30o Domingo Litúrgico – Ano C – Tempo Comum [Depois de Pentecostes]

(Lucas 18,9-14) Como é que somos? Quem somos nós, quando lidamos com esporte de massa, questões raciais, papeis femininos, homoafetividade, política (ôpa!) e solidariedade para com os mal assistidos na base da pirâmide social?  Episódios de nossa própria vida cotidiana poderiam mostrar o quão farisaicos somos, pegando-nos em flagrante. Sem termos que comentar a literatura de Nelson Rodrigues, que se destacou por escrever com maestria incomparável quão apodrecida, algumas vezes, e moralmente ambígua, é a sociedade brasileira. Em vários aspectos.

Perguntaríamos, sobre as nossas identidades duais, como somos em casa — onde estão crianças, jovens e velhos, ricos e pobres. A primeira dama, Bia Dória, esposa do milionário eleito prefeito em S.Paulo exemplifica a situação, com declarações a respeito de como trata os pobres, trabalhadores em sua mansão: “Todos moravam em barracos e nem tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes para eles, dei um plano de saúde bom. Hoje eles se sentem felizes, até se acham artistas porque são meus assistentes”. 

Como somos na rua, onde governa o Estado, se faz e se comenta política, enfrenta-se o trânsito e se dirige um automóvel. Como somos no trabalho diário, quando admitimos e separamos a empregada doméstica, a faxineira, a diarista, o carroceiro recolhedor de lixo, do trabalhador com carteira assinada, no gozo das leis trabalhistas e da proteção previdenciária. Quando admitimos isenções constitucionais à religião de negócios, por exemplo, a cosmogonia hipocritamente fascinante do brasileiro comum é evidente (Roberto DaMata).

Porém, nos espaços da casa, da rua e do trabalho, essa ambiguidade é complexa e cheia de símbolos. Um mundo interior, que se diz espiritual e moralmente preservado, se diferencia do mundo exterior, onde as pessoas se veem como verdadeiras e autênticas.

