DEUS E A REFORMA PROTESTANTE

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Durante longos anos, a espiritualidade reformada teve como objetivo a exclusiva soberania de Deus, ideia de João Calvino, e dos principais reformadores do século XVI, sobre a absoluta transcendência, e total alteridade de Deus. Isto é: Deus é completamente diferente do homem. Os reformadores Lutero e Calvino combatiam, dentro da Igreja, a ideia vigente de um deus que só podia ser alcançado por intermediação do homem e da Igreja.
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Assim, o Papa (séc.16!) estaria no topo da hierarquia da Igreja, emanando autoridade de cima para baixo, até o pároco local. O papa era o soberano da Igreja e do povo cristão, falava como o primeiro da igreja universal, estendendo sua palavra e autoridade magisterial aos sacerdotes. Zwínglio, Lutero, Bucer, Melanchton, entre outros, eram sacerdotes ordenados. Ambos, papa e sacerdotes, reteriam uma credencial definitiva: eram “Christos in persona” (como também pretendem ser pastores evangélicos pentecostalistas de hoje). Portanto, no exercício dos sacramentos, batizando, celebrando o culto e a Ceia (Eucaristia), ouvindo confissões, absolvendo, intercedendo, faziam com que Deus estivesse presente em suas pessoas, diante do povo. Não eram mais homens e igreja pecadores… eram “procuradores” de Deus, com plenos poderes em questões de Fé e de Culto.
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Os reformadores disseram: só Jesus Cristo por si mesmo nos justifica, e ninguém mais. Jesus pode dizer: “Pai, perdoa-os porque não sabem o que fazem…”. O que nos ensinaram os reformadores protestantes, então? Com simplicidade: “Deus não é um ídolo terreno projetado materialmente em papel, pedra, ouro ou qualquer outro material. Nem é um projeto político, religioso, espiritual, ou qualquer outra coisa”. A oração do verdadeiro crente é feita a um Deus totalmente Outro, diferente de nós, homens e mulheres, sacerdotes ou leigos. Deus é transcendente, imutável, infinito, inominável, indescritível, como também dizia Karl Barth.
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Deus que conhece o ser humano, porque se humanizou em Jesus Cristo, e por isso não se impressiona com aqueles que oram repetindo elogios inúteis, a Deus, enquanto clamam por santidade, nem com aqueles que dão esmolas para serem visto pelos homens, na busca de elevar seu status espiritual. Deus não se deixa comprar pela falsa confissão: “Senhor, Senhor… obrigado porque não sou como os pecadores”.

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Deus não se curva diante das reivindicações e exigências exorcistas daqueles que, acreditando-se instrumentos divinos, nunca aprenderam a orar como quem vive a vida de fé — são os fiscais cobradores da Graça como retribuição –, em esperança de transformações, reconhecendo os pecados que são os nossos, inclusive a presunção e concepção humana dominadas pelas ambições da razão, da inteligência, do conhecimento, da espiritualidade interesseira e do esforço de santidade e avivamento espiritual.
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As respostas poderiam ser estas: “a fé nos salva de nós mesmos, da ganância, do egoísmo, e de todas as interferências e esforços para subjugar Deus às necessidades pessoais”. Oportunistas que somos, prontos a pagar pela Graça, dispostos a exigir retribuição pela dedicação, e sempre prontos a recorrer a um “deus-quebra-meu-galho”, enquanto nos esquivamos das responsabilidades e do testemunho que devemos dar na vida de fé.

