oportunismo

Escrevi um livro destinado aos jovens (Pedagogia da Ganância), dele extraí os comentários para hoje. Não se exige talento ou capacidade crítica das condições sociais da maioria dos jovens, nem visão dos problemas da exclusão, miséria, raízes que alimentam a violência, corrupção, crime organizado ou delitos aleatórios. O que lhes é apresentado, na maioria das vezes, é uma miragem: enriquecimento fácil e sucesso, fama meteórica com resultados financeiros garantidos, na maioria das vezes.

    Sobre o futuro, não há o que pensar? Bárbara Soares, analista interessada no problema, afirmava há pouco tempo, que tudo que procura atrair o jovem envolve essa questão. Não há um futuro, há um presente oferecido na base do perder ou largar. Os que sobram ficam à mercê de outros apelos, como o abismo das drogas, das contravenções e do crime consentido.

    Outro articulista de prestígio elogiava a famosa lei de Gérson, dizendo: “Gostamos de levar vantagem. Alguém aí teria orgulho em viver numa nação de otários”? Reavivando essa tal “lei”, que foi muito discutida há duas décadas atrás, ela é inspirada na publicidade de uma marca de cigarro que o jogador, depois comentarista de futebol, Gérson, um dos líderes da conquista do Tri-Campeonato Mundial, Copa do Mundo, juntamente com Pelé, Tostão, Rivelino, fazia, com uma frase emitida entre baforadas do tal cigarro: “Gosto de levar vantagem em tudo”.

  Essa frase levou comportamentalistas, sociólogos, psicanalistas, teólogos, educadores, a escreverem centenas de páginas sobre o despudoramento sugerido e vivido na mídia impressa e televisiva, e agora no espaço virtual da internet. Vivemos uma tensão entre duas forças. Por fora a imagem, com toda a sua pujança, mais vale a aparência. Por dentro, autoindulgência.

    O mesmo articulista reafirmava: “Somos mesmo uma nação de indivíduos que só pensam em si mesmos e só querem levar vantagem”. Para ele, o miolo da “lei de Gérson” é a essência do caráter dos brasileiros (Gérson dizia: “o que eu gosto mesmo é de tirar vantagem…”, sugerindo que, fumando o tal cigarro, qualquer um se daria bem na vida).

    Para os gananciosos, comportamento moral impecável, retidão irrepreensível. Por dentro, porém, predomina a força da lei de Gérson, afiança o articulista. Na “hora do vâmo vê” ninguém escapa, tem que tirar vantagem, senão é “otário”. E conclui: “Há algum mal nisso, qual o problema, se podemos ser espertos e felizes”? Quedâmo-nos pasmos porque somos parvos, diante da moral do oportunismo.

   O maior problema do jovem, no entanto, antes do desiquilibrio social, e da corrupção desde os degraus mais baixos até o píncaro da pirâmide, não é propriamente livrar-se das drogas ofertadas em cada esquina. Trata-se do baixo consciente de inteligência política da população resignada aos padrões elitistas, que não permite ver e entender o que fazem as lideranças mais destacadas da nação, rostos presentes diariamente na mídia, enquanto se destroem os poucos mas importantes avanços na redução da pobreza. Nos guetos urbanos, favelas e periferias, legiões de jovens esperam oportunidades que as desigualdades lhes negam.

   É-lhes imposto o estigma da inferioridade social, enquanto barreiras aparentemente insuperáveis confinam a potencialidade, a energia comum na gente brasileira. Enquanto são “desterrados” politicamente, como cidadãos. As políticas públicas se voltam para contentar as elites urbanas. Ao mecanismo da exclusão social acrescenta-se aos jovens  conceito de marginais, desprezíveis e perigosos, indignos da cidadania formatada para socialmente privilegiados.

   Os jovens são levados a admirar juízes midiáticos, promotores fascistas, políticos com ficha criminal quilométrica, que servem aos barões do rentismo e da comunicação. Admiram banqueiros e ricaços, cujo dinheiro serve somente para aplicações nos paraísos fiscais, sem produzir nada para o desenvolvimento da nação, excluídos empregos, habitação e transporte. É-lhes apresentado um povo resignado, desinteressado na saúde ética, em princípios democráticos e bem-estar social repartido com igualdade.

