corpo complexo (4)
⊕ VENHAM A MIM, DISSE  JESUS
Eduardo Galeano colheu esta frase irônica, colocada no portão de Auschwitz, campo de concentração nazista: “O trabalho liberta!”. Por outro lado, numa igreja frequentada pelo populacho pobre, no centro da Cidade do México,  o  cartaz: “Amados paroquianos, cuidado com seus pertences…”. Gandhi, na África do Sul, procurou uma igreja protestante, depois de uma noite lendo os Evangelhos, e viu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros…”. O Evangelho requer atenção diferente.  Atenção para com o convite de Cristo: “Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, e eu lhes darei alívio” (Sl 40.18; Mt 11.28).
Um exemplo para a paz na Igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, até pelo fato de estarem vivos, incomodando o mundo hostil com sua pobreza e miséria. Se a identidade coletiva prevalece, como muleta para atrofiados, escudo para temerosos, cama para preguiçosos, diversão e entretenimento para irresponsáveis, bem poderia ela ser albergue para os desabrigados, porto para náufragos, nova família para órfãos, utopia para os socialmente inconformados, terra para os despatriados, curral seguro para os desgarrados, mãe nutriz para o crescimento das novas gerações.  
Poderíamos recorrer à poesia de Herbert Vianna: Quando tá escuro / E ninguém te ouve / Quando chega a noite / E você pode chorar / Há uma luz no túnel dos desesperados / Há um cais de porto / Pra quem precisa chegar / Eu estou na lanterna dos afogados / Eu estou te esperando / Vê se não vai demorar / Uma noite longa / Pra uma vida curta / Mas já não me importa / Basta poder te ajudar / E são tantas marcas / Que já fazem parte / Do que eu sou agora / Mais ainda sei me virar / Eu tô na lanterna dos afogados… (Lanterna Dos Afogados).
Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo, o Filho, de uma maneira peculiar, buscando entender onde Deus se revela. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus num texto de louvor e gratuidade tão expressivo. De Jesus, ouvimos as palavras audazes e dominantes: “Venham a mim!”. Essas palavras articulam a experiência de Deus na forma de acolhimento mais profundo existente. Não é a toa que a palavra pater, pai na língua grega – daí a expressão “pátrio poder” – se sobreponha ao termo aramaico. Abbá, na língua de Jesus, tem um sentido doce: “Paínho”, no jeito baiano de expressar o carinho. Ocorre o contrário do que a autoridade do nome pater sugere.
A experiência filial, humana, de Jesus, se harmoniza com o que homens e mulheres mais procuram: cuidado, ternura, solidariedade amorosa. Exatamente porque isso lhes é negado. Jesus é o homem que ama seus semelhantes como Deus, Pai de Misericórdia que ama a todos sem eleições preferenciais. A igreja, se evoca seu fundador, tem o dever de imitar ou reproduzir o amor de Jesus pela humanidade.
A interiorização recomendada pelo Evangelho trata de absolutos éticos que escapam e distanciam-se da inteligência prática. A práxis de Jesus nos remete ao mundo prosaico dos simples, mansos, humildes deste mundo, a quem faltam recursos mínimos para a sobrevivência, enquanto expostos à ganância egoísta do mundo que sobrecarrega de privilégios quem já é privilegiado.

Derval Dasilio

23o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES]
Jeremias 2.4-13; Salmo 81.1,10-16; Hebreus 13.1-8, 15-16; Lucas 14.1,7-14 [23o. domingo] /  []  domingo]

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