A fé tem segredos, abismos e perigos de desvios. Certamente, com fé, orar é o gemido do aflito para que o Senhor nos livra do mal e do sofrimento. Inclusive, nos liberta da presunção e arrogância. Antes, porém, deveríamos “orar com fé”, para termos a fé que o Senhor nos ensinou, quando nos dirigimos ao Pai: “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”.
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Lutero dizia: “Por melhor que seja a nossa vida (aos olhos dos homens), nada nos autoriza a reivindicar recompensa de tua parte. Na tua presença não há quem possa gloriar-se de qualquer mérito”. O efeito do contato com Deus, simultâneo e complementar: trata de uma paz indescritível. A gratidão traz paz! Acrescenta Lutero: “na comunhão com Deus o crente sente-se envolto pela misericórdia, pela bondade infinita, pelo amor incompreensível de Deus. O crente se reconhece objeto da Graça. Apesar de indigno, é tratado como o filho pródigo na casa de seu pai que, conquanto conheça muito bem a miséria de seu filho. Não o rejeita, antes o recebe para dentro de casa e cuida de sua recuperação (Lc 15,11-32).
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Todos somos filhos e filhas pródigos, que esbanjam as riquezas da vida de fé. Jogando seus bens fora, homens e mulheres prostituem-se, corrompem-se, até perderem tudo. Os bens da vida de fé, por gratidão a Deus, são os valores dos nossos relacionamentos, a transmissão da fé, no cuidado com o outro e a outra, na luta por dignidade humana, por garantias de justiça em todos os níveis: na igreja, na política, nas relações sociais, comerciais, e tudo que cabe à dignidade humana no reconhecimento da salvação gratuita originada em Jesus Cristo.
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O crente, portanto, vê-se não só aquinhoado de dádivas, mas também inteiramente nas mãos de Deus, apesar de ser ele o que é: Outro. Dessa certeza nasce a grande esperança de que Deus, sem bajulação, completará, em sua onipotência, a obra que ele mesmo iniciou: todos os dias, precisamos ser salvos de nós mesmos, de nossa presunção, do egoísmo, da ganância, do esforço para rebaixar o Deus a uma divindade qualquer, tornando-O um “deus-quebra-meu-galho” a nosso serviço.

“…Seja feita a tua vontade, na terra como no céu”. Oremos a oração que Jesus ensinou. E também demos graças aos reformadores e à Reforma, os quais, dentro do princípio protestante, nos ensinaram sobre a vida de fé comprometida com a comunidade do povo que Deus elegeu e ama.
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Leituras:
Isaías 62,6-7;10-12 – Yahweh te desposará como a uma virgem
Romanos 3,19-28 – Obra alguma nos justifica diante Dele!
Lucas 18,9-14 – Tem piedade de mim, pecador!

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HIPÓCRITAS, SANTOS E PECADORES

30o Domingo Litúrgico – Ano C – Tempo Comum [Depois de Pentecostes]

(Lucas 18,9-14) Como é que somos? Quem somos nós, quando lidamos com esporte de massa, questões raciais, papeis femininos, homoafetividade, política (ôpa!) e solidariedade para com os mal assistidos na base da pirâmide social?  Episódios de nossa própria vida cotidiana poderiam mostrar o quão farisaicos somos, pegando-nos em flagrante. Sem termos que comentar a literatura de Nelson Rodrigues, que se destacou por escrever com maestria incomparável quão apodrecida, algumas vezes, e moralmente ambígua, é a sociedade brasileira. Em vários aspectos.

Perguntaríamos, sobre as nossas identidades duais, como somos em casa — onde estão crianças, jovens e velhos, ricos e pobres. A primeira dama, Bia Dória, esposa do milionário eleito prefeito em S.Paulo exemplifica a situação, com declarações a respeito de como trata os pobres, trabalhadores em sua mansão: “Todos moravam em barracos e nem tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes para eles, dei um plano de saúde bom. Hoje eles se sentem felizes, até se acham artistas porque são meus assistentes”. 

Como somos na rua, onde governa o Estado, se faz e se comenta política, enfrenta-se o trânsito e se dirige um automóvel. Como somos no trabalho diário, quando admitimos e separamos a empregada doméstica, a faxineira, a diarista, o carroceiro recolhedor de lixo, do trabalhador com carteira assinada, no gozo das leis trabalhistas e da proteção previdenciária. Quando admitimos isenções constitucionais à religião de negócios, por exemplo, a cosmogonia hipocritamente fascinante do brasileiro comum é evidente (Roberto DaMata).

Porém, nos espaços da casa, da rua e do trabalho, essa ambiguidade é complexa e cheia de símbolos. Um mundo interior, que se diz espiritual e moralmente preservado, se diferencia do mundo exterior, onde as pessoas se veem como verdadeiras e autênticas.