   O teste de inteligência política que lhes é apresentado resume o quesito “ganância” para vencer na vida, embora camuflado. Quando, na verdade, sob a insanidade cultivada explicitamente, um tesouro inexplorado, uma energia potencial fantástica, na vida do povo e da nação, é desprezado e destinado ao lixo da história social.

    Então, vamos contar uma fábula, dessas que o Millor Fernandes escrevia com tanta habilidade: “Muito tempo antes do homem se organizar em Estados (homo politicus), já existiam lobos ferozes proibindo carneiros de beber sua água. O homem não tinha pensado em construir cidades, quando raposas finórias e sem escrúpulo arrancavam queijos do bico de corvos ingênuos. E quando o último homem apertar o botão (no apocalipse nuclear), haverá sapos coaxando nos pântanos cantando a glória e a sedução do lodo pantanoso”. Conclui-se que o oportunismo, sem prejuízo para terceiros, é aconselhável para alguém que pretende subir na vida. Num mundo onde se ensina o individualismo como virtude, quem aplaude a hipocrisia?

ADMINISTRADORES E POLÍTICOS INJUSTOS SEGUNDO O EVANGELHO

    Curiosamente, o evangelho narra a parábola como a do “administrador injusto”, em muitas versões (Lc 16,1-8). Mas a leitura atenta aponta a “natural corrupção” no mundo dos negócios. Uma espécie de justiça paradoxal: perdoar dívidas, corrigir desonestamente dívidas grandes ou pequenas, negociar favores, absolver acusados de atos desonestos… e o principal interessado, o patrão “prejudicado”, corrigida a situação, elogia o administrador “versátil”, que sabe tirar proveito das situações.

    O paradoxo vem a seguir, na narrativa: “…quem é desonesto no pouco é desonesto no muito!” (v.10b) “Se com dinheiro sujo não fostes confiáveis, quem vos confiará o legítimo” (v.11)? Uma interpretação do elogio ao pé da letra favoreceria magistrados que decretam habeas corpus para grandes e espertos criminosos, fugitivos da justiça? Favoreceriam senadores que acusam ou defendem seus pares, de acordo com as circunstâncias, acusados de corrupção, em nome do corporativismo nos partidos da situação ou da oposição? Haja “operação sanguessuga”. Haja “mensalão”…

    Chamamos a atenção, porque muitas vezes este trecho da Bíblia é usado para “justificar” no Evangelho a corrupção sobre o uso do dinheiro e práticas oportunistas. E seus argumentos, seguidamente, acentuam um interesse exacerbado para o enriquecimento: ter dinheiro e usá-lo para “se dar bem”: “O Senhor é rico e nós podemos ficar ricos, também”! O que é legal, admitido socialmente, politicamente, permanece mascarando o que é justo, na verdade. Um político famoso, consagrando o dito popular:”rouba mas faz”! Fez muitos discípulos. Julgue você.

    Uma vez terminada a revelação sobre a misericórdia de Deus (Lc 15,1-32), Jesus tem agora uma instrução para seus discípulos sobre o ‘dinheiro’ (16,1-31). Segue a seguinte estrutura narrativa: “Era um homem rico…”. Trata-se de um homem bem-posto (comparável a um rentista que investe na Mossack&Fonseca, que distribui seu dinheiro em paraísos fiscais), que tem um administrador corrupto. Este também é de família rica, pois não sabe trabalhar manualmente e lhe causa vergonha pedir. Quando fica sabendo que vai ser demitido, começa a fazer acertos com os devedores de seu senhor. A segunda parte do versículo é uma reflexão do relator ou de Lucas: não ao oportunismo.

    Leituras:
    25º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
    Jeremias 18,9-1 – Povo corrompido, emenda os seus caminhos!
    Salmo 79,1-9 – Corromperam a herança ética de Israel
    1Timóteo, 2,1-7 – Súplicas em favor dos homens de Estado…
    Lucas 16,1-13 – O negócio é saber tirar vantagem…

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