) dos apóstolos, refere-se ao Evangelho: “a tudo o que Jesus fez e ensinou desde o princípio… (At 1,1). Os apóstolos se definiram como os homens que andaram e conviveram com o Senhor Jesus enquanto conviveu com eles, e que são testemunhas da ressurreição de Jesus (cf. At 1, 21-22). A comunidade está fundada sobre este ensinamento, que é o do testemunho e transmissão da fé apostólica. É a rearticulação da “memória histórica” de Jesus de Nazaré. Isto é o principal alicerce no qual a comunidade está apoiada e encontra sua identidade. Eram perseverantes na comunhão (At 2, 42).
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A comunhão (koinonia) é uma maneira de viver em comunidade, Lucas vai desenvolver esse modo em três sumários. Em forma esquemática podemos dizer que há duas dimensões. Uma subjetiva e outra objetiva: constituíam um só corpo, “tinham um só coração e uma só alma” (At 4, 32). Tinham tudo em comum, porque vendiam suas propriedades e bens (At 2,44-45); ninguém considerava como próprios os seus bens, porque tudo era em comum entre eles (At 4, 32); todos os que tinham campos ou casas vendiam-nos e punham o dinheiro aos pés dos apóstolos (At 4,34-35). Havia, portanto, comunidade de bens: propriedades que não se vendiam, mas que eram de todos; havia o dinheiro como resultado das propriedades que se vendiam se entregava aos apóstolos. Segundo: repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um (At 2, 45 e 4, 35). As conseqüências eram óbvias: não havia nenhum necessitado entre eles (At 4, 34).
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Muito se escreveu sobre esta prática na comunhão (koinonia) das primeiras comunidades. É impossível reconstruir a organização econômica e administrativa daquela vida em comum, sobretudo se considerarmos os números das comunidades: 3.000 (At 2, 41), depois 5.000 (At 4, 4) e, finalmente, “uma multidão de homens e mulheres” (At 5, 14). Se eram igrejas domésticas, reunidas em casas-igrejas, os números confundem ainda mais (Wayne A. Meeks). Lucas escreveu depois do ano 80 d.C.. O mais importante, aqui, não é conhecer a organização concreta do grupo da koinonia, o espírito da organização é que está claro no texto.
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Poderíamos resumir com as palavras assim do narrador: “Cada um dava segundo a sua possibilidade, cada um recebia segundo sua necessidade, não havia ninguém que passava necessidade entre eles”. Este espírito das primeiras comunidades é normativo para todos os tempos, mesmo que conheçamos, hoje, a forma econômica e administrativa concreta que a contradiz. Eram perseverantes na fração do pão e nas orações (At 2, 42). A fração do pão aqui certamente é a Ceia do Senhor.
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A Didaquê, a Koinonia e a Eucaristia são as três atividades inter-relacionadas fundamentais da comunidade inicial de Jerusalém, e das outras, nas quais perseveravam todos os discípulos de Jesus; sob a influência do Cristo ressuscitado e do Espírito que se revela na prática dos apóstolos. Ora, se Cristo ressuscitou, a prática das comunidades cristãs deve ser uma prática econômica libertadora, dinâmica, cooperativa e solidária, com sinais e prodígios, na sinalização, visibilidade, e em penho em alicerçar a construção do Reino de Deus aqui na terra. Não há maior prodígio ou milagre a ser alcançado, que manter a unidade proposta nesse momento.

Derval Dasilio

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