Jesus contou esta parábola por alguns que se consideram honestos, justos, que se sentiam confiante e desprezavam os outros, arrotando santidade. O religioso fariseu é bem conhecido. Embora seja verdade que os evangelistas, carregando nas tintas em alguns aspectos, quando discutiam sobre a gratuidade divina, não conseguiram aprofundar o assunto. Mas a causa é importante. O evangelho de Mateus, quanto aos fariseus, é curto e grosso: “Vocês são sepulcros caiados, branquinhos por fora e podres por dentro”.
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Fariseus eram um grupo grande e, em muitos aspectos, em suas práticas, meticulosos quanto à observância da lei religiosa. Moisés era citado em sua particularidade escriturística sobre assuntos da moralidade. Esqueciam providencialmente os contratos bíblicos para a proteção dos mais fracos, Pactos Deuteronômico e da Aliança — “…não haverá pobres no meio de vocês” – Deuteronômio 15,4; “não perverterás o direito do pobre em sua demanda” –  Êxodo 23,8 –, e os compromissos exarados nos contratos sociais sobre a justiça ao pobre, ao oprimido pela miséria, o necessitado, o órfão e a viúva.
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Dedicaram-se à sinagoga (igrejas comunitárias), oferecendo serviço. Espalhados por todo o país, fizeram da esmola e do dízimo sua propriedade “espiritual”. Eram rigorosos nas leis de pureza ritual. Parte deles acreditava na ressurreição dos mortos, e a vida feliz no futuro depois da morte. Acreditavam em anjos. Eles tinham um grande apreço pela escritura (certamente quanto às conveniências doutrinárias da religião). Eram assiduamente dedicado à oração.
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Acreditavam-se puros, santos, separados, eleitos. Seguidores da “reta doutrina”, como declaravam, seguidores das escrituras, desprezavam praticantes descuidados, negligentes, da religião. Poucos estavam inclinados a praticar a misericórdia, compreensão, compaixão, solidariedade e aceitação daqueles que não pensam ou vivem como eles. Consideravam-se uma classe privilegiada de religiosos, e não se comunicavam normalmente com os “publicanos” (coletores de impostos fazendários) e “pecadores” (religiosos negligentes).
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Um fariseu tem um jeito de conduzir a sua vida fez orgulhoso e muito confiante. Segurança estrita conformidade com a “lei de Deus” (regulamento religioso) e os preceitos rabínicos do “halacah”, pregados a transbordar. Consideravam- se donos da consciência religiosa popular, enquanto anunciavam o mérito, a prosperidade como recompensa das suas obras. Para si, a recompensa das obras meritórias, dízimos e orações mântricas, diante da coletividade.
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Seu espírito e seu hábito é fazer ostensivamente comentários às suas próprias obras: “graças a Deus não sou como os outros, orgulho-me de não ser como o publicano, ou o cidadão comum”. Para estes, restava o desprezo e julgamento. Essa ojeriza pelos outros resultaria na atitude agressiva e murmuração contra Jesus (que imediatamente passa à perseguição). Jesus era um “pé rapado”, um indivíduo comum das classes baixas.
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O publicano, na parábola, permanece distante, escondido, inibido, com vergonha de se expor. Diante de Deus, não rejeita que é pecador, e assume sua condição com arrependimento e contrição: “Declarei-te o meu pecado, não encobri o meu delito” (Salmo32,5). Pede piedade (Sl 51,3-11; 41,5), e então lhe chega a consciência do perdão de Deus. Sabe que alcançou o perdão e a justificação, e passa a ter paz no coração. “Feliz o homem a quem o Senhor não atribui nenhum delito, e cuja consciência não é turva” (Sl 32,1-2).
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Agora, ele sabe que a confissão dos pecados e o arrependimento são uma forma de contrição e humildade. Ele apenas cita as primeiras palavras do Salmo 51: “Misericórdia, meu Deus, por sua bondade, para sua grande compaixão apaga as minhas falhas”. E continua a recitar o Salmo: “Um coração quebrantado e contrito Tu não vais rejeitar, Senhor”. O pecador confesso só pode oferecer a Deus uma vida de contradições. Porém, oferecendo um reconhecimento sincero e (como o filho pródigo!), pode apresentar-se a Deus com um coração quebrantado e contrito.
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Deus, é capaz tolerância, carinho e cuidado com o contrito. Deus oferece um abraço, perdoa e renova sua amizade com fraco. Deus se agradou da atitude do publicano. O pecador penetrou profundamente no coração de Deus, ele compreendeu muito melhor quem é verdadeiramente o Deus de Jesus, cheio de misericórdia e sempre pronto a perdoar. Para Jesus, Deus é o Paínho, Abbah, pronto para perdoar o desviado.
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A parábola revela que a justificação é um dom gratuito de Deus para receber os que se abrem à sua graça e misericórdia. Viver com humildade é andar na verdade. E a verdade é apresentar a realidade como ela é, como disse o apóstolo Paulo: “Todos pecaram, não há um justo sequer sobre a face da terra”. Aqui estão dois modelos exemplares que existiam no tempo de Jesus. E eles continuam a ser um aviso para os crentes do nosso tempo. Só a partir daí pode ser convencer testemunhas em um mundo que necessita desesperadamente.
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A forma como Jesus expressa a misericórdia de Deus é porque ele mesmo misericordioso, coerente com o que aconselhava aos outros: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Em razão disso, se misturava às pessoas de má fama para que, em contacto com ele, pudessem sentir a misericórdia divina.
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É preciso ser insensível à espiritualidade dessa parábola para não apreciarmos essa experiência de Deus como Pai de misericórdia. Como Deus ama com amor incondicional, transbordante de compaixão e misericórdia pelo fraco, destruído, esmagado por privilegiados, seus preconceitos e  hipocrisia.
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Há, porém, uma novidade, em frente à hipocrisia farisaica. Diante da religião do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema em vigor, a Graça pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A Graça e a misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa judaica dos tempos de Jesus.
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A partir desta perspectiva de Jesus, que conta esta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém à religião ou a alguma causa de cunho humanitário ou religioso, no esforço objetivo de obter algum  pagamento ou rendimento. Na verdade, a misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação, atendendo  nossas necessidades. O perdão dos pecados (que se refletem nos nossos atrasos e omissões no serviço do Reino, em acordo com a hipocrisia reinante), é libertação e reconciliação. Sem mérito de nossa parte. Somos todos dependentes da misericórdia e do cuidado de Deus, que nos alcança unicamente por misericórdia e gratuidade.
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Derval Dasilio.

