mulher negra e direitos fundamentaisDOMINGO LITÚRGICO – 20° – TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO C]

Lucas 13,25-33 – Jesus e a religião da justiça

Hoje, poderíamos falar do fundamentalismo enfrentado por Jesus Cristo, enquanto vigiado pelas autoridades religiosas de seu tempo. Heróis nas lutas por libertação no século XX, como Mahatma Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela, Jaime Wright, jamais teriam chance de fazer o que fizeram, se dependessem da aprovação oficial da igreja cristã, para não falar da fé fundamentalista e legalista de igrejas dos dias de hoje. Ghandi leu o Novo Testamento numa noite, quanto morava na África do Sul. Ao amanhecer, convicto de que encontrara orientação certa para sua causa em favor da Índia sob o colonialismo britânico, procurou uma igreja cristã. Deparou-se com uma, dispôs-se a entrar. Imediatamente viu uma placa, na porta do templo: “É proibida a entrada de cães e negros”.

O legalismo sempre está próximo da sociedade autoritária, do fascismo, do preconceito e do exclusivismo religioso. A palavra “equidistância”, no entanto, é bem frequente na igreja, exceção para o mundo ecumênico. É bem conhecida a luta de Luther King com o fundamentalista dos EUA, que o desaprovava e perseguia, com base, supostamente, em “ensinamentos bíblicos sobre diferenças raciais”. Cristãos evangélicos, a favor do apartheid, reagiam contra a cessão de direitos para todos os cidadãos e cidadãs negros, que ainda existe como em outras tantas, pelo mundo. Estes se lembrariam de que o fundador da nação, George Washington, possuíra escravos, e teve concubinas negras com as quais gerou vários filhos?

No Brasil, o pastor Jaime Wright teve pedidos formais de dirigentes eclesiásticos para ser afastado da luta em defesa de prisioneiros políticos, de banidos, abduzidos, torturados, sob a ditadura militar. Ia aos ditadores com dom Paulo Evaristo Arns. Nas palavras de Leonardo Boff, diziam: “vocês estão destruindo a imagem de Deus, quando permitem e estimulam a perseguição, a prisão, o interrogatório aviltante, o pau-de-arara feroz, os afogamentos desesperadores, o puro e simples assassinato na clandestinidade”.

Podemos imaginar um precedente em Isaías (Is 5,20), que coloca a ação concreta no campo do amor justo, “ahavah”, amor visceral e misericordioso de Yahwé. Amor que vem das entranhas. Isaías aponta a religião dos que não buscam a justiça: “Ai dos que ao mal chamam bem, que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade; põem o amargo por doce, e o doce por amargo”. Segundo a perspectiva do Novo Testamento, porém, o amor pela justiça é maior que o amor humano, é “agape”, porque a seiva que recebe vem da raiz e do tronco que sustentam a fé no Cristo de Deus. Jesus funda e engloba tudo que abrange a justiça e os direitos fundamentais.

Não é sem fundamento a crítica que se faz da religião sem amor e sem justiça, nos dias de hoje. Ela é absurda, colonialista, contra a ciência, contra a liberdade, contra o progresso da humanidade, nos desdobramentos da ética dos direitos fundamentais, do cuidado com a coletividade, além do outro, o próximo; ela é criminosa, porque entregou-se ao mercado, aos negócios ilegais e escusos, à sonegação fiscal, abrigando quadrilhas (cf. inúmeros processos pelo ministério público, em todo o país); é dogmática, porque se impõe por princípios pétreos e inarredáveis, defendendo privilégios e exceções constitucionais; é contra a responsabilidade social, ao afastar-se e isentar-se das lutas travadas para humanizar a política e a economia.

Ela supervaloriza o homem abstrato, supostamente espiritual, mas na verdade alienado quanto às realidades concretas a seu redor; é individualista, porque olha somente para si, sustentando caminhos próprios para a salvação dos demais “concorrentes”; ela compactua com o imperialismo patriarcal, negando a participação feminina, embora as mulheres constituam a maior parte da população do planeta. É patológica, pois influencia doenças do comportamento, desde as profundezas da alma religiosa fanática ou obsessiva. E outros atributos, defeitos morais, que merecem atenção à parte: é racista, homofóbica, repressiva, fechada, supersticiosa… Como nos livraremos dessas críticas?

Jesus desvenda a hipocrisia (hipocrysis = máscara) de uma religião que não só não liberta as pessoas dos seus fardos, mas também lhes impõe um fardo extra nas costas. Como? Um animal vale mais do que uma pessoa humana? Se o animal pode ser liberto em dia de sábado, por que não uma pessoa oprimida na vida toda? O que pensar de uma religião que se apresenta como representante de Deus, mas que, na prática, escraviza e mata as pessoas, esmagadas e exterminadas por sistemas políticos, econômicos, sociais? Essa “religião” não estaria justamente a serviço desses sistemas? (I. Storniolo).

Derval Dasilio .

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