INTOLERÂNCIA

armaras-o-proximo

Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).

Lucas 17, 11-19 – Quem é puro, ou melhor que os demais?

Chocante, já decorridos dois mil anos desde que Deus, humanizado, tornou-se vítima da intolerância. Ingressou no mundo das misérias, conflitos, preconceitos e ilusões sobre superioridades, religiosas, morais, raciais ou de classes sociais. Justificam-se, desse modo, ideologias autoritárias, pró-fascistas, as quais se manifestam muitas vezes através da fúria irracional e compulsiva contra minorias e indivíduos socialmente fracos e sem defesa institucional.

A miséria humana, assim, é escamoteada para fora da realidade, como aparência de impureza, de imundície e de marginalidade, atribuídos a indivíduos fora do padrão da sociedade autoritária. Inspira-nos uma boa leitura do Hannah Arendt, que escreveu sobre a força do ódio e do poder exclusivista das classes abastadas.

Um candidato a prefeito de São Paulo, a maior  cidade da América do Sul, propunha um programa de isolamento da Cracolândia, no centro. A ideia é colocar “agentes humanitários” com guardas armados ao fundo, para isolar a parte contaminada da cidade do restante da população. Uma vontade perigosa e esmagadora de exclusão, para satisfazer, ao mesmo tempo, o pungente impulso de falsa retidão moral da sociedade, como diria Zigmunt Bauman.

Os portadores do estigma da miséria seriam mantidos à distância por sua “humanidade inferior”. Na verdade objetivando sua desumanização física e moral, confessam o autoritarismo exclusivista da sociedade que reclama cidadania preferencial para classes sociais privilegiadas.

Intolerantes, via de regra. Podem até mesmo alçar candidatos aos principais cargos da nação, ou no mínimo compor um congresso nacional para defender seus interesses, com exclusividade. Um setor da nossa política é chamado de BBB (Boi-Bíblia-Bala), representando pecuaristas, evangélicos pentecostais e industriais armamentistas. Por nada?

Intolerantes também parecem depender de superstições, crendices e crenças de relativa superioridade sobre os demais, não raro exigindo privilégios e exclusividade. A sociedade religiosa, moralmente autoritária, imagina indivíduos “diferentes” como responsáveis pelo mundo perturbado por comportamentos inaceitáveis: fratricidas, estupradores, pedófilos, drogaditos, alcoolistas, traficantes, por exemplo.

Mas é do autoritarismo que emergem estupradores, espancadores de mulheres e crianças, agressores de homossexuais, linchadores, flageladores, abusadores de mulheres, crianças, mendigos e doentes mentais; traficantes… As vítimas, certamente, estão no cotidiano das metrópoles e pequenas cidades, camuflados no falso repúdio e “vergonha” moral da sociedade autoritária, classista e exclusivista. No entanto, segundo o Evangelho, Jesus Cristo preferiu a companhia das vítimas.

Ideias, atitudes, atos, são gerados em ambientes ideológicos, ou políticos, que afirmam superioridade moral,  social, religiosa, sexual e racial. Estes, que se consideram reservas morais da sociedade, que vão às urnas para eleger políticos com propostas de repressão, discriminam, agridem, acusam “diferentes” de inferioridade. Não raro, apontam aquelas pessoas como nocivas e perigosas; indivíduos com conduta socialmente reprovável; praticantes de atos degradantes.

Prostitutas, homossexuais, indígenas, moradores de rua, doentes mentais, portadores de doenças transmissíveis, deficientes, engrossam a lista. São os alvos preferenciais da sociedade intolerante, em primeiro lugar. Em segundo, são apontados os que defendem e exigem programas governamentais para socorrer “esses excluídos”. Mas a Escritura inteira aponta aquelas vítimas com escolha prioritária de Deus, entre todos os demais.

Não faltam grupos representativos autoritários, de ideologia fascista, julgando atender a um direito de “justiça particular”, pretendendo a “limpeza social da nação”. Dizem defender a coletividade, agem em bandos, agredindo ou linchando pessoas doentes e sãs. O que justificaria a violência contra homossexuais, alienados mentais e moradores de rua indefesos? O narcisismo coletivo não suporta o “lado feio”, repulsivo, desagradável, dos marginalizados ou estigmatizados. Em bandos – em casos especiais, politicamente, em multidões expostas na mídia –, agem para exterminar “indesejáveis” à comunidade e ao país.

