trindade cerezo

TRINDADE – Cerezo Barredo

DOMINGO DA TRINDADE
Provérbios 8,22-31 – Antes, a Sabedoria já concebia.
Salmo 8 – Ó Senhor , grande é teu nome no universo!
Romanos 5,1-5 – Cristo, no amor difundido pelo Espírito.
João 16,12-15 – Tudo o que o Pai possui é meu.

A realidade religiosa, estatística, demonstra o equívoco. Hoje, não inspira relevância a entrega do Espírito Santo, em nome do Pai e do Filho, para que os cristãos parem de falar desconexamente sobre a relevância da fé (Jo 17,21: “que sejam um, como eu e tu somos um, para que o mundo creia”). Negando a História da Salvação, assumindo a ganância no tempo hipertenso, nervoso, descontrolado, maníaco por velocidade até na leitura virtual, sem reflexão, e na experiência religiosa, pergunta-se se alguém vai deter-se num tema como o da Trindade. Num tempo de fúria e velocidade nas comunicações, no trânsito, nas compras, nos relacionamentos, no trabalho, nas férias e no lazer, e na religião, o que representa para nós a presença trinitária de Deus?

Perplexos, vemos partidos políticos designados como partido da Assembleia de Deus, ou partido da Igreja Universal — representantes do ódio ideológico, contra os direitos humanos fundamentais; adversários da democracia popular e do estado de direito –,  não distinguindo o sentido bíblico-teológico nem do Pentecostes (Atos 2), nem da Trindade, em comunhão íntima. E temos que perguntar pelo Filho: “por que aparece em quinto lugar em pesquisas sobre as personalidades mais importantes do mundo evangélico, entre os jovens” (Ultimato, set./out. 2010). Em primeiro lugar, na pesquisa e no interesse da juventude, estão os expoentes pentecostais da teologia da ganância.

No entanto, narrativas míticas, miraculosas, apontando prodígios e eventos divinos, transcendem à dinâmica histórica contemporânea. Colocariam homens e mulheres face a face com o transcendente. Mas o transcendente está em baixa na religiosidade da ganância, e com ela a importância da Trindade. E não é somente no cristianismo incipiente que se viu tal interesse por símbolos primários, uma vez que, na religião popular evangélica, espetáculos, amuletos e objetos de magia religiosa preenchem a zona cinzenta entre os símbolos sagrados e os profanos.

Talvez porque não creiamos mais no Pentecostes como epifania permanente de Deus; que o Pai, Filho e Espírito Santo estão presentes com energia contra o mal, em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E que essa presença traz consigo verdadeiros milagres, conversões extraordinárias que operam mudanças num mundo violento e impiedoso. Nas lutas contra a dor, contra a opressão da consciência, contra a falta de sentido salvífico, nesse tempo, e nessas lutas, o cristão não discute a Trindade, dá testemunho da mesma.

As “soluções” para cada situação de desespero, e os abusos que se generalizam na intermediação da pastorada gananciosa, noutro rumo, apontam o pentecostalismo vitorioso na prática da religião mágica, de superstição, de truques de prestidigitação, de misticismo e de abuso sobre a consciência – individual e social –; envolvendo evangelical shows, campanhas, marchas e concentrações públicas contra a liberdade e o estado de direito. E falsas promessas. São o retrato cultural de crenças populares sempre existentes e permanentes, em facilidades para se encontrar a felicidade sem o Reino de Deus e a sua justiça. Especialmente originadas em religiões paganizadas, aculturadas e assimiladas, presentes no pentecostalismo contemporâneo.

A TRINDADE É UM MISTÉRIO, ANTES QUE UMA DOUTRINA

O mistério da Trindade, antes de ser estruturado como doutrina, foi um evento salvífico afirmativo! O Pai, Filho e Espírito Santo estiveram sempre presentes na história da humanidade, doando vida e comunicando amor, tolerância, compaixão, misericórdia, solidariedade. Introduzindo e transformando o porvir da história em salvação, na comunhão divina das “Três Pessoas Sagradas” da fé cristã. A tendência “pentecostalista”, de outra maneira, como prática religiosa que reduz o Espírito Santo em divindade única, já se manifestava desde o mundo mediterrânico dos séculos iniciais do Cristianismo.

A vontade de Deus, no entanto, se manifesta na Escritura — como testemunho presencial da encarnação –, e através de seu Espírito, que se apresenta no Filho, e transforma-se numa realidade interior, transcendente ao ser humano. A Trindade é a esperança de um mundo transformado pela fé! Desta forma a reflexão sapiencial bíblica supera a simplificação panteísta ou dualista, pagã, em sua concepção de Deus: “O Senhor me criou no início da criação, antes de suas obras mais antigas… quando não havia os oceanos, fui engendrada, quando não existiam os mananciais ricos de água”. Como um hino, este texto chegou à tradição cristã como um pré-anúncio da encarnação da Palavra (A Palavra se encarna [davar, logos], que “no princípio estava junto de Deus, tudo foi feito por ela e sem ela nada foi feito”  – Jo 1, 2-3), e que no final dos tempos “se fez carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, a glória própria do Filho Único do Pai, cheio de graça e de verdade” [vs 14]).

Richard Shaull dizia: “a experiência do Espírito Santo com a presença e o poder do Cristo ressurreto, como fonte de vida e esperança, bem como o poder de uma renovação cotidiana, com a garantia de vitória sobre as forças demoníacas que habitam o mundo, pode realizar-se aqui e agora. (…) O Espírito Santo está presente com poder em meio a tudo que faz o povo chorar e gritar, amar e odiar, sentir fome e abandono. E essa presença traz consigo a expectativa de verdadeiros milagres que operam mudanças repentinas, oferecendo uma solução para cada situação de desespero – que homens e mulheres respondem com cânticos de louvor”. E Shaull perguntou: “Poderíamos criticar o alcance das multidões pelo neopentecostalismo e os movimentos carismáticos quando o sofrimento das massas permanece inalterado e apenas abordado no sentido de uma experiência sem profundidade”?

Tudo o que o Pai possui é meu. O Espírito Santo receberá do que é meu e vo-lo anunciará (João 16,12-15). Por isso Jesus diz: “o Espírito não falará por sua conta, mas que diria unicamente o que ouviu… tudo o que lhes dá a conhecer, o receberá de mim”. Jesus será sempre o Revelador do Pai, o Espírito da Verdade, ao contrário, faz com que a revelação de Cristo penetre com profundidade no coração do crente. O pentecostalista evangélico ou carismático não concordará, porque seu alicerce espiritual é paganizado, influenciado pelas religiões que negam o transcendente.

A luta contra o sofrimento das massas recorda-nos a solidariedade de Deus com os sofredores (através do Pai, Filho e Espírito Santo: um único rosto diante de três espelhos). Mas a solução pentecostalista recente trata a mesma massa com imediatismos gananciosos, apresentando a Graça do Espírito num balcão de negócios. Mas o Reino não se realiza somente na forma paliativa e individual (Jürgen Moltmann). Os fiéis ingressam na transcendência em comunhão com Jesus, Filho trinitário, na comunhão, como irmão de todo aquele que sofre.

Devemos compreender essa comunhão na luta contra a injustiça e todos os sofrimentos: opressão política, opressão da consciência, negação de direitos fundamentais. Que dignidade traz a graça negociada nos balcões dos mercado da salvação? Não é a participação da cruz, do envio em missão de transformar o mundo, e do seu destino e martírio em favor da salvação (martyria). Seguramente, não é o Espírito Santo sem o Pai e sem o Filho, em comunhão libertadora.

Derval Dasilio

 

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