A FÉ É UMA AFLIÇÃO DOLOROSA
Lucas 12,32-48
*
A fé ensina a não nos darmos por satisfeitos com os sucessos aparentes e nem com esperanças imediatas. Ingmar Bergman disse: “a fé é uma aflição dolorosa”. Para muitos, no entanto, não é. O cristianismo simbólico, ou nominal, dispensa a fé, e desconhece a esperança, envolvido com o propósito estatístico, propositista, mas sem essência. Não é inclusivo. Não considera direitos humanos; despreza e alija pessoas da vida de fé.
*
Esquece crianças, jovens e idosos sob forte risco social; pobres, doentes e famintos condenados à marginalização perpétua em relação à sociedade moderna. Este hedonismo patológico experimenta a violência da competição e da ganância em toda parte, fechando o futuro. Como disse o papa Francisco, nos extremos se nega a participação criativa aos jovens e a transmissão da sabedoria aos anciãos.
*
O evangelho de Jesus apresenta a bondade de Deus, seu amor sem medidas, e promete o Reino e descendência para a transmissão da fé libertadora. E faz compreender os fatores que envolvem e atraem principalmente a juventude na direção da morte física e morte espiritual. A partir daqui devemos entender a exortação: “se o Reino é dom, tudo o mais é supérfluo”. O dom do Reino é para quem, em primeiro lugar, precisa de vida digna; os que vivem em situação permanente de risco de morte espiritual, cultural, social, econômica.
*
O Reino é dado aos excluídos, abandonados, da saúde com qualidade. Dependentes químicos (lat. vitium = dependência ou compulsão patológica), de drogas lícitas ou ilícitas, tabagistas, alcoolistas, drogaditos; aos submersos no jogo compulsivo e consumo hedonista e sem sentido; aos que estão à mercê do tráfico de drogas e do crime organizado, são também alcançados por Deus. Têm direito à salvação.
*
O Reino é uma oferta de justiça aos que estão sob a violência de políticos e das políticas corrompidas. O Reino é uma dádiva anunciada por Jesus aos necessitados de educação qualificada desde a alfabetização à universidade; aos que não têm abrigo; aos que passam fome ou morrem nas ruas durante as madrugadas; aos que são linchados por agressores; aos que são perseguidos por juízes iníquos; aos que se negam a justiça e a verdade. Embora contrarie a sociedade excludente.
*
“Como se transformou em prostituta a cidade fiel! Antes era cheia de direito, e nela morava a justiça, agora cheia de criminosos! A sua prata se tornou lixo, o seu vinho ficou aguado. Seus chefes são bandidos, cúmplices de ladrões: todos gostam de suborno, correm atrás de presentes; não fazem justiça ao órfão, e a causa da viúva nem chega até eles” (Isaías 1,1;10-20).
*
A fé cristã faz sentido, marcando a história da salvação. A fé aprofunda potencialidades e criatividades inimagináveis. Seu cultivo – e modo de existência –, transcende ao que pode alcançar a razão, conhecimento, tecnologias de informação. O diálogo proposto às novas gerações é imprescindível, para se atravessar com segurança e com bons frutos as mudanças profundas de nossa época. Sem perder de vista o Evangelho de Jesus Cristo.

*
Defesa da vida é a proposta da fé. Contra as diferentes imposições da morte espiritual, social, econômica, cultural, através de representantes das sociedades autoritárias. Flageladores de crianças, diferentes sexuais, mendigos e doentes mentais as representam.
*
A fé representa a consciência madura de que a vida é um precioso dom, e de que a família humana é fruto de uma decisão amorosa e livre do Criador, quando oferece o Reino e a justiça. A sociedade humana excluída reclama, e Deus não nega a salvação. O desenvolvimento de ações que revertam em atenção a crianças, aos jovens, aos maduros e aos idosos, cujas vidas estão sob risco permanente de morte, são sinais da presença do reinado de Deus.

*

Investir nos fracos, despossuidos, discriminados, abandonados por homens e mulheres autoritários, fascistas, é uma resposta de fé no futuro do Reino de Deus, segundo o evangelho de Jesus Cristo.
_

_____
Derval Dasilio

Anúncios