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A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA


A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA
Lucas 12,32-48
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A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, no entanto, não é. O cristianismo simbólico, ou nominal, dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido com o propósito estatístico, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
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Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
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O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
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O Reino é dado aos excluídos, abandonados, da saúde com qualidade. Dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado, são também alcançados por Deus. Têm direito à salvação.
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O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas. O Reino é uma dádiva anunciada por Jesus aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores; aos que são perseguidos por juízes iníquos; aos que se negam a justiça e a verdade. Embora contrarie a sociedade excludente.
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“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
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A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.

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Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural, através de representantes das sociedades autoritárias. Flageladores de crianças, diferentes sexuais, mendigos e doentes mentais as representam.
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A fé representa a consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana excluída reclama, e Deus não nega a salvação. O desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte, são sinais da presença do reinado de Deus.

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Investir nos fracos, despossuidos, discriminados, abandonados por homens e mulheres autoritários, fascistas, é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.
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Derval Dasilio

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O AMOR É UM PESO QUE NOS FAZ INCLINAR…

Posted by Derval Dasilio in Sem categoria
Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos

lucas-o-proximo Nos dias de Jesus, só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava-se o que era proibido por esse conjunto autoritário. O legalismo, imposto, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto — leia-se como lei do templo ou da “igreja” –, primava sobre qualquer lei.

Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos reconhecidos, violentado em sua dignidade de pessoa, ferido e nu, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas, servidores da religião) e em troca é socorrido por um “ilegal” samaritano. A bem dizer, alguém que não se sujeitava ao conjunto jurídico religioso autoritário, não podia entrar no templo, e não tinha boas relações com judeus. Ele é um “distante”, um estranho, um “anti-próximo”, mas passa a ser modelo exemplar do “próximo” oferecido ao religioso cristão.

Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise a lei codificada, sua especialidade. Ele encontrará a resposta no amor… O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: “não farás…”) sobre como “amar a Deus e ao próximo” sob a lei deuteronômica… Encontrada também no Thalmud e no Midrash (da palavra derash, procurar). Comportamentos de conduta são conhecidos como halakah, um conjunto de preceitos gerais. Jesus, porém, responde de acordo com o Pentateuco – os cinco primeiros livros, conforme a versão grega Septuaginta; e também na Torah, versão hebraica (Tanach): Devarim (Deuteronômio) e Vaiycrá (Levítico) –, como foi perguntado. Jesus aprova a resposta da tradição bíblico-teológica rabínica.

