fogo - meteoro

19º DOMINGO DO TEMPO COMUM [ANO “C” DEPOIS DE PENTECOSTES]
Isaías 5,1-7 –  Deus amou Judá e Israel, um dia…| Salmo 80,1-2;8-19 – Quando gritavas sob opressão eu te libertei | Hebreus 11,29 -12,2 – Ninguém, no entanto, logrou a realização da promessa | Lucas 12,49-59 –  Como gostaria que a terra toda já estivesse incendiada pela justiça…

Lucas não quer complicar ainda mais a situação dos cristãos mediterrânicos que já estavam sendo perseguidos quando a primeira parte da sua obra fora escrita. Ele, simpaticamente, fala aos romanos, pessoas comuns que frequentavam as primeiras comunidades cristãs da história (século I do cristianismo), ao dar a entender que eles ignoravam o que estava por trás de tudo, da realidade do governo imperial, das elites em torno do mesmo. “Melhor é infiltrar do que confrontar-se com força cultural muitíssimo superior”, sugere Jesus. Fala a partir da experiência comum dos homens e das mulheres com a vida social e política de todos os tempos.  

Uns dizem que Jesus foi um homem submisso, indiferente aos poderes reinantes. Que sua única função na terra teria sido a do homem dócil, submisso, servil, subordinado aos poderes do mal, até ressuscitar e ascender ao céu. Imagens sempre associadas ao distanciamento das questões essenciais, como a escravidão, a exploração humana, a exclusão e a liberdade. Para pietistas, o Jesus contemplativo dos embates emocionais, entre mártires feridos, tomado de êxtases sentimentais, e como inspiração da adoração do sangue salvador, definiriam a razão dos evangelhos. Outros, contudo, definiram-no como incrementador de uma revolução política que mudaria a história do mundo.

Não, Jesus não é apenas um  espiritualista piedoso, ou um ativista que veio fazer uma revolução política, econômica e social. Faz muito mais que isso: como um meteoro descido do espaço, subverte os valores criados pela ideologia da ganância, abundância e desperdício; do poder político, da riqueza e do prestígio, da corrupção histórica, colocando em seu lugar os valores da fraternidade, solidariedade, dos bens e da partilha nos bens comuns que geram liberdade e vida para todos.

O capital abandonou seus territórios originais, tornando-se leve, desembaraçado, independente, solto no ar. Protegido pela velocidade da informação que percorre o espaço virtual em tempo real. Seu nível de de mobilidade é suficiente para controlar, sob chantagem, a política e os políticos, que ainda dependem de territórios, e fazê-los dependentes e submissos às suas demandas. O capital dá ordens, a política cumpre, sugere Zygmunt Bauman.

Um governo dedicado ao bem-estar dos cidadãos pobres, ou rebaixados na escala social, não tem a menor chance de sobreviver, se não bajula, implora, ajoelha-se, aos pés do capital. Resta-lhe ajustar-se às regras da “livre empresa” (eufemismo para a subserviência escrava ao capital). Dar credibilidade ao poder do capital, persuadir os detentores do capital para os investimentos necessários, é a pior das tarefas de um governo. Se não consegue, pela corrupção, o capital derruba-o. Não há golpes de estado sem sua participação e financiamento.

Para o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, o sistema judicial brasileiro está longe de ser ideal e não funciona da mesma maneira para todos. “Nós criamos uma sociedade cheia de ricos delinquentes, que sonegam, fraudam licitação, subornam, fazem lavagem de dinheiro”. Foi o que disse o magistrado em entrevista para Roberto D’Ávila, da GloboNews, também falando na necessidade de criar uma Justiça que “valesse para todo mundo”. Estamos falando de justiça econômica?

Avenidas, com financiamento público e proteção policial, têm sido ocupadas com paradas gays – e estes tão somente fazem uma farra massificada e divulgada na mídia, sem nada reivindicarem em direitos fundamentais para os demais grupos sociais. Acordo feito também com evangélicos pentecostais, amantes de uma estranha teologia da ganância (exibindo vantagens numéricas, econômicas, falsa prosperidade material), que nada dizem dos problemas da cidade, nem falam de opressão política nas “marchas-com-jesus” que realizam. Controlados, bem comportados, absolutamente sem consequência, em ambos os casos, não houve — no espaço público que ocupavam — tensão entre a polícia e as multidões  esquecidas pela mídia no dia seguinte.

Questionado pelo público manifestante, sobre o que estava acontecendo na cidade, abusos nas privatizações referentes à mobilidade urbana, no entanto, o governo optara pela repressão, gás lacrimogênio, bombas de efeito moral, balas de borracha e cassete a torto e direito. Ao invés de proteger manifestantes, como fez nas manifestações anteriores, autorizadas, optou por reprimir, porque as reivindicações agora faziam sentido, impertinentes, perturbavam e até hoje incomodam os governantes. O movimento Occupy desencadeara, em Nova York, uma resposta policial muito feroz e realmente exagerada, pouco tempo atrás. Basta tentar participar de uma marcha, ou manifestação semelhante, para que haja 5 mil policiais em seu redor – e são bem agressivos (David Harvey).