Colocar-se aos pés de Jesus, no entanto, ouvir seus ensinamentos sobre a tolerância, sobre o cuidado com os desprotegidos social e economicamente, é uma postura do discípulo que está disposto a aprender sobre tolerância e vida de fé. Poderíamos perguntar também se nossas comunidades, “igrejas evangélicas”, têm a mesma disposição, bem como o direito de excluir aqueles que Jesus Cristo cura, acolhe e incluiu. Mesmo depois de “curadas” e salvas por recomendação de Jesus Cristo. Acrescentaríamos perguntando se comunhão com Cristo dependeria da comunhão como autoritarismo ideológico, e regras sociais vigentes, implícitas na religião. Igrejas têm alguma autoridade para separar quem Jesus chamou e juntou à sua comunidade de protegidos?

  • A ética de Jesus, inclusiva, motivada pela misericórdia, compaixão e solidariedade, nos fará observar os problemas da intolerância em seu tempo (Lucas 17, 11-19). Entre samaritanos e judeus – habitantes do centro e sul de Israel, respectivamente – havia uma antiga inimizade, uma forte rivalidade racial e cultural. A palavra “samaritano” constituía uma grave injúria na boca de um judeu. Equivale a dizer, entre cristãos: termos impronunciáveis, umbandista, espírita, e outros xingamentos preconceituosos do dia-a-dia, no cotidiano religioso (Carlos Mesters).
  • Jesus, ao ver os “impuros” acolhe, cura, e envia-os para se apresentarem aos sacerdotes de plantão, guardiões da comunidade religiosa, cuja função, entre outras, era em princípio a de diagnosticar certas enfermidades, que, por serem contagiosas, exigiam que o enfermo se retirasse da vida pública e do culto.
  • Mas, Jesus ainda exige da religião atitudes concretas de inclusão. E disse também a quem o tinha convidado: “Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,12-14).
  • Jesus ensina: devemos assumir a fragilidade das pessoas discriminadas. Ele se fez servo de todos; nós também devemos servir aos irmãos; amar sem preconceito, sem reservas, sem nos omitir quanto à necessária compaixão pelo fraco e excluído. Ele fez dos fragilizados socialmente seus companheiros, protagonistas da salvação, e deu-lhes liberdade e autonomia para a vida de fé.

Derval Dasilio

Leituras:
27º. Domingo do Tempo Comum DEPOIS DE PENTECOSTES
Jeremias 29,1-4; 7 – Procurai a paz da cidade, rogai por ela
Salmo 66, 1-12 – Reconhecidos da salvação, vinde e contai
2Timóteo 2,8-15 – A graça de Deus se manifestou para todos!
Lucas 17, 11-19 – Quem é puro?

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2 comentários sobre “INTOLERÂNCIA

  1. Posted by Derval Dasilio in Sem categoria

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    O PAÍS DAS VIÚVAS

    JUIZ-INIQUO-150x150Coisas do Brasil, lugar mais afeito a pizzas que feijoadas. Uma pena, porque linguiça e paio, lombo defumado de porco, rabada, tutu, bolo de fubá, violão, pandeiro, tamborim, réco-réco, marcariam bem melhor o lugar onde se comemorariam as vitórias contra a corrupção. No balaio da justiça, porém, acompanham a tendência nefanda: “toma lá dá cá”; “e a cervejinha, cadê?”; “farinha pouca, o pirão é meu”; “amarrar cachorro com linguiça”; “jogo de cabresto”, “boca de siri”, lembraríamos as canções de Aldir Blanc. O Brasil está na 69ª posição entre os países mais corruptos, crescendo, no ranking mundial. Na América Latina, os brasileiros ficam atrás apenas dos chilenos e uruguaios, que estão no 20º lugar. Foi o que revelou a Transparência Internacional.