O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita – ascendente histórico do judeu –, e no Deuteronômio, este título está reservado unicamente para pessoas do meio cultural e religioso judaico… Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas, procura não semear novas teorias e interpretações perante a lei antiga, e sua prática. Propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo, e constrói um midrash, ou um sermão exemplar sobre os significados do amor.

Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus — com referências a posses materiais do samaritano bem-posto: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro para ajudar um pobre infortunado que encontra ferido e abandonado no caminho –, nos aproximamos de questões básicas. Bem-postos economicamente, religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem propõe esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos, sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir despojados e violentados da sociedade humana em todos os tempos e lugares. O samaritano, além de compassivo e solidário, é um homem rico. Contudo, um homem cheio de amor pelo próximo, seja ele quem for.

A história humana é caracterizada por uma interminável sucessão de negações do amor ao próximo (Bernhard Haring). Os resultados da intolerância são feridas abertas, exclusão e marginalização, gerando o abandono e morte social dos mais pobres, feridos em sua dignidade (dignitatis = direitos fundamentais). Só o amor transforma a justiça codificada, que privilegia quem já é privilegiado, em justiça igualitária, compassiva, situacional, concreta. Especialmente quando nos deparamos com emergências e prioridades. Notadamente quando a vida humana está em perigo de morte.

O amor torna a justiça verdade ética inquestionável, porque a decisão tomada sob sua influência é, originalmente, gratuidade e a compaixão pelo fraco. “Justiça sem amor é necessariamente injustiça, porque o amor não remove, mas simplesmente estabelece a justiça”, disse Paul Tillich. A justiça sem amor ignora a solidariedade, a misericórdia ou a compaixão.

O próximo jorra da mesma fonte, é resultado da terra; é filho da sociedade humana, e se relaciona com o mundo da mesma maneira que eu. É, o próximo, imagem e dádiva de Deus, ao mesmo tempo. Todos os valores relacionais ideais constituem ponto de partida anterior à justiça codificada. Dizem respeito à vida de todos. O próximo nos comunica: “sou um corpo concreto, e tu me conheces na materialidade compartilhada da vida”. Cremos que a concretude da vida é um fato que não deve ser esquecido, para que não caiamos em abstrações e reduções do corpo do próximo, diria Rubem Alves: o próximo, corporificado, vale mais que todas as verdades que anunciam sua pequenez; o corpo aguarda a consciência de que somos iguais. O corpo é mais sábio do que a cabeça, ou o cérebro.

Emmanuel Lévinas, pensador judeu moderno, diz: “Deus vem ao meu pensamento quando vejo no outro o próximo”. Na face do outro está o rosto transcendente de Deus (cf. Mateus 25,38). Também judeu, Martin Buber dizia: “O outro (o próximo) não é um isto, mas um tu”. Tenho comentado sobre a relação “Eu | Tu, equação amorosa criada por Buber, lembrando: “Eu sou tu quando me olhas, e Tu sou eu quando te olho”.

Muitos agnósticos, e até mesmo ateus, deparam-se com a parábola evangélica sobre a solidariedade amorosa apontada em Lucas (10,25-37), e reconhecem que não há futuro pra a dignidade humana num mundo tomado pela impiedade, senão pela compaixão e solidariedade. Para os cristãos, o evangelho oferece a oportunidade de compartilhar a experiência de Deus com o mundo do próximo, através da solidariedade, reconhecendo-o como o nosso “Tu”. Esta oportunidade, por si mesma, reflete o amor e a experiência de Deus. Num só momento.

A força potente do amor energiza e dá capacidade de lutar, de proteger, socorrer, vestir, alimentar e curar o próximo. Diz a canção de Carlinhos Lyra: “Sabe você o que é o amor? Não sabe? Eu sei./ Sabe gostar? Qual sabe nada, sabe, não./ Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. / Você já chorou de dor? Pois eu chorei. / Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão./ Quanto à você meu camarada, qual o quê, não sabe não./ Você não tem alegria, nunca fez uma canção, / Por isso a minha poesia… você não rouba não.

Agostinho, na antiguidade, confessava: “O meu amor é o meu peso; onde quer que eu vá, ele me conduz e me faz inclinar”. Esse “peso” é citado por Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu aliviarei vocês. Tomem sobre vocês a minha carga e aprendam, porque sou manso e humilde de coração; e acharão descanso. Porque o meu peso (amor) é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Uma metáfora magnífica da compaixão, da ternura, da solidariedade que nos une ao que sofre, na experiência de Deus em Jesus.

