18º. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Oséias 11,1-11 – Meu povo é obstinadamente apóstata/ Salmo 107, 1-9 (40) – Alguns extraviaram-se por desertos afora / Colossensses 3,1-11: Fazei morrer em vós os maus desejos / Lucas 12,13-21 – Meu Pai entregou-lhes o reino como tesouro…
Cópia de ganancia principal

Quando eu era jovem, pensava que o dinheiro era a coisa mais importante do mundo. Hoje, tenho certeza” (atribuído a Oscar Wilde) . Quantos deixaram passar por suas vidas a grande oportunidade de ouvir a mensagem do Reino de Deus, de justiça para todos, e não são capazes de descobri-lo, pois seu coração está ocupado por outros desejos? “Onde está teu dinheiro, aí está o teu coração”, sugere o Evangelho… A expectativa de alcançar tesouros e bens é bem ilustrada na parábola rabínica: “Um homem descobre um cofre enterrado. Manda desenterrá-lo. Ao abrir o cofre, uma surpresa: dentro, ainda pulsando, estava seu coração…”.

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Então Jesus lhes disse: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Por que razão viver submissos ou dependentes de outros, para nos manifestarmos, ou para tomarmos iniciativas cristãs em favor do Reino de Deus? Por que não viver sem nenhuma preocupação, vivendo de modo irresponsável para com os demais? Por que Jesus nos recorda que “à hora que menos esperam, virá o Filho do Homem”?

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Calcada na ideia acertada de Nietsche sobre o poder, que poderia lembrar-nos os motivos anteriores, dos que preparam “o cerco das multidões”: trata-se do inato impulso em direção à posse, à supremacia, ao controle e mando, à competição e superioridade, em quaisquer situações. Estamos sitiados pelo dinheiro. Previu que o mal-estar maior que a modernidade conheceria seria a exacerbação, o elogio da “ganância”, por trás das tragédias. Tragédia como a situação  política da nação, nestes dias em que as ruas estão incendiadas em manifestação e crítica direta aos governantes do país inteiro.

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Essa fonte vertiginosa de atitudes é profundamente influente na determinação de valores que diferenciam as coisas, embotando o poder de discriminar o que vale e o que não vale, o importante e o sem importância na construção da vida, dizia Georg Simmel (A Metrópole e a Vida Mental).  O dinheiro, e a ausência de cores e indiferenças que contém, torna-se denominador comum de todos os valores essenciais, como referência antiética, quando se passa a perguntar sobre o “quanto” vale  uma pessoa. E não os valores que cercam a vida de alguém. O dinheiro arranca irreparavelmente a essência das coisas, a importância da individualidade pessoal, tornando a mesma pessoa um objeto de troca, no escambo da vida.  O Estado, a religião, a vida cotidiana, as corporações, os partidos políticos e demais grupos da sociedade humana, estabelecem-se e se desenvolvem dentro da equação monetária que deve ser deslindada e resolvida.

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A construção do painel vertiginoso da vida moderna, tomada pela ganância de poder, de ter, de dominar a vida e a morte, encontra na obra de Goethe, “Fausto”, um parâmetro estarrecedor. E verdadeiro. Essa obra foi construída à luz de grandes turbulências políticas, como a revolução francesa, e a revolução industrial gerada na Grã Bretanha. A moderna democracia, assim como a industrialização capitalista, predatória, excludente, determina a vida das pessoas, especialmente no mundo ocidental. Temos no Fausto a síntese da ganância de poder e domínio sobre as riquezas deste mundo.

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Fausto vendia ao diabo (Mefistófeles) sua alma, pela fortuna e pelo poder. Mefistófeles trava com Fausto um debate sobre como sobreviver, onde a acumulação do capital, dos bens, explora fundamentalmente a mente gananciosa: “Entendamo-nos bem, não ponho a mira na posse do que o mundo apelida de gozos; o que eu quero é atordoar-me; quero a embriaguês de incomportáveis dores, a volúpia do ódio, o arroubo das mais altas aflições. Estou curado da sede de saber (…). As sensações todas da espécie humana em peso, quero-as dentro de mim; seus bens, seus males mais atrozes, mais íntimos, se entranhem aqui onde minha mente e vontade são aplacadas. Assim me torno eu próprio a humanidade e, se por fim a perder, me perderei com ela”, resumiu Marshal Bermann.