    Quando cristãos, judeus, muçulmanos, em suas orações pedem o silêncio de Deus nos genocídios que intentam, esperam que Deus intervenha neste mundo de desordem e injustiça legalizada? E ainda nem citamos que dois, dos 7 bilhões de habitantes deste planeta, vivem em permanente estado de miséria, fome, sujeitos a toda forma de atrocidades, abandono, em omissão incompreensível. Como compreender nosso papel, como cristãos, num mundo onde se desmoronam valores relacionais, éticos, para vivermos uma vida sob os imperativos de Deus? Não nos damos conta da realidade esmagadora da insensibilidade, e da omissão? Ainda há cristãos indignados com a injustiça?

    A zona cinzenta onde atua a justiça humana parece preferir o atendimento das camadas mais altas da sociedade, com recursos para pagar a justiça cara e espetaculosa em nosso país, longe dos “lugares onde confluem os afluentes da miséria humana” (Queiruga). A angústia cega diante das catástrofes, deslizamento de morros favelados; a dor da mãe da criança desnutrida que morre em seus braços; o desamparo da mulher abusada; o desespero dos pais que veem o filho que volta do trabalho morrer porque se recusou a entregar um celular; o choro intenso da comunidade nacional, porque um trabalhador foi sequestrado, torturado e morto pela polícia, não comove os magistrados que lidam ocasionalmente com a corrupção.

    Basta lembrar o esboço de pregação sobre o reino de Deus (Lucas 4,18-21), e as consequências desse manifesto de Jesus a respeito dos oprimidos em todos os níveis; nos famintos da terra – mais de 1 bilhão de homens mulheres e crianças –, que comerão até fartar-se; “prisioneiros” por motivo de consciência ou de religião; inocentes sequestrados. Viúvas são o símbolo dos encurvados a estas realidades.

    Das histórias mais conhecidas sobre viúvas é o relato bíblico de Rute e sua sogra, Noemi. Ambas eram viúvas. Visto que viviam numa sociedade que dependia dos homens, a situação delas era trágica, porque a mulher é sempre escrava da família, em Israel (Rt 1,1-5). “Quando vocês estiverem fazendo a colheita de sua lavoura e deixarem um feixe de trigo para trás, não voltem para apanhá-lo. Deixem-no para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva, para que o Senhor, o seu Deus, os abençoe em todo o trabalho das suas mãos” (Dt 24,19). “Trate adequadamente as viúvas que são realmente necessitadas. Mas, se uma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiramente a pôr a sua religião ética em prática. […] A viúva realmente necessitada e desamparada põe sua esperança em Deus, e persiste dia e noite em oração e em súplica” (1Tm 5,3-7).

    Exilados, imigrantes perseguidos nos países do primeiro mundo; lembra as viúvas e os órfãos, símbolo dos esquecidos, despojados, sem trabalho, sem sustento… o Reino que Jesus anunciou trouxe esperança para dentro da caminhada humana e entregou-a aos pobres, despossuídos, alijados do mundo produtivo e do mercado mundial (Lc 6,20; Mt 5,1-12).

    Não podemos esquecer a atitude de Jesus contra os poderosos, ensinando a não confiar neles. Feliz quem se apóia nesse Deus! Os perversos referem-se a ele, também, para justificar a injustiça que cometem, mas é ele mesmo, Deus de Israel, que aponta os meios para enfrentar a injustiça sem se submeter às imposições da justiça corrompida. A mulher está numa situação desesperadora. É uma viúva que tem que lutar sozinha por seus direitos; que não tem amigos poderosos que intercedam por ela. Mas ela tem algo que jamais pode faltar à fé cristã: perseverança, teimosia, garra (Carlos Calvani).

    Há muitas leis no AT referentes às viúvas (Lc 18,1-8). O personagem questionado é o juiz magistrado corrompido, que diz não temer a Deus nem respeitar homens fracos e sem força institucional que os proteja. O poder embriagante o envolve de tal modo que ele se instalava acima de todo direito e de toda justiça. Na literatura profética há várias acusações contra juízes e pastores que sempre favoreciam aqueles que podiam pagar-lhes propinas ou comprar sentenças (Ez 34,7-8). Nada muito diferente do que vemos até hoje – o poder financeiro determinando o poder judiciário.