Derval Dasilio

29º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedada e sem misericórdia
Salmo 82 – O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos
Colossenses 1,1-14 – Viver frutificando o bem, acima de tudo

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JUÍZES INÍQUOS NO PAÍS DAS VIÚVAS

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||Lucas 18,1-8 – Incomodem sem trégua os que podem julgar||

Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se comemorariam as vitórias contra a corrupção. Especialmente aqui, onde juízes togados protegem políticos corruptos como se lhes devessem favores, enquanto escolhem como alvos os demais que querem tirar do seu caminho. Seja a que custo for. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc.

O Brasil estava na 69ª posição entre os países mais corruptos. Crescendo, no ranking mundial da corrupção, nos dias atuais. A contribuição de evangélicos pentecostais, representados por aproximadamente 30% da população, também fez crescer esta posição. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar. Foi o que revelou a Transparência Internacional.

Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

A zona cinzenta onde atua a justiça humana, que parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade — com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa, midiática, politicamente partidária, em nosso país –, fica bem longe longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Andrés Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção — dos adversários, fique claro.

Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes sequestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. […] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz não temer a Deus nem respeitar homens fracos e sem força institucional que os proteja. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito. Dignidade e cidadania!

Derval Dasilio

Leituras:

28º. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes
Jeremias 31,27-34 – Virá o dia: porei minha lei no coração humano / Salmo 119,97-104 – Como amo a tua Lei, medito sobre ela dia e noite / 2Timóteo 3,14- 4,5 – A Escritura é útil para educar na justiça /

||Lucas 18,1-8 – Incomodem sem trégua os que podem julgar||

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INTOLERÂNCIA

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Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).

Lucas 17, 11-19 – Quem é puro, ou melhor que os demais?

Chocante, já decorridos dois mil anos desde que Deus, humanizado, tornou-se vítima da intolerância. Ingressou no mundo das misérias, conflitos, preconceitos e ilusões sobre superioridades, religiosas, morais, raciais ou de classes sociais. Justificam-se, desse modo, ideologias autoritárias, pró-fascistas, as quais se manifestam muitas vezes através da fúria irracional e compulsiva contra minorias e indivíduos socialmente fracos e sem defesa institucional.

A miséria humana, assim, é escamoteada para fora da realidade, como aparência de impureza, de imundície e de marginalidade, atribuídos a indivíduos fora do padrão da sociedade autoritária. Inspira-nos uma boa leitura do Hannah Arendt, que escreveu sobre a força do ódio e do poder exclusivista das classes abastadas.

Um candidato a prefeito de São Paulo, a maior  cidade da América do Sul, propunha um programa de isolamento da Cracolândia, no centro. A ideia é colocar “agentes humanitários” com guardas armados ao fundo, para isolar a parte contaminada da cidade do restante da população. Uma vontade perigosa e esmagadora de exclusão, para satisfazer, ao mesmo tempo, o pungente impulso de falsa retidão moral da sociedade, como diria Zigmunt Bauman.

Os portadores do estigma da miséria seriam mantidos à distância por sua “humanidade inferior”. Na verdade objetivando sua desumanização física e moral, confessam o autoritarismo exclusivista da sociedade que reclama cidadania preferencial para classes sociais privilegiadas.

Intolerantes, via de regra. Podem até mesmo alçar candidatos aos principais cargos da nação, ou no mínimo compor um congresso nacional para defender seus interesses, com exclusividade. Um setor da nossa política é chamado de BBB (Boi-Bíblia-Bala), representando pecuaristas, evangélicos pentecostais e industriais armamentistas. Por nada?

Intolerantes também parecem depender de superstições, crendices e crenças de relativa superioridade sobre os demais, não raro exigindo privilégios e exclusividade. A sociedade religiosa, moralmente autoritária, imagina indivíduos “diferentes” como responsáveis pelo mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis: fratricidas, estupradores, pedófilos, drogaditos, alcoolistas, traficantes, por exemplo.

Mas é do autoritarismo que emergem estupradores, espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores de mulheres, crianças, mendigos e doentes mentais; traficantes… As vítimas, certamente, estão no cotidiano das metrópoles e pequenas cidades, camuflados no falso repúdio e “vergonha” moral da sociedade autoritária, classista e exclusivista. No entanto, segundo o Evangelho, Jesus Cristo preferiu a companhia das vítimas.