Jesus contou esta parábola por alguns que se consideram honestos, justos, que se sentiam confiante e desprezavam os outros, arrotando santidade. O religioso fariseu é bem conhecido. Embora seja verdade que os evangelistas, carregando nas tintas em alguns aspectos, quando discutiam sobre a gratuidade divina, não conseguiram aprofundar o assunto. Mas a causa é importante. O evangelho de Mateus, quanto aos fariseus, é curto e grosso: “Vocês são sepulcros caiados, branquinhos por fora e podres por dentro”.
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Fariseus eram um grupo grande e, em muitos aspectos, em suas práticas, meticulosos quanto à observância da lei religiosa. Moisés era citado em sua particularidade escriturística sobre assuntos da moralidade. Esqueciam providencialmente os contratos bíblicos para a proteção dos mais fracos, Pactos Deuteronômico e da Aliança — “…não haverá pobres no meio de vocês” – Deuteronômio 15,4; “não perverterás o direito do pobre em sua demanda” –  Êxodo 23,8 –, e os compromissos exarados nos contratos sociais sobre a justiça ao pobre, ao oprimido pela miséria, o necessitado, o órfão e a viúva.
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Dedicaram-se à sinagoga (igrejas comunitárias), oferecendo serviço. Espalhados por todo o país, fizeram da esmola e do dízimo sua propriedade “espiritual”. Eram rigorosos nas leis de pureza ritual. Parte deles acreditava na ressurreição dos mortos, e a vida feliz no futuro depois da morte. Acreditavam em anjos. Eles tinham um grande apreço pela escritura (certamente quanto às conveniências doutrinárias da religião). Eram assiduamente dedicado à oração.
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Acreditavam-se puros, santos, separados, eleitos. Seguidores da “reta doutrina”, como declaravam, seguidores das escrituras, desprezavam praticantes descuidados, negligentes, da religião. Poucos estavam inclinados a praticar a misericórdia, compreensão, compaixão, solidariedade e aceitação daqueles que não pensam ou vivem como eles. Consideravam-se uma classe privilegiada de religiosos, e não se comunicavam normalmente com os “publicanos” (coletores de impostos fazendários) e “pecadores” (religiosos negligentes).
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Um fariseu tem um jeito de conduzir a sua vida fez orgulhoso e muito confiante. Segurança estrita conformidade com a “lei de Deus” (regulamento religioso) e os preceitos rabínicos do “halacah”, pregados a transbordar. Consideravam- se donos da consciência religiosa popular, enquanto anunciavam o mérito, a prosperidade como recompensa das suas obras. Para si, a recompensa das obras meritórias, dízimos e orações mântricas, diante da coletividade.
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Seu espírito e seu hábito é fazer ostensivamente comentários às suas próprias obras: “graças a Deus não sou como os outros, orgulho-me de não ser como o publicano, ou o cidadão comum”. Para estes, restava o desprezo e julgamento. Essa ojeriza pelos outros resultaria na atitude agressiva e murmuração contra Jesus (que imediatamente passa à perseguição). Jesus era um “pé rapado”, um indivíduo comum das classes baixas.
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O publicano, na parábola, permanece distante, escondido, inibido, com vergonha de se expor. Diante de Deus, não rejeita que é pecador, e assume sua condição com arrependimento e contrição: “Declarei-te o meu pecado, não encobri o meu delito” (Salmo32,5). Pede piedade (Sl 51,3-11; 41,5), e então lhe chega a consciência do perdão de Deus. Sabe que alcançou o perdão e a justificação, e passa a ter paz no coração. “Feliz o homem a quem o Senhor não atribui nenhum delito, e cuja consciência não é turva” (Sl 32,1-2).
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Agora, ele sabe que a confissão dos pecados e o arrependimento são uma forma de contrição e humildade. Ele apenas cita as primeiras palavras do Salmo 51: “Misericórdia, meu Deus, por sua bondade, para sua grande compaixão apaga as minhas falhas”. E continua a recitar o Salmo: “Um coração quebrantado e contrito Tu não vais rejeitar, Senhor”. O pecador confesso só pode oferecer a Deus uma vida de contradições. Porém, oferecendo um reconhecimento sincero e (como o filho pródigo!), pode apresentar-se a Deus com um coração quebrantado e contrito.
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Deus, é capaz tolerância, carinho e cuidado com o contrito. Deus oferece um abraço, perdoa e renova sua amizade com fraco. Deus se agradou da atitude do publicano. O pecador penetrou profundamente no coração de Deus, ele compreendeu muito melhor quem é verdadeiramente o Deus de Jesus, cheio de misericórdia e sempre pronto a perdoar. Para Jesus, Deus é o Paínho, Abbah, pronto para perdoar o desviado.
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A parábola revela que a justificação é um dom gratuito de Deus para receber os que se abrem à sua graça e misericórdia. Viver com humildade é andar na verdade. E a verdade é apresentar a realidade como ela é, como disse o apóstolo Paulo: “Todos pecaram, não há um justo sequer sobre a face da terra”. Aqui estão dois modelos exemplares que existiam no tempo de Jesus. E eles continuam a ser um aviso para os crentes do nosso tempo. Só a partir daí pode ser convencer testemunhas em um mundo que necessita desesperadamente.
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A forma como Jesus expressa a misericórdia de Deus é porque ele mesmo misericordioso, coerente com o que aconselhava aos outros: “sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso”. Em razão disso, se misturava às pessoas de má fama para que, em contacto com ele, pudessem sentir a misericórdia divina.
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É preciso ser insensível à espiritualidade dessa parábola para não apreciarmos essa experiência de Deus como Pai de misericórdia. Como Deus ama com amor incondicional, transbordante de compaixão e misericórdia pelo fraco, destruído, esmagado por privilegiados, seus preconceitos e  hipocrisia.
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Há, porém, uma novidade, em frente à hipocrisia farisaica. Diante da religião do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema em vigor, a Graça pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A Graça e a misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa judaica dos tempos de Jesus.
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A partir desta perspectiva de Jesus, que conta esta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém à religião ou a alguma causa de cunho humanitário ou religioso, no esforço objetivo de obter algum  pagamento ou rendimento. Na verdade, a misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação, atendendo  nossas necessidades. O perdão dos pecados (que se refletem nos nossos atrasos e omissões no serviço do Reino, em acordo com a hipocrisia reinante), é libertação e reconciliação. Sem mérito de nossa parte. Somos todos dependentes da misericórdia e do cuidado de Deus, que nos alcança unicamente por misericórdia e gratuidade.
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Derval Dasilio.

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