12o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

2Reis 2,1-2;6-14 – Eliseu é vocacionado para a obra profética
Salmo 77,1-2;11-20 – Minha alma está inquieta com a injustiça
Gálatas 5,1;13-25 – Somos vocacionados para ser livres
Lucas 9,51-62 – Mão no arado, não olhar para trás!

Começa a longa caminhada das periferias para a metrópole, onde estão os centros de poder, da Galiléia para Jerusalém. Para os discípulos trata-se de uma grande catequese que mostra como enfrentar as dificuldades e também como entender a vida e complexidades das sociedades humanas no seguimento de Jesus. Também é importante notar que não basta anunciar e praticar o “evangelho na periferia das situações”, ignorando a realidade e os fatos concretos. É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão.

É preciso dirigir-se ao “centro”, para denunciar o poder, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da partilha dos bens comuns, e contra a desigualdade. E também denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão aos determinismos políticos e sociais movidos pela busca de privilégios particulares.

A cidade está doente, seus habitantes lutam com enfermidades, epidemias, drogadismo farmacológico, Aids, dengue, para além das representações figurativas. Violência intra-familiar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), compõem o elenco perverso que domina a cidade. Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O sofrimento cidadão economicamente motivado apresenta muitas formulas. Pode resultar de estruturas socioeconômicas injustas e na exploração de trabalhadores: “Eis que o salário dos trabalhadores que cultivam os vossos campos, pois lhes sonegastes, e os clamores dos diaristas alcançaram o ouvidos do Senhor” (Tg 5,4). Ele também é visto na privação das condições básicas de vida, de sorte que se chega ao ponto do “pobre Lázaro” à porta de alguém “que se banqueteia ricamente, todos os dias”, enquanto o mendigo come migalhas que caem da mesa e precisa disputá-las com cães de rua (Lc 16,19 ss). Há injustiça, desigualdades, fome, doença e epidemias na cidade.

O exercício do poder ou a opressão adquirem um componente mais social nas cidades, quando, na Bíblia, os cristãos são lembrados de suas más experiências  com os privilegiados e bem-postos. Estes os tratam com desprezo e violência (cf. Tg 2,6). Escravos dos tempos apostólicos, expostos a açoites e maus-tratos (cf. 1 Pe 2,19 ss), são lembrados. Mesmo no caso de meras ameaças de desemprego ou venda (Ef 6,9), torna-se evidente até que ponto trabalhadores dependiam do arbítrio e poder de seus senhores. Como clandestinos bolivianos, coreanos, haitianos e orientais variados, hoje, nos centros urbanos.

Mas a miséria é escamoteada para fora da realidade concreta. A cidade, por outro lado, é um mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis de “possessos do mal”, nem sempre reconhecidos como tais: fratricidas, traficantes de drogas, estupradores, pedófilos, drogaditos violentos; espancadores de mulheres e crianças, homófobos, agressores, linchadores, flageladores, abusadores e assassinos sociais de crianças; homossexuais, mendigos, doentes mentais… A cidade é o mundo do homem tomado por males reais, tão concretos quanto os de ordem econômico-social, expostos no cotidiano da violência urbana, camuflados no falso repúdio e vergonha da sociedade insensível à essência imunda e maligna da miséria, mas que reclama por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto.

“Ninguém que, tendo posto a mão no volante, olha para trás, pra dar marcha-a-ré, é apto para o reino de Deus” (Lc 9,62: paráfrase do autor). O Juiz das causas humanas, e das desigualdades, vem agora ao encontro dos homens e mulheres, através da vontade de Deus pregada por Jesus. Por meio da exigência assim anunciada, o presente está relacionado de uma maneira singular com o iminente futuro do projeto de Deus sobre todas as coisas, inclusive sobre as questões de Justiça e Paz na cidade.

Jesus se apresenta na contramão das ações resistentes ao bem, à misericórdia, à solidariedade. À Salvação. Acolhe o doente, o marginalizado, cura-o e expulsa o que causa a doença. Acolhe o oprimido e o  marginalizado. Não o manipula para garantir prestígio. Cura-o e expulsa o que causa a doença. Do esgoto ao arranha-céu, chama-o de volta para um mundo novo e saudável, mental e socialmente, recusando o conformismo e indignando-o quanto à injustiça e desigualdade de tratamento na distribuição dos bens sociais. Sugere que é preciso ir ao miolo do furacão. Tomar a direção dos centros de decisão onde estão os poderes políticos, econômicos e religiosos. Não basta curar os sintomas. É preciso atacar as causas das doenças, os pecados das estruturas que dominam e tomam conta da sociedade (Ivo Storniolo).

Derval Dasilio

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