10o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

1Reis 17,8-16 (17-24) – A opressão solidária das elites
Salmo 146 – O Senhor faz justiça ao oprimido.
Gálatas 1,11-24 – A liberdade do Espírito, em Cristo.
Lucas 7, 11-17 –  Ressuscitar é impedir a exclusão.

O Tempo Comum depois de Pentecostes reflete os acontecimentos próprios da Igreja Inicial, no discipulado dos cristãos para a “vida de fé”, a orientação do Espírito Santo, e não por ditames doutrinários da religião (Lc 7,11-17: a viúva e a ressuscitação do filho mais velho). A religião combatida por Jesus legitimava uma cultura patriarcal, domínio masculino absoluto, onde uma viúva, por exemplo, sem nenhum filho homem estaria condenada à morte social. A mulher exercia um papel secundário na família, na comunidade e na sociedade. Porém, o órfão e a viúva são símbolos do cuidado que merecem, por indicação de Deus (“Não haverá pobres no meio de vocês” – Dt 15,4). Legitimava, também, a religião, o abandono dos fracos e oprimidos pelo sistema de exploração que garantia às elites, bem-postos, o gozo de direitos econômicos e sociais em detrimento dos restantes. As desigualdades eram admitidas como destino natural para os que não conseguem superar a pobreza, miséria e fome.

A fé bíblica implica em fidelidade (heb.“emmunah”, gr. “pistis”, acompanham o sentido: “o justo viverá pela fé”, Hb 2.4, Rm 1.17, Gl 3.11; não se pode traduzir como sentimento de favorecimento subjetivo e íntimo). A fé incondicional constitui o essencial da atitude de Cristo diante da cruz, no sofrimento ético contra o desespero e a angústia diante das injustiças. Cristo reconhece-se como parte do povo bíblico e seu sofrimento quando entregou-se à fé (“emmunah” = fidelidade), na esperança do cumprimento das promessas de realização do desígnio divino contra o domínio da morte. Um mundo novo é possível.

Jesus teve fé no que anunciava! Viúvas e órfãos são uma categoria especial em Israel, o bíblico, sem dúvida, cenário do povo de Deus. São os necessitados, aqueles que reclamam atenção social e política (Eclo 4,10, TEB). Compõem o grupo de classificação social mais baixa entre os pobres (anawin). Tiago, no Novo Testamento, lembra-se deles com dedicação ética exemplar aos pobres (ptochos) (Tg 1,27 e seguintes). E os Salmos bíblicos destacam poeticamente a denúncia inevitável da sinonímia (…Yahweh se ocupa deles pois “é pai de órfãos e protetor das viúvas”).

Jesus, mais incisivo, pois é portador das ressurreições, e restaurador da vida, vai ao encontro dos que estão no caminho do cemitério. A comitiva fúnebre para, e o cortejo presencia uma intervenção extraordinária. O arrimo da viúva pobre é ressuscitado fisicamente. Ou seja, a ressuscitação do jovem morto aliviará a maior das dores humanas, das que ferem e destroem as esperanças. É um ato de compaixão, de Jesus: solidariedade, cuidado e atenção, para com uma família que sofre uma grande perda. Jesus estende a mão, e num toque de vida retém e suspende a força da morte (thanatos). A fé incondicional constitui o essencial da atitude diante do sofrimento físico ou moral da morte; contra o desespero e a angústia face às injustiças e do iminente abandono, por causa da morte.

Cristo é parte do povo bíblico e seu sofrimento, quando entregou-se à fé e fidelidade (“emmunah”) na esperança do cumprimento das promessas bíblicas, presenciando o aparente domínio da morte. Um mundo novo é possível. A vida é possível. Jesus apresenta-se na luta da vida contra a morte. O reino chega através dos sofrimentos, da indignação, da recusa da injustiça. Jesus teve que amargar o fracasso total de seu empreendimento, na morte, para juntar seu povo na missão de Deus, na luta pela salvação e libertação da humanidade em todos os tempos. Jesus teve fé no que anunciava!, e ressuscitou.

Portanto, Jesus participa da ressurreição, que vai contra os princípios de dominação e submissão. Um mundo religioso, uma sociedade onde mulheres, homossexuais, prostitutas, deficientes, diferentes, coxos, cegos, leprosos, nada valem. Por conseguinte, são rejeitados. E outro, no campo político, lugar em que a morte exemplar pretendia calar os insubordinados contra a opressão, o tratamento desigual de homens e mulheres, os privilégios econômicas e sociais para as elites e bem-postos.

A ressurreição – afirmação da vida, garantia de plenitude em bem-aventurança para os fracos, oprimidos, esmagados e abandonados socialmente –, estava ao alcance de todos. É lançada a base da nova religião de justiça, de indignação contra o mal estrutural iniciada por João Batista, no NT, e fortalecida pelo movimento pedagógico de Jesus. Contra a religião que assume a morte, ou não lhe dá importância; como poder dos que a utilizam para dominar os outros. Essa deve ser substituída pela religião da vida, e da justiça de Deus. Religião que afirma a dignidade inviolável da pessoa que sofre, assegurando a companhia de Deus aos oprimidos, que ninguém pode roubar (Queiruga).

Outro aspecto importante da narrativa é o fato de que as pessoas que acompanhavam o cortejo, ao verem que o cadáver havia ressuscitado, ficaram com medo. Mas louvaram a Deus e proclamaram a Jesus como um grande profeta para a salvação. Aqui, a atividade salvífica de Jesus começa a ser percebida. As pessoas que assistem ao milagre da ressurreição são tomadas de um sentimento de êxtase, medo, alegria e salvação. A morte enfim foi vencida pelo gesto de Jesus. O que parece espesso e insuportável, a escuridão da grande crise, a morte, é atravessado e iluminado pelo gesto de Jesus. Sabemos agora que o medo — assombro diante das escuridões políticas, dos eclipses da violência, da ganãncia e imediatismo –, é vencido na confiança radical da companhia de Deus nas lutas contra a morte.    

O próprio ato de viver revela-me a morte e a ressurreição a cada momento. Ela faz parte do meu passado, presente e futuro. E você sou eu, e eu sou você, como na equação de Martin Buber, “Eu|Tu”. “Como se depreende, a ressurreição é um processo que vai ocorrendo ao largo da vida. Vamos lentamente ressuscitando, à medida que lentamente também vamos morrendo”, disse L.Boff. Na morte, a ressurreição explode, e implode, e permite à vida humana a realização impossível da vida em liberdade, liberta dos limites do “aqui” e do “agora”. Não, obviamente, fora do mundo, mas assumindo o mundo e levando-o para um além onde se dá a comunhão inefável com a Vida e Fonte de toda vida.          

Até então, no tempo de Jesus, a morte era entendida como o fim de tudo e de todas as coisas. A morte tinha o poder de domínio extraordinário nas mentes das pessoas. Conformismo, quietismo, fatalismo, dominavam os pensamentos. Estabeleciam os limites da vida, contra a esperança. Mas Jesus vence a morte, amplia os horizontes da vida, ao ressuscitar o filho único da viúva.  Destarte, morrer não é caminhar para um fim-limite. É peregrinar para um fim-meta alcançado. “Mesmo que já se tenha feito uma longa caminhada, sempre haverá mais um caminho a percorrer” (Dásio José dos Santos, cit. Agostinho). Por isso, nós não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar” (cf. João, no evangelho: “Se não morrer fica só…”). Para viver mais e melhor.       

Derval Dasilio

 

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