    A viúva representa aqueles que só têm a Deus por legítimo juiz guardião. É um símbolo típico dos impotentes, dos oprimidos, dos desabrigados e desamparados. Especialmente pelo sistema judiciário. Aqui, vemos uma viúva que, conhecendo seus direitos legais, os quais estavam sendo violados, espera que um juiz a atenda. Ela não está pedindo absurdos. Apenas quer justiça e o que é seu, de direito. Dignidade e cidadania!

    Derval Dasilio

    Leituras:

    28º. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes
    Jeremias 31,27-34 – Virá o dia: porei minha lei no coração humano
    Salmo 119,97-104 – Como amo a tua Lei, medito sobre ela dia e noite
    2Timóteo 3,14- 4,5 – A Escritura é útil para educar na justiça
    Lucas 18,1-8 – Incomodem os que podem julgar

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  2. Posted by Derval Dasilio in Sem categoria
    14º. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
    Amós 7,7-17 – O Senhor despreza a religião emparedada e sem misericórdia
    Salmo 82 – O Senhor faz justiça aos órfãos e os fracos
    Colossenses 1,1-14 – Viver frutificando o bem, acima de tudo
    Lucas 10,25-37 – Quem são os nossos próximos?

    lucas o próximoNos dias de Jesus, só se fazia o que permitia a estrutura legal e rejeitava-se o que era proibido por essa estrutura. O legalismo, imposto pela estrutura religiosa, era a norma oficial da moral do povo. Tinha-se chegado, por exemplo, a estabelecer, partindo da lei religiosa, que a lei do culto — leia-se como lei do templo ou da “igreja” –, primava sobre qualquer lei. Este foi o contexto em que nasceu a parábola do bom samaritano: um homem necessitado de ajuda, caído no caminho, mais morto que vivo, sem direitos reconhecidos, violentado em sua dignidade de pessoa, ferido e nu, é abandonado pelos cumpridores da lei (sacerdotes e levitas, servidores da religião) e em troca é socorrido por um “ilegal” samaritano. A bem dizer, alguém que não podia entrar no templo e não tinha boas relações com judeus. Ele é um “distante”, um estranho, mas passa a ser modelo exemplar oferecido ao religioso cristão.

    Somente Lucas conservou para nós esta parábola no seu Evangelho. Jesus, por sua vez, devolve a pergunta para que o letrado religioso pesquise a lei codificada, sua especialidade. Ele encontrará a resposta no amor… O religioso culto, citando de memória as Escrituras (Dt 6,5 e Lv 19,18), faz uma síntese do conteúdo dos 613 preceitos religiosos (cerca de 430 negativos: não farás…) sobre como “amar a Deus e ao próximo”sob a lei deuteronômica…Encontrada também no Thalmud e no Midrash (da palavra derash, procurar). Comportamentos de conduta são conhecidos como halakah, um conjunto de preceitos gerais. Jesus, porém, responde de acordo com a Torah, pentateuco – os cinco primeiros livros, conforme a versão grega Septuaginta –, como foi perguntado. Jesus aprova a resposta da tradição bíblico-teológica rabínica.

    O letrado interroga novamente, porque no Levítico o próximo é o israelita – ascendente histórico do judeu –, e no Deuteronômio, este título está reservado unicamente para pessoas do meio cultural e religioso judaico… Jesus, em vez de discutir e entrar em desafios sem saídas, procura não semear novas teorias e interpretações perante a lei antiga, e sua prática. Propõe uma parábola como exemplo vivo de quem é o próximo, e constrói um midrash, ou um sermão exemplar sobre os significados do amor.

    Quando dizemos que a descrição do samaritano é esplêndida, nesta parábola de Jesus — com referências a posses materiais do samaritano bem-posto: azeite, vinho, cavalgadura, dinheiro para ajudar um pobre infortunado que encontra ferido e abandonado no caminho –, nos aproximamos de questões básicas. Bem-postos economicamente, religiosos, desprendimento, solidariedade da parte de quem propõe esforço pessoal no socorro dos enfraquecidos, sob sistemas políticos e econômicos egoístas e injustos, e disponibilidade para assistir despojados e violentados da sociedade humana em todos os tempos e lugares. O samaritano compassivo e solidário é um homem rico. Um homem cheio de amor pelo próximo, seja ele quem for.