Aqui, não sabemos quantos Jovens estão protestando contra a privatização dos bens da cidade, ao invés de reivindicarem um credicard, shopping centers fabulosos, complexos dedicados aos consumidores do luxo. Em minha cidade, a Assembleia Legislativa foi ocupada durante duas semanas, em 2013, e desprezaram o gigantesco shopping à sua frente, fachada com fachada. Querem o espaço para se relacionar com os poderes políticos, mas com política nobre, para se reunir, para existirem como cidadãos, como fazem outros jovens em muitas cidades do planeta, e não querem que a casa legislativa seja um lugar de negociatas inconfessáveis; que defende interesses de corporações e de partidos sectários.

Mas nos empolgamos com magistrados que julgam um “mensalão”, ou “petrolão”, condenam políticos escolhidos e não tocam nos seus preferidos, enquanto “ensinam” como evadir divisas aplicando recursos pessoais em paraísos fiscais ou em mercado mais rentável, no exterior (cf. Panamá Papers). O papa, porém, pergunta ao jovem, entre os que o ouvem num encontro mundial de 3 milhões de fieis, sobre  hipocrisia, política de baixa categoria; subserviência ao mercado, dos que não servem nem à justiça nem à população: “E você, jovem, o que está fazendo? Se não faz nada, grite!”.

DE FREUD À VIOLÊNCIA DA POLÍTICA AUTORITÁRIA

A frase de Freud denuncia: “O estado proíbe ao indivíduo a prática de atos infratores, não que deseje aboli-los, mas porque quer monopolizá-los”.  O modelo de sociedade autoritária se exaure, dissolvido numa força que aparece quando governantes abdicam da justiça, da nobreza da ética, dos valores, da alta política. Aquela nobreza da política voltada para os direitos cidadãos, o direito à dignidade, vida com qualidade repartida igualitariamente. A razão principal da gente comum, nas manifestações, poderia ser a insegurança geral, expressa com mais evidência na saúde e na educação. Mas não é.

Neste momento, o Brasil passa por um golpe de estado com orientação parlamentar, sob exceção constitucional. O grande empresariado, atrás dos recursos do país, organizado em cartéis secretos, atrás de concorrências bilionárias, encontra-se sob investigação insistente do ministério público. Por trás do mesmo está o núcleo chantagista do poder político. O que todos querem é o dinheiro público loteado entre eles. Mas, o que os trabalhadores desejam mesmo, ardentemente, no Brasil, é a volta do emprego, e com ele sua função social: saúde, alimentação, habitação, mobilidade urbana. Querem seus direitos históricos garantidos, sem quebras ou retrocessos nas leis trabalhistas. Atrás de cada trabalhador tem uma família que “precisa morar dignamente, alimentar-se, ter acesso à saúde, à mobilidade urbana, etc.”, todos sabemos. Mas precisamos saber também quanto o dinheiro da corrupção, que escorre dos setores mais abastados da economia privada, poderia significar para a igualdade na economia popular. Por exemplo, o consumo de bens sociais e bens duráveis.

Aumentar os custos da máquina pública, hábito do Estado corrompido, como se faz celeremente no governo provisório, pode satisfazer aos políticos e seus séquitos na aristocracia das casas parlamentares. Mas não atende às  grandes necessidades de um povo inteiro, referentes à saúde pública, saneamento básico (mais de 100 milhões não dispõem de água limpa e esgotos sanitários). Sem falar dos direitos fundamentais de moradia, escola, ensino universitário, mobilidade urbana, atendidos precariamente em todo o País. Até uma década atrás, antes do combate frontal à pobreza e miséria, hoje em retrocesso. Por que políticos, que estão a perigo com a seca temporárias das fontes onde a corrupção se abastece, têm o direito de esquecer a população e suas grandes necessidades?

O Evangelho é intransigente em face da opressão econômica e quanto à exigência ética do cristianismo, mas, para fazê-la prevalecer, não se nega ao diálogo cultural e político, a fim de canalizar para o Bem a força histórica do Mal. Sugere como Paulo Freire, que “a melhor forma de amar os opressores é tirar das mãos deles as estruturas da opressão”. Para os seguidores de Cristo e suas comunidades era importante não dar murro em ponta de faca. “Hipócritas, vocês sabem reconhecer os aspectos da terra e do céu (realidades da natureza cíclica, a chuva, a seca, a previsão de colheitas…), e não sabem interpretar a conjuntura (política) presente?” Lucas fala de espíritos pervertidos (cf. 6,42), literalmente, hipócritas desse tempo — que acusam os adversários e absolvem seus companheiros –, o tempo de Jesus. Tempo de salvação, que é fácil de ser reconhecido, pois os sinais são claros (Lc 7,22; 11,20). Saibamos reconhecê-los.

Derval Dasilio

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