Ideias, atitudes, atos, são gerados em ambientes ideológicos, ou políticos, que afirmam superioridade moral,  social, religiosa, sexual e racial. Estes, que se consideram reservas morais da sociedade, que vão às urnas para eleger políticos com propostas de repressão, discriminam, agridem, acusam “diferentes” de inferioridade. Não raro, apontam aquelas pessoas como nocivas e perigosas; indivíduos com conduta socialmente reprovável; praticantes de atos degradantes.

Prostitutas, homossexuais, indígenas, moradores de rua, doentes mentais, portadores de doenças transmissíveis, deficientes, engrossam a lista. São os alvos preferenciais da sociedade intolerante, em primeiro lugar. Em segundo, são apontados os que defendem e exigem programas governamentais para socorrer “esses excluídos”. Mas a Escritura inteira aponta aquelas vítimas com escolha prioritária de Deus, entre todos os demais.

Não faltam grupos representativos autoritários, de ideologia fascista, julgando atender a um direito de “justiça particular”, pretendendo a “limpeza social da nação”. Dizem defender a coletividade, agem em bandos, agredindo ou linchando pessoas doentes e sãs. O que justificaria a violência contra homossexuais, alienados mentais e moradores de rua indefesos? O narcisismo coletivo não suporta o “lado feio”, repulsivo, desagradável, dos marginalizados ou estigmatizados. Em bandos – em casos especiais, politicamente, em multidões expostas na mídia –, agem para exterminar “indesejáveis” à comunidade e ao país.

Colocar-se aos pés de Jesus, no entanto, ouvir seus ensinamentos sobre a tolerância, sobre o cuidado com os desprotegidos social e economicamente, é uma postura do discípulo que está disposto a aprender sobre tolerância e vida de fé. Poderíamos perguntar também se nossas comunidades, “igrejas evangélicas”, têm a mesma disposição, bem como o direito de excluir aqueles que Jesus Cristo cura, acolhe e incluiu. Mesmo depois de “curadas” e salvas por recomendação de Jesus Cristo. Acrescentaríamos perguntando se comunhão com Cristo dependeria da comunhão como autoritarismo ideológico, e regras sociais vigentes, implícitas na religião. Igrejas têm alguma autoridade para separar quem Jesus chamou e juntou à sua comunidade de protegidos?

  • A ética de Jesus, inclusiva, motivada pela misericórdia, compaixão e solidariedade, nos fará observar os problemas da intolerância em seu tempo (Lucas 17, 11-19). Entre samaritanos e judeus – habitantes do centro e sul de Israel, respectivamente – havia uma antiga inimizade, uma forte rivalidade racial e cultural. A palavra “samaritano” constituía uma grave injúria na boca de um judeu. Equivale a dizer, entre cristãos: termos impronunciáveis, umbandista, espírita, e outros xingamentos preconceituosos do dia-a-dia, no cotidiano religioso (Carlos Mesters).
  • Jesus, ao ver os “impuros” acolhe, cura, e envia-os para se apresentarem aos sacerdotes de plantão, guardiões da comunidade religiosa, cuja função, entre outras, era em princípio a de diagnosticar certas enfermidades, que, por serem contagiosas, exigiam que o enfermo se retirasse da vida pública e do culto.
  • Mas, Jesus ainda exige da religião atitudes concretas de inclusão. E disse também a quem o tinha convidado: “Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).
  • Jesus ensina: devemos assumir a fragilidade das pessoas discriminadas. Ele se fez servo de todos; nós também devemos servir aos irmãos; amar sem preconceito, sem reservas, sem nos omitir quanto à necessária compaixão pelo fraco e excluído. Ele fez dos fragilizados socialmente seus companheiros, protagonistas da salvação, e deu-lhes liberdade e autonomia para a vida de fé.

Derval Dasilio

Leituras:
27º. Domingo do Tempo Comum DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 29,1-4; 7 – Procurai a paz da cidade, rogai por ela
Salmo 66, 1-12 – Reconhecidos da salvação, vinde e contai
2Timóteo 2,8-15 – A graça de Deus se manifestou para todos!
Lucas 17, 11-19 – Quem é puro?

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