DIA DE PENTECOSTES E A UNIDADE DA FÉ

Atos 2,1-21 – O Espírito impõe unidade à Igreja
Romanos 8,14-17 – A criação geme no parto da esperança
João 14,8-17 (25-27) – Igreja é a comunidade instrumental da salvação

Há momentos em que o confronto entre pessoas que pensam de maneira diferente se dá, nas redes sociais. Isso é bom, se estimula o crescimento da consciência crítica sobre o todo. Em tudo isso o Espírito Santo se manifesta, tecendo os fios da unidade na imensa diversidade humana na internet, como nos ensina o teólogo Afonso Murad. Formando uma consciência do Pentecostes, presença permanente do Espírito; uma corrente do Bem, e não o ajuntamento dos desesperados na farra da vida virtual, hoje tomada pelo ódio político ou ideológico.

O evangelho de Pentecostes nos diz que Jesus Cristo ressuscitou dentre os mortos, e que sua comunicação com os discípulos se faz através do Espírito que traz a ressurreição para o mundo. É ele que outorga alegria e discernimento do que significa a ressurreição de cada dia, enquanto concede capacidade, força e energia para o perdão dos pecados, e a reconciliação permanente dos homens e das mulheres. Pentecostes é a representação de um programa para a Igreja nascida da Páscoa, do êxodo, da ressurreição, da fé libertadora na Aliança, aberta para todos os homens e mulheres.

Estamos diante de um relato germinal, decisivo, programático. O programa de Jesus de Nazaré, proferido numa sinagoga da Galiléia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para anunciar a boa nova libertadora aos pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, por em liberdade os oprimidos” (Lc 4,18). Lucas retoma o programa inicial (Atos 2,1-21).

Assim, expressando a ação livre e renovadora de Deus, a tradição do Pentecostes dispõe de uma linguagem de símbolos desde os relatos bíblicos onde Deus intervém na história humana. “A salvação está perto dos homens e das mulheres”. Nada mais clássico nessa manifestação que a história da fé do “povo de Deus”, a partir do(s) êxodo(s), enquanto culminam nos fundamentos da Aliança (imperativos, prioridades, mandamentos para a vida: justiça, direitos fundamentais, igualdade entre povos e raças, solidariedade): “Ama a Deus sobre todas as coisas, e a teu próximo como a ti mesmo”. Impõe-se aqui a Nova Aliança, em Jesus Cristo, alicerçada na misericórdia, na gratuidade, na compaixão e solidariedade para com todos os homens e mulheres da terra. O Pentecostes  assim deveria ser entendido nos encontros virtuais.

Pentecostes é reconhecimento da epifania permanente de Deus, através do Espírito Santo. O cristão, portanto, não discute. Dá testemunho do Pentecostes. “Quem não está contra nós, está a nosso favor” (Mc 9,40). Mas, “nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino” (Mt 7,21), se não se sentir alertado e convocado para testemunhar a fé. O problema do Mal encontra sua solução radical na prática amorosa dos que lutam,  afirmando assim o sentido da realidade positiva do Reino de Deus no mundo: “Venham vocês que são abençoados por meu Pai…”. Porque lutaram contra a fome, a sede, a nudez, a discriminação, o preconceito, a intolerância, a enfermidade e a opressão” (Mt 25, 34-36).

O Pentecostes é um fenômeno absolutamente transcendental, além da mídia, do espaço cibernético, inalcançável pela razão, inatingível pelo conhecimento empírico, descrevendo a ação espontânea e gratuita de Deus. O Espírito transforma os homens e as mulheres, os jovens e os idosos, fazendo com que eles e elas falem da justiça, enquanto se promovem novas relações libertadoras entre homens, culturas, raças e povos. E ao mesmo tempo anuncia o evangelho de renovação da Criação: um mundo novo é possível…

Nas redes sociais, há palavras e imagens em excesso, não há tempo para que as pessoas reflitam e interiorizem a mensagem. Não dá tempo para ecoar nem ressoar a mensagem de Jesus. Informações demasiadas se perdem, contaminadas pela mediocridade e pela ignorância. Há quem se exponha excessivamente, no anonimato. Há quem coloque momentos íntimos em vídeos, como o parto de uma criança e relações amorosas de um casal. O obsceno obtém licença e permissão para substituir a ética no relacionamento humano. A felicidade depende dessas manifestações?

Preocupam-se demais em fotografar, gravar e filmar, sem saborear relações humanas, momentos sublimes da vida em toda a sua amplitude. Uma coisa sobre a qual não se pode formular um conceito científico, porque intangível, transcendente, mas essencial do ser humano. O fundo sólido da existência, diria Carl Jung, está no limite extremo que não se alcança através de uma fórmula. Esta fórmula não será encontrada no espaço cibernético, mas na existência profunda, onde se encerram os mais importantes apelos e fatos da experiência e convivência humana real e concreta.

Ao invés de se cultivar a interioridade secreta, a mais ampla e vasta personalidade humana, pessoas expõem sentimentos corrosivos, intolerantes e desprezíveis. Antifeminismo, homofobia, racismo, fundamentalismo, ódio político, por exemplo, se manifestam a todo momento, sem direito ao contraditório. Corre-se, também, o risco da superficialidade e do efêmero, sem resultados para o futuro da própria humanidade. Em termos de direitos humanos, direitos sociais e ecológicos. Consciência de cidadania. Bastaria viver em intensidade as alegrias íntimas, e não esvaziá-las, substituindo-as imediatamente por novas expectativas. Esta é a mensagem do Pentecostes nesta semana e no próximo domingo, enquanto celebramos a Semana de Oração pela Unidade do Povo de Deus.

Derval Dasilio

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