    A história humana é caracterizada por uma interminável sucessão de negações do amor ao próximo (Bernhard Haring). Os resultados da intolerância são feridas abertas, exclusão e marginalização, gerando o abandono e morte social dos mais pobres, feridos em sua dignidade (dignitatis = direitos fundamentais). Só o amor transforma a justiça codificada, que privilegia quem já é privilegiado, em justiça igualitária, compassiva, situacional, concreta. Especialmente quando nos deparamos com emergências e prioridades. Notadamente quando a vida humana está em perigo de morte.

    O amor torna a justiça verdade ética inquestionável, porque a decisão tomada sob sua influência é, originalmente, gratuidade e a compaixão pelo fraco. “Justiça sem amor é necessariamente injustiça, porque o amor não remove, mas simplesmente estabelece a justiça”, disse Paul Tillich. A justiça sem amor ignora a solidariedade, misericórdia ou compaixão.

    O próximo jorra da mesma fonte, é resultado da terra; é filho da sociedade humana, e se relaciona com o mundo da mesma maneira que eu. É, o próximo, imagem e dádiva de Deus, ao mesmo tempo. Todos os valores relacionais ideais constituem ponto de partida anterior à justiça codificada. Dizem respeito à vida de todos. O próximo nos comunica: “sou um corpo concreto, e tu me conheces na materialidade compartilhada da vida”. Cremos que a concretude da vida é um fato que não deve ser esquecido, para que não caiamos em abstrações e reduções do corpo do próximo, diria Rubem Alves: o próximo, corporificado, vale mais que todas as verdades que anunciam sua pequenez; o corpo aguarda a consciência de que somos iguais. O corpo é mais sábio do que a cabeça o cérebro.

    Emmanuel Lévinas, pensador judeu moderno, diz: “Deus vem ao meu pensamento quando vejo o outro, o próximo”. Na face do outro está o rosto transcendente de Deus (cf. Mateus 25,38). Também judeu, Martin Buber dizia: “O outro (o próximo) não é um isto, mas um tu”. Tenho comentado sobre a relação “Eu | Tu, equação amorosa criada por Buber, lembrando: “Eu sou tu quando me olhas, e Tu sou eu quando te olho”.

    Muitos agnósticos, e até mesmo ateus, deparam-se com a parábola evangélica sobre a solidariedade amorosa apontada em Lucas (10,25-37), e reconhecem que não há futuro pra a dignidade humana num mundo tomado pela impiedade, senão pela compaixão e solidariedade. Para os cristãos, o evangelho oferece a oportunidade de compartilhar a experiência de Deus com o mundo do próximo, através da solidariedade, reconhecendo-o como o nosso “Tu”. Esta oportunidade, por si mesma, reflete o amor e a experiência de Deus. Num só momento.

    A força potente do amor energiza e dá capacidade de lutar, de proteger, socorrer, vestir, alimentar e curar o próximo. Diz a canção de Carlinhos Lyra: “Sabe você o que é o amor? Não sabe? Eu sei./ Sabe gostar? Qual sabe nada, sabe, não./ Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. / Você já chorou de dor? Pois eu chorei. / Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão./ Quanto à você meu camarada, qual o quê, não sabe não./ Você não tem alegria, nunca fez uma canção, / Por isso a minha poesia… você não rouba não.”

    Agostinho, na antiguidade, confessava: “O meu amor é o meu peso; onde quer que eu vá, ele me conduz e me faz inclinar”. Esse “peso” é citado por Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu aliviarei vocês. Tomem sobre vocês a minha carga e aprendam, porque sou manso e humilde de coração; e acharão descanso. Porque o meu peso (amor) é suave, e o meu fardo é leve” (Mateus 11:28-30). Uma metáfora magnífica da compaixão, da ternura, da solidariedade que nos une ao que sofre, na experiência de Deus em Jesus.

    Derval Dasilio

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