ógicos liberdade aos cativos

A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA

17o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Isaías 1,1; 10-20 – O povo perdeu a fé…
Salmo 50,1-8 – Escuta, meu povo, vós prostituístes a fé de Israel
Hebreus 11,1-2.8-19 – Insatisfação com esperanças imediatas
Lucas 12,32-48 – Vocês também, fiquem preparados!

A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman, meu cineasta preferido desde a juventude, disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. O fundamentalismo assassino, no nascedouro, celebra os resultados nefastos aplicado ao mundo evocado no filme “O Sétimo Selo”,  exatamente nos primeiros momentos posteriores à II Guerra Mundial. Supostamente vitoriosa sobre o nazismo, mas absolutamente envolvido pelo stalinismo controlador da Cortina de Ferro, a Europa parece em perplexidade e agonia.
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A atomização do nazismo e do fascismo, a realidade do socialismo estatal, síntese do totalitarismo que sufocou as democracias do século 20, apresentava refúgios ideológicos irrevogáveis, e as seguranças das sociedades autoritárias pareciam garantidas na aceitação das tiranias modernas. O Brasil experimentou, por duas décadas, uma ditadura aprovada por grande parte da população. Hoje, os filhos e herdeiros daquele regime de força parecem saudosos e manifestam anseios autoritários pelo retorno da mesma.
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O cristianismo simbólico, entre estes, dispensa a fé na justiça de Deus, e desconhece a esperança de uma nova humanidade, um novo céu e uma nova Terra, envolvido com o propósito estatístico, patrimonialista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
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Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
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Falou também da justiça formal, jurídica, quando juízes honestos são pressionados pelo capital, o meio empresarial que corrompe, comprando favores, distribuindo propina para concretizar concorrências fraudulentas, enquanto toma dos governos o dinheiro público que compensaria as carências dos fracos, quanto à saúde, a escola, a habitação. Juízes que aplicariam a justiça para a dignidade humana são pressionados por corruptos, debilitando a democracia participativa, tornando-a degenerada. Enquanto privilegiam poucos contra as perdas de muitos.
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O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física, morte social e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; fracos, marginalizados, os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
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O Reino é dado aos excluídos da saúde com qualidade; aos dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado.
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas, sustendo uma espécie de democracia degenerada, perversa, para os necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores ideológicos, fascistas ou nazistas — representantes da sociedade excludente, que apoia a “limpeza social” —, flageladores de crianças, mendigos e doentes mentais; aos milhões de desempregados, e suas famílias, sem saúde, sem habitação, sem esperança.

“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidade e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época, em suas tendências de aprofundamento da miséria. Diálogo sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.
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Defesa da vida, é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica,cultural. É consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana, se acompanha o mapa da fé, reclama pela salvação do pobre e oprimido, no desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte.

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Os males de governos políticos perversos, que negam direitos fundamentais, não podem permanecer num beco sem saída, sem justiça e sem salvação. Todas as mortes são refletidos na ausência de políticas que não estabeleçam como prioridade o pobre oprimido. O autoritarismo patrimonialista, egoísta, no entanto, é uma espécie de “mala onda”. Um movimento perverso contra a dignidade dos mais fracos. Abraça toda uma sociedade das entranhas para o cérebro, enfraquecendo a democracia igualitária, solidária, enquanto envolve as pessoas como um movimento ensurdecedor de combate falso à “corrupção”. Não é possível acreditar na veracidade desse clamor, quando os mesmos que clamam não se afligem com a injustiça imposta ao pobre e oprimido.
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Investir nele é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, que a ele é destinado, segundo o evangelho de Jesus Cristo. Quando a Justiça deixa a venda em seus olhos descer para boca, tornando-a uma mordaça, está escolhido o roteiro inverso para se chegar ao Reino de Deus, segundo o Evangelho de Jesus Cristo: “preparem-se para proclamar a justiça”. Para tanto, consideremos a fé: “Vinde aflitos, oprimidos, cheios de tristeza e dor”, o Reino está perto.


Derval Dasilio

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