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OS JOVENS E A PEDAGOGIA DA GANÂNCIA

Por que falamos tanto de corrupção, quando se ensina a ganância a todo momento? Sejam quais forem os motivos, ou eufemismos como a “ambição”, a característica fundamental do que se apresenta para os jovens de nosso tempo refere-se ao elogio da ganância, pedagogia que transforma em virtude o grande pecado da sociedade hipermoderna.

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A vida e a alma estão situadas nas coisas; a alma do mundo é o dinheiro e os bens acumulados. Mal que nos acompanha desde as sociedades arcaicas, ou primitivas. Sucesso é “ouro”, ser dono de tesouros e bens; ser portador de “credicard”, passaporte para a felicidade do consumo. Portanto, a desumanização da vida está em alta, e em baixa o espírito, valores que sustentam o corpo, a partir do cultivo da misericórdia; da compaixão e da solidariedade. O dinheiro é o coração do novo complexo de acumulação. Patrimonialismo.  Capacidade de gerar falso bem-estar (juros) e energia, enquanto o corpo vai recebendo os influxos da civilização moderna em torno do capital (Norman O. Brown).

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A própria sociedade custa a reconhecer sua responsabilidade quando elege políticos notoriamente corruptos, ou tantos outros que irão reforçar o “direito natural à corrupção”. Assim, como se perguntou recentemente a José Ugaz, da Transparência Internacional, qual seria o caminho para uma política sem corrupção? E o próprio Ugaz respondeu: “Existem cartéis de crime (alusão ao Congresso Nacional e  Governo, em conluio com grandes empresas estatais e privadas, nacionais), é preciso formar “cartéis de integridade”, um plano para o bem comum, para mobilizar a população e obter o seu respaldo”. Mudar a cultura política e aprofundar a consciência ética nacional, em sentido amplo, no todo social, seria pretender muito, ou já desistimos de combater a corrupção?

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Aqui nos deparamos com o destino humano, pensando nos jovens, suas perspectivas abertas, horizontes infinitos, sem nos privarmos do esplendor da vida em todas as suas manifestações. A vida é um tesouro real e duradouro. Sonhamos com paraísos, igualdade entre homens e mulheres; construímos utopias sobre o bem-estar coletivo, habitação digna, saúde pública moralmente aceitável, escolas verdadeiras e humanizadas, pão em todas as mesas. Como os sons e as tonalidades do universo, podemos dizer que há um céu em nós, como há um sol, e estrelas; que não há um “eu” sozinho, mas muitos “eus” compartilhando a vida criada por Deus. Sempre em busca da plenitude.

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Paraísos são sempre sonhados para serem realizados. Paraísos são a Esperança. Precisam ser vividos, necessitam ser magnificados. Gaston Bachelar recorre à poesia, poder da imaginação, porque um poeta imita Deus quando recorre à eficácia das belas imagens do mundo criado. Diria que “um belo poema, como o da Criação e do Universo inteiro (Salmo 19), não é mais que uma maravilhosa loucura retocada”. Só os poetas, e o próprio Deus, crêem que a beleza do mundo inteiro, como os seus mistérios, está nos olhos da criança recém-nascida. Que mundo e que humanidade a esperam. Os céus declaram a poesia de Deus, e o firmamento declama a obra das suas mãos.

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“Sim, e quantas vezes precisará um homem olhar para cima,/ Antes que ele possa ver o céu?/ Sim, e quantas orelhas precisará ter um homem,/ Antes que ele possa ouvir o lamento das pessoas?/ Sim, e quantas mortes ele causará, até saber/ Que tantas pessoas morreram?/ A resposta, meu amigo, está soprada no vento” (Blowin’ in the Wind, Bob Dylan).

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Derval